R&I - Wish You Were Here
22 Capítulo 21 - You've Got The Love
Notas iniciais
Não é isso que todos sonham? Alguém que penetre tão profundamente em nossa alma que possa encontrar ali algo que faça valer a pena morrer.
Mais algumas semanas se passaram. E só dois novos casos ocorreram. Mesmo assim, o clima era tranquilo, harmonioso e divertido na central. Todos pareciam felizes. E até Stanley que vivia mau humorado e que sempre foi um velho rabugento que mexia com os nervos de Jane havia se tornado uma figura engraçada. Mesmo quando ele implicava — sempre — com Jane, igual fazia antes, ao invés de se ver irritada e se controlando para não mandá-lo ao inferno, naqueles dias, ela simplesmente ria. E não, não eram sorrisos irônicos e forçados para esconder raiva. Eram risos altos e sinceros, como se ele fosse um palhaço fazendo graça para ela, o que o deixava mais irritado. Jane andava mais leve, descontraída, com o humor típico da detetive Vause. Ah, detetive Vause! Essa, então, melhor nem comentar. Andava pelos corredores do prédio como se flutuasse em nuvens e ria de tudo, até mesmo das coisas mais absurdas, mostrando um humor que poderia parecer mórbido, mas não era. Se ria tanto, é porque estava feliz. Realmente feliz.
Mesmo divorciado de quatro casamentos e encontrando-se solteiro, Korsak compartilhava daquela felicidade, comendo suas rosquinhas e falando bobagens com os colegas, quando não se encontrava na cantina, tendo conversas para lá de interessantes com dona Angela Rizzoli, que era outra que só se fazia sorrir diante de tudo, radiante pelo netinho que já tinha, pela felicidade de Tommy e Lydia, e ainda mais pelo casamento de Jane e Maura que em breve aconteceria.
Frost de súbito veio com a revelação de que estava 'interessado' em uma policial, mas só pela forma que ele sorria ao falar dela, já era um fato que estava apaixonado. E Frankie zombava dele por isso.
Todos estavam tão excessivamente felizes e numa fase de extravasar essa felicidade, que agiam feito adolescentes. Susie se assustou ao encontrar Maura fazendo a autópsia de um corpo ouvindo música em seus fones enquanto requebrava os quadris. O som do fone era tão alto que Susie identificou uma música da Madonna. Isso era totalmente inédito para ela, porque Maura era uma perfeccionista em tudo, especialmente no trabalho, e se concentrava ao máximo na hora de fazer uma autópsia; agora, ela parecia mais leve, pegava menos pesado até consigo mesma. Para que se exigir tanto se ela era praticamente uma Eisten, como Jane dizia?
– Hoje deve ser meu dia de sorte — Jane pensou alto ao entrar na sala do necrotério e encontrar Maura dançando com fones de ouvido, só que dessa vez, não havia cadáveres para serem examinados. Já era final de expediente, início da noite. Não haviam muitos funcionários na ala do necrotério. — Que mulher mais gostosa essa... — Seus olhos alternavam entre à nadegada esquerda e direita da loira, que ficavam ainda mais visíveis por causa da saia cor de rosa bem colada que ela vestia.
Como Maura dançava de costas para a porta, ela nem sequer percebeu que havia alguém ali. Estava de olhos fechados, os braços erguidos e o quadril em movimento contínuo ao som de Roar — Katy Perry. Quando mais Jane se aproximava sorrateiramente, o som baixo da voz fina de Maura poderia ser ouvido, cantarolando o refrão com vontade.
– I got the eye of the tiger a fighter dancing through the fire, 'cause I am a champion and you’re gonna hear me roar louder, louder than a lion.
Já há poucos centímetros de Maura, como se ela fosse uma presa e Jane um leão faminto, ela lançou seus braços ao redor do quadril da loira, puxando-a e prendendo-a com força ao seu corpo de modo que até os fones dela caírão. Sorte que o seu celular estava enfiado no bolso do casaco.
– Jane! Que susto! — Ela disse em meio há risadinhas.
– Então quer dizer que você é um leão e eu vou te ouvir rugir mais alto? — Maura se arrepiou toda ao ouvir aquele tom rouco e mais sexy que o normal em seu ouvido. As mãos de Jane apertaram seu abdômen e já foram abrindo o botão da sua calça.
– Jane... nós estamos no trabalho, na sala de autópsias...
– Você que disse que eu iria te ouvir rugir mais alto, agora eu quero!
– Eu estava cantando. E você está mais para leão do que eu. Vive me devorando — Disse, virando um pouco o rosto e fazendo aquela carinha maliciosa que Jane não resistia.
– Por isso mesmo que eu vou te devorar agora!
– Não. Se eu sou o leão que disse que ia rugir mais alto, então quem vai te devorar sou eu! — Ela se soltou dos braços de Jane, virando de frente para ela, lançando aquele olhar e a puxou pelo paletó até o fundo da sala, jogando-a contra a parede antes de beijá-la loucamente.
[...]
Um dos motivos que fizeram Jane ter receio de pedir Maura em casamento tão cedo era o fato da loira ser extremamente luxuosa e apegada em detalhes. Sabia que ela iria querer fazer um grande casamento, com uma grande festa, ter um grande vestido de um estilista famoso e afins. Com isso ela não se importava, ela só não queria ser incomodada com todos os preparativos porque definitivamente Jane não fazia o estilo de noiva que se preocupava e se descabelava com estas coisas. Até então, ela estava tranquila, porque como não havia dado um anel ainda para Maura e nem comprado as alianças, muito menos estipulado com ela quanto tempo esperariam até o casamento, não havia motivos para pânico.
Agora, diante de uma imensa loja de alianças, o pânico de Jane estava começando a surgir. Pensava em todos os preparativos, em sua mãe falando alto e sem parar em seu ouvido, em tudo que teria que pensar, organizar, fora que Jane sempre tinha medo dessas coisas "grandiosas", porque ela era muito desajeitada para tudo e não queria fazer nada errado, não queria estragar seu próprio casamento.
– Eu volto aqui outro dia — Ela virou de costas para à loja e quis dar meia volta e ir para seu carro, mas sentiu a mão firme de Alex em seu abdômen, empurrando-a de volta.
– Nem pensar! Pare de ser cuzona, Rizzoli. Já faz dias que combinamos de vir aqui e você anda só enrolando. Qual é! Está com medo de que? Você já a pediu em casamento, ela aceitou. Nada mais normal do que dar um anel e comprar às alianças, ou você vai casar sem elas?
Jane fez aquela careta que era uma mistura de raiva, por ter sido impedida de fugir, e de choramingo, porque estava realmente com medo.
– Eu não sou cuzona! — Disse ofendida — Eu só estou um pouco... nervosa. Sei que Maura aceitou e preciso das alianças, mas comprá-las e entregar o anel significa dar mais um passo, agilizar mais...
– E daí? Já faz quase um mês que você a pediu em casamento, aí vai dar o anel daqui um mês, comprar as alianças daqui mais um mês? Seus passos são tão lentos assim? Me respeita, né. Vamos entrar... — Ela pegou Jane pelo braço mas a morena se manteve firme no lugar. Alex lançou-lhe um olhar de impaciência — Eu vou ter que te dar um murro e te carregar nas costas ou você vai entrar pacificamente?
– Está bem, você venceu! Eu vou entrar. Só tenha paciência comigo. Eu nunca me casei antes. É normal que eu fique nervosa. Não tenho experiência.
– E você acha que eu tenho? Por favor, né — Alex revirou os olhos e soltou o braço de Jane — Estou penando de montão só pra pedir a Lauren em namoro, que dirá essas coisas de casamento.
– E quando você vai tomar vergonha na cara e fazer logo o pedido? Vocês estão de mimimi desde aquele dia, se veem sempre, estão numa melação sem fim e você ainda não pediu? — Ela balançou a cabeça negativamente, franzindo o cenho — Que decepção, Alex Vause, que decepção.
– Eu estou dando um passo de cada vez, tá legal? As coisas precisam ser devagar.
– Então porque você está me apressando para comprar às alianças?
– As coisas tem que ser devagar no meu caso, não no seu. Vocês se conhecem há doze anos. Me poupe! Cale a boca e vamos entrar.
Elas entraram na joalheria e logo foram atendidas. O vendedor mostrou várias alianças e anéis de noivados. Jane não via muita diferença entre os mostrados, especialmente as alianças. Pouca coisa mudava. Na verdade o que mais mudava era o preço, e nada ali naquele lugar era muito barato. Mas ela não se importava. Já que iria ter que comprar, já que iria casar de qualquer maneira, que se casasse então da melhor forma possível, porque Maura merecia.
Perderam quase uma hora na loja. O vendedor não sabia qual das duas era mais indecisa, se a noiva lésbica que daria o anel e escolheria suas alianças, ou se era a amiga conselheira, também lésbica, que falava várias gírias e parecia só confundir mais a morena de cachos. No final das contas, Jane comprou um anel solitário de diamante branco 18k e duas alianças em ouro branco também, porque sabia que Maura preferia. As alianças eram diferentes das convencionais, elas tinham textura. Produto feito à mão e mais trabalhoso, o que explicava também o preço mais caro. No final das contas, Jane saiu da loja com um sorriso enorme, menos tensa e nervosa do que estava quanto entrou, e mais feliz e animada.
– Você acha mesmo que Maura vai gostar?
– Claro que ela vai! Porra além das alianças você comprou anel de noivado. Só caras ricos fazem isso. E esse anel é lindo e olha o preço que você vai ter que pagar... e também curti o design diferente das alianças. Eu não curto muito as convencionais também.
– Eu não me importo com as convencionais, mas Maura é toda moderninha e como ela gosta de ouro branco, achei essas mais bonitas. Mas agora estou nervosa por outro motivo! — Dizia enquanto elas caminhavam até o carro de Vause.
– Qual motivo?
– Eu vou ter que pedí-la em casamento de novo pra dar o anel. Mas dessa vez tem que ser algo especial, já que da primeira foi um pedido enlouquecido num hospital.
Alex soltou um riso, elas chegaram ao carro e entraram no mesmo.
– Ué, leve-a em algum lugar que ela goste. Faça um programa especial e então peça. É simples.
– Na sua cabeça tudo é simples quando se trata dos outros, mas com você nada é simples, senão já teria pedido Lauren em namoro — Ela retrucava enquanto punha o cinto e à sacola de compra no colo. — Não entendo porque você está tão devagar.
– Eu não estou "devagar", cacete, eu só estou tendo calma com as coisas. Agora que Lauren já não tem mais a impressão que eu sou uma maníaca que só pensa em sexo, aos poucos, vou ganhando mais a confiança dela e ganhando confiança em mim mesma pra chegar no pedido de namoro. É isso.
– Papo furado. Quando enrola tempo demais, por mais que você queira e goste dela, vai acabar não pedindo por medo. Eu sei disso porque acho que se não fosse o tiro que Maura levou, nós não estaríamos noivas hoje.
Alex já diria e o carro estava em movimento quando Jane ligou o rádio e começou a tocar Pink Floyd.
– Como eu amo o som deles.
– Ah, não, não quero música pra me fazer dormir ou brisar. Eu quero algo louco.
Jane revirou os olhos e nem fez menção de mudar de estação.
Alex começou a mudar assim que pararam em um farol e de repente encontrou uma música do Nirvana já no refrão e elas começaram a cantar juntas, alto e balançando a cabeça feito loucas, chamando atenção das pessoas na rua e fazendo os carros atrás buzinarem quando o farol abriu e Alex esqueceu de acelerar.
[...]
Jane estava em seu apartamento, pensativa. Agora que já tinha comprado o que precisava, ela tinha que fazer outro pedido de casamento para dar o anel, mas não fazia ideia de como fazê-lo. Na verdade ela estava morrendo de medo de fazê-lo, mesmo sabendo que Maura já tinha aceitado da primeira vez e obviamente aceitaria da segunda. Isso era idiotice demais para uma mesma pessoa, ela sabia, mas não conseguia evitar.
– O que você acha que eu devo fazer, Jo? — Sentada no sofá quase escorregando do mesmo, ela olhava para sua cadelinha, que a olhava de volta e balançava o rabo — Eu amo Maura e ela é a mulher mais especial do mundo. Não posso fazer outro pedido fuleira como o primeiro, né? — A cachorra latiu com vontade, como se concordasse e deu um passinho para frente, balançando ainda mais o rabo. — Eu também queria que ela não desconfiasse, o que seria difícil, porque já faz um mês o pedido e ela deve estar esperando eu aparecer com um anel e reforçar às coisas... — Jane olhou para o nada e ficou ainda mais pensativa, a cadelinha sentou e tombou a cabecinha para o lado, ainda fitando a dona. — ESPERA! — Jane quase pulou do sofá, e a cachorra levantou e deu passos para trás. — Semana que vem estamos em outubro. Maura vai fazer aniversário! Se eu levasse ela pra sair, fizesse surpresas e tudo mais, ela não desconfiaria que seria para pedi-la em casamento, porque é aniversário dela, certo?! — Olhou para Jo novamente, com um sorriso enorme e a cachorra latiu duas vezes, como se estivesse entendendo. — É isso! Vou pedi-la em casamento no dia do seu aniversário...
Jane fez uma espécie de "convocação" em seu apartamento. Reuniu seus irmãos, sua mãe, Alex e Jonathan. Explicou para eles toda a sua ideia que tivera em pedir Maura novamente em casamento no dia do seu aniversário e pediu a ajuda deles. Cada um havia ficado encarregado com uma função diferente, e nenhum deles, em hipótese alguma, podia deixar ela descobrir nem da festa de aniversário e nem do pedido de casamento. E ainda que ela desconfiasse da festa de aniversário, era até melhor, porque assim seu cérebro se ocupava com aquilo e eles podiam focar no mais importante que seriam as surpresas que Jane faria.
[...]
Alex ficou pensativa com as palavras de Jane quando foram na loja comprar às alianças. E se ela estivesse certa? Porque ela achava que Jane tinha que tomar logo atitudes e se casar com Maura, se ela não pedia Lauren em namoro? Porque, na mente dela, quando duas pessoas se gostam muito, no caso, se amam, não há necessidade de se perder tempo. Mas então, porque no seu caso, ela gostando de Lauren da maneira como gostava, simplesmente não ia lá e a pedia em namoro? Ia fazer um mês que estavam "juntas" de uma forma não oficial. Alex a levava na faculdade e ia buscar quando tinha tempo, almoçavam juntas, saíam nos finais de semana, dançavam, iam ao cinema, se divertiam só as duas, como se não precisassem de mais nada e nem ninguém. E se o sentimento que elas tinham era tão suficiente para mantê-las felizes apenas na presença uma da outra, porque então era tão difícil pensar na possibilidade de pedí-la em namoro?
Ela tinha uma espécie de bloqueio interior. E ninguém podia culpá-la por isso. Desde a infância Alex não tinha recebido quase nada de afeto. Cresceu numa família perturbada. Os pais viviam brigando e não davam atenção a ela. Só começaram a perceberem-na quando na adolescência Alex começou a apresentar esse seu comportamento típico dos dias de hoje, esse jeito livre e "selvagem" de ser. Inconformados ao saberem que ela gostava de mulheres, usava drogas e coisas do gênero, eles não pensaram duas vezes em colocarem a filha no hospício, onde conheceu Maura. Esse era o belo e amoroso retrato que ela tinha dos pais, hoje, já mortos. Eles morreram um ano depois que ela ingressou na polícia. Acidente de carro. E por mais que eles fossem um fracasso como pais, não havia como ela não amá-los e não sentir falta deles. A morte deles era algo tão incômodo que ela não havia compartilhado com ninguém.
Enquanto pensava se devia ou não pedir Lauren em namoro, a esperava sentada em uma mesa dentro de uma lanchonete perto da faculdade. De repente viu a ruiva entrar correndo pela porta e ir até a mesa meio ofegante.
– Que isso? Tava correndo para a próxima maratona de Boston? — Alex perguntou com aquele humor de sempre, já arrancando um sorrisinho de Lauren.
– Não, é que eu vim correndo, não queria te deixar esperando muito. Se bem que já estou atrasada, né? — A olhou de forma preocupada e a morena balançou a cabeça.
– Nem se preocupe. Cheguei faz pouco tempo — Mentiu, já estava ali há uns quarenta minutos, mas estava tão concentrada em seus pensamentos que nem se deu conta do tempo passando. — Como está o estágio? — Já faziam duas semanas que Lauren havia começado a estagiar durante cinco horas por dia em uma agência de modelos.
– Legal, muito legal! Aquela agência é muito boa. Era exatamente onde eu queria trabalhar, se pudesse escolher. Pelo menos tive sorte de conseguir estágio por lá, o que já é alguma coisa e mesmo que no final do estágio eles não me contratem, isso ficará no meu currículo.
– Tenho certeza que eles vão te contratar, porque não é todo dia que se encontra uma ruivinha tão linda e comunicativa feito você.
– Seria ótimo se tudo fosse fácil assim, mas... — Lauren sorrio quando o garçom se aproximou entregando seu suco predileto: de morango. Alex havia pedido para ele trazer um assim que uma ruiva chegasse e sentasse em sua mesa — Você nunca esquece.
– Suco de morango com leite bem gelado e uma colher de açúcar. Não, eu não esqueço.
– E você? Como você tá?
– Estou bem... Passei os últimos dias dando conselhos e ajudando a Jane.
– É mesmo?
– Tive praticamente que arrastá-la para comprar às alianças de casamento. Ela ficou em pânico! — Lauren soltou uma risada e Alex também. — E sem motivo, já que Maura já aceitou o pedido de casamento.
– Temos que respeitar o medo de cada um. Jane é meio medrosa mesmo. Ela deve estar insegura em dar um passo tão importante porque ela ama a Maura. Acho que quando amamos muito alguém, temos até medo de coisas boas, como o casamento. Esse medo se resume em perda.
– Não estamos preparados para perder quem amamos — Alex acrescentou enquanto Lauren bebia seu suco com o canudinho colorido. — Você é realmente muito sábia, moça.
– Eu sei, meus professores dizem que eu sou uma pequena filósofa! — Disse orgulhosa de si, inclinando o queixo — Mesmo eu não gostando do "pequena", porque me soa pejorativo só porque sou baixinha e isso é preconceituoso, mas mesmo assim é uma lisonja vindo dos meus professores, que são excelentes.
– Eles não tem culpa se você é quase uma anã!
– Eu não sou uma anã — Fez careta e bebeu mais um gole do suco. — Mas então ela comprou às alianças? — Alex assentiu — Esse casamento vai sair quando?
– E eu lá sei? Não faço a menor ideia. Essas duas são imprevisíveis. Ela comprou, mas não disse a Maura ainda, porque fará outro pedido.
– Quando?
– No aniversário da Maura, mas é surpresa. Ela pediu minha ajuda, do Jonathan e de sua família.
– E o que vocês vão me fazer? Me conta! Adoro essas surpresas. São tão legais. Eu posso ajudar?
– Toda ajuda é bem vinda. Vou te contar...
Alex contou toda a ideia de Jane para Lauren, que reagia surpresa e empolgada. Isso deixava a morena feliz, porque indicava que não haviam vestígios de sentimentos da ruiva em relação à sua colega de trabalho. Mas isso era óbvio. Lauren havia gostado muito de Jane, mas logo que sua ficha caiu completamente de que nunca dariam certo, ela resolveu seguir em frente e nessa, seu destino cruzou com Alex, e a morena ganhava um pedacinho a mais do seu coração a cada dia, a cada encontro e isso era notório pela forma como seus olhos azuis brilhavam para ela, como sorria boba, como desfazia sua pose e se entregava completamente quando estava com ela. A verdade é que as duas estavam entregues aquela relação que elas tinham e que só faltava ser nomeada. Até Maura, que era ponderada, que se baseava na razão e na ciência praticamente o tempo todo, ouvindo os desabafos e sabendo da situação das duas, achava que já estava na hora de Alex tomar providências e pedí-la em namoro, mas como nem tudo é fácil...
No sábado à noite Lauren foi para uma festa de faculdade. Era uma grande festa feita no sítio de um amigo de amigos seus. Ficava há alguns km de Boston, em uma estrada. A festa reuniria a turma de Publicidade e Propaganda, Moda, Direito, Medicina e Veterinário. Eram aquelas típicas festas de adolescentes ricos. O sítio era enorme. A olho nu não se podia calcular quantos hectares o lugar possuía. A casa também era relativa ao tamanho do sítio em si. Havia uma piscina enorme e a festa que mal havia começado, bombava. Haviam seguranças, bebidas das mais fortes e caras, garçons e drogas rolando solta, especialmente ecstasy. Alex não tinha noção que a festa seria daquela proporção, mas era claro que ela já imaginava que uma festa de faculdade seria cheia de putarias, e por isso não pensou duas vezes em ir com sua "quase" namorada.
Lauren apresentou Alex para seus amigos e todos a adoraram, porque embora fosse mais velha e fizesse parte da polícia — coisa que poucos jovens pareciam gostar — ela era totalmente descontraída e liberal. Falava palavrões, dançava e bebia mais do que todos eles juntos, fora que na juventude dos dias atuais, não existia espaço para preconceito. Homem com homem, mulher com mulher, drogas, suruba, era tudo aceito, era tudo válido. O importante era sentir-se bem, era ter aquele prazer imediato, porque é disso que eles gostavam. Do prazer na hora. Não se importavam com o depois, com as consequências de certos atos.
Por mais liberal que Alex pudesse ser, ela tinha seus limites. E ainda bem que tinha, porque ela era uma policial. Se aceitasse todo tipo de comportamento, todo tipo de ações que os jovens faziam, ela estaria na profissão errada. E se antes, para ela, ficar com várias pessoas numa mesma festa, ou até mesmo fazer menages e surubas era algo normal e divertido, agora ela não mais pensava assim.
– Então vocês são namoradas? — Bob, um dos amigos de Lauren, indagou, curiosamente, enquanto abria uma garrafa de absolut. Ele e mais três meninas estavam reunidos ali naquele canto, conversando com Lauren e Alex, que se entreolharam, constrangidas com a pergunta.
Lauren pensou em responder, mas não sabia o que dizer, então preferiu deixar Alex dizer.
– Bom, nós... nós estamos meio que juntas... — Ela começou a se atrapalhar com as palavras, fazendo todos rirem, menos Lauren — Não, não namoramos ainda.
– Vocês se comem, é isso! — Ele disse ainda aos risos, enchendo vários copos com a bebida da garrafa e distribuindo para as três garotas, que possuíam sorrisos maliciosos e roupas muito decotadas na opinião de Alex — Normal. A maioria da galera aqui tem esse tipo de rolo. Eu mesmo estou enrolado com essas três gostosas! — Ele olhou para elas, e as três passaram a mão nele, no rosto, no braço, no peito.
Alex ficou muito sem graça, e notou o incômodo de Lauren, que mais do que sem graça, estava irritada. A morena devia saber que aquelas pessoas eram babacas e mesmo que elas não namorassem ainda, deveria ter se posicionado de outra forma, mas ela não o fez, o que deixou a ruiva irritada e a mesma saiu andando em direção à espécie de pista de dança que havia ali.
– Lauren, espera! — Alex correu atrás dela — Não fica brava comigo, desculpa, eu deveria ter dito que nós namorávamos...
– Por quê? — Ela se virou de repente, parando no meio do caminho, estavam em um dos poucos lugares menos movimentados da festa — Por que você diria isso se nós não estamos?
– Lauren...
– Não, Alex. Você não fez nada de errado! — Embora ela dissesse aquilo, agia como se fosse o contrário, porque falava alto, quase gritando, já que o som das músicas eram altos, e ela estava muito irritada — Você não mentiu, só disse a verdade. Nem sei porque estou tão irritada. Eu devo ser idiota, devo ter algum tipo de problema mental. Bem que meus pais diziam que eu tinha um parafuso a menos quando ainda era criança, ou então fiquei assim retardada porque bati a cabeça quando tinha...
Alex sorrio daquele jeito levado ao ouvir a ruiva falando tanto e sem parar daquele jeito e não pensou duas vezes antes de puxá-la para si e beijá-la, encerrando a discussão da melhor maneira possível e tentando reverter a visível merda que havia feito ao dizer que não namoravam.
Depois do beijo, as coisas pareceram melhorar. Não tocaram mais no assunto e ficaram juntas, dançando e aproveitando a festa. As vezes elas se pegavam espantadas com alguns rapazes passando mal de tão bêbados e outras putarias que haviam naquelas festas, mas elas se limitavam a rir e aproveitar. Enquanto dançavam juntas, parecia que não havia mais nada no Universo.
[...]
Jane estava ansiosa para finalmente fazer o pedido decente de casamento para Maura, e com isso, determinarem uma data e iniciarem os preparativos. Mal se continha de tão ansiosa. O dia mais feliz da sua vida sem dúvida seria o dia em que visse Maura vestida num vestido branco, esbanjando toda sua beleza enquanto caminhava em sua direção num altar. Ela nem imaginava onde seria o casamento, qual seria os enfeites e todo o resto, mas conseguia visualizar com perfeição Maura caminhando em sua direção e essa era a única coisa que importava.
Mas como ainda faltavam duas semanas para o aniversário de Maura, e ela não podia sequer compartilhar desses pensamentos com a loira, para que ela não desconfiasse, naquele sábado à noite, elas decidiram sair. Com muita dificuldade, Maura conseguiu persuadir Jane e convencê-la a irem em uma exposição de arte e ainda conseguiu que a morena colocasse um belo vestido preto e um par de salto alto, mesmo contra sua vontade. A verdade é que Jane só havia aceitado aquele sacrifício, porque Maura prometeu que o resto da noite ela recompensaria a morena, então...
– Meu Deus, que horas vamos sair daqui? — Ela perguntou, fazendo uma careta, andando de forma estranha, porque seus pés já doíam por causa do salto e o vestido apertado assim como a calcinha curta entrando no meio de suas nádegas a incomodavam — Eu não aguento mais, Maura.
– Jane! — Disse repreensiva e baixo perto da noiva, olhando-a de lado — Nós chegamos não tem nem meia hora. É falta de educação sair assim. Contenha-se!
– Mas os meus pés estão doendo, esse vestido apertado pinica e essa calcinha... eu não vou comentar a parte da calcinha!
– Coma e beba!
– O que?
– Não é isso que você adora fazer nesses lugares? Pois então. Faça o que sabe fazer de melhor: Coma e beba enquanto não vamos embora! — Disse com um sorrisinho cínico ao ver a expressão de Jane de poucos amigos.
– Está insinuando que eu só sirvo pra comer e beber, Maura?
– Claro que não, Jane. Você é uma excelente detetive.
– Não estou falando sobre isso — Estava visivelmente impaciente e mau humorada, o que fazia Maura soltar um risinho baixo, divertindo-se. — O que você quis dizer com isso?
– Jane, eu só estava brincando, ok? Uma brincadeira para descontrair, já que você parece estar quase morrendo por ter que ficar nesse lugar. Você é ótima em várias coisas. Pare!
– Ok, mas agora eu vou atrás de comida e bebida mesmo, porque não estou me aguentando. Já volto.
Maura soltou outro risinho enquanto via a noiva caminhar toda desajeitada pelo lugar atrás de comes e bebes. Algumas coisas realmente não mudavam, e isso era ótimo, porque se tinha algo que Maura não queria, era que Jane mudasse seu jeito de ser.
Na ausência de Jane, Maura foi surpreendida por um ex namorado que conheceu em Londres, Ian. Depois de Jane, foi a única pessoa com a qual a loira teve um relacionamento sério e estável, ainda que tenha durado apenas seis meses. Ele era alto, branco, de olhos azuis expressivos, cabelos pretos lisos num corte clássico. Ombros largos, ossos grandes e músculos definidos sem exagero, da forma como Maura gostava. Depois da fase de sofrimento excessivo na ausência de Jane, querendo ou não, ela precisava seguir em frente. E antes de Jane, ela não havia tido experiência nenhuma. Ian foi a segunda pessoa na vida que beijou, namorou e tudo que se interligava ao assunto. Até conhecê-lo, a loira não sabia que era bissexual. Na verdade ela nunca havia se rotulado nada. Ela apenas amava Jane e era feliz com ela. E se o fato de amar uma mulher a intitulava como lésbica, ela nem sequer se importava.
Os dois começaram a conversar entrosadamente. Faziam cinco anos que não se viam. Ian estava mais bonito, com cara mais de homem. A idade só havia lhe feito bem, e na visão dele, a mesma coisa para Maura. Em cinco minutos de conversa ele contou que estava morando em Boston, que trabalhava em um grande hospital como infectologista. Começaram a conversar sobre o evento, as obras de arte, tudo de forma harmoniosa. Eles eram harmoniosos, na verdade. Ian vinha da mesma classe social que Maura, estudou Medicina em Oxford, era um dos melhores alunos, inteligente, brilhante em sua aréa, educado, gentil e com um ótimo gosto para artes no geral. O namoro deles foi algo tranquilo e gostoso. Era descomplicado e eles nunca brigavam. Ian era muito apaixonado por Maura e teria se casado com ela assim que estivessem formados, mesmo sabendo que isso dificultaria a residência e especialização de ambos, mas Maura não estava preparada, não podia dar aquele passo, porque em seu coração, Jane ainda reinava, por isso, ela terminou com ele quando viu que suas intenções terminariam em um altar. Até hoje Ian não entendia bem o término da relação, já que Maura nunca sequer nem mencionou Jane a ele.
Assim que Jane voltou, ela deu de cara com Maura e um homem bonito conversando e rindo e se sentiu incomodada.
– Com licença — Se aproximou deles, despertando Maura de uma espécie de transe — Perdi alguma coisa? Quem é esse cara, Maura?
– Meu nome é Ian Fletcher, sou ex namorado da Maura, e você, quem é? — Ele perguntou com um sorriso simpático daqueles típicos galãs de filmes que Jane inojava.
Ela não fez questão de esconder sua surpresa, olhando para Maura de olhos arregalados, a loira já se preocupando ao ver as infinitas interrogações no olhar de Jane, que sorrio, forçada, para o homem em sua frente.
– Ex namorado da Maura? — Seu tom era irônico e ela deixou ele constrangido por estar com a mão estendida e ela não o ter cumprimentado — Eu sou Jane Rizzoli, noiva dela — Deu ênfase ao noiva e Ian se surpreendeu, mas como um cavalheiro que era, disfarçou.
– Ian, essa é minha noiva, detetive Jane Rizzoli, Jane, esse é o Ian, um grande médico. Nós nos conhecemos quando eu estava na Inglaterra.
– Claro, tinha que ser lá — Maldita Inglaterra! Todos os problemas de Jane se resumiam aquele país para onde Maura havia ido. Se ela tivesse ficado em Boston... — Grande médico?
– Grande é exagero da Maura. Sou infectologista. Ela que pelo visto é uma excelente legista, tanto que está ocupando o melhor cargo: legista-chefe do Estado de Massachusets. Não estou surpreso. Sabia que chegaria longe. Sua inteligência é envolvente.
Jane respirou fundo. Acabava de descobrir que aquele babaca engravatado elogiando sua mulher era na verdade um ex namorado com quem Maura havia feito várias coisas que ela não queria imaginar e sua raiva só crescia a cada instante. Se ela estivesse armada, se sentiria tentada a dar um tiro na cara do infeliz, que ainda por cima era médico, o que significava ser mais inteligente que ela, e era bonito.
– Obrigada, Ian. Você é um cavalheiro, mas acho que o exagero é seu. Você era um ótimo aluno, o melhor da sua turma.
– Mas você era a melhor de todas às turmas de Medicina em Oxford.
A loira sorria constrangida e estava bem incomodada com a situação, porque se por um lado não queria ser mal educada e deixá-lo ali, ela também não podia deixar Jane cada vez mais irritada, como tinh certeza que ela estava, já que a morena não fazia questão de disfarçar em seus olhos escuros toda sua fúria.
– Vou buscar mais bebida, porque pra aguentar esse tipo de conversa, só estando bêbada! — Jane disse com seu mau humor misturado com ironia, dando às costas aos dois e saindo dali, antes que metesse um soco na cara de Ian.
Maura e ele se olharam embaraçados com a situação. Ele sabia que Jane estava com ciúme por causa de sua presença.
– Maura, eu realmente sinto muito. Não queria te causar problemas. Eu não podia imaginar que você estivesse com alguém... — Ele a olhava fixamente — Quero dizer, você é uma mulher linda e era de se esperar que estivesse numa relação, mas eu não estava preparado para revê-la, muito menos descobrir que é noiva de uma mulher. Eu jamais teria tido que era seu ex namorado se desconfiasse que você e a detetive Jane são noivas. Me desculpe.
– Tudo bem, Ian. Não é sua culpa. Você não poderia mesmo imaginar e faz anos que não nos vemos. Jane que é assim, muito passional e impulsiva. Ela não tem um bom auto controle de seus sentimentos, se irrita fácil e enfim... — Deu um sorrisinho — Não é sua culpa.
– Espero que vocês se entendam. Mas eu realmente estou surpreso em te ver noivo de uma mulher. Eu nunca imaginei que você gostasse... — Como depois de Jane, Maura se relacionou só com Ian, também não viu necessidade de mencionar sua atração por mulheres. — Você é muito feminina, e eu sei que isso é besteira, que não existe um esteriótipo específico para lésbicas e afins, mas você é bastante delicada, dócil. Sempre gostou de ser protegida, de ter alguém que de certa forma comandasse as situações. Estou surpreso, mesmo. E detetive? Você sempre gostou de pessoas intelectuais.
– Jane me dá toda proteção que eu preciso e ela comanda as situações como ninguém — Embora ela ainda sorrisse, era um sorriso diferente, assim como seu tom de voz. Ela não havia gostado da colocação de Ian e nem deixaria que ele desmeceresse Jane, pois mesmo com educação, Ian adorava fazer aquele tipo de coisa. — E ela é muito inteligente.
– De quanto é o QI dela? 90? — Ele deu um sorriso de lado, sarcástico. Na verdade era ele quem estava com ciúme de Maura agora, e até mesmo com o ego ferido por ela estar noiva de outra mulher, de uma classe inferior e de pouca intelectualidade, sendo que quando teve a chance, ela não quis ser noiva dele — Nós dois sabemos de que tipo de inteligência eu estou falando. Fora que está nítido na expressão dela o quão ela acha desnecessário um evento como esse, por exemplo. E você é uma adoradora da boa arte, do bom gosto. Como pode estar noiva de alguém tão incompatível com você?
– Como é? — Maura estava muito surpresa agora, se antes a conversa estava harmoniosa e ela se sentia bem em revê-lo, agora já estava lamentando-se por aquele reencontro — Incompatível comigo? O que você sabe sobre Jane e nossa compatibilidade? Você nem ao menos a conhece.
– Mas conheço você.
– Não tão bem quanto você pensa. Se quer saber, eu conheço Jane há muito mais tempo que você. Foi à primeira pessoa com quem eu namorei! — Ele ficou atônito com a revelação, e então Maura se aproximou mais um pouco, abaixando o tom e dizendo discretamente — Quando você insistia para que eu te contasse com quem eu havia namorado, porque em sua mente machista você precisava saber quem havia sido o "meu primeiro" e nós até brigamos porque eu não queria dizer, pois saiba: Jane foi à primeira. E será a última. Agora se me der licença, eu vou atrás da minha noiva.
Ela o deixou ali, atônito ainda e irritado, e saiu atrás de Jane, desesperada. Ela nem devia ter deixado sua noiva sair e ter ficado falando com aquele metido do Ian. Devia ter ido atrás dela na mesma hora. Procurou Jane por todos os cantos e não encontrou. A morena havia ficado tão irritada com o pouco caso de Maura para seu ciúme, que simplesmente foi embora. E nem se preocupou com o fato de terem ido no carro de Maura. Pediu um táxi e foi direto para o seu apartamento. Vendo que ela não estava mais na exposição, Maura saiu e foi para dentro de seu carro, de lá ligou para Jane três vezes, ela deixava o celular tocar e não atendia.
– Merda, ela deve estar furiosa e com razão...
Mandou sms.
"Jane, por favor, me atenda! Estou preocupada."
"Não parecia preocupada enquanto falava com Ian." Foi a resposta imediata.
Maura soltou um longo suspiro e começou a dirigir em direção ao apartamento da morena. Claro que ela estaria lá. Nos últimos dias estava dormindo na casa de Maura e agora, com esse ataque de ciúme, com certeza ela iria se refugiar em seu apartamento.
Estacionou o carro e desceu, desesperada, subiu às escadas rapidamente, adentrou o prédio e chegou batendo na porta enquanto chamava pelo nome da morena, em um desespero que surpreendeu até mesmo Jane, que apesar de estar com raiva, enciúmada, sabia que era algo passageiro e que logo fariam as pazes.
Jane demorou quase um minuto para abrir a porta. Já estava de pijama, ou melhor, do que chamava de pijama: uma camiseta preta larguinha e um short da mesma cor. Jo Friday latia incansavelmente pela insistência de Maura, que não parava de bater na porta.
– Meu Deus, que isso? O prédio está em chamas e ninguém me avisou? — Disse de mau humor ao abrir a porta do apartamento e dar de cara com Maura, que entrou feito um furacão, sem pedir permissão.
– Você não devia ter saído de lá daquele jeito, sem nem ter me avisado!
Jane bateu a porta e a olhou realmente surpresa, soltou um riso irônico.
– Ah, really? Um ex namorado rico e bonitão surge do nada, começa a flertar com você na minha frente e você acha que eu devia ter feito o que? Ficado lá segurando a vela de vocês? Me respeita, Maura! — Jane disse já alterada, Jo soltou um latido e recebeu um olhar sério da dona, que a fez correr para de baixo da mesinha.
– Flertando? Eu estava flertando? Você só pode estar brincando comigo! Você que devia me respeitar. Sou sua noiva e nós estávamos juntas na exposição e então só porque você se viu irritada com a presença do Ian, você se achou no direito de desaparecer e me deixar sozinha?
– SOZINHA? — Jane berrou e Jo fez um barulhinho, ainda mais encolhida em baixo da mesa, com medo da discussão das duas — Você estava muito bem acompanhada quando eu te deixei! E aliás, você nem pareceu se incomodar, porque você nem sequer foi atrás de mim pra ver se eu tinha ido embora ou não.
– Claro, como eu poderia imaginar que você fosse ter um comportamento tão infantil daqueles? Geralmente aos trinta anos de idade, as pessoas não se comportam mais como adolescentes, porque o cérebro se desenvolve até os vinte e cinco anos, mas existem distúrbios que podem ocasionar esse seu tipo de reação infantil e patética.
– REAÇÃO INFANTIL E PATÉTICA? — A vontade de Jane era de dar um soco na parede, já que não poderia dar um soco na cara de Ian que era o responsável por toda aquela situação. Maura olhou um pouco assustada ao ver o quão nervosa Jane estava, mas ela também encontrava-se num estado emocional de descontrole, o que a fez não medir suas palavras — Da próxima vez que saírmos, vou torcer muito para uma ex namorada minha aparecer e ficar flertando descaradamente comigo na sua frente, e eu vou ficar de sorrisinhos e fazendo elogios à ela e aí eu quero só ver qual será sua reação, ô Doutora controlada e adulta!
–Eu... — Maura estava com a boca aberta, como se fosse começar a despejar todas suas palavras que pareciam infinitas e cansavam a beleza de Jane. Ela poderia, se quisesse, retrucar aquela resposta mas a verdade é que Maura teria reagido da mesma forma, ou pior. — Ok, você venceu.
– Venci? — Jane abriu um sorriso irônico que logo se desmanchou e sua expressão se tornou triste. — E qual foi o prêmio dessa vitória estúpida? Você admitir que fez o que eu vi você fazer?
– Jane, me desculpa. Eu não queria que você ficasse chateada. Eu não achei que fosse ficar. Eu não imaginava que encontraria o Ian. Faz anos que não nos vemos. A última vez nós ainda namorávamos.
– Pelo visto ele nem sabia nada sobre mim. Mesmo disfarçando, percebi o quanto ficou surpreso ao ver sua noiva. Aposto que deve te achar uma imbecil por trocar um relacionamento "aceitável" por todos na sociedade, com um cara que além de bonito é da mesma classe que você e tem o mesmo grau de conhecimento — Disse chateada, sentando-se no sofá para fugir o olhar de Maura, que prontamente se sentou ao lado de sua noiva. Detestava quando ela se desmerecia.
– Não, Ian não sabia sobre você — Maura admitiu, mesmo sabendo que isso a entristeceria ainda mais. Não podia mentir para sua noiva. — Na época que começamos a namorar, eu não queria falar sobre você com ninguém, não queria lembrar, só esquecer. Porque doía, Jane. E eu pensei que pudesse te esquecer estando com ele, mas não foi o que aconteceu, por isso nossa relação chegou ao fim.
Jane nada dizia e não olhava para Maura, olhava para Jo em baixo da mesinha até que sentiu a mão de Maura segurar a sua, sobre sua coxa.
– E eu realmente não me importo com o que Ian ou qualquer outra pessoa pense sobre você ou sobre nosso relacionamento. Eu te amo e você é a melhor pessoa do Universo. Eu sei do seu valor, que é imenso, e é ainda maior para mim. Tanto que depois que você foi embora, eu deixei claro para o Ian o que ele não sabia: Você foi à primeira pessoa e será minha última. E é a única que eu amei, amo e sempre vou amar...
Quando ela tomou coragem para virar o rosto na direção de Maura, viu naqueles olhos verdes a sinceridade daquelas palavras. O amor que a loira sentia por Jane transbordava em seus olhos, em seu sorriso, em seu olhar, em sua expressão de boba apaixonada. Ninguém no mundo ousaria desconfiar do amor dela se visse somente um olhar que ela dava para Jane.
E Jane também a amava, mais do que ela sequer poderia supôr.
[...]
A festa ficava mais intensa a cada minuto que passava, pois as pessoas ficavam mais bêbadas, drogadas e soltas. Alguns "casais" eram definidos e simplesmente desapareciam pelo sítio, ou iam para dentro da casa fazer sabe-se lá Deus o que. Outras pessoas se beijavam, se pegavam em público mesmo e trocavam de par sem se preocupar, porque ali tudo era permitido. Alex estava tendo que fazer algo que ela não podia fazer: ser omissa. Pois por mais liberal que ela fosse, e mente aberta, em algumas coisas, ela era uma policial e o número de drogas, que não, não eram simples baseados, que havia naquela festa, era suficiente para prender o dono da festa e levar vários daqueles filhinhos de papai para uma delegacia.
"Isso acontece todos os dias. Sempre terão riquinhos usando essas drogas em festas." Era o pensamento de Alex para justificar sua omissão enquanto ela ia pegar mais uma bebida para si e para Lauren, que permaneceu na pista de dança.
Quando Alex voltava, de longe, pode avistar Lauren dançando sensual e despreocupadamente e sendo roçada por um rapaz loiro que Alex não fazia ideia de quem fosse e nem se importava, aquela cena era totalmente inadequada! O que fez o imbecil pensar que poderia tocar em sua Lauren?
Transtornada, ela largou as bebidas no primeiro canto que encontrou e foi caminhando em passos duros e firmes na direção dos dois. Lauren mesmo sentindo o toque ou o corpo do rapaz atrás de si, parecia não se importar, ela só ria e dançava como se estivesse descontrolada e isso só aumentava a raiva de Alex.
– Vocês podem me explicar que porra é essa? — Ela perguntou aos berros assim que se aproximou dos dois, seus olhos por trás dos óculos faiscando de ódio.
– Que? Estamos dançando, Alex! — Lauren disse com um sorriso de orelha à orelha e continuou requebrando, com os braços para cima, movendo a cabeça e todo o corpo.
– É, só estamos dançando, relaxa gata e entra nessa dança com a gente... — Ele olhou de forma maliciosa para ela, Alex era tão atraente quanto Lauren, só que possuíam belezas diferentes. O quão sortudo o rapaz seria se pegasse as duas ao mesmo tempo? — Nós podemos nos divertir os três, hum? O que acha? — Ele se afastou de Lauren e se aproximou de Alex, que tinha aquele sorriso malicioso nos lábios na intenção de atraí-lo. Quando ele cogitou a hipótese de beijá-la, sentiu um punho fechado acertar seu rosto, mais especificadamente o nariz, com bastante força e como já estava também louco de tanta bebida e sabe-se lá mais o que, ele caiu com tudo, chamando atenção das pessoas.
– Gostou da diversão, gato? — Alex perguntou de forma sarcástica.
Lauren também já havia parado de dançar e estava assustada. Ela não pensou que Alex ficaria assim tão irritada. Todos pararam de dançar ao ver que o rapaz caído no chão estava com um sangramento no nariz.
– Quem é essa louca?
– Porque ela bateu nele?
– Tirem-na daqui!
Todos começaram a olhar para Alex com expressões feias, alguns gritavam e mostravam o dedo do meio, até que o dono da festa, também já bêbado, se aproximou, dizendo:
– Acho melhor você ir embora.
– Com todo prazer! — Ela sorrio para ele e mostrou os dois dedos do meio para os outros, que a vaiaram e então ela foi se afastando pelo sítio a fora em busca da saída. Lauren, ainda perplexa com tudo, saiu correndo, destrambelhada, atrás dela.
– Alex, Alex! Espera! Você... você ficou louca? — Ela segurou no braço da morena, fazendo-a parar de caminhar, pois ela andava tão depressa que Lauren mal poderia acompanhá-la. — Você bateu no cara e vai embora assim? Fala comigo!
– QUE PORRA VOCÊ QUER QUE EU TE FALE? — Explodiu, num grito que assustou Alex. Era à primeira vez que Alex falava de forma tão hostil e violenta com ela. — Eu fui pegar as bebidas que você pediu e quando volto eu te encontro se esfregando num babaca burguês!
– Eu não estava me esfregando em ninguém, Alex! Eu estava DANÇANDO, apenas dançando! Que idiotice é essa? Desde quando você é brega, é careta desse jeito? — Disse mais para querer provocá-la, já que Alex se fazia de tão moderna e havia dito que elas não namoravam. O álcool também ajudando a conseguir dizer o que não diria sóbria — Nós nem sequer namoramos! Não estou entendendo todo esse ciúmes! Não foi você que disse isso hoje? Que nós não namoramos?
– É, você tem razão — Alex descontrolada, chutou a terra do chão com sua bota e deu um soco no ar. Caminhou alguns passos, e explodiu de novo, mesmo não estando tão alcoolizada quanto precisaria estar para dizer aquilo — Nós não namoramos. Não namoramos porque eu sou imbecil o suficiente para não ter te pedido em namoro ainda, mas isso não significa que eu não tenho ciúmes! Porra, como eu não posso ter ciúme de um babaca se aproveitando pra se esfregar em você, Lauren? EM VOCÊ? Você é MINHA!
Lauren não conseguiu disfarçar e nem conter o sorriso enorme que surgiu em seus lábios.
– Eu sou sua? — Seu tom de voz era baixo.
– Sim, você é minha! Eu... eu não sei que porra é essa, eu não sei lidar com isso, é tudo muito confuso e eu me sinto idiota o tempo inteiro, como se eu tivesse sua idade ou até menos... eu penso em você o tempo todo, e fico besta quando estamos juntas... me perco nesse seu sorriso e tenho vontade de morrer toda vez que estou contigo só pra não correr o risco de morrer na sua ausência de tanta saudade que eu sinto em pouco tempo! Eu não sou poeta, eu não sou escritora, eu não sei explicar, eu não entendo de sentimentos, mas... — Seus olhos estavam marejados e duas lágrimas caíram em seguida — Se isso que eu sinto não é amor, eu não sei mais o que pode ser.
Pronto. Havia acabado de desabafar, de colocar para fora tudo o que estava sentindo. E era um alívio finalmente fazê-lo. Naquele momento ela nem se importava com que Lauren ia pensar, se iria achá-la idiota ou não. Que se dane. Era melhor dizer realmente o que sentia e tirar o peso das costas, aguentando suas consequências do que ficar engasgada como estava durante todo aquele tempo.
Lauren não sabia se sentia uma estúpida por ter provocado tanto Alex ao ponto de deixá-la naquele estado, porque sim, até a dança com o rapaz loiro desconhecido foi na intenção de provocá-la, ou se começava a chorar de tanta emoção que sentiua ao ouvir aquelas palavras. Alex podia não ser uma poeta, ou uma grande romântica que sabia se expressar, mas sem dúvida alguma, nunca ninguém havia dito e nem sentido nada tão bonito pela ruiva.
– Eu te amo, Alex Vause — Foi à resposta sussurrada após Lauren avançar na direção de Alex e beijá-la de forma apaixonada, segurando seu rosto com as duas mãos. — Eu te amo!
Porque o amor nasce nos lugares mais improváveis, entre as pessoas e as situações mais inusitadas. Ele não escolhe data, lugar, pessoa. É como um tiro no escuro. Simplesmente ele acerta um alvo e acontece. Jane amava Maura. Maura amava Jane. Alex amava Lauren e Lauren também a amava. Era disso, apenas disso que elas precisavam. Daquele amor.
O amor desinteressado e puro é a única expressão da perfeição divina que há nesse mundo. É o maior poder que alguém pode possuir.
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