R&I - Wish You Were Here

27 Capítulo 26 - O Céu Está Caindo (Parte 2)


Notas iniciais
Eis aí a continuação do outro capítulo... Achei que ia dar pra dar um desfecho no sequestro nesse capítulo, MAS...

E sim, ficou enorme.

Esse capítulo pertence a Bruna Cezario também.

Sejam felizes!

A casa que os sequestradores levaram Lauren, que aparentava mais ser uma cabana, estava literalmente no meio do nada. Se localizava em uma região que não continha em nenhum mapa e muito menos GPS. Era uma casa grande e abandonada, o que facilitou, já que Jason não precisou alugá-la. Essa casa um dia fora habitada por uma família que participava de um vilarejo antigo, que pelo visto havia sido extinto há pouco mais de cinco anos. Jason não fazia ideia de que vilarejo se encontrava enfiado no meio daquela floresta tão arisca e perigosa, e nem o que levaria há pessoas normais em pleno século XXI quererem morar num lugar assim, mas isso não era importante. A única coisa importante é que havia achado o melhor cativeiro possível. Peter nem precisaria de muito trabalho com suas tecnologias para bloquear a localização das ligações ou de onde estavam. Mesmo assim, ele faria todo o trabalho que sempre fez, não podiam bobear.

O perfil dos três homens era perspicaz e possuiam muitas divergências. Dos três, não havia dúvidas que o mais perigoso era Jason. Ele apresentava sérios sintomas de psicopatia, tinha um alto QI e sentia prazer em matar e torturar. Isso explicava porque todos os sequestros haviam terminado em morte. Se ele fosse um bandido comum e o intuito fosse apenas arrecadar o dinheiro da família da vítima, ele poderia muito bem soltá-las, era só ter o cuidado básico de não deixar que Edward exibisse seu rosto para elas, no entanto, ele tinha um desejo tão insanciável por sangue daquelas garotas ricas que não sabia dizer qual vontade era a maior: ter o dinheiro ou ter a vida delas esvaindo por suas mãos.

O histórico familiar dele era desconhecido. De seu passado, Edward e Peter nada sabiam e nem ousavam perguntar, inclusive tinham medo de Jason, mesmo os três tendo aquela espécie de parceria. Tinham tanto medo que mesmo descordando e não vendo necessidade de todas as vítimas serem assassinadas, eles não ousavam contestar, até porque era Jason que as matava.

Edward poderia ser enquadrado no perfil de maníaco sexual se um dia ele passasse pelas mãos de especialistas. Com uma vida pobre e difícil, sem acesso à educação e nenhuma oportunidade, ele vivia de bicos, gostava de encher a cara e é claro, de mulheres. O que explicava muito a razão de ter se tornado um estuprador.

Peter parecia o mais tranquilo dos três, porque não estuprava e nem matava ninguém. Não aparentava distúrbios psicológicos tão evidente quanto os outros dois, se mantinha sempre calmo e sereno diante das piores questões e fora daquele universo do sequestro, levava uma vida pacatada, não era fichado na polícia e tampouco metia-se em encrencas. Trabalhava no ramo da informática, obviamente. Só tinha uma ganacia quase que incontrolável que foi o que o levou a participar de todos aqueles casos.

Os três estavam na sala da casa. Peter sentado no sofá, mexendo em seu notebook e em sua frente, sobre uma mesa de madeira haviam vários equipamentos, além de três celulares.

– Ela é gostosa — Edward disse cheio de malícia, ele estava abrindo um pacote de salgadinho — Muito gostosa e diferente das outras.

– Diferente? Por que é ruiva? — Peter perguntou em tom de deboche, sem encará-lo, os olhos fixados na tela do notebook enquanto digitava sem parar.

– Não cara, não é porque é ruiva — Ele sentou no sofá também — Não sei dizer, mas tem algo de diferente nela. As outras tinham pânico só de me ver... — Edward colocava bastante salgadinho na boca ao mesmo tempo, o que tornava difícil entender o que dizia.

– E essa não tem?

Jason estava em pé, andando de um lado para o outro, como sempre fazia, a expressão séria, sempre atento, os olhos acizentados sombrios.

– Ela tem medo, claro, até porque eu dei uma prensada na fera ontem à noite — Ele disse com um sorriso, mostrando os dentes sujos e Peter riu também.

– O que você fez com ela? — Jason perguntou, a voz séria e autoritária, fazendo as risadas cessarem.

– Nada demais, chefe. Levei a comida, como sempre e ela fez umas perguntas e ficou choramingando, querendo fugir e então dei uma prensada nela, fiz ela sentir o bicho, sabe como é né? — Sorrio para Jason que o encarou na mesma seriedade de antes, senão maior, fazendo-o murchar ali no sofá.

– Eu não quero que você encoste suas patas na minha "criação" sem que eu autorize.

Edward olhou para Peter, que estava sério também e que não ousaria se meter no assunto, tanto que desviou o olhar e voltou a mexer no notebook. Edward soltou um risinho para tentar amenizar a tensão e se levantou, se aproximando de Jason.

– Ei cara, relaxa, eu nem fiz nada ainda do que fiz com as outras, quero deixá-la com medinho antes. E eu nunca machuquei nenhuma delas. Pelo menos não muito! — Deu um tapinha enquanto ria no ombro esquerdo de Jason que olhou para a mão dele e em seguida para ele, os olhos pareciam fuzilá-lo.

Jason era alguns centímetros menor que Edward e não era tão encorparado feito ele. Não era magro, e nem grande. Médio. Quase atlético e se não fosse possuidor de um semblante tão assustador, seria lindo. Os olhos acizentados eram meio verdes, os cabelos loiros prateados possuíam leves ondulações.

Em um instante, Jason não só tirou a mão de Edward de seu ombro, como também virou o braço dele para trás, em suas costas, quase torcendo-o, fazendo o gigante ficar frágil e indefeso.

– Vou falar só mais uma vez e não vou repetir: Não encoste na minha criação. Lauren não é como as outras putas que você fodeu, você mesmo admitiu isso, Edward. Portanto, fique longe! — Mesmo baixa, sua voz era cheia de autoridade próxima do ouvido dele.

– Será que podia me soltar agora?

Jason soltou e Edward o olhou até meio assustado.

– Precisava de tanta agressividade assim?

– Só quero ser claro na minha especificação. Eu vou conhecê-la de perto agora. Cuidem da casa. Vigiem. Descerei antes do horário do próximo telefonema.

Quando Jason chegou ao sótão, encontrou uma ruiva em péssimo estado em menos de quarenta e oito horas. Ela estava com cheiro de mofo, igual ao sótão, misturado com sangue. Como não havia quase se alimentado e nem conseguido dormir, de tanto medo que estava de que algo acontecesse se ela dormisse, que parecia uma espécie de zumbi. Mais branca que o normal, pálida, quase sem vida. Os olhos claros cheios de brilho e daquela força juvenil foram substituídos por olhos assustados e cansados. Mesmo assim, ela mantinha-se forte.

Lauren não fazia ideia de quem fosse esse outro homem, mas assim que o viu ela sentou na cama e se encolheu, em alerta. Ela deveria levantar, manter uma posição que a protegesse mais, mas não estava com forças para isso. Sentia fome e cansaço. E a cama, mesmo não sendo, parecia uma proteção. Seus olhos ficaram fixados e atentos ao homem loiro, e de aparência menos horrenda que o outro.

– Quem é você? — Ela perguntou.

– Quem sou eu? — Ele sorrio e seu sorriso não continha a malícia do sorriso do outro homem, os dentes não eram estragados, e ele era com certeza mais bonito também — Não fará diferença eu te dizer isso. As pessoas gostam de fazer essa pergunta as outras, achando que assim vão descobrir quem o outro é. Mas não vão. Não é assim que se obtem essa resposta.

Ela nada respondeu. Não fazia ideia de quem ele era, do que queria e nem do que estava tentando dizer, mas com certeza ele deveria ser péssimo, assim como o outro, afinal, era um sequestrador.

– Você não me conhece, mas eu te conheço, Lauren. Sei muito sobre você.

– Eu não acredito que me conheça — Eles trocaram um olhar firme, e então Jason viu nos olhos da garota que ela era diferente. Era ela quem ele procurava. Era sua escolhida. — O outro cara me disse que vocês já falaram com os meus pais e que eles estão em Boston. Quando vou sair daqui?

– Está com pressa? — Seus passos eram lentos em direção a cama e Lauren não fazia nenhuma menção de se mover dali — Eu soube que Edward não te recepcionou de forma muito adequada. Não te culpo por querer ir embora daqui. Ele é um imbecil. Os dois são, na verdade. Mas não se preocupe. Tenho grandes planos para eles... — Ele continuava com um sorriso simpático no rosto e Lauren permanecia séria, observando e tentando compreendê-lo. — A propósito, meu nome é Jason — Sentou na beirada da cama, longe dela.

– Eu não quero saber o seu nome — Ela disse séria. Engraçado que mesmo naquela situação, não fazendo ideia do que podia acontecer, do que eles podiam fazer com ela, Lauren não cedia. Talvez porque acreditasse que como era um sequestro, ela sairia de lá, de uma forma ou de outra. — Eu quero saber quando vou sair daqui. Foi você quem falou com os meus pais?

– Sim, falei com seu pai. Ele não é muito simpático, mas isso deve ser de família, não é? — Sorrio ainda mais — Se eu fosse você eu me preocuparia mais com ele e os outros do que consigo mesma.

– O que quer dizer?

– Porque, veja bem... você está aqui, numa linda e grande casa, protegida no sótão, num lugar isolado, tranquilo, onde dificilmente será incomodada, enquanto sua família está lá fora... desprotegida... Sua irmã, aquela ruivinha mais baixa que você, como é mesmo o nome dela?

Lauren travou e sentiu um arrepio na espinha ao ouvi-lo. Ele podia ser um bandido, um sequestrador que a estava mantendo sobre cárce privado enquanto arrancava dinheiro da sua família, mas daí conhecer todos eles de perto e ameaçá-los...

– Elizabeth, acertei? — Jason se inclinou um pouco para o lado, encarando-a — Ela se parece muito com você, Lauren. É uma garota muito corajosa e cheia de vida. Fiquei realmente encantado ao vê-la dançando. Seria uma ótima bailarina profissional, mas...

– O que você sabe sobre minha irmã? Sobre minha família? Sobre nós? — Ela disse exaltada.

– Mais do que você possa imaginar. Ou acha que eu sou um estúpido que escolho vítimas aleatórias? Eu conheço sempre vocês. Todas vocês. E você é especial, Lauren. Sua história é especial. Inclusive tudo ficou ainda mais emocionante quando soube que sua namoradinha é uma Detetive do Departamento de Homicídios... — Lauren ficou boquiaberta, ainda mais assustada que antes — E olha que coincidência, a minha última vítima caiu nas mãos dela e da equipe. Estão investigando o caso.

– Última vítima?

– Você não é a primeira "dama do cativeiro", querida. A última que deixei foi uma das mais decepcionantes. Mas ela era esperta e quase conseguiu escapar. Pena que eu sou muito rápido e minha bala atravessou seu crânio... — Ele tirou de repente uma pistola do quadril, uma glock e mostrou para Lauren, que mal conseguia respirar — Vê só que belezinha? Eu fiquei realmente chateado. Achei que essa garota, a Sarah, fosse a escolhida para ser minha criação, mas ela me decepcionou. Mas você, Lauren... — Jason guardou a pistola novamente — Você é diferente. Você tem coragem e força suficiente para ser minha criação.

– Eu não vou ser criação nenhuma! — Explodiu num grito descontrolado — Você é louco, vocês todos... Eu só quero ir embora daqui! Só isso! Pegue o dinheiro com o meu pai e me deixe ir embora.

– Não se trata apenas de dinheiro, Lauren. Eu estou procurando há muito tempo a minha escolhida. E é você. Quer queira ou quer não. É você.

– Já disse que não vou ser sua criação! Não vou fazer nada que você mandar! Pode fazer o que quiser comigo, eu não tenho medo, mas não vou ser uma criação de um maluco! Não mesmo!

– Você vai — Ele disse tranquilamente — Você vai porque sua irmã e a Alex contam com isso. Por hora, se contente apenas em se alimentar. Edward trará sua refeição e um casaco extra. Vi no noticiário que é provável que comece a nevar ainda hoje. As temperaturas vão cair. Nós retornaremos a essa conversa mais tarde.

[...]

O tempo passava lentamente e cada instante durava uma eternidade, era preocupante. Porque só policiais sabiam o quanto o tempo era precioso em situações de sequestro. Mas eles nada podiam fazer para evitar que o tempo passasse. Só podiam aproveitar ao máximo cada minuto, dando o melhor de si em seu trabalho.

A família toda de Lauren se instalou no apartamento de Karen, mesmo ele sendo pequeno. Queriam ficar lá, porque além da proteção da polícia, sabiam que com certeza os sequestradores iriam se comunicar por aquele telefone, já que foi por lá que tudo se iniciou. Conversando com a amiga da filha, Thomas e Cristina descobriram mais do que sabiam dela, inclusive sobre seu relacionamento com uma das Detetives que estava envolvida no caso. Elizabeth já sabia. Ela e a irmã, que eram muito ligadas e tinham um sentimento de outro mundo uma pela outra mantinham contato diário por telefone. E Lauren acabou lhe contando sobre Alex, porque realmente era algo sério e especial, e não só mais uma aventura.

Jane e Maura estavam muito preocuopadas, não só com Lauren, mas com Alex. Conheciam a amiga, o temperamento dela e sabiam que ela não aguentaria ficar de fora das operações, de mãos atadas, sem poder fazer nada.

– Jane, tente conversar com a Alex — Maura dizia para a noiva, estavam em seu escritório, no andar do necrotério — Eu estou preocupada, com medo que ela faça alguma besteira. Sabemos que ela não é o tipo de pessoa mais controlada...

– Eu vou falar com ela, mas não sei se vai adiantar muito. Ela já está bem descontrolada — Soltou um suspiro de preocupação, passando a mão pelos cabelos — Mas eu não tiro a razão dela. Lauren foi sequestrada por um grupo que já matou quatro garotas e até agora nem o FBI conseguiu colocar as mãos nele. E ainda por cima ela foi tirada do caso.

– Cavanaugh não tinha escolha. É ética profissional. Ela não conseguiria trabalhar imparcial no caso, e arriscaria sua carreira se fizesse alguma besteira.

– O que me preocupa é que mesmo Cavanaugh tendo suspendido ela do caso, isso não seja o suficiente para detê-la — Elas se entreolharam, bem preocupadas — Alex não vai ficar sentada esperando que consigamos algo concreto e então entremos em ação, sem ela. Fora que esses... esses merdas desses federais chegaram para tumultuar — Revirou os olhos, fazendo careta — Tem uns três agentes enfiados no escritório, querendo saber de tudo, autoritários. Temos que ficar atualizando-os sobre qualquer coisa.

– Vocês precisarão trabalhar em equipe, pelo bem da Lauren. E por isso mesmo, vá conversar com Alex. Não deixe que ela se descontrole e faça nenhuma bobagem...

– Ainda que ela fizesse, não podemos culpá-la, Maura — Jane olhou para a noiva de forma intensa, podia ver a angústia da amiga com o que estava acontecendo com Lauren e não queria nem imaginar o que sentiria em seu lugar — Eu surtaria e faria qualquer loucura se fosse você.

Maura abriu um leve sorriso e se aproximou de Jane, que aprontamente envolveu-a de forma calorosa em um abraço. A loira encostou a cabeça em seu ombro, como se estivesse se protegendo naquele abraço. Realmente todos estavam tensos com o sequestro de Lauren e com seus nervos abalados. E isso porque estavam no primeiro dia.

[...]

Ela andava de um lado para o outro. Na verdade já havia andado pelo prédio inteiro e tomado mais de dez cafés. Nem conseguia mais contar. Era tanta cafeína em seu sangue somado ao seu nervosismo e desespero comuns naquele caso que estava uma pilha de nervos, os olhos arrgelados e sempre em alerta, e o corpo todo tão inquieto quanto seu cérebro.

Alex nada podia fazer, além de assistir os agentes do FBI junto de seus amigos e parceiros conversarem o básico e isso a deixava enlouquecida. A situação piorou quando todos eles se reuniram em uma sala, levando consigo fotos, papéis e evidências e trancaram a mesma, deixando-a de fora. Ela não podia saber nenhuma informação nova com muito detalhe, como por exemplo a identidade dos homens ou o local onde haviam conseguido localizar que eles possivelmente estavam com Lauren, pois com certeza ela não pensaria duas vezes em ir até lá.

Alex não era idiota. Ela conhecia o funcionamento todo da Central, conheciam seus colegas. Ela sabia que para todos eles terem ficado reunidos tanto tempo na sala e terem saído com as expressões que sairão, era porque sabiam algo, e não era qualquer coisa. Sabiam algo realmente relevante, que faria totalmente a diferença no caso. E ela precisava saber o que era.

Jane estava descendo até a cantina para tomar um café e Alex a seguiu, abordando-a no corredor.

– Ei, eu vi vocês lá reunidos na sala, o que aconteceu? — Jane a olhou de forma tensa, vendo a expectativa em seus olhos, sabia que Alex iria querer saber — O que vocês descobriram?

– Alex, você sabe que não pode participar das reuniões, não pode ter acesso a essas informações porque foi afastada do caso por ordens do Tenente Cavanaugh.

– Eu sei, mas eu preciso saber o que vocês descobriram! — Falava rápido e agitada, algumas pessoas passaram ao lado delas, Alex esperou, antes de prosseguir — Eu preciso saber, Jane. Eu não posso ficar parada esperando que vocês façam alguma coisa. Não me leve a mal, eu trabalho no mesmo lugar que você, uso o mesmo distintivo, mas se até o FBI está penando pra por as mãos nesses sequestradores...

– Ei, olha, eu sei, eu sei que é um caso complexo, difícil, por isso envolve até mesmo o FBI, eu sei que você está nervosa, que quer resgatar logo a Lauren, mas todos nós queremos, tanto quanto você, acredite. É mais do que uma pessoa comum que vamos salvar, é a Lauren! Eu, Frost, Korsak, nós estamos dando o nosso melhor e faremos o possível e impossível para ajudá-la — Jane falava calmamente, gesticulando com as mãos e viu Alex olhar para os lados, com um sorriso desacreditado e sabia que ela estava nervosa. — Qual é, Alex, você sabe que estou te falando a verdade, que daremos o nosso melhor e...

Alex foi para cima de Jane, segurando-a pela gola da camisa com as duas mãos e erguendo-a um pouco do chão, empurrando-a com força de encontro a parede, batendo suas costas ali.

– FODA-SE VOCÊS! Eu não quero saber se estão dando a porra do seu melhor! Lauren foi sequestrada por profissionais assassinos que mataram quatro mulheres em menos de um mês em estados diferentes e nem o FBI conseguiu pegá-los ainda! TODAS AS VÍTIMAS FORAM MORTAS! EU NÃO VOU DEIXAR LAUREN MORRER!

Jane não reagiu, mesmo tendo forças suficiente para isso. Ela entendia o descontrole de Alex, e ficou surpreendida porque viu que ele era maior do que o que ela esperava. Os olhos de Alex faiscavam.

Rapidamente dois policiais, assim como outras pessoas, detetives e logo Cavanaugh surgiram no corredor. Os dois policiais puxaram Alex, fazendo-a soltar Jane.

– Tá tudo bem, soltem ela... — Jane pediu e Cavanaugh interveio, aturdido.

– Que diabos está acontecendo aqui? Rizzoli? Vause?

– Eu não posso ficar fora do caso! Eu preciso saber o que vocês descobriram! Onde está a Lauren? — Ela disse quase gritando, em tom sério, para o tenente, sem se preocupar com as consequências. Todos olhavam surpresos e não sabiam o que dizer. Ela estava com medo, desesperada, porque Lauren era sua namorada, mas...

– Já te disse que você está fora do caso Detetive Vause! Não terá acesso a essa informação e nem a nenhuma outra! E qualquer Detetive que dê informações a você estará sujeito ao afastamento imediato desse Departamento! — Ele disse em tom ainda mais alto e sério.

Korsak e Frost surgiram no corredor e só o olhar de Jane e ao ver sua camisa amarrotada eles já haviam entendido tudo.

– E levando em conta esse seu comportamento agressivo, eu estava errado. Você não está apta nem para permanecer aqui. Vá para casa e descanse, Vause. Você está suspensa.

– O que? — Ela soltou uma risada de indignação, balançando a cabeça negativamente, todos a olhavam com aquelas expressões variadas entre tensão, pena, e até mesmo medo, mas ela não se importava — Está brincando comigo? Vai me mandar para casa com tudo isso acontecendo?

– Vou e não fará diferença já que não está participando do caso. E eu quero sua arma e seu distintivo, porque você está descontrolada. Até segunda ordem, você está suspensa do seu trabalho como Detetive. Me dê — Ele estendeu a mão, o olhar sério.

Jane olhou preocupada para Alex, vendo a expressão dela. Ficou em alerta, caso ela tivesse alguma reação fora do normal. No estado em que ela se encontrava, Jane e os outros não duvidariam que ela fosse capaz até mesmo de agredir o chefe.

Mesmo indignada com aquilo e morrendo de raiva, Alex obedeceu. Tirou o distintivo da cintura e o revólver devagar, estendeu-os, colocando-os na mão do Tenente.

– Você está cometendo um erro fazendo isso. E um erro muito maior achando que o FBI vai salvar a Lauren. Estão preocupados com a reputação deles, e por isso farão de tudo para prenderem os sequestradores assassinos que vocês, pelo visto, encontraram para eles. Mas eles não vão salvar a Lauren. Não vão — Ela sorria, com os olhos marejados, mas se conteve. Se virou, dando às costas a todos e saiu rumo ao elevador. Depois que ela desapareceu dentro do mesmo, todos se entreolharam. Nunca aquele prédio esteve tão tenso antes.

Jane ficou pensativa o resto do dia com a fala de sua amiga. Talvez Alex tivesse razão. Não era apenas exagero porque estava super preocupada com a vida de Lauren. Das experiências que Jane teve trabalhando ao lado do FBI, notou uma coisa em comum entre eles: Eram frios. Muito frios e calculistas. Precisavam ser às vezes para poderem se concentrar e criar suas operações, que tinham que ser perfeitas, mas à frieza era assustadora. E até agora Jane não havia percebido da parte daqueles agentes nenhuma grande preocupação, nenhum resquício que fosse de sentimento em relação à nova vítima, que era Lauren. Eles só falavam dos três bandidos e do plano que arquitetavam para invadirem o cativeiro.

Eles não haviam rastreado ainda o lugar onde Lauren estava, mas não demoraria muito para que isso acontecesse, Jane sabia. Pois já haviam descoberto a identidade dos sequestradores e haviam em poucas horas puxado a ficha e todos os dados completos dos mesmos. Nisso ela não poderia negar, mas o FBI era muito mais rápido e qualificado para aquele tipo de trabalho. Mas tinham que ser, afinal, eles eram federais.

[...]

Alex estava em seu apartamento. Não sabia o que pensar, não sabia o que fazer. Ela confiava apenas em Jane, sua amiga, sua quase irmã, mas a mesma mostrou que talvez Alex estivesse errada ao pensar que fossem mesmo quase irmãs, quando a morena se negou a ajudá-la dando informações. Será que só Alex percebia o que estava acontecendo? Só ela via a gravidade da situação? Lauren estava por aí, perdida, poderia estar em qualquer lugar naquele momento, presa, no dominío de assassinos que poderiam estar fazendo as piores atrocidades com ela enquanto o FBI não dava a mínima. Não estavam em pânico, não estavam correndo para encontrá-la o mais rápido possível.

Estava exausta. Não dormia há mais de vinte e quatro horas e também não se alimentava. Só havia ingerido café para manter-se acordada e em ritmo acelerado, e mesmo assim, estava muito cansada. Deitou no sofá e estava quase adormecendo quando ouviu a campainha tocar. Se levantou, pegou seu óculos em cima da mesa e se olhou no espelho por um momento antes de ir abrir a porta. Estava um caco, com olheiras e olhos cansados. E sabia que isso só melhoraria quando Lauren voltasse. Respirou fundo, deu uma ajeitada nos cabelos e atendeu à porta sem olhar antes. Quase caiu para trás ao ver uma ruiva pálida, bem parecida com sua Lauren, os olhos da mesma cor e com a mesma doçura, os cabelos parecidos, porém mais curtos e ela era curiosamente mais alta que a irmã mais velha.

– Você...

– Sou Elizabeth, a irmã da Lauren — Disse, abrindo um pequeno sorriso tímido e cheio de simpatia. Realmente, quase idênticas. — Posso entrar?

– É... sei quem você é... Sim, sim, pode entrar — Deu espaço para ela fazê-lo e fechou a porta logo em seguida.

A garota também tinha um jeito parecido de se vestir, despojada. Caminhou até o centro da sala e se virou, olhando para Alex. Não a conhecia ainda, pelo menos não de verdade, só conhecia o que sua irmã havia falado dela, e já pode constatar que uma das coisas eram verdade: ela era muito bonita.

– Você deve saber que eu e minha família chegamos ontem à noite.

– Sim, eu sei. Estão no apartamento da Lauren, né?

– Sim. Esperando por um telefonema... E o combinado era que todos nós não saíssemos de lá. Até pela nossa própria segurança, então eu não deveria estar aqui. Meu pai ficará zangado comigo por isso — Ela ainda tinha um pequeno sorriso — Mas eu precisava vir te conhecer, Alex. Precisava falar com você — As duas se olhavam nos olhos fixamente — Eu e minha irmã estávamos afastadas apenas pela distância, sabe? Porque a gente mantinha contato por telefone, e-mail, sms, essas coisas. E tipo, mesmo ela sendo mais velha, nós temos uma ligação muito forte! Somos bem parecidas e eu confio na Lauren pra qualquer coisa. Desde esconder alguma merda que eu tenha feito dos nossos pais, até a minha vida. Eu sei que ela não deixaria que nada de ruim me acontecesse... — Era nítido não só pelas palavras, mas pela maneira que se expressava, pelo seu rosto, seus olhos, agora marejados, toda sua emoção — Eu amo minha irmã, Alex. E eu sei que ela ama você.

Alex a olhou surpreendida. Por essa não esperava. Lauren havia falado de Elizabeth, da ligação que elas tinham, e até conversaram no dia da festa de Maura sobre irem para Wyoming e assim Alex poderia conhecer sua irmã e o resto da família, mas a ruiva não havia mencionado que já tinha contato sobre ela ou sobre seu relacionamento para a irmã adolescente.

– Ela te ama muito. Disse que você era diferente de todos os seres humanos que ela conheceu — Alex deixou um sorriso emocionado escapar, seus olhos também estavam marejados — Sim, ela usou essas palavras mesmo porque pra Lauren as relações tem que ser intensas. Mais do que garotos e garotas, namorados ou curtições, nós somos seres humanos. E por isso ela não acredita que seres humanos possam ter relacionamentos tão superficiais e vazios, que passam mais rápido do que uma brisa... Sim, ela mencionou que você gosta de maconha — Elizabeth soltou um risinho e limpou uma lágrima que rolou pelo seu rosto — E se quer saber, eu também gosto. Experimentei já fazem uns meses e às vezes gosto de dar uma relaxada. Mas por favor, não conte para ela. Ainda estou esperando o momento certo. Ela com certeza vai surtar, porque em alguma parte do tempo, Lauren age como se fosse nossa mãe.

As duas estavam emocionadas. Se existiam duas pessoas no mundo que Lauren amava com todo o coração, eram aquelas mulheres, naquela sala. Não que a ruiva não amasse seus pais, mas o sentimento que tinha pela irmã e por Alex eram diferentes, profundos e inexplicáveis. Apenas as duas conseguiam entendê-la como ninguém, e irritá-la, também. E as duas estavam ali, reunidas, transbordando naquele momento de emoção ao falar e pensar em Lauren, carregando dentro de si a angústia, o medo de perdê-la para sempre.

– Ela também me falou sobre você. Lauren te ama como irmã, como melhor amiga, como filha... Ela faria tudo por você. Não, não deixaria que nada de mal te acontecesse — Alex disse, e deu alguns passos, se aproximando de Elizabeth ao ver ela começar a chorar sem parar — Ei, olhe para mim, Beth. Ela não vai morrer... Ok?

A garota não pensou duas vezes e com toda aquela aproximidade, abraçou Alex fortemente. Estava se sentindo frágil e nada poderia ser mais consolador que abraçar a mulher que sua irmã amava. Alex a abraçou da mesma forma forte e ao mesmo tempo delicada, lutando contra suas próprias lágrimas.

– Promete? Você vai resgatá-la? Você não vai deixar Lauren morrer?

Ao ouvir aquelas perguntas, Alex se sentiu ainda mais determinada a fazer o possível e o impossível para salvar a mulher que amava. Era mais do que fazer seu trabalho, era mais do que salvar a mulher que amava, o que Alex faria tinha um peso enorme, uma grande responsabilidade. A felicidade daquela garota, da sua família, dependiam de Alex. Ela não podia deixar sua felicidade e a felicidade daquela garota ir embora. Não podia.

Soltou a garota do abraço, mas se manteve bem perto dela, segurou em seu rosto com as duas mãos, olhando-a nos olhos, vendo o medo que ela sentia e a esperança que depositava em Alex.

– Ela não vai morrer. Eu prometo. Eu não vou deixá-la morrer, ok? Agora pare de chorar e volte para o apartamento, porque seus pais devem estar preocupados e logo acionam a polícia atrás de você também. Vá e não saia de lá, fique sob os cuidados dos agentes com eles. Confia em mim. Eu vou salvar a Lauren.

– Eu confio.

[...]

Jane e Maura haviam ido até a cantina para tomarem café e Jane contou a ela e sua mãe o ocorrido com Alex lá em cima. Elas estavam surpresas, embora conhecessem o temperamento da morena.

– Alex está descontrolada, era isso que eu temia — Estavam sentadas em uma das mesas, tomando café. — Pelo menos Cavanaugh pegou a arma e mandou-a para casa. Sem informações e sem revólver creio que ficará bastante difícil dela tentar fazer qualquer coisa — Maura dizia — E como está indo o caso?

– Nós descobrimos a identidade dos sequestradores. São três. Jason Smith, Peter Collins e Edward Turner. Agora os imbecis daqueles agentes lá em cima estão usando uns recursos que nós não conhecemos para localizar o cativeiro da Lauren.

– Pelo menos já sabem a identidade, é um grande progresso — Maura disse esperançosa, vendo que Jane estava nervosa e não parecia animada — Eu sei que você está chateada pelo que ocorreu com a Alex, mas não se culpe. Você não poderia dar essa informação a ela. Se fizesse isso, iria colocá-la em risco, porque sabe que ela tentaria ir sozinha atrás da Lauren, e também correria o risco de perder o seu emprego, de arruinar sua carreira.

– Eu sei, mas ela ficou decepcionada, eu pude ver isso na forma como me olhou. Nós somos amigas, Maura. E ela esperou que eu agisse como tal, mas eu não o fiz... e eu acho que ela tem razão no que disse. O FBI não está preocupado em resgatar Lauren, mas sim em capturarem os bandidos de forma triufante, para se exibirem nas televisões, sendo que nem foram eles que descobriram as informações mais importantes e sim nós.

– E o que vai fazer? Falou com o Tenente Cavanaugh sobre isso? Talvez ele possa...

– Não, não falei e não sei se vai fazer diferença. Eles são o FBI, Maura. Temos que esperar.

[...]

O Sol estava se pondo, fim de tarde, início de noite. O frio havia aumentado muito em um único dia, fazendo a temperatura cair abaixo de 0. E começou a nevar. Os meteorologistas avisavam nos noticiários, rádios e jornais que mais à noite uma tempestade de neve aconteceria.

As horas passavam e Jane continuava pensativa. Seu pensamento alternando entre a preocupação com Lauren, com seu desentendimento com Alex e como ela deveria estar e especialmente com o descaso dos agentes em relação a Lauren. Já estava decidida que tomaria alguma atitude, só estava esperando descobrirem a localização do cativeiro para se manifestar. E eram quase 19:00h quando descobriram, porque não, não estava saindo da Central no horário do expediente. Inclusive era possível que ficassem lá direto, como se fossem suas casas até que o caso se resolvesse.

Com a descoberta do local, Jane pensou que tudo seria resolvido. Eles dariam às coordenadas aos outros policiais e agentes especiais para aquele tipo de operação, bolariam um plano tático e entrariam em ação o mais rápido possível, naquela noite mesmo.

– O que? Como assim amanhã? — Jane perguntou incrédula ao agente que comandava tudo, Fabricio. — Nós sabemos quem eles são, sabemos que são três e sabemos onde eles estão. É só nos reunirmos com uma equipe e irmos lá buscar Lauren!

– Não é tão simples assim. Os três são os principais, os que nós sabemos, mas e se eles trabalharem com outros? E se tiverem mais? É noite, Rizzoli, está frio e uma tempestade de neve vai se iniciar. Seria loucura uma ação feita agora. Já temos todas as informações que precisamos. É só esperarmos amanhecer, vamos reunir uma equipe competente e preparada para esse tipo de coisa. Não vamos sair em baixo de uma nevasca com policiais despreparados.

Jane não podia acreditar no que estava ouvindo. Se revoltou.

– É só você dar um telefonema e toda essa equipe preparada do FBI que você tanto se gaba chegará no cativeiro da Lauren hoje e irá resgatá-la! Esses sequestradores são perigosos, tanto que vocês não conseguiram pegá-lo das outras vezes... e todas as vítimas morreram. Cada minuto é precioso!

– Detetive Rizzoli, vocês civis trabalham de uma maneira, nós federais de outra. E eu não queria desapontá-la, mas somos nós que comandamos esse caso. Eu não vou arriscar homens a irem numa operação quase suícida no meio da noite e em baixo de uma nevasca, até porque tenho certeza de que amanhã, quando formos, Lauren ainda estará viva. Eles ligaram estipulando o valor do resgate agora pouco, Thomas me avisou. É provável que eles só matassem as vítimas depois da entrega do resgate, então não se desespere.

– "É provável" — Jane abriu um sorriso irônico, revirou os olhos, colocou as mãos na cintura e deu alguns passos pelo escritório — Pelo amor de Deus! Como você pode ter certeza que eles só vão matá-la depois da entrega do resgate? Que diferença iria fazer, já que não teria como a família saber? Eles podem matá-la antes!

O homem meio careca olhava sério para ela. Jane era casca grossa. Ele sabia. Mas não deixaria que ela ficasse lhe dizendo o que fazer e nem atrapalhando seu trabalho.

– Se você acredita que eles a matariam antes, já parou para pensar que agora ela pode estar morta? E que arriscaríamos homens indo até um lugar isolado, no meio da floresta, em baixo de uma tempestade de neve? Pense nisso, Detetive.

Sem dizer mais nenhuma palavra, ele saiu pela porta, deixando Jane ainda mais indignada. Alex tinha razão. Eles não estavam preocupados com Lauren.

Saiu pelo prédio rapidamente, iria falar com Maura antes de tomar alguma atitude. Somente sua noiva poderia ouvi-la, entendê-la e ajudá-la a decidir o que fazer. Ela tinha a informação do lugar onde Lauren estava e uma decisão nas mãos que poderia alterar tudo.

Desceu até o necrotério e foi direto ao escritório de Maura, mas ela não estava lá, nem sua bolsa. Foi até a sala da necropsia e nada, também. Procurou-a rapidamente por todo o andar e então desceu até a cantina.

– Ma? Ma? A Maura não está por aqui? — A morena parou a mãe, que a olhou preocupada.

– Não, Jane. Maura não está aqui, ela não apareceu desde a hora em que vocês estavam juntas tomando café a tarde. Por quê? O que houve?

– Eu preciso muito falar com ela...

– Mas o que aconteceu, Jane? Jane?

A morena não deu conversa para a mãe e se afastou, saindo da cantina. Pegou seu celular do bolso e ligou para Maura. O telefone tocou. Soltou um suspiro de alívio. Estava tão tensa e preocupada com toda aquela situação que procurar Maura e não encontrá-la ali já causava uma espécie de medo na detetive. Tocou quatro vezes.

– Ei, Maur. Onde você está? Eu preciso falar com você.

– Olá, Detetive Rizzoli — Uma voz totalmente estranha e masculina ecoou do outro lado da linha. Jane parou onde estava, num canto qualquer, sozinha, séria. — Está querendo falar com a Maura? Ela não pode falar agora, está desacordada.

– Quem é você? O que você fez com a Maura? Deixa eu falar com ela! — Disse já sendo tomada pelo desespero, num tom baixo para ninguém além do homem ouvi-la.

– Você já sabe quem eu sou, Detetive. Não se preocupe com Maura, ela está dormindo agora, mas ficará em boa companhia. Ela e Lauren se tornaram amigas, não é mesmo? — Jane mesmo sem vez o rosto do desgraçado sabia que ele carregava um sorriso cheio de ironia.

Eles haviam pego Maura, e pelo visto sabiam que Jane e os outros já tinham descoberto sua identidade, mas como?

Jane não queria, mas começou a se desesperar, um pânico súbito lhe invadindo, o corpo todo totalmente rígido, tenso, o coração acelerado.

– O que você quer para soltar as duas? — Ela perguntou cautelosamente. Ele tinha a faca e o queijo na mão, e seja lá o que ele quisesse, ele teria dela.

– Eu não quero soltá-las. Elas são incríveis. Assim que vi Lauren eu soube que ela seria perfeita para ser minha criação. Eu sabia sobre Maura o mínimo por causa da ligação entre elas, e decidi investigar, quando descobri que ela é a brilhante Dra. Isles, órfã, rica... Isso aguçou minha curiosidade em conhecê-la e adivinhe: Quando a vi soube que ela também daria uma ótima criação.

– Do que você tá falando? Qual dos três você é?

– O mais inteligente, é claro.

– Jason.

– Na mosca, Detetive. Vou colocá-las para o primeiro teste daqui a pouco, assim que Maura acordar. Elas serão incríveis se deixarem que eu as ensine, mas do contrário... — Sua voz sumiu aos poucos, sombria, causando arrepio em Jane — Elas vão queimar.

Tum. Tum. Tum. Ele havia desligado.

Ainda que não quisesse, Alex havia adormecido. Ouviu batidas desesperadas na porta que a fizeram acordar depois de dormir por um tempo indeterminado. Acordou e sentiu um frio maior do que antes. Foi até a porta, meio cambaleando e se surpreendeu ao abrir e ver Jane em sua porta, toda agasalhada, com roupas e botas apropriadas para o inverno e a neve, uma jaqueta branca, enorme, o capuz possuia pêlos, e o branco vivo fazia contraste com a pele bronzeada da morena, que estava com uma cara muito esquisita, parecia estar em pânico.

– Jane, o que você quer aqui? — Tentou parecer séria e fria, estava com raiva da amiga, e então seu olhar abaixou e viu que ela segurava seu revólver na mão. — Jane... O que houve? — Sua voz agora era preocupada.

– Eles sequestraram a Maura também. E eu sei em que lugar elas estão. Vamos. Agora.

"Nothing goes as planned

Everything will break

People say goodbye

In their own special way."

Dentro do carro, durante o trajeto, Jane contou para Alex tudo que ela precisava saber sobre a discussão que teve com um dos agentes, sobre o telefonema que deu no celular de Maura e descobriu o sequestro. O lugar era longe, precisavam pegar a estrada e justamente nessa hora foi quando a nevasca iniciou, o que dificultava e muito. Jane tinha que dirigir com cautela, porque senão se acidentariam antes mesmo de chegarem para resgatar suas mulheres. E precisava prestar muita atenção para conseguir chegarem no lugar certo sem se perderem, pois nem mapa e nem GPS poderia ajudá-las.

Era noite, tudo estava escuro e toda aquela neve caindo sem parar não ajudava em nada na visão, só piorava. Jane não poderia dirigir muito depressa. Primeiro elas andaram numa estrada principal, que conheciam e depois engataram em outra, que era menor, mais estreita, desconhecida e estava vazia. Não havia nem sinal de vida humana naquela estrada. Nenhum carro passava, não havia ninguém nas encostas e não tinha luz. Jane e Alex só contavam com os faróis do carro e uma grande lanterna que Jane carregou para o carro assim que soube do sequestro de Maura e decidiu ir por conta própria resgatar ela e Lauren.

Não, Jane não havia contado para ninguém além de Alex sobre Maura. Simplesmente ela desapareceu da Central e não atendia o telefone. Já havia recebido sms e ligação do Frost atrás do seu paredeiro e de sua mãe, perguntando por ela e Maura, mas não respondeu. Não poderia. Aquilo que ela e Alex estavam fazendo era completamente inapropriado e elas não faziam ideia do que aconteceria com suas carreiras depois do que acontecesse naquela noite. Elas poderiam nunca mais voltar a trabalhar como detetives.

"All that you rely on,

And all that you can fake

Will leave you in the morning

Come find you in the day."

– Você tem certeza que estamos no caminho certo? — Alex perguntava pela milésima vez, com a lanterna apontada para frente, dando uma melhor visão do caminho. O céu estava muito escuro e quase não tinha estrelas e nevava sem parar. — Nós não podemos nos perder aqui...

– Já te disse que nós não estamos perdida, é esse o caminho. Eu peguei as coordenadas direito. Acha que eu me enfiaria na estrada, a essa hora, em baixo dessa nevasca se não soubesse o que estou fazendo? Tente manter a calma!

– Estou tentando mas está difícil. Estamos numa operação sozinhas, Jane. Ninguém sabe que estamos indo resgatar Lauren e Maura. Se algo der errado... estamos por conta própria. E eu não vou sair daqui sem a Lauren.

– E nem eu sem a Maura.

As duas mulheres estavam caídas no chão gélido. Seus tornozelos esquerdos presos por correntes de ferro, impossíveis de serem retiradas com as mãos. Estavam no limite. No limite de tudo, inclusive da honra. Não se conheciam muito bem, não sabiam do passado uma da outra, mas elas tinham certeza que não, não importa o que já tinham vivido até hoje, nenhuma das duas havia passado por algo semelhante, por algo tão assustador e doloroso.

Fazia muito frio e mesmo com roupas quentes, elas tremiam. Porque estavam em um sótão vazio e sem aquecedor, porque estavam caídas no chão após sofrerem torturas inimagináveis. Os lábios de ambas roxeado, a pele mais branca que o normal tinha quase o tom de morte. Estavam tontas, muito fracas, cansadas, assustadas, doloridas. Mais do que dor física, estavam com dor psicológica. Uma dor insuportável.

Se elas pudessem, jamais falariam sobre aquilo que havia acontecido naquela casa. Se elas pudessem, dariam qualquer coisa para apagar de suas memórias os gritos de horror, o sangue esguichando por todo o lado, melando o chão, melando suas roupas, suas mãos, grudando e ficando ali, como lembrete do que havia ocorrido. Não, elas não eram assassinadas, não eram psicopatas doentis feito Jason. Eram só duas mulheres que por razões desconhecidas, que por destino, que por azar, que por acaso, haviam parado ali, naquele lugar e que por conta da circunstância não tiveram outra escolha senão aquela. Elas mataram um homem.

Jason nunca gostou de Edward e Peter. Só eram seus aliados nos sequestros porque se faziam necessários. Mas agora que em sua mente perversa e doentia ele havia encontrado as mulheres perfeitas para serem suas criações, ele não precisaria de um nerd convencido e nem de um bruto estuprador para atrapalhá-lo. A única utilidade deles seria a que acabaram tendo. Foram usados para iniciarem o aprendizado de suas criações.

Não, não tiveram culpa. Estavam presas em um cativeiro no meio do nada, não tinham certeza se seriam encontradas, se sobreviveriam. Havia um maníaco, Jason, lhes ameaçando o tempo todo, fazendo pressão psicológica, aterrorizando-as, dizendo coisas totalmente surreais. De repente ele forçou toda uma situação que as deixava sem saída. Edward era grande, forte e podia ser considerado tão diabólico e asqueroso quanto Jason, porque não passava de um estuprador, de um desgraçado que se aproveitava das mulheres.

Era a vida delas, ou a vida deles. E os dois estavam longe de serem boas pessoas para serem poupados. Elas não poderiam se sacrificar pela vida daqueles dois bandidos.

Foi difícil, inédito e doloroso. Elas não queriam, estava relutantes, mesmo com Jason no canto do sótão segurando um revólver apontado em suas direções e gritando, agora furioso. Foi muito difícil. Edward não hesitou em nenhum momento em ir para cima delas, desferindo socos, pontapés, usando toda sua força. Ele puxou os cabelos de Lauren, bateu em seu rosto várias vezes, fazendo seu nariz e sua boca sangrar, deixando marcas roxas por todo seu rosto, derrubou-a no chão, chutou ela em todas as partes possíveis, sem se preocupar, mesmo com Maura indo para cima dele e dando socos em suas costas. Enquanto os três brigavam, Peter apenas observava, cauteloso, ponderando o que iria fazer. Edward, que era tão forte, quando virou, depois de sentir os golpes de Maura, acertou um soco em seu rosto, fazendo-a cair do outro lado e chamou-a de vadia. Foi para cima dela e arreou as calças, na intenção de tê-la para si. Jason apenas observava, silencioso e sorridente no canto do sótão. Ele não se meteria em nada, apenas observaria e só interveria se algo não fosse do seu agrado. Mas ele estava amando tudo. Porque Edward era uma besta estúpida e selvagem, e quanto mais ele batesse nas duas, mais deixaria que elas ficassem no limite para tomarem uma atitude. E elas tomaram.

"Oh, you're in my veins

And I cannot get you out

Oh, you're all I taste

At night inside of my mouth

Oh, you run away

Cause I am not what you found

Oh, you're in my veins

And I cannot get you out."

Os dois homens ali não sabiam que Jason deu uma vantagem para Maura e Lauren. As duas tinham cada uma um pequeno canivete escondido em seus bolsos, mas até agora haviam preferido não usar, porque não tinham a intenção de matar ninguém. Porém, caída no chão, com sua calça sendo forçada para baixo, seu rosto ganhando tapas e mais tapas dolorosos, sendo tomada por um desespero, Maura tirou seu canivete do bolso e erroneamente cravou no braço esquerdo de Edward, fazendo-o berrar, enlouquecido e sair de cima dela, mas ainda tinha condições de brigar, tanto que Maura foi tentar levantar-se, e ainda mais enlouquecido de raiva, ele pegou-a com a outra mão pelos cabelos e pelo ódio que seus olhos transpareciam, ele a mataria com suas próprias mãos. Nesse meio tempo, Lauren que estava bem machucada e no chão, lenta e sorrateiramente se levantou e sem pensar em mais nada, vendo o estado que Maura estava e tendo noção do seu próprio estado, ela afundou seu canivete na pele de Edward várias vezes. Deu várias facadas em suas costas, gritando e chorando ao mesmo tempo, com uma raiva, uma força e um desespero que dominavam completamente seu ser. Mesmo tão machucada e dolorida como estava, cheia de hematomas e com certeza até mesmo com fraturas, ela desfilava cada golpe com uma força impressionante, rasgando a pele dele várias vezes e fazendo o sangue jorrar por todo o lado. Quando desferiu o último golpe, ele já estava caído de bruços, o rosto tomado por feição de dor, e em poucos segundos ele morreu, de olhos abertos. O sangue se espalhava pelo chão como rastro de pólvora. As mãos de Lauren estavam cobertas de sangue e ela segurava o canivete e parecia em estado de choque. O único som que saia de seus lábios eram gemidos misturados com soluços. Ela olhou para Maura, que estava assustada, em pânico, tomada pelos mesmos sentimentos que ela, mas que não, não julgava sua atitude e até agradecia com o olhar por tê-la salvo.

Jason, que era expectador de tudo, estava impressionado. Peter olhava, incrédulo e não se movia. O loiro de olhos acizentados deu alguns passos, ficando mais no centro do sótão, o sangue quase alcançando seus sapatos. Ele começou a aplaudir, ainda segurando o revólver.

– Incrível! Parabéns, Lauren! — Ela virou para olhar para ele e começou a chorar, ainda mais. Sentindo todo um peso nas costas pelo que havia acabado de fazer, somado com suas dores físicas e o cansaço, ela caiu no chão de joelhos, soltou o canivete e começou a chorar alto.

– Não, minha criança, não chore — Ele se aproximou mais, enquanto Maura e Peter só observavam, todos assustados demais para fazerem ou falarem alguma coisa. — Você é minha criação! Você é perfeita, Lauren — Ele tocou-a no rosto com o indicador da mão livre, erguendo seu queixo e fazendo-a encará-lo. — Você foi ótima... — O sorriso que ele tinha nos lábios era tão doce que se Lauren não soubesse o monstro que ele era e o que havia acabado de ter feito ela fazer, ela o acharia encantador. — Mas você, Dra. Isles... — Ele olhou para Maura — Que decepcionante! No braço? Você como médica sabe muito bem onde uma faca deve ser enfiada para fazer um estrago imediato.

Jane estacionou o carro no acostamendo da estrada quando deduziu de cabeça mesmo que estavam no lugar onde veriam estar. Teriam que se embrenhar na floresta e se virarem para acharem a casa, que ficava enfiada bem mais adentro. Pelo que os agentes haviam falado sobre a casa, que ficava num antigo vilarejo, provavelmente deveria haver uma trilha na floresta levando-as até lá. Antes de descerem do carro, colocaram luvas e tocas. Estava realmente muito frio e a nevasca não parava. Jane recarregou sua arma e colocou mais munição nos bolsos do casaco. Alex segurava a lanterna e uma pequena bolsa com algumas coisas que poderiam ser necessárias naquela situação, só para prevenção.

– Agora o foda vai ser acharmos a casa... — A morena de óculos resmungou. E seus óculos estavam meio embaçados por causa da neve. Ela tinha que erguer o braço direito e proteger o rosto enquanto caminhava, assim como Jane.

Jane não disse nada, e não falaram mais nada enquanto caminhavam floresta adentro. Ouviram alguns barulhos, mas eram de aves e outros animais e dos arbustros que pisavam. Estavam tensas, o lugar era tenso, o clima, a situação. Era tanta tensão que não conseguiam conversar. Não havia o que conversar. Elas só queriam desesperadamente que tudo desse certo. Que naquela noite elas fossem mais do que simples humanas, mais do que detetives, elas fossem deuses, super heroínas.

Depois de andarem muito dentro da mata, em baixo da escuridão da noite, arrepiadas, com medo, cheia de incertezas, enquanto Jane rezava por dentro para que o caminho estivesse certo e conseguissem chegar na casa e que quando isso acontecesse tudo desse certo, começando a sentirem necessidades físicas, como fome e dores nas pernas e nos pés, porque já haviam andado demais e andar no frio, pisando na neve, que afundava suas botas, elas finalmente chegaram. Uma pequena trilha surgiu no meio do percurso e elas guiarem-se pela mesma. No entanto, tiveram uma surpresa ao chegarem no final dela...

"Everything will changed

Nothing stays the same

Nobody is perfect

Oh, but everyone's to blame."

A casa estava pegando fogo.


Notas finais
Maura foi sequestrada também, a casa tá pegando fogo...
Shonda curtiu isso.