R&I - Wish You Were Here

2 Capítulo 1 - Fantasmas do Passado


Notas iniciais
Eu havia escrito o primeiro capítulo aqui, mas na hora deu erro e acabei perdendo tudo, então tive que reescrever.
Não sei se ficou muito bom, mas... é isso aí.

Mais um dia. Mais um longo e interminável dia. Era esse o pensamento que Jane Rizzoli tinha todas as manhãs quando se levantava da cama. Para ela viver era praticamente um fardo. Sua rotina era sempre a mesma desde que havia saído da casa dos pais, ainda nova e entrado para a polícia. E mesmo depois que virou detetive, a rotina permanecia igual.

Acordava cedo, tomava banho e ia para à Homicídios. Tomava seu café da manhã preparado por Angela, que trabalhava agora na cantina desde ter se divorciado com o pai de Jane que sumiu no mundo com uma amante vinte anos mais nova. Passava o dia todo trabalhando e de um caso para o outro pouca coisa mudava... Cena do crime, suspeitos, interrogatórios, correr atrás de provas e pistas... Sempre a mesma coisa.

Depois do trabalho Jane ia ao Dirty Robber com Frost e Korsak tomar uma cerveja, mas na maioria das vezes ela ia sozinha. Quando estava mais empolgada e tinha mais tempo, ia até alguma boate GLS em busca de companhia para à noite. Apesar de algumas experiências com homem, agora ela tinha certeza quanto sua orientação sexual: lésbica.


Acordou naquela terça-feira com uma nostalgia estranha e perigosa.

Levantou da cama com cuidado, pois havia uma ruiva dormindo em sua cama. Lauren. Tomou seu banho, se vestiu, sempre uma calça social e uma blusa simples ou uma camisa. Optou por uma blusa azul clara naquele dia. Quando voltou do chuveiro, não encontrou mais a ruiva na cama. Devia estar na cozinha. Quando chegou lá, a avistou usando uma de suas camisas brancas e uma calcinha.

- Bom dia. Tentei não fazer barulho dessa vez, mas acho que te acordei — A morena disse, se aproximando e selando levemente os lábios da garota mais nova, que estava com uma tigela de cereais sobre o balcão, comendo.

- Não se preocupe, eu precisava mesmo acordar. Tenho que ir na faculdade resolver umas coisas...

- Se quiser eu posso te dar uma carona, mas você precisa se arrumar rápido, não posso me atrasar.

- Não precisa, Jane. Vou terminar aqui e posso levar a Jo pra passear pra você, depois vou pra faculdade.

- Você que sabe. Eu tenho que ir... — Se aproximou dela novamente, dando outro selinho, pegou seu distintivo, o revólver, o celular, suas chaves e foi saindo do apartamento.

Jane conhecia Lauren há quase um ano. Elas se conheceram em uma boate e desde então mantinham um relacionamento baseado em sexo e algumas vezes saiam juntas. Embora conversassem bastante e Lauren soubesse várias coisas a respeito de Jane, tinha a sensação de que não a conhecia realmente e isso a incomodava bastante, já que Lauren era completamente apaixonada pela morena e faria qualquer coisa para ficar com ela.

O grande problema é que não era correspondida. Jane era muito fechada, não só com Lauren, mas com todos. Praticamente não tinha amigos, além dos colegas de trabalho. E embora possuísse uma família italiana "porreta" como costumavam dizer e tivesse uma mãe super protetora, Jane sentia-se muito solitária. Mas ela própria havia optado pela solidão...

Por trás daquele sarcasmo, ironia e mal humor diário, Jane escondia seus verdadeiros sentimentos, ela escondia quem realmente era. Mas afinal, quem ela era? Jane não tinha resposta para isso.


Dentro do carro, enquanto dirigia para a central, começou a se sentir ainda mais estranha. Cada lugar que olhava durante o caminho lhe arremetia uma lembrança diferente do seu passado que lutava desesperadamente para esquecer. O trânsito não estava dos melhores em Boston naquela terça e logo acabou ficando presa num engarrafamento. Ligou o rádio na intenção de não ficar tão mal humorada, e se surpreendeu com a música que tocava "Wish You Were Here — Pink Floyd". Inevitavelmente suas lembranças todas invadiram-lhe a mente e a teletransportaram de volta aos melhores dias de sua vida...


Há doze anos atrás...

Jane estava desanimada com a volta às aulas. Era simplesmente terrível ir ao colégio. Não era popular, não fazia parte do grupo das "meninas más" (as mais lindas e populares do colégio) e era quase sempre motivo de chacota, já que tinha um jeito um tanto quanto masculino e só se relacionava com os garotos, mas não possuía namorado.

A única coisa boa é que era o último ano do colégio. No próximo, estaria livre para sempre de todos aqueles babacas. Mas se por um lado isso era bom, o término da escola, por outro era aterrorizante, pois ela não sabia ainda o que fazer. Seus pais não tinham condição financeira de lhe pagar uma faculdade e Jane não era uma das melhores alunas para conseguir uma bolsa. Precisava pensar no que fazer...


Maura estava vibrando de felicidade. Depois de anos estudando em colégios estranhos, onde só haviam regras e garotas, ela finalmente teria a chance, ainda que só no último ano, de estudar num colégio normal e misto. Essa oportunidade se deu quando Constance decidiu que eles se fixariam em Boston, porque ela estava com um projeto de trabalho importante por lá.

À loirinha sempre foi muito sozinha desde pequena, não tinha amigos, nunca havia namorado e ainda era BV. Passou a maior parte da sua adolescência na companhia de livros, especialmente livros científicos. Ela era extremamente inteligente e não conseguia controlar sua língua, despejando suas informações em todo mundo, o que assustava um pouco as pessoas e as afastavam dela.

Maura acreditava que indo estudar nesse colégio comum as coisas melhorariam.


[...]


No primeiro dia de aula, Maura foi abordada por um rapaz em uma das últimas aulas, quando estava organizando seu material em seu armário.

- Oi gatinha, você é nova por aqui, não é? — Maura o olhou e ficou surpresa com a surpresa do rapaz. Era alto, moreno, definido e tinha olhos azuis inteligentes. — Meu nome é Brian.

- Maura Isles, prazer. E sim, sou nova.

Ele achou estranho ela se apresentar com o nome completo, não era comum isso acontecer entre os jovens, mas não se importou.

- Prazer em conhecê-la, Maura. Infelizmente não caímos na mesma sala.

- Você é do terceiro ano também? — Ele assentiu com a cabeça.

- Escuta, Maura, vai ter uma festa daqui duas semanas, a primeira festa pra "abrir" o festival das festas que acontecem todos os anos, mas essa primeira festa vai ser na casa de um amigo meu. Você quer ir comigo? Assim você conheceria mais a galera e tal...

Maura sorrio, sentiu-se empolgada mas tentou disfarçar. Era a primeira vez que alguém, que um rapaz a convidava para sair.

- Sim.

- Beleza! Então a gente vai se falando durante essas duas semanas e depois você me passa seu endereço e eu vou te buscar na sua casa.


Maura caiu na sala de Jane. E embora durante aquelas duas semanas elas não tenham trocado absolutamente nenhuma palavra, até porque sentavam longe uma da outra, elas trocavam olhares.

Jane ficou curiosa em relação à Maura. Ela era estranha. Mas não era um estranha ruim, como todo mundo sempre achava, era um estranha especial. A loira era muito inteligente e já mostrou isso em duas semanas de aula. Fazia todas as lições de casa, respondia todas as perguntas de todos os professores de qualquer matéria, além de ser educada e uma ótima oradora.

Maura também se pegava observando Jane muitas vezes. Ela tinha um jeito bem diferente das garotas da sua outra escola e até mesmo as garotas dessa escola. Ela não fazia parte de nenhum grupinho esnobe, não era muito vaidosa. Na verdade ela se vestia de forma simples e mais largada, como um garoto. Era extrovertida, pois arrancava risada dos colegas quase em todas as aulas e gostava de aprontar. Jane quase não parava quieta em aula nenhuma e não fazia nenhuma atividade. Totalmente opostas.


O dia da festa chegou e Jane não entendia ainda o que diabos havia ido fazer lá. Se não fosse pela insistência de sua mãe, dizendo que ela precisava ir em festas, socializar com os colegas, além de sua amiga Kate só faltar chantageá-la, com certeza ela não estaria ali.

- Não acredito ainda que você me convenceu a vir nesse lugar — Dizia com aquele seu mal humor rotineiro. Estava usando uma calça jeans simples e meio rasgada, uma camiseta 3/4 branca e azul e um par de tênis.

- Pare de reclamar, Jane. Nós acabamos de chegar.

- E eu já quero ir embora... Por favor, o que viemos fazer aqui? Olhe para aquilo — Ela apontou com o indicador em direção a três garotas do grupo das "meninas más", e elas dançavam ao redor de um garoto, se esfregando. — Isso aqui parece mais um puteiro do que uma festa!

- Jane! — A amiga olhou-a repreensiva ao ver que algumas pessoas próximas à elas havia escutado o comentário — Tente ser mais discreta com suas opiniões, por favor.

- Porque eu tenho que ser discreta nas minhas opiniões se esse povo não é discreto na putaria?

- Pense pelo lado bom, pelo menos tem bebida e comida grátis.

- Preferia estar em casa comendo o cachorro quente da minha mãe e assistindo um jogo do Red Sox — Disse, ainda séria, cruzando os braços e se encostando na parede.

Kate estava empolgada com a festa, pois ao contrário de Jane sempre quis ser uma das garotas populares e aparecer de braços dados com algum bonitão do time de futebol.

A festa até então desinteressante começou a chamar a atenção de Jane, quando Maura Isles surgiu, em um vestido preto que por mais que não possuísse o excesso de brilho e enfeites que os vestidos das outras garotas a deixava deslumbrante, ao lado de Brian, o capitão do time de futebol e por um simples acaso o garoto mais cafajeste do colégio.

- Olha só quem está com o capitão do time de futebol, a nerdzinha da nossa sala. Que rápida, ein? Cheguei a pensar que ela fosse estilo santinha, estou surpresa.

Jane não respondeu nada, seus olhos estavam fixos em Maura. Como ela era linda! Como ela estava ainda mais linda! Maquiada, os cabelos sempre perfeitos, usava salto alto e andava de forma graciosa. O único detalhe que estragava sua visão era Brian de braços dados com ela. Como ela poderia estar na companhia de um babaca? Definitivamente Maura não tinha cara de quem se relacionaria com aquele tipo. Mas será que ela sabia que ele era um cafajeste?


Logo no primeiro dia de aula, na hora do intervalo, Wesley e Brad haviam desafiado Brian a conquistar e conseguir beijar a nova garota, Maura. Eles haviam feito uma aposta e Brian teria que beijá-la na festa de Wesley, na frente de todos, para que eles soubessem que ele havia mesmo conseguido. Maura nem sequer suspeitava disso, porque o rapaz era gentil com ela, e ela estava feliz demais para o seu primeiro encontro.


- Sei que não deve estar acostumada com esse tipo de festa, eu também não curto muito, acredite, mas como a galera só faz festas assim nós acabamos acostumando — Mentia descaradamente para Maura, ao perceber o olhar assustado dela ao ver como as pessoas se comportavam ali.

- Está tudo bem, Brian. Eu na verdade não vim pela festa mas sim pela sua companhia. Tem sido tão gentil comigo ao longo dessas duas semanas que eu não podia recusar seu convite.

Ele sorrio para ela. Se não fosse tão cafajeste e se achasse dono do mundo por sua beleza e dinheiro e não quisesse se mostrar aos amigos, talvez ele pudesse se apaixonar por Maura. Ela era realmente linda, e não fugia do padrão que sua família exigiria. Ela tinha dinheiro e era intelectual.

- Vamos dançar? — Ele parou e virou de frente para ela, tomando suas mãos e logo eles estavam bem próximos, dançando quase que colados, ao contrário dos outros, que embalados pelo ritmo acelerado das músicas, se esfregavam enlouquecidamente.

- Não acredito! Olha isso! A nerd dançando colada com o gostoso do Brian... — Uma menina próxima a Jane e Kate comentou.

Jane continuava com o olhar fixo na direção dos dois, séria. Não estava gostando do que estava vendo. Vê-los ali, dançando daquela maneira era incômodo e Jane não sabia o porquê.

- Não entendo. Maura não tem cara de quem se relacionaria com um babaca desses... — Jane resmungou para Kate.

- Não há o que entender. Ele é lindo e capitão do time de futebol. Que garota em sã consciência recusaria ele?

"Uma garota linda, educada e inteligente, feito a Maura", Jane pensou.


- Eu queria que você soubesse que essa noite está sendo especial para mim, Maura — Ele disse num sussurro, com seu rosto muito próximo da loira, que o olhava com um sorriso tímido.

Embora Maura estivesse ansiosa para dar o seu primeiro beijo, e achasse Brian atraente, ela não estava até agora com nenhum "sintoma" de garota apaixonada. Nada de coração disparado, nada de mãos suando ou pernas bambas. Só a timidez de sempre. Mas não ligou. Provavelmente os sintomas só surgiriam quando ela fosse em fim beijá-lo.

- Para mim também, Brian. Você não faz ideia do quanto.

- Você é a garota mais linda que eu já vi na vida.

E então ele sabia que era a hora certa. Colou seus lábios no de Maura de repente, surpreendendo ela e a todos ali que observam. Jane franziu o cenho, fazendo uma cara de reprovação.

Maura se deixou levar, e mesmo ali, de olhos fechados, sentindo os lábios do rapaz, suas reações continuavam as mesmas que antes, nada fora do normal.

Brian não teve tempo de pedir espaço com a língua na boca da loira, porque Wesley e Brad, já bêbados, surgiram do nada ao redor deles, gritando e batendo palmas, fazendo os dois se afastarem.

- É isso, Brian! O pegador do colégio arrasando corações! Pensei por um momento que você não fosse conseguir ficar com a nerd... mas você se superou, ein.

- Claro que ele conseguiria, é o cara mais foda que eu conheço — Dizia Brad, colocando a mão no ombro dele, dando um tapinha em seguida — Ganhou a aposta.

Maura estava totalmente assustada e agora sentia-se nervosa e com as pernas trêmulas, mas não era por um bom motivo. Encarou Brian e sua expressão entregava tudo. Então o que os garotos falavam era verdade?

- Aposta? Brian, o que está acontecendo aqui? Você... você... — Ela ouviu algumas pessoas rindo, olhou ao redor e viu que todos a encaravam naquele momento e sua cabeça começou a girar, voltou a encará-lo, seus olhos marejando — Você me beijou porque havia feito uma aposta? Tudo isso... as conversas na escola, a gentileza... foi tudo uma encenação?

- Maura, eu... eu... — Ele não conseguia dizer, pela primeira vez na vida se sentiu mal por fazer alguma garota sofrer — Eu não sei o que te dizer, deixa eu tentar me explicar...

- Eu não preciso das suas explicações. Sua cara está me dizendo tudo! — Ela ia se virar e ele a segurou no braço, então Maura virou e acertou em cheio um tapa na cara dele — Nunca mais encoste em mim!

E então ela saiu dali correndo desesperadamente e só parou quando estava já fora da casa e do outro lado da rua.

Todos estavam incrédulos com o que havia acontecido, mas começaram a rir e a festa seguiu.

Jane havia ficado feliz por um lado pelo tapa que Maura deu em Brian, mais do que merecido, mas por outro havia ficado completamente desolada ao ver o quão triste Maura estava. Sem pensar duas vezes, disse a Kate que iria ao banheiro e desapareceu, saindo da festa também.

Lá fora, encontrou Maura parada na esquina e correu até lá.

- Eu vi o que aconteceu lá dentro... eu sinto muito. Brian é um babaca mesmo, mereceu o tapa. Mas ei... não vale a pena ficar assim por causa dele.

Quando Maura levantou o rosto e Jane viu os olhos verdes avermelhados de perto pela primeira vez, sentiu seu coração disparar e ficou até mesmo intimidada por aquele olhar.

- Obrigada, mas não estou assim por causa dele. Estou assim porque fui idiota o suficiente de confiar no que ele me dizia.

- Acontece com todo mundo, as vezes a gente se deixa enganar pelas pessoas.

- Não devia estar lá dentro na festa com os outros? Acho que é mais interessante do que vir falar com a nova gozação da escola — Disse com um leve sorrisinho, enquanto graciosamente limpava suas lágrimas com os dedos, gesto esse que Jane fitou atentamente.

- Ah, eu não gosto desse pessoal e muito menos dessas festas. Na verdade só vim porque fui obrigada por uma amiga, mas já não estava mais aguentando ficar lá. Você meio que me salvou com essa confusão... — Lançou um sorriso para Maura que viu pela primeira vez as covinhas da morena e estranhamente seu coração deu uma palpitada, o que a deixou surpresa e confusa.

- Bom, já que essa festa não foi muito interessante para nenhuma de nós, quer ir até minha casa? Ainda é cedo e meus pais não estão.

- Tudo bem, vamos.

Maura morava perto dali, numa casa enorme. No caminho até lá, já estava sentindo-se muito melhor e até havia dado gargalhadas. Jane era mais divertida do que ela supunha pelas risadas dos colegas que sentavam perto dela. Durante todo o caminho Jane contou sobre sua família, narrou aventuras suas com seus irmãos e imitou o jeito de sua mãe falar com ela. Maura conseguia visualizar as cenas de Jane aprontando e de sua mãe gritando e isso a fazia rir. E quanto mais Jane contava, mais Maura percebia o quanto seus mundos eram diferentes.

Quando chegaram na casa da loira, Jane ficou um pouco assustada com o tamanho e com a decoração tão luxuosa do lugar.

- Uau! Se eu contar pra minha mãe que entrei numa casa dessas vestida desse jeito, provavelmente ela me daria um puxão de orelha...

Maura soltou uma risada e olhou-a.

- Meus pais gostam de conforto.

- Dá pra perceber... mas você também gosta. É toda elegante. De todas as garotas do colégio você é a que se veste melhor.

A loira não entendeu bem o por quê, mas se sentiu corada com aquele comentário que não era nada demais. Devia estar com o cérebro afetado depois dos acontecimentos daquela noite.


Elas estavam sentadas no sofá agora.

- Mas você não me falou muito sobre os seus pais...

- É que ao contrário de você eu não tenho histórias engraçadas e interessantes de passeios em família. Sou adotada e não possuo irmãos. Meus pais são muito ocupados e acho as vezes que eles nem ao menos ligam pra mim — Disse desanimada, abaixando a cabeça.

Num impulso Jane tomou as mãos da loira, que estranhou o toque, mas não recusou e então ergueu o rosto para encará-la. O olhar que trocaram agora foi o mais intenso, até então.

- Não conheço seus pais, mas mesmo que eles sejam ausentes, é claro que ligam pra você. São seus pais. Eles te amam e devem saber que tem uma filha muito especial... — Dizia com aquela voz rouca, cheia de sinceridade — Você é uma garota legal, Maura. De verdade.

- Sou tão legal que não tenho amigos. As pessoas me acham estranhas, Jane. Eu afasto todo mundo com essa minha mania incontrolável de falar demais, de explicar tudo. E quem se aproxima de mim, acaba sendo pessoas como Brian.

- Você não é estranha, só é... diferente. E isso que te torna especial. Brian é só um imbecil que não sabe valorizar uma garota como você — Porque você está dizendo isso, Jane? Ela se questionava mentalmente e sentiu pelas mãos de Maura que ela estava trêmula — Você é especial e não pode se deixar abalar pelo que babacas como o Brian e aquelas pessoas da festa pensam ou falam ao seu respeito, ok?

- Obrigada — Maura disse, sentindo uma emoção tremenda e seu coração batia acelerado.

Ficaram em silêncio, afundadas no olhar uma da outra, as mãos ainda juntas, quando Jane decidiu que era hora de cortar aquele toque, pois não estava conseguindo entender seus sentimentos naquele momento. Estava sentindo-se estranha. Tão estranha quanto Maura.

- Acho melhor eu ir agora. Está começando a ficar tarde e eu fui embora da festa sem avisar minha amiga. Te vejo segunda-feira no colégio? — Levantou do sofá rapidamente e foi se encaminhando em direção a porta, estava tão nervosa que esbarrou em um dos móveis e quase deixou cair um vaso — Desculpa, eu sou meio desastrada.

- Não tem problema — Maura sorrio de forma doce enquanto levantava do sofá e a seguia até a porta. "Ela está nervosa assim como eu. Mas porque eu estou nervosa?". — Sim, nos vemos segunda-feira na escola — Abriu a porta para Jane, que saiu. — E Jane...

- Sim? — Ela se virou e seus olhos se encontraram com o de Maura novamente.

- Obrigada. Essa noite só não foi a pior da minha vida porque você apareceu.

A resposta de Jane foi aquele sorriso largo e sincero com suas covinhas expostas. Virou e foi embora para casa, experimentando uma sensação de felicidade eufórica que até então desconhecia. Ela e Maura haviam acabado de se conhecer, ou melhor, de começar a se conhecer, mas dentro de si Jane já sabia que queria ela em sua vida.


Dias de hoje...

O trânsito permanecia o mesmo. A música já havia acabado. Jane só voltou para sua realidade quando viu pelo vidro do carro uma figura loira, de perfil, passando, atravessando a rua. Seu coração disparou ferozmente.

A mulher estava um pouco diferente, mais encorpada, o cabelo tinha outro corte, suas roupas eram adultas e bem mais elegantes do que há anos atrás, mas era ela. Jane tinha certeza que era. Era Maura Isles. Mas o que ela estava fazendo em Boston depois de todos aqueles anos, depois de ter simplesmente sumido de sua vida?

Notas finais
Está aí o primeiro capítulo meninas. Espero que gostem. Até o próximo.