R&I - Wish You Were Here

16 Capítulo 15 - Ne Me Quitte Pas


Notas iniciais
Postei esse capítulo antes mesmo do que eu esperava. Achei que fosse demorar mais, porque tive uns bloqueios e uns problemas no meu interior que me fragilizaram para escrever esse capítulo, mas o importante é que ele saiu.

Tentei dar o máximo de detalhes possíveis, pra que vocês conseguissem visualizar o que eu visualizei dos fatos e bom... vamos ver se ficou bom.

O título é sim a música interpretada pela minha maravilhosa e dignissima Maysa e sim, eu ouvi essa música o tempo inteiro enquanto escrevia. Não pensei em nada mais inspirador e nem em título melhor. É isso.

Excelente leitura! ;)

"Sacrifício, na sua definição mais exata, é dar algo precioso em troca de conciliação com o alto poder. Uma devoção permanente a uma causa que não pode ser satisfeita com uma simples promessa. Porque um juramento, não importa o quão solene seja, não pede nada em troca. Enquanto o verdadeiro sacrifício, exige uma perda indescritível."

Duas semanas turbulentas ocorreram desde que Jane e Maura se entenderam. O trabalho na Homicídios era árduo e tenso. Os detetives todos muito ocupados em investigarem ainda mais a vida de Paddy Doyle em busca de descobrirem quem era o Vingador e que ligação exata ele haveria de ter com o pai biológico da Dra. Isles.

Ao longo dos exatos quatorze dias, mais dois corpos apareceram. Novamente mulheres loiras de trinta anos. Um cadáver encontrado há dois quarteirões da Central, como se fosse uma forma ousada do assassino dizer que não tinha medo deles, e o outro cadáver em um parque comum, onde também Maura já havia ido muitas vezes, e ainda ia, para realizar suas caminhas ou corridas matinais aos domingos.

Cada corpo novo veio com um bilhete, também sem digital e nenhum vestígio. Nos bilhetes ele sempre fazia saudações ao Paddy Doyle e dizia que em breve se encontraria com Maura. Pela suas palavras e pela forma como ele assassinou as mulheres, sempre com métodos brutais e diferentes indicava que ele possuía uma espécie de obsessão em Maura, que querendo ou não, estava bastante sobrecarregada de tensão e pânico naqueles dias.


– Vocês precisam se alimentar direito. Eu sei que estão todos nervosos por não conseguirem descobrir quem é o tal assassino que está atrás de você, Maura, mas não podem ficar assim — Angela dizia preocupada, vendo o quão abatida Jane e Maura estavam.


Elas ficavam praticamente o tempo inteiro na Central e quando não, Jane simplesmente grudava em Maura, ficando com ela em sua casa ou levando-a para seu apartamento. Não a deixou sozinha nem um dia sequer, porque queria se certificar de que ela ficaria bem, e de que o Vingador, seja lá quem fosse, não aparecesse para machucá-la. E é claro que a Dra. Isles não reclamava de todo esse carinho e proteção. Era ótimo ter Jane às noites abraçando-a e dando aquela sensação de segurança.

– Quem consegue comer direito com tudo isso acontecendo, ma? Não é só um assassino obcecado na Maura, ele já matou quatro mulheres! São quatro famílias destroçadas querendo respostas... a mídia não para de falar sobre isso, até o governador está no pé do Tenente Cavanaugh. Daqui a pouco o FBI se enfia no meio da história...

– O que mais me incomoda é constatar que os quatro corpos nas minhas mesas, daquelas mulheres jovens e bonitas, foram simplesmente mortes "aleatórias", na intenção de darem um aviso. Ele não as matou por um "motivo", ainda que nenhum motivo justifique um assassinato, é melhor do que isso. As famílias não podem simplesmente entenderem que um homem revoltado e com sede de vingança resolveu matar a filha, a irmã, namorada, amiga, ou o que quer que seja, deles, simplesmente porque ela era parecida com a verdadeira mulher que ele quer ter nas mãos — Maura parecia, e realmente estava muito frustrada com aquela situação.

Sempre quis ser legista para poder falar pelos mortos. Amava trabalhar naquele campo para poder contar a suas famílias e pessoas que se importavam quem havia tirado a vida delas, para poder fazer justiça e trazer paz aos que ficaram.

Angela e Jane olharam para Maura, consoladoras.


A morena esticou a mão e segurou a mão direita da namorada em cima da mesa.


– Seja lá quem ele for, nós vamos encontrá-lo, faremos justiça e traremos paz para essas famílias.

– Mas até lá, vocês precisam se alimentar, ou não sobreviverão — Angela insistiu, tirando da bandeja pratos com panquecas de desenho e ovos mexidos para Jane, além de suco da laranja para Maura e o café da filha.

Elas sorriram e acabaram se rendendo. Realmente elas precisavam comer.


Ele contava cada dia, cada hora, cada minuto. Ansiava por aquele encontro como nunca ansiou por nada em toda sua vida. Não conseguia pensar em outra coisa. Os instantes pareciam durar uma eternidade por conta disso. Ficava acordado todas às noites. Eram nas madrugadas que os pensamentos ficavam mais inquietantes, como se algum botão no cérebro ligasse e fizesse funcioná-lo de uma forma veemente. Para poder dormir, ainda que apenas por duas horas ao dia, ele precisava se auto medicar.


Depois de sua última vítima, ficou um pouco aliviado. Não que ele ainda se importasse em tirar uma vida. Não. Longe disso. Porque ele não tinha receio e nem nada que segurasse agora seu instinto assassino, furioso. O problema era que suas vítimas se pareciam com Maura e isso o incomodava. Mas agora ele não precisava mais fazer vítimas.

Com toda mídia divulgando a série de assassinatos e falando "seu nome", ele não precisaria mais matar nenhuma daquelas mulheres inocentes. O circo estava armado. Seu show estava pronto e o recado já havia sido dado para Paddy Doyle, que mesmo que não estivesse sequer nos Estados Unidos, com certeza já havia sido informado pelo seus homens dos assassinatos em Boston e dos seus "recados" deixados junto das vítimas. E Paddy retornaria a Boston. Com toda certeza. E ele estava contando com isso.



– Por que você tem tanta dificuldade de manter seu apartamento organizado? — Maura finalmente fez aquela pergunta. Era uma dúvida que tinha desde à primeira vez que pisou ali. — Será tão difícil deixar às roupas dentro do guarda-roupa ou do cesto e as comidas na geladeira e armários?

– Não tenho tempo pra ficar arrumando as coisas. Sou uma detetive, esqueceu? — Jane estava deitada no sofá, toda espaçosa, coberta até a cintura com um cobertor.



– Eu sou legista-chefe e quase não tenho tempo também e mesmo assim minha casa é organizada. Não venha com desculpas, Jane. Você nunca gostou de disciplina.

Naqueles dias, Maura andava mais tagarela e implicante com as imperfeições de Jane por conta de tudo que estava acontecendo. A morena sabia disso e por isso não se importava. Cada pessoa encontrava uma forma de fugir daquilo que lhe incomodava.

Maura ficava arrumando o apartamento de Jane sempre que ia lá. Guardava suas roupas depois de dobrá-las e organizá-las, lavava a louça, limpava e andava até cozinhando. Pelo menos assim se mantinha distraída.

– Vem cá me disciplinar, então... — Jane disse erguendo o tronco e olhando-a por cima do sofá, Maura estava na cozinha bebendo água. Assim que terminou, foi até a sala e mal chegou a dar a volta ao redor do sofá e foi puxada por Jane, caindo sobre ela. — Eu sempre te disse que você era a mulher dessa relação! — Falou em tom brincalhão, roubando um beijo da loira.

– Até hoje não entendo essa história. Somos lésbicas. Mulheres que gostam de mulheres. Por que temos que assumir "papéis" dentro da relação?


– Claro que somos, Maura. E eu amo ser mulher e fazer minhas "funções" de mulher — Sorrio de forma maliciosa, fazendo a loira rir — Mas mesmo assim, sempre uma fica com o papel da "mulher da relação" e a outra com o do homem, entendeu?

A loira a olhou pensativa, sua expressão confusa.

– Ainda não.

Jane revirou os olhos.

– É uma forma de organização. E eu sou o homem dessa relação, e pronto.

– Não entendo também porque você é o homem.

– Porque... porque eu sou o homem. Sou mais forte, gosto de me impor e assumir o controle das situações.

– Você é mais teimosa, gosta de mandar e briguenta, isso sim! — Soltou uma gargalhada e Jane acabou rindo também. Maura passou os braços por de baixo da morena e a abraçou. — Mas eu adoro isso em você, Jay. Na verdade eu adoro cada pequeno detalhe, cada defeito e cada qualidade.

– Acho bom adorar mesmo, porque terá que conviver com eles pelo resto da sua vida...

Abraçou Maura também e virou-a, ficando por cima dela no sofá. Se beijaram de forma apaixonada.

"Não me abandone, é preciso esquecer,

Tudo pode ser esquecido, o que já ficou pra trás.

Esquecer o tempo dos mal-entendidos

E o tempo perdido tentando saber como.

Esquecer as horas que as vezes matam a golpes de porques

O coração feliz

Não me abandone

Não me abandone

Não me abandone."


[...]


Se naquelas duas semanas ninguém conseguia pensar em mais nada que não fosse o Vingador e perder horas do seu dia em busca de qualquer dado que pudesse chegar a ele, na semana seguinte as coisas foram se amenizando. Mesmo sem terem descoberto sua identidade, e sem nenhuma informação nova e útil, o Departamento de Homicídios simplesmente não poderia parar e viver apenas em fundação de um assassino esperando a hora que ele decidisse agir novamente. Haviam outros corpos, outros casos e outros problemas para serem resolvido todos os dias.


Maura, assim como os outros estavam mais tranquilos. Ainda que houvesse receio de novos assassinatos acontecerem, ou pior, do Vingador capturar Maura, eles não podiam parar suas vidas por conta disso.



Jane e Maura estavam indo bem nesse recomeço de relacionamento. Ao mesmo tempo que tudo parecia igual há anos atrás, parecia diferente, porque quer queira ou não, com o passar do tempo, muitas coisas não somente ao nosso redor mas como também dentro de nós muda, se transforma, evolui. Elas haviam evoluído e mudado em muitas coisas, mas em outras permaneciam muito iguais.

Com o fim do término com Lauren, logo na primeira semana, ainda no clima de tensão, Jane decidiu que queria assumir seu relacionamento com Maura para sua mãe, seus irmãos e todos na central. Ela queria fazer as coisas da forma correta, porque não queria mais erros.

Depois de descobrir que Alex só deu em cima de Maura para lhe causar ciúme e que ainda contribuiu no plano com Jonathan para uni-las, Jane não podia mais detestá-la, porque não tinha motivo aparente. Só gostava mesmo de implicar com ela. Mas isso era recíproco. Com toda a tensão e nervosismo que Jane estava, pensando que um serial killer poderia fazer mal a sua mulher, ela começou a se aproximar de Alex, que mesmo daquele jeito muito pouco educado ou carinhoso, dizia palavras reconfortantes.

– Já bebendo? — Jane perguntou ao entrar no Dirty Robber e ver Alex sentada sozinha em uma mesa, com uma garrafa de vodka e uma cara não tão boa. — Achei que você fosse dar um tempo na bebida.


– Pra quê? Ela é a melhor companheira que existe! — Deu aquele sorriso irônico.


Jane puxou a cadeira vazia e se sentou.

– Que aconteceu?


– Por quê?

– 20:00h da noite numa sexta-feira e você está bebendo sozinha no Dirty Robber quando deveria estar se arrumando para ir em alguma festa "pegar suas gostosas" — Alex revirou os olhos sorrindo com a ironia de Jane. Agora que começaram a conviver mais e de forma amigável, descobriram ter muitas coisas em comum.

– Não estou afim de sair à caça essa noite...


– Isso eu percebi. Mas por quê? Tá me parecendo desanimada.

– Acho que estou cansada dessa vida — Admitiu, tomando mais um gole de vodka. — É sempre a mesma coisa. Eu saio e como sou irresistível, pego a garota que eu quero — Jane soltou uma risada nessa parte e balançou a cabeça negativamente — Mas nunca passou disso. Acho que eu não sou tão perfeita quanto eu pensava.

– Não sabia que você era romântica.

– Nem eu. É só que...

Ela não sabia como se expressar. Alex nunca foi boa expressando sentimentos. Ela sempre preferiu fazer do que falar.

Jane ficou olhando-a como se esperasse pela continuação. Viu os olhos azuis meio perdidos fitando o nada antes de voltarem a encará-la.

– Estou cansada de me sentir vazia. Já se sentiu assim?

– Vazia? — Alex assentiu e Jane soltou um suspiro. Claro que ela havia se sentido vazia. Durante todos aqueles anos na ausência da Maura ela se sentiu assim. Dolorosamente vazia. Seus olhos castanhos passaram olhando de um lado para o outro antes de fixar nos olhos de Vause. — Já.

– Really? Não imaginava.

– É, pois é. Depois da dor, vem sempre um vazio. Mas acho que não tem vazio maior do que a ausência de quem amamos, ou no seu caso, a ausência do amor — Alex parecia surpresa com às palavras da detetive — Sabe, Alex, esses doze anos que eu passei sem a Maura, tirando os problemas e Hoyt tentando me matar, eu não tive nada de muito ruim me acontecendo. Eu tenho minha mãe, tenho meus irmãos, ganhei um sobrinho que adoro. Consegui me tornar detetive. À primeira e agora estou diante da segunda — As duas sorriram — Comprei um apartamento, um carro. Aos poucos consegui conquistar muitas coisas. E mesmo assim, eu sentia esse vazio do qual você se refere. Sentia que minha vida estava incompleta. Que algo estava faltando. Mas eu já sabia o que era. Era a Maura. Eu sabia porque quando... — Jane sorrio meio boba, ela sempre se sentia assim ao falar da amada — Quando eu e Maura namoramos pela primeira vez, eu me sentia mais do que completa. Era como se eu transbordasse com ela, sabe? — Alex não sabia, mas imaginava e assentia — Ela...

Jane não imaginava mas haviam cinco minutos que Maura tinha entrado no Dirty Robber e estava literalmente atrás de si, escutando tudo aquilo que ela dizia. Como Alex adorava "uni-las" ainda mais e era ótima mentindo e disfarçando, ela nem sequer fez qualquer expressão suspeita ou ergueu os olhos na direção da loira para que Jane continuasse a falar, e não estragasse a surpresa que Maura com certeza teria.

– Maura sempre representou tudo pra mim. Eu posso ter o mundo, mas se eu não tiver ela ao meu lado, eu não tenho nada.

Maura sorrio largamente. Piscou devagar e só então se deu conta de que seus olhos estavam marejados, pois uma lágrima no canto esquerdo escorreu e ela rapidamente limpou. Ouvir Jane dizendo aquelas palavras para outra pessoa, sem saber da sua presença ali deixava tudo ainda mais incrível para ela, porque significava que Jane realmente a amava. Não que ela não soubesse disso, mas era tão incrível constatar aquilo sempre.

– Você ama mesmo essa mulher.

– Mais que a mim mesma.

Não resistindo mais, Maura se inclinou e abraçou Jane pelo pescoço, por trás, beijando-a na bochecha — hábito esse que tinha quando elas eram adolescentes — e fazendo Alex rir.

– Eu também te amo, meu amor! — Sussurrou no ouvido da morena que sorrio.

– Você estava aí, sua danada? — Perguntou um pouco tímida e Alex percebeu que ela estava sem graça.

– Deus do céu, que porra. Vocês são gays demais...

Maura soltou Jane e sentou ao lado dela, bem perto, encostando seu braço no braço da morena.

– Estava sim e ouvi tudo! Que coisa mais linda, Jay.

A morena ficou ainda mais sem graça e olhou séria para Alex.

– Porque não avisou?

– Não teria graça, "Jay" — Disse com ironia e as três riram.

[...]

Agora que a tensão e loucura sobre o Vingador haviam sido contidas, Angela estava insistente em relação a dar um almoço de domingo com toda a família reunida em homenagem a Jane e Maura. E de tanto insistir, ela acabou conseguindo.

Angela preparava de terminar o almoço com a ajuda de Lydia, enquanto Tommy desajeitadamente brincava com TJ que estava perto de começar a andar. Ele e o irmão Frankie estavam sentados no sofá assistindo jogo de baisebol quando a campainha tocou.

– Tommy, vá abrir a porta! — Angela gritou.

– Mas porque eu? Estou com o TJ...

– Dê ele ao Frankie e vá abrir!

Desde que Angela soube pela boca de Maura e Jane todo o ocorrido no passado, o motivo de Maura ir embora e inclusive a ligação que a loira havia feito na sua casa e que Tommy havia atendido e sido rude com ela, a italiana insistia ao rapaz que ele deveria procurar Maura e se desculpar, mas covarde e imaturo que Tommy ainda era, não teve essa coragem. Ele nem ao menos havia revisto Maura ainda.

Se vendo sem saída, ele obedeceu. Entregou TJ no colo do tio, se levantou e foi abrir a porta. Deu de cara com Jane e Maura. A irmã sempre vestida da mesma forma e descabelada. Ele parecia assustado ao ver Maura, mesmo sabendo que iria revê-la, ele parecia bem surpreso. Ela estava diferente. Mais encorpada, mais bem vestida e muito linda.

– Ah... Oi... Oi Maura... — Disse, sem graça, segurando a porta aberta.

– Olá, Tommy — Ela o olhou com um pequeno sorriso, sempre educada.

– Vai ficar olhando com essa cara de idiota? — Jane disse sem paciência, revirando os olhos. Ela andava conversando pouco com o irmão, e sempre daquela forma rude, ainda chateada com a atitude dele. — Acho que Maura merece um pedido de desculpas pela sua idiotice. E eu também.

– Jane! — Maura olhou repreensiva para a namorada — Acabamos de chegar. Viemos para almoçar e não brigar.

– Não estou brigando, Maura. Só quero que ele peça desculpas.

– Tudo bem, Maura. Jane tem razão. Eu fui um babaca. Eu sinto muito, de verdade. Me desculpem...

Jane fez uma expressão que dizia estar satisfeita e Maura apenas sorrio novamente.

– Não se preocupe, Tommy. Isso é passado. Vamos esquecer.

Elas deram poucos passos adentrando a casa e Lydia foi recebê-las com aquele sorriso simpático.

– Lydia, essa daqui é Maura, minha namorada, Maura, essa é a Lydia, namorada do Tommy e mãe do pequeno TJ.

– Muito prazer, como vai, Lydia?

Elas se cumprimentaram com os beijinhos no rosto e Lydia parecia um pouco abobada com o jeito de Maura. Não estava acostumada a ver mulheres assim tão elegantes.

Jane sentou no sofá ao lado do irmão ao ver que estava passando jogo.

– É do Red Sox? — Perguntou antes de olhar para a televisão, viu TJ no colo do irmão e abriu um sorriso enorme, derretida — Oh meu pequeno TJ! Vem cá com a titia... — O garotinho sorrio e esticou a mãozinha na direção dela, mexendo os dedinhos, então Jane o pegou do colo de Frankie.

– Sim, não tá vendo? É da última final.

– Você gravou?

– Sim — Ele dizia tudo no automático, não tirando os olhos da televisão.

– Eu vou querer emprestado depois!

– Ok.

Enquanto Maura cumprimentava Angela, Jane levantou e foi até elas com TJ no colo.

– Olha quem quer te conhecer, Maura!

A loira virou e ao ver o pequeno de olhos claros nos braços de Jane, se derreteu por completo, abrindo um sorriso enorme. Maura amava crianças e bebês desde sempre. Eram os únicos seres humanos com o qual ela sabia lidar sem problemas.

– Meu Deus, que coisinha mais linda é o seu filho! — Ela olhou para Lydia que estava agora do lado de Tommy. — Parece com vocês dois... Deixa eu pegar ele, Jane? — Esticou as mãos para fazê-lo e Jane fez careta, se virando com o pequeno e beijando-a na bochecha.

– Agora não. Estou com saudades do meu sobrinho.

Maura murchou.

– Jane! — Angela repreendeu — Deixe Maura pegá-lo. Ela não conhece ele ainda! Venha me ajudar com o término do almoço.

– Desde quando eu ajudo no almoço? — Resmungou, e olhou para a mãe, que deu aquele olhar sério.

– Agora!

– Ok... Toma — Ela se aproximou mais de Maura e entregou o pequeno nos braços da loira, que sorrio ainda mais. Jane notou o quão radiante ela ficou segurando TJ e por um instante imaginou-a segurando o filho delas nos braços — Acho que ele gostou de você...

TJ olhou para Maura e ela para ele durante alguns instantes e ambos sorriram.

– Jane, venha me ajudar! — Angela gritou.

Ela revirou os olhos e foi junto de Lydia.

O almoço foi tranquilo, embora agitado, porque afinal, era a família Rizzoli e não podia se esperar menos do que agitação. Angela serviu sua famosa macarronada e eles conversavam na mesa sobre tudo, relembrando momentos do passado e dando gargalhadas gostosas. Maura havia até se esquecido do quão era bom se sentir parte de uma família de verdade. Ela sempre amou a família Rizzoli. Até isso Jane tinha de perfeito.

Por um lado Maura não pode deixar de se abater um pouquinho. Na adolescência fora assim também. Sempre que ficava na presença daquela família unida e feliz, ela não podia deixar de comparar com sua família, com seus pais ausentes. Agora, ela nem fazia ideia de onde Richard e Constance estavam. Ela se distanciou muito deles ainda no período da faculdade e depois de se formar foi embora de casa. Eles tentavam reaproximações, ligavam, e Maura era sempre seca, até que o contato foi diminuindo ao ponto de simplesmente não existir mais, principalmente quando ela voltou aos Estados Unidos.

[...]

Um mês passou rapidamente sem que ninguém se desse conta. Era estranho como o tempo passava rápido, especialmente quando estamos nos sentindo felizes e revigorados. Porque era justamente assim que nosso casal se sentia.

Contra a vontade de Jane, elas iam na yoga toda terça e quinta, como havia sido combinado. Jane achava tudo muito chato e tedioso, mas na companhia de Maura era suportável.

Almoçavam juntas no Dirty Robber todos os dias quando não havia nenhum caso corrido para resolverem e quase todas às noites iam pelo menos beber ali, quando não, iam direto uma para casa da outra fazerem amor desesperadamente, porque estavam ainda mais apaixonadas do que anos atrás e não aguentavam ficarem desgrudadas um instante que fosse.

Todos os domingos o almoço agora era na casa de Angela, que fazia questão da família reunida, e Maura se sentia acolhida. Mais do que Jane, Jonathan e Alex, agora ela tinha toda a família Rizzoli.

E Jonathan e Alex ficaram ainda mais amigos, e ainda mais amigos de Jane, também. Duas vezes no mês Maura deu um jantar em sua casa e chamou os dois e os quatro riam descontroladamente das besteiras que falavam.


"Eu te oferecerei, pérolas de chuva vindas de países

Onde nunca chove


Eu escavarei a terra, eu escaparei da morte

Para cobrir teu corpo de ouro e de luz

Criarei um país onde o amor será rei


Onde o amor será lei e você será a rainha.

Não me abandone

Não abandone."

– Vamos, qual é seu problema? Não pode correr mais rápido do que isso? Está parecendo sua tartaruga! — Jane provocava com um sorrisinho maroto enquanto ela e Maura corriam pelo parque.

A legista estava pouquinha coisa atrás da morena e já ofegava. Elas haviam dado quase a volta completa no imenso parque.

– Cágado! — Corrigiu, impaciente e de repente parou de correr, inclinando-se para frente e pondo as mãos nos joelhos — Eu não consigo mais... estou cansada, Jane. Isso é tudo culpa sua que quis correr antes de nos alimentarmos. Isso... — Ela começaria a disparar a falar suas explicações, mas estava tão cansada e ofegante que não se deu ao trabalho.

Jane, que havia parado de correr e se aproximado da namorada, ria agora.

– Tá vendo? É bom pra você parar de ficar me enchendo por causa da minha alimentação. Eu comendo minhas porcarias estou mais resistente e rápida do que você.

Maura ergueu o tronco e olhou para ela com a cara fechada.


– Isso não é verdade!


– Ah, não? Então me prove ganhando dessa vez a corrida! 1, 2...

Antes de chegar no três Maura saiu correndo na frente de Jane, deixando-a com cara de boba para trás.

[...]

Paciência é uma virtude. Essa era uma das frases incontestáveis para ele. E por sorte, Matthew tinha bastante paciência. Aprendeu que se queria que seus planos dessem certo, ele precisava dela. Quando agimos por impulso, dominados por nossos sentimentos ao invés de termos paciência para esperar o momento certo, o fracasso torna-se inevitável.

Ele não havia desistido, cansado e muito menos morrido. Estava bem vivo assim como seus sentimentos. Assim como seu ódio e seu desejo implacável de vingança. Também não estava acoado, com medo da polícia, nem dos detetives. Eles já haviam mostrado que não podiam competir com o grau de inteligência do Vingador. Seu QI pelo visto era muito elevado.

Mesmo não mais se expondo, não fazendo vítimas e nem entrando em contato, o Vingador estava mais do que ligado em tudo que acontecia. Especialmente em tudo que acontecia na vida de Maura. Ele sabia cada passo que ela dava, todos os seus horários e compromissos e estava incomodado por vê-la praticamente o tempo todo acompanhada da Detetive Rizzoli. Suas suspeitas em relação ao relacionamento das duas se confirmaram quando as viu de longe se beijando discretamente dentro do carro.

Ele sabia que Jane poderia atrapalhar seus planos futuros, por isso precisava pensar em alguma coisa.


A porta estava trancada e às cortinas fechadas. Ela mal conseguia respirar. Seu corpo quase todo completamente exprimido na porta, a lateral do seu rosto encostada ali. Sentia a respiração também alterada de Jane em seu ouvido, enquanto aqueles braços lhe envolviam e apertavam e as mãos a tocavam despudoradamente.


Jane estava com a mão esquerda por dentro da saia e da calcinha da loira, tocando-a e estimulando-a vagarosamente, enquanto apalpava seu corpo com a mão direita e distribuía beijos ali em seu pescoço até o rosto, sussurrando vez ou outra em seu ouvido.

Elas sabiam que era arriscado fazerem aquilo no trabalho, mas não seria à primeira vez. Maura sempre dizia não, empurrava Jane, tentava lembrá-la que era anti ético e que poderiam serem pegas, mas a morena sempre conseguia convencê-la a ceder.

Jane virou-a de frente para si enquanto Maura quase se derretia em sua mão. Levou a mão direita para o rosto dela, deslizando até os cabelos loiros e segurando firme nos mesmos, fazendo-a fechar os olhos e inclinar a cabeça para trás.


– Você... é tão... teimosa... nunca me obedece... oh... Jay... nós temos que... parar... de fazer isso...


Ela não conseguia completar suas frases, muito menos falar com uma voz normal.


Jane sorrio, puxando um pouco mais os cabelos enquanto beijava o pescoço de Maura até alcançar seus lábios. Soltou dos cabelos e agarrou a cintura dela.


– Temos sim... — Sussurrou contra seus lábios, após grudá-los — Quem sabe um dia...

Maura sorrio de forma maliciosa e a apertou mais contra si, suas mãos se perdendo naqueles cabelos antes de beijá-la loucamente.

[...]


"Não me abandone, eu te inventarei

Palavras absurdas que você compreenderá


Te falarei daqueles amantes

Que viram de novo seus corações excitados

Eu te contarei a história daquele rei


Que morreu porque não pôde te reencontrar

Não me abandone

Não me abandone

Não me abandone."


Naquela quinta-feira à noite Jane, Maura, Jonathan e Alex foram todos juntos para uma exposição de arte moderna que a legista estava louca para ir. Jonathan assim como Maura era elegante e adorava aqueles eventos, já Jane e Alex achavam tudo um grande porre.



Mesmo com todas as sugestões de Maura quanto a vestidos, Jane foi de terninho e Alex, pior ainda, sempre naquele estilo lésbica despojada, usando suas botas até os joelhos, seus casacos de couro e cia. Maura nem reclamava mais da namorada e da amiga. No fundo amava o jeito delas.



– Não tem comida aqui não? — Jane perguntou cinco minutos depois de chegarem.

Jonathan e Maura olharam abismados para ela.



– Jane! Você só pensa em comer? Estamos numa exposição!

– Aquele lanche que comemos no Dirty antes de virmos pra cá não foi suficiente? — Jonan perguntou.

– Foi, mas sabe como é né... — Ela sorrio ironicamente — E você me disse que teria comida! Só por isso eu vim.


Maura revirou os olhos, Jonathan fez aquela sua cara de pavor e Alex riu.

– Ter comida até tem, mas são aquelas porras ali — Alex apontou com o queixo na direção dos garçons carregando bandejas com canapés. — Não tinha coxinha e bolinha de queijo pra servir, não?

– Ou então cachorro-quente — Jane sugeriu em tom de brincadeira só para provocar Maura.

– Vocês duas! Não sei o que faço com vocês! Por favor, apenas se comportem e não comam todos os canapés! — Foi a vez de Maura sorrir ironicamente e arrancar careta das duas. — Eu e Jonathan vamos cumprimentar o dono das obras, é um conhecido nosso. Querem ir?

– Não! — Disseram sérias e ao mesmo tempo.

– Deixe elas, querida, vamos apreciar a exposição. As duas sobrevivem na nossa ausência! — Jonathan deu o braço para Maura e foi puxando-a para o meio das outras infinidades de pessoas que haviam ali.

Maura e Jonathan ficaram vendo as obras, cumprimentaram o artista que os apresentou à outras pessoas. Enquanto isso Jane e Alex conversavam e falavam mal do evento, se divertindo sozinhas, enquanto bebiam champanhe e comiam os tais dos canapés.

Maura deixou Jonathan sozinho com outros convidados por um momento para ir pegar outra bebida quando foi parada por um homem alto, de pouco mais que 1.90, cabelos grisalhos, bem aparados e olhos verdes pouco mais escuros e fortes que os seus. Ele tinha uma expressão inteligente, traços fortes e estranhamente reconhecíveis para Maura. Usava um terno.

– Com licença, mas a senhorita não é Dra. Isles, legista-chefe do Estado de Massachusets? — Sua voz era grossa, tão marcante quanto seu rosto. Maura o olhou surpresa e assentiu, sorridente — Hoje é meu dia de sorte, então. Sou um grande admirador do seu trabalho. Li algumas de suas matérias e vi sua pesquisa de campo em Londres. Se me permite dizer, a senhorita é brilhante!

– Obrigada — Ela sorria, levemente ruborizada e instintivamente sentiu uma familiaridade estranha e ao mesmo tempo uma simpatia por aquele homem mais velho e desconhecido. — Mas quem é você?

– Meu nome é Matthew Damon, muito prazer — Ele esticou a mão para ela, que esticou de volta e então houve o toque das mãos. Ele jamais saberia descrever qual era a sensação de tocar a mão de Maura depois de tantos anos. — Eu trabalhava na área da ciência. Fazia pesquisas de campo também. Trabalhei durante muitos anos em um laboratório, mas agora estou aposentado.

– O prazer é meu, senhor Damon. Que tipo de pesquisas?

– Me chame de Matthew, por favor. Me sinto muito velho com o "senhor".

– Está bem, Matthew. Que tipo de pesquisas fazia?

– Pesquisas de vírus biológico.

Assim iniciaram uma conversa que durou apenas dez minutos, mas que foi muito satisfatória para ambos. Maura estava realmente impressionada com aquele homem. Bastante inteligente, educado e interessante. Apreciava arte e outras coisas em comum com Maura. Eram bastante parecidos e ele parecia já conhecê-la. E ela nem suspeitava o quanto...

Matthew, embora não pudesse demonstrar, estava tomado por uma emoção inenarrável. Por quanto tempo, por quantos anos ele não fantasiou aquele momento? Ele não desejou estar ali, conversando com ela? Quantas vezes não sonhou com isso? Depois de tantos anos, depois de mais de vinte anos ele finalmente estava diante de Maura, sendo recebido com carinho e sorrisos. Ela era como ele imaginava que seria. Sua doce e pequena Laura de sorriso sapeca e cabelos de ouro havia se tornado Maura Isles, uma das mulheres mais inteligentes do mundo.

Ele sabia que Maura nunca o perdoaria ou entenderia seus motivos para ter feito o que fez. Matthew não era mais o pai doce e amoroso que fora um dia para a pequena Laura, que agora nem se chamava mais Laura. Maura era uma mulher íntegra e de caráter que assim que soubesse quem ele era, o colocaria atrás das grades e teria vergonha de dizer que era seu pai. Por isso ele não tinha opção. Se quisesse realmente ficar com ela, como queria, teria que sequestrá-la e mantê-la presa com ele num lugar seguro para sempre, assim poderiam recomeçar e viverem felizes para sempre, como uma família, da maneira que deveria ter sido se Paddy Doyle não houvesse feito o que fez.

Inventou uma desculpa para que Maura saísse com ele lá para fora do ateliê, dizendo que queria mostrar seu carro, um modelo clássico. Assim que chegaram lá fora, Maura correu para olhar o carro de perto, encantada. Ele ficou apenas observando-a e já sentia seus olhos marejarem.

– Maura... seu nome é bem parecido com Laura, só troca a inicial... — Ele começou a dizer.

– É verdade. Nunca havia reparado nisso — Ela se virou para olhá-lo e estranhou ao vê-lo chorar. — Matthew? Está tudo bem com você?

– Agora que estou aqui com você, sim — Maura estranhou ouvir aquilo — É engraçado ver você desse tamanho, assim tão bonita, uma mulher de verdade. Ninguém diria, mas um dia você foi tão pequenina que cabia na palma da minha mão — Ela estava estática naquele momento, o olhava assustada, sem saber do que ele estava falando — Você ainda tem o mesmo sorriso. Eu amo seu sorriso.

– Matthew... quem... quem é você?

– Não tenha medo de mim, Maura. Eu não vou te machucar como eu as machuquei. Não foi de propósito, quero que entenda isso! Eu precisava... precisava avisá-lo.

– Avisar quem? Paddy Doyle? — Ele assentiu — Meu Deus! Você é... você é O Vingador? — Ela deu passos para trás, se afastando dele, completamente assustada — Você matou aquelas quatro mulheres inocentes! Por quê?

– Porque eu precisava chamar atenção do Paddy. Ele precisava saber que eu iria atrás de você, que eu iria recuperá-la! — Gritou, já desnorteado por seus próprios sentimentos, suas expressões mudavam rápido, ele realmente parecia desequilibrado.

– Recuperar? Que história é essa? O que você quer de mim?

– Maura, eu vim te buscar para irmos para casa, meu doce. Eu sou seu pai.

– Você o que? — Ela estava ainda mais assustada que antes, não conseguia nem raciocinar. Aquele assassino frio e inteligente que deixou aqueles quatro corpos em cima de suas mesas, esperando que ela encontrasse respostas, estava diante dos seus olhos e se apresentava como seu pai. — Isso é loucura! Meu pai biológico é o Paddy Doyle...

– NÃO! — Berrou, totalmente alterado, assustando-a e fazendo-a recuar ainda mais. Aquela rua do ateliê era estreita e vazia. — Ele não é seu pai! Ele te roubou de mim! Você é minha filha! Minha!

Jane que estava mais do que entendiada daquele evento, foi procurar por Maura e quando Jonathandisse que ela foi pegar bebida e não havia voltado, a morena ficou em alerta. Procurou Maura por todos os cantos e como não encontrou, ela saiu do ateliê, dando de cara com a namorada visivelmente assustada e um homem alto.


"A gente sempre viu reacender o fogo

Daquele velho vulcão


Que julgávamos parecer velho demais

Terras queimadas produziram mais trigo que no melhor abril

E quando a tarde cai, para que o céu se inflame


O vermelho e o negro não se misturam

Não me abandone

Não me abandone

Não me abandone

Não me abandone."


– Maura? Que está acontecendo? — Ela se aproximou da loira.

Matthew explodiu. Ela não estava reagindo bem com a notícia e agora a namorada policial aparecia. Isso não lhe soava nada bom. Tirou de repente seu revólver de dentro do paletó e apontou na direção delas.

– Que isso? Abaixa essa arma — Jane disse assustada, agarrando a mão direita de Maura, tensa e apreensiva — Que está acontecendo aqui? Quem é você?



– Eu sou o pai da Maura e você não vai ficar com ela, Detetive Rizzoli!

Mesmo sem ter ouvido nada da conversa, só pelo jeito que ele falou, Jane sentiu um estalo dentro de si como uma lâmpada acendendo e deduziu: Era ele. Era O Vingador em carne e osso diante delas.

– Pai? — Jane olhou para Maura, que estava tão confusa quanto ela e para ele, novamente. — Que loucura é essa? O que você quer? Abaixe essa arma e vamos conversar, Vingador. Você sabe que é procurado por todo o estado...


– Eu não quero conversar com você, Detetive Rizzoli. Eu quero conversar apenas com minha filha. Vou levá-la comigo e nós iremos conversar.

– Eu não vou com você há lugar nenhum!

– Eu não vou te deixar levá-la — Jane disse de forma calma, mas em tom sério. Não podia gritar ou intimidar um homem armado e visivelmente desequilibrado. — Abaixe sua arma e nós três poderemos conversar civilizadamente. Você terá sua chance de dizer tudo o que quiser a Maura, só abaixe essa arma...

Jane soltou da mão de Maura e ergueu suas duas mãos lentamente.

– EU NÃO QUERO CONVERSAR COM VOCÊ, PORRA! Maura é minha filha, minha Laura e eu vou levá-la comigo! Nem você e nem ninguém ficarão no meu caminho. Já tiraram-na de mim uma vez e não farão de novo. Muito menos você, Detetive!

Os três estavam ali, sozinhos naquela rua. Não havia mais nada e nem ninguém. O céu estava escuro, mal haviam estrelas. A tensão no ar era tanta que se tornava impossível até mesmo respirar. Os três estavam apreensivos, cada um da sua maneira, cada um com sua razão interior.

Matthew tremia enquanto segurava no revólver, apontado na direção das duas, mas mirado em Jane. Ele nunca quis ser um assassino. Ele nunca quis matar ninguém. Não escolheu se tornar um monstro, mas era o que ele era agora. A única coisa que o motivava a continuar vivo era a existência de Maura. Ele queria sua filha com ele e não mediria esforços para conseguir.

A loira estava assustada. Aquela história toda lhe parecia tão louca. Mas não podia acreditar e nem desacreditar. Não conhecia Paddy Doyle e nada dava certeza que ela fosse realmente sua filha. Mas também não haviam razões para acreditar num assassino desequilibrado como Matthew. Sim, ela estava com medo. Estava morrendo de medo. Ela conhecia cada sinal apresentado no rosto dele, cada pequena expressão e sabia que ele não iria se acalmar, ele não ouviria Jane e nem mesmo ela, ele não faria acordos, ele não se rendiria. Só sairia dali se ela fosse com ele. Ela não queria ir, mas se não fosse, ele atiraria em Jane. E só de pensar naquela hipótese...

– Eu vou com você, Matthew, mas se acalme, por favor — Ela disse para o espanto de Jane.

– Você o quê? Não, Maura, você enlouqueceu? Você não vai!

– Jane... — Ela a olhou e disse num tom baixo, para ele não ouvir, seus olhos verdes indicando todo seu medo e aflição. Os olhos de Jane também indicavam tais sentimentos — Se eu não for, ele vai fazer alguma loucura. Nós não podemos fazer nada... estamos sozinhas e...

– Não! — Trincou os dentes, fechando as mãos em punho e abrindo em seguida, sentia-se tão nervosa, tão quente. O sangue fervia. — Eu não vou te deixar fazer isso.

– Eu preciso...

– Venha Maura, venha, vamos embora daqui. Deixe ela vir! — Ele gritou para Jane, olhando-a com ódio. Era impressionante como seu olhar mudava completamente em segundos. Quando olhava para Maura era de maneira doce e para Jane cheiade ódio.

Maura deu dois pequenos passos e então Jane a segurou pelo pulso.

– Ela não vai! — Gritou, com coragem para ele, que se enfureceu.

Tudo aconteceu tão rápido que Jane não teve tempo de pensar.

Quando segurou no pulso de Maura, a loira virou o rosto em sua direção e por poucos segundos ela pode mirar os olhos castanhos esverdeados que ela tanto amava, porque no instante seguinte, quando Maura virou seu rosto em direção ao Vingador, novamente, vendo cada pequeno detalhe em sua expressão, ela sabia o que aconteceria a seguir. E não deixaria que isso acontecesse...

Matthew mirou o revólver na direção de Jane e atirou.

Maura não pensou em mais nada e guiada pela suas emoções se jogou na frente, sentindo algo atravessar sua pele, dilacerando-a no peito.

De repente o corpo de Maura ficou fraco, ela olhava ao redor e tudo rodava, iria cair, se Jane não a segurasse rapidamente nos braços. Maura estava completamente coberta de sangue que jorrava do ferimento de entrada em seu peito que as duas bem sabiam o que era. Um tiro. Jane sentou no chão, deitando Maura com cuidado. Colocou a cabeça dela em seu colo. Seus olhares se encontraram. Jane pôs uma das mãos abaixo do ferimento de Maura e a mesma ficou completamente suja de sangue. A outra mão tocava no rosto que estava suando.

Medo.

Angústia.

Amor.

Eram esses os sentimentos que podiam ser vistos nos olhos escuros da detetive, que estava aterrorizada, numa expressão de pânico e de impotência. Lágrimas começaram a rolar de seus olhos sem que ela pudesse fazer nada. Assim como o sangue de Maura jorrava ali sem que ela pudesse fazer nada também. Não havia sensação pior do que a de impotência.

Com o barulho do tiro, todos dentro do ateliê foram dispertados, e curiosos e assustados, eles saíram correndo lá de dentro, inclusive Jonathan e Alex, que empurraram algumas pessoas e se assustaram ao ver Maura baleada nos braços de Jane.

– Chamem uma ambulância! — Gritou para as pessoas que passavam ali e olhavam assustadas — Chamem uma ambulância! Agora!

Alex ligou para a emergência e logo em seguida para a Central.

Dor.

Isso é que estava visível nos olhos verdes de Maura, aqueles olhos verdes tão vivos e brilhantes que Jane amou assim que viu pela primeira vez, há tantos anos atrás, agora estavam sem brilho, sem vida, tão distantes. Lhe davam uma sensação terrível que era a de ver Maura agonizando em seus braços.

– Jane... Jane... — Chamava, com a voz fraca, os olhos quase se fechando.

– Eu estou aqui com você, ok? Vai ficar tudo bem. Eu não vou te deixar, não vou. Ficarei com você até a ambulância chegar e vou para o hospital.

Maura tossiu, sentia uma dor excrucitante vinda do peito, não sabia bem onde se localizava a bala, não iria conseguir olhar. Por mais que fosse uma médica-legista excepcional e possuísse um conhecimento fora de série da ciência, Maura Isles não podia fazer nada agora por si mesma. Ela era como uma das tantas vítimas que ela e Jane viam todos os dias, com uma única diferença: Ela ainda estava viva.

Com muita dificuldade, ela ergueu sua mão direita e Jane prestou bastante atenção nesse gesto. Maura conseguiu tocar o rosto da morena e limpar algumas lágrimas, até que Jane segurou na mão dela com a sua mão suja de sangue e entralaçou seus dedos.

– Jane, você me perdoa? Eu... eu... não queria... que você sofresse... eu...

– Eu não tenho do que te perdoar, você só fez aquilo pensando em salvar minha vida, assim como fez isso agora! Mas por favor, Maura, não me deixe... não me deixe de novo...

– E-u t-e a-m-o... — Conseguiu dizer, mesmo com a voz falhada e a respiração cada vez mais escassa, e de repente seus olhos se fecharam, o que deixou Jane em pânico.

– Maura! Maura! — Começou a gritar, sendo tomada pelo pânico, seu rosto ficando submerso em lágrimas. Tocou o rosto da legista suavemente e ela estava ficando gelada. — NÃO! MAURA! ACORDA! NÃO ME DEIXA NOVAMENTE! Eu também te amo... — Disse, por fim, soluçando, abraçando-a, encostando sua testa na dela. Suas lágrimas caíram no rosto de Maura.

A ambulância havia chegado, assim como várias viaturas da polícia. Frost, Korsak e Frankie prenderam Matthew, que desde que atirou em Maura havia se jogado no chão, de cabeça baixa, com as mãos sobre a mesma e a arma largada no chão ao seu lado, ele estava encolhido como uma criança, murmurava, desacreditado, assustado e completamente desnorteado "Ela está morta, eu matei minha filha, ela está morta."

Rapidamente os enfermeiros vieram com uma maca e colocaram Maura ali cuidadosamente, prendendo-a de maneira adequada e colocando a máscara de respiração, pois a respiração de Maura já estava bem fraca.

– Jane, Jane... o que aconteceu? Quem é esse homem? — Alex perguntou, se aproximando da maca e dela, a morena sequer a encarou, estava atordoada, o rosto cheio de lágrimas e o pânico estampado em seus olhos.

Frost, Korsak, Frakie e Jonathan, que chorava, também se aproximaram de Jane.

– Ele disse... disse que é pai da Maura... ele é o Vingador... — Falava atordoada e gesticulando — Ele atirou na Maura, eu... eu tenho que ir com ela.

Nenhum deles fez sequer nenhuma intenção de impedi-la. Jane entrou na ambulância, sentando-se ali e segurou na mão de Maura que estava fria. Apertou-a e ficou assim, olhando para o rosto dela, o tempo inteiro.

"Não me abandone, eu não vou mais chorar

Não vou mais falar, me esconderei aqui

Só para te ver dançar e sorrir

E para te ouvir cantar e depois rir

Me deixa me tornar a sombra da tua sombra

A sombra da tua mão, a sombra do teu cão

Não me abandone

Não me abandone

Não me abandone

Não me abandone."

Notas finais
Meu momento Shonda, porque todo mundo tem desses momentos...
Tô choro ainda.