Querido Hater

15 Capítulo 15


Notas iniciais
Não me crucifiquem por gostar do Tadeu, é mais forte que eu. E digamos que eu tenha me empolgado um pouco haha Aproveitem ♥

Eu estou perdida, definitivamente estou perdida na minha – antes normal – agora confusa vida. Se por acaso algum dia eu descobrir que vivemos numa matrix, eu juro por tudo que há de mais sagrado que dou um soco na cara do responsável, ou irresponsável, tenho certeza que não passa de um garotinho doente com uma mente sádica que vive jogado no sofá com a boca cheia de gorduras trans. Passei a noite inteira virando de um lado para o outro refletindo sobre tudo que veio acontecendo desde a chegada do meu querido hater, sério, esse moleque deve ter algum tipo de vírus ou fumaça tóxica que empesteia tudo a sua volta, não é possível que um ser humano normal traga tanta desgraça para um lar. Okay peguei pesado, mas entre o zika vírus e continuar com essa nuvem negra, eu prefiro as dores e as manchinhas vermelhas.

Depois que o Tadeu deu o fora da minha casa, fiquei parada olhando tudo ao redor tentando achar a minha linha de raciocínio lógico mais uma vez, o que foi bem difícil já que aquelas palavras ditas a centímetros da minha cara pareciam dançar e zombar da minha cara. Ainda tinha todo esse lance de passado e proximidade, viver me escondendo ou dando pontapés em todo mundo era bem mais legal do que esse tapa de realidade. Meu pensamento não faz sentido algum, mas quem se importa? Meu restinho de sanidade sim, e era a isso que estava me segurando para não me trancar dentro do banheiro e me balançar como uma lunática enquanto repito frases desconexas.

Só que tuuudo isso que aconteceu na cozinha foi culpa minha, se eu não tivesse ligado para aquele maldito número, o babaca não teria tido a brilhante idéia de vir atrás de mim e acabar comigo com todos aqueles toques e... Céus, como eu queria ser beijada por ele.

Enquanto eu divagava pelo cenário caótico dentro da minha cabeça, eu observava Malu à minha frente ainda tentando raciocinar depois de tudo o que eu havia lhe contado. Estávamos sentadas na arquibancada da quadra poliesportiva enquanto matávamos a primeira e a segunda aula para fofocar.

— Você não pode deixar para me contar todas essas coisas de uma só vez — ele falou finalmente. Dei de ombros.

— Você sumiu, não iria contar tudo por telefone, as chances de eu fazer merda seriam bem maiores.

Ela riu pelo nariz não acreditando no que eu havia acabado de dizer.

— E olha só no que deu — ela tem um ponto — Pelo menos agora você sabe que não sente mais nada por ele — mordi a unha desviando o olhar dela — não é? — dei se ombros novamente, o que lhe arrancou um suspiro exasperado pela milésima vez — meu Deus do céu, Capitu.

— Não fale como se fosse um grande exemplo de autocontrole — disparei — se no fundo ele ainda mexe comigo, não é culpa minha.

Ou talvez seja.

Todos sabemos que quando você tem um assunto mal acabado, aquilo fica te rodeando por tempo demais, e às vezes sempre fica uma dúvida, um “e se” que nunca vai embora quando você fica cara a cara com a pessoa. Parte de mim se culpa diariamente por nunca fazer terapia ou procurar superar aquilo, era como se eu ficasse presa num looping infinito de “Tadeu mentiu pra mim”.

— Não estou julgando por você ainda sentir algo por ele, só me preocupo com você. Eu te conheço o suficiente pra saber o quanto isso está te machucando — olhei novamente para seu rosto, havia preocupação, uma preocupação genuína — pensei que esse lance com o Bernardo estava te fazendo esquecer aquele traste.

— Não existe lance algum com Bernardo — repliquei mais rápido que um raio, o que a fez rir — só nos beijamos algumas vezes porque somos jovens e selvagens.

Foi a minha vez de rir, sendo acompanhada por ela.

Ainda não havia conversado com Bernardo sobre a nossa saída e nem todo aquele drama na praia, estava evitando tropeçar nele e provavelmente ele também estava me evitando, pois não havia sequer feito uma tentativa de me irritar, nem uma piadinha besta pela manhã, se mantinha ocupado e longe, tão desconfortável quanto eu.

Malu se remexeu na minha frente alisando a barriga e respirando fundo com o provável chute que Constança lhe dera.

— Está tudo bem? — perguntei enquanto ela se levantava.

— Sim, só está difícil — olhei para sua barriga enorme e prestes a explodir — acho que deveria colocar uma pedra naquele assunto, sabe, deixar pra lá — o assunto com T — sei que é fácil para mim falar, mas penso que esquecer seja a melhor saída.

O sinal soou anunciando o fim da nossa segunda aula, era nossa deixa.

Colocar uma pedra no assunto parecia uma boa ideia, eu já estava cansada de todo aquele drama, pensando bem, agora aquilo realmente parecia uma grande besteira de adolescente. O famoso bullying.

Descemos dali com cuidado, a última coisa que eu queria era que ela tropeçasse e parisse na escola, pior, nos meus braços.

[...]

Quando as aulas terminaram e eu voltei para casa de ônibus, ignorando o fato do meu Querido Hater ter ido na direção oposta com Marina, me apressei a tomar um banho caprichado e fui tentar escrever algo de útil para a minha página, não consegui nada, minha cabeça estava à mil pensando em todos os acontecimentos. Logo depois do jantar, fui dormir para poder acordar com as galinhas e estudar o conteúdo das aulas que matei, não iria ficar para trás nem mesmo por conta da minha terapia.

Já pensou em se internar numa clínica psiquiátrica ou arrumar um namorado?

Eu sorri lembrando do primeiro comentário feito pelo maldito num dos meus textos.

Dormi sorrindo naquela noite.

[...]

Ouvi três batidas na porta abafadas pelos fones de ouvido, rapidamente afastei-os me sentando nos calcanhares esperando minha mãe abrir a porta após sua contagem mental. Era tipo, se eu chamar e você não responder, eu vou invadir seu quarto e te forçar a interagir. Minha porta não tinha tranca, só a maçaneta.

Lentamente ela empurrou a porta e enfiou a cabeça para dentro, certificando-se que eu estava acordada. Um sorriso cansado brotou em seus lábios enquanto ela se arrastava para dentro com seus chinelos barulhentos.

— Não vai trabalhar hoje? – perguntei ao notar seu cabelo preso num rabo de cavalo torto e o rosto sem maquiagem.

Ela se jogou em minha cama arrastando para o meu colo como se apenas se sentar fosse um sacrifício.

— Eu ia, mas quando fui escovar os dentes acabei vomitando – respondeu com os olhos fechados – duas vezes.

Torci o nariz imaginando a cena. Odeio vômito, até a palavra me dá ânsia. Balancei a cabeça deixando as imagens de lado e voltei-me para o rosto pálido da minha adorável mãe, enfiando os dedos em seu cabelo maravilhosos.

— Isso é nojento – comentei fazendo-a me fitar.

— Seu pai disse o mesmo – engoliu fazendo uma pausa – seu padrasto, aquele que tem uma pegada-

— Ah pelo amor de Deus – ri empurrando-a do meu colo.

Minha mãe riu sentando-se para me encarar. Notei que seus olhos estavam fundos e as olheiras- que eu nunca tinha visto – pareciam bem escuras, uma nuvem de preocupação pairou sobre minha cabeça e hipótese dela estar doente me fez estremecer, desde que eu era pequena quando Laura ficava resfriada automaticamente eu, a pequena Capitu, entrava em pânico, queria ficar em seu encalço o dia e a noite inteira observando cada movimento, e bem, parece que isso não mudou ainda.

Esticou uma mão em minha direção afastando uma mecha do meu rosto, descendo para meu rosto e queixo acariciando levemente minha pele.

— Você se parece tanto com ele – seus lábios se curvaram num sorriso simples, mas carregado de sentimentos – queria que uma amiga me ligasse dizendo que um dia fiquei bêbada e transei com o Claudio sem o conhecer, e acabei engravidando.

Tive que rir daquilo ficando roxa de vergonha depois. Tinha que ser a minha mãe mesmo.

— Então eu iria escrever um livro de romance, desses bem água com açúcar que você faz – brinquei puxando o travesseiro para meu colo.

— Aí deixaria de ser minha filhinha implicante e de mal com a vida – concordei erguendo as sobrancelhas. Como diz aquela música, se não fossem as minhas malas cheias de memórias não seria eu. – Mas, eu passei aqui pra saber se está bem depois de ontem, talvez eu tenha forçado a barra convidando-o. Jamais quero me intrometer na sua vida dessa forma.

Um arrepio subiu por cada pelo do meu corpo, aquilo era tão mãe que quase meus olhos se encheram de água.

— Acho que estou bem com isso – falei

— Que bom. Apesar de eu achar que vocês combinam muito ainda, com diferença de idade e tudo

Suspirei relaxando os ombros, era melhor falar logo com a minha mãe, se tem uma coisa que aprendi nesses anos de convivência com uma escritora é que por mais que uma coisa te faça mal, você tem que compartilhar com quem mais confia – nesse caso é a minha mãe. Ela me encarava com expectativa, em seus olhos eu podia ver como estava receptiva, achei ótimo, isso pode chocá-la pra valer.

— Mãe, promete que não vai surtar se eu te contar uma coisa?

Ela ergueu a sobrancelha desconfiada, ajeitou-se na cama endireitando a postura para me ouvir.

— Posso tentar – respondeu piscando um dos olhos.

Tudo bem é só respirar fundo e despejar tudo, o máximo que pode acontecer é alguém parar na cadeia. Okay, isso não amenizou o meu nervosismo.

— Não terminamos por causa da faculdade dele — comecei — terminamos por que fazer eu me apaixonar e aceitar namorar com ele, era só uma aposta idiota com os meninos da academia — seu olhar se suavizou por um instante — Só o Claudio sabe, e a Malu também. Não queria que ficasse zangada comigo ou triste, você sempre me disse para tomar cuidado com os garotos, mas adorava o Tadeu e todas as palhaçadas que ele fazia, eu pensei que se contasse, ia parar de escrever seus clichês e-

Senti sua mão alcançar a minha.

— Não, eu não ia ficar zangada com você — suas palavras acalmaram meu coração que já acelerava descontroladamente — e nem pararia de escrever porque minha bonequinha passou por um evento canônico na vida de todo adolescente. A primeira desilusão amorosa.

Revirei os olhos.

Não sei se estava aliviada ou irritada por ela não ter surtado ou ameaçado matá-lo.

— Esperava gritos.

Voltei a encará-la por um instante. Minha mãe estava pacífica demais para seu temperamento, ou ela não se importava comigo, o que eu duvidava muito. Ela respirou fundo e parou por um segundo, olhou para meus corpo e uniu as sobrancelhas numa expressão desgostosa.

— Ele te tocou? — prendi a respiração em choque — ele me contou sobre a aposta e tudo mais, mas… Ele tocou você?

Ignorei completamente sua pergunta me atentando apenas ao fato de que ele havia contado a ela e mesmo assim ela o levou até nossa casa para ficar a sós comigo.

— Você já sabia?! — eu quase gritei.

Minha mãe se levantou com o nervosismo exalando pelos poros e quase berrou de volta.

— Pelo amor de Deus, Maria, me responda. Ele tocou você?

— Não, ele nunca foi desrespeitoso comigo — o que era verdade, Tadeu nunca ousou tentar passar de beijos e carinhos inocentes, nada de cunho sexual.

A vi exalando aliviada e então voltou a se sentar na cama.

— Eu acreditei quando ele disse que queria se desculpar, primeiro eu o xinguei, claro — esticou a coluna — demorou até que eu aceitasse ajudá-lo a se desculpar. Mas não sei o que faria se você me dissesse que ele havia se aproveitado de você.

Não sei se minha boca conseguia ser aberta mais do que já estava, então me limitei a saltar da cama. Então quer dizer que aquele... Aquele... andei de um lado para o outro movendo as mãos freneticamente tentando me controlar, como se já não bastasse ter que contar tudo para a minha mãe e quase chorar novamente, ainda tinha que ouvir que o próprio canalha havia contado toda a verdade sem nem ao menos comentar? E ainda teve coragem de quase me beijar!

— Aquele babaca! – berrei virando-me para minha mãe – como ele teve coragem de fazer isso? Me expor pela segunda vez? Que idiota! E você sabia de tudo e não me contou, se aliou com aquele desgraçado. Não pensou que talvez eu estivesse magoada demais para perdoar? – apontei indignada.

— Maria, eu não sabia que isso te magoaria. Pensei que fosse coisa de adolescente.

Apertei os olhos em sua direção voltando a andar de um lado para o outro tentando não ter um ataque de nervos – outro. Mas o Tadeu me paga, ah se paga.

Caminhei até o guarda-roupa arrancando de lá meu uniforme sem me importar em bagunçar as outras roupas dos cabides, catei qualquer sutien e sai do quarto fuzilando minha mãe com o olhar. Traidores, eu estava cercada de traidores. Me atirar aos tubarões seria o próximo passo?

— Filhinha, não faz assim, a mamãe tá doente – tentou fazer seu joguinho emocional. Respirei fundo ignorando sua tentativa de me fazer continuar aquela conversa.

Eu estava realmente me abrindo pra ela.

— Wow, calma aí Capitu – me bati com o outro idiota que fez questão de me segurar pelos ombros rindo.

— Sai da minha frente que eu não quero ver essa tua cara também – esbravejei empurrando-o.

Ele riu abaixando-se para pegar alguma coisa e ergueu a mão segurando minha calcinha.

— Sexy – comentou balançando a cabeça como um retardado – escolheu em minha homenagem?

— Me dá isso – puxei a peça de sua mão apressando-me para o banheiro – vê se não enche o meu saco.

— Você tá uma gracinha hoje – gritou rindo.

Bati a porta me apoiando nela. Inferno de vida.

Arranquei minha roupa e me joguei debaixo da água quente, não demorei muito ali, a raiva que eu estava sentindo daquele professorzinho gostoso nem me deixava pensar direito, só queria gritar com ele e xingá-lo por essa falta de caráter crônica que tinha, e pensar que eu quase lhe dei uma nova chance de sermos aluna e professor normais. Só que aquele idiota tinha que se meter na minha vida, esse era o meu segredo e o meu problema. Argh.

Enrolei-me na toalha apanhando minha roupa novamente, devia estar louca quando as trouxe para o banheiro, eu nunca me troco aqui nesse cubículo. Entrei em meu quarto batendo a porta ao ver Bernardo me encarando do seu computador, mais um idiota que continuava em minha vida. Olhei meu celular procurando a resposta da Malu, tentei ligar para ela a manha inteira e não dava nada, talvez fosse melhor ir até sua casa, mas conhecendo bem a amiga que tenho, arrisco a dizer que está apenas dormindo com o celular desligado.

Me vesti rapidamente dando pulinhos para entrar na calça – presente de mamãe – que insistia a encolher sempre que era lavada, soltei o cabelo que pela primeira vez não gritou pelo pente, estava fabuloso caindo por minhas costas em ondas, então, nada de chapinha hoje como o Bernardo. Ri lembrando-me da praia. Não, esqueça isso. Respirei fundo olhando meu reflexo e puxei a mochila para meus ombros catando o fone em cima da cama, que como todos em todas as partes do globo, estava embolado em milhares de voltas diferentes, praguejei sozinha enquanto caminhava desenrolando aquele emaranhado de fio.

Ouvi o hater me chamando, mas quem se importa com o que ele quer quando se tem um ex-namorado linguarudo ainda com cabeça por aí? Concentrei-me no que fazia mordendo o lábio, algo que todos fazem quando estão ocupados, comecei a descer a escada lentamente, degrau a degrau sem olhar para frente ou qualquer outro lugar além das minhas mãos. Bernardo me chamou mais alto e quando fui me virar para mandá-lo a um lugar bem distante, escorreguei no degrau quebrado e caí de bunda como uma criança de cinco anos.

— Mas que droga! – reclamei sacudindo as mãos.

— Viu só? Eu tentei avisar – o hater falou enquanto descia a meu encontro.

Olhei para trás vendo-o se aproximar com a mochila nos ombros também.

— Talvez se tivesse dito “cuidado com o degrau, Capitu” eu teria entendido – disse alterando a voz.

Talvez se tivesse dito— repetiu imitando minha voz irritantemente – Você parece criança quanto está irritada.

Bufei ensaiando uma torrente de xingamentos agarrando sua mão para me levantar, e por sacanagem da vida estávamos bem próximos mais uma vez, instintivamente olhei para sua boca lembrando daquele beijo maravilhoso. Como seria bom beijá-lo novamente.

Não! Fiz uma careta tentando sentir repulsa por meus pensamentos, mas o miserável era tão bonitinho que nem isso conseguia ter.

— Se machucou? – perguntou. Só então percebi que ele me encarava de volta, não com aquele ar de superioridade ou como quem está com uma piada pronta, parecia preocupado de verdade.

Desviei os olhos apoiando-me no corrimão gemendo de dor assim que apoiei o pé. Olhei para trás vendo-o com a sobrancelha arqueada como se dissesse, “jura?”.

— Só deu um mau jeito – falei antes que ele gritasse aos quatro ventos que eu havia caído.

Mas também que maldição tem nessa escada, primeiro eu caio quando estou fugindo dele e agora isso. Deveria mandar um padre benzer esse lugar, só pra garantir. Só pra garantir que eu não vá cometer um pecado da próxima vez que olhar para o meu hater.

Assim que descemos a minha mãe apareceu com a mesma cara cansada de antes, só que dessa vez com a chave do carro em mãos, olhei para ela e logo me lembrei do ocorrido de mais cedo. Não estou boa para traidores essa manhã. Fui para a cozinha procurar alguma coisa para comer, meu pé ainda doía, mas dava para andar pelo menos mancando, péssimo dia para me machucar, ainda precisava resolver muitos pepinos.

Abri a geladeira catando tudo que eu conseguia para fazer um sanduíche e coloquei no pão, enfiei meu fone no bolso da mochila e voltei para a sala me afogando no achocolatado. Bernardo continuava de pé conversando com minha mãe, dei a volta em mim mesma procurando por Claudio, queria gritar para ele que me machuquei por causa daquele degrau que ele já devia ter consertado.

— Capitu, você vai pra escola com o Be? Emprestei meu carro a vocês – pisquei encarando os dois. Bernardo balançava as chaves pra mim sorrindo.

— Pode ser – dei de ombros voltando a mancar com a boca entupida de pão.

Me despedi da minha mãe e saí mancando logo atrás do garoto que vez ou outra olhava para trás fitando meu pé machucado. Pronto, agora eu tinha um enfermeiro para cuidar do meu machucado.

Cruzei os braços esperando que ele destravasse o carro, mas ele parou abruptamente girando nos calcanhares.

— Seu pé tá legal mesmo? – apontou com a chave.

Olhei para baixo mordendo o lábio.

— Lateja um pouco – respondi virando-o para um lado e outro sentindo uma fisgada – não é nada sério, vamos logo, tenho uns assuntos pra resolver.

Abaixei a cabeça para olhar mais uma vez o meu tênis, torcendo para que não tenha sido nada demais mesmo e voltei a andar vendo os sapatos de Bernardo logo antes de bater contra seu corpo.

Ele ainda me encarava. Algo nele estava diferente hoje, parecia mais sério do que conseguia ser.

— Me deixa ver – pediu num suspiro.

— O que? Não! – protestei dando um passo para trás – Olha só, o pé é meu e eu sei que consigo, não foi nada. A última coisa que quero é ter você me enchendo a paciência.

Sua sobrancelha se ergueu em descrença.

— Tudo bem, não vou insistir mais, só não venha reclamar comigo ou me pedir ajuda.

Mexi os ombros para cima e para baixo como uma criança birrenta que diz: Por mim.

Entramos no carro em silêncio, agarrei minha mochila com força, teimei em olhar para seu rosto novamente bem na hora em que ele me encarou. Voltei a fitar a rua no mesmo instante ouvindo seu riso.

— Idiota!

— Vaquinha.

[...]

Eu estava furiosa, queria socar o Bernardo com luvas de gesso. Da pra acreditar que o retardado trancou meu celular no carro? Tudo porque eu estava cantando a minha música favorita e gritei algumas vezes, não que tenha sido um grito alto daqueles que deixam sequelas até na alma, foi pra acompanhar a música.

Mas não importa mais, tive que passar todas as aulas desenhando corações tortos e flores flutuantes para poder absorver alguma coisa da matéria, ouvir música durante o intervalo nem pensar, tive que pedir o celular de Marina emprestado para ligar pra Malu, depois de duas tentativas a mãe dela atendeu e disse que a minha amiga não queria atender nem falar com ninguém, estranhei, ela sempre me atendeu normalmente, podia o mundo estar acabando dentro da sua casa.

— O que houve hoje? – Marina perguntou jogando-se do meu lado na sala do jornal.

Estávamos organizando algumas matérias para o inicio da próxima semana, quem entrasse nessa sala e visse a bagunça me chamaria de irresponsável, só que a madame aqui só passou um dia longe de tudo. Por falar nisso, soube que a matéria sobre o professor Tadeu ter se tornado fixo deixou as garotinhas desavisadas um pouco animadas demais.

— Sobre...?

— Ah, você o Bernardo quase saíram no tapa hoje cedo – respondeu como quem não queria nada.

Olhei para ela enquanto guardava as últimas folhas na pasta maior.

— Isso – revirei os olhos – ele trancou meu celular no carro.

— Jura?! – ela riu como se aquilo tivesse muita graça.

Neguei com a cabeça tapando o rosto com as mãos, meu tornozelo começava a reclamar novamente.

— Ele é um idiota, devia controlar mais o seu peguete.

— O que?! Bernardo não é meu pequete, ficamos algumas vezes, mas ele sempre deixou claro que era apaixonado por outra garota, sabe?

Então o verme era apaixonadinho? Que fofura.

— Não sabia disso, mas não me interessa – comentei me levantando – Quero saber mesmo é da Malu.

— Ah, pois é – começamos a andar para a porta – sempre que eu ligo a mãe dela atende e diz que a filha não pode atender, é estranho. Devíamos ir lá.

— Estou indo agora... Quer dizer, depois de resolver uma coisinha, se importa de me esperar?

Ela fez que não com a cabeça e sorriu.

Apesar da distancia repentina que ela pôs entre nós, eu ainda gostava dela, deve ter tido seus motivos para se afastar e minha intuição gritava que era por causa daquele hater maldito. Ouvi uma conversa na sala que a Lívia estava ficando pra valer com ele, talvez seja ela a azarada, por outro lado, ter o Bernardo apaixonado por alguém só me dá mais esperança de que o resto do ano pode ser um pouco mais legal que esse início.

— Machucou o pé? – perguntou enquanto descíamos a rampa para o andar de baixo.

— É, só um pouco, não foi nada – dei de ombros fingindo que aquilo não estava doendo como o diabo.

Caminhamos por mais algum tempo até eu mandá-la pra fora, precisava falar a sós com aquele canalha sem escrúpulos.

Fui olhando de sala em sala procurando por sua cabeça premiada, por sorte não tinha muita gente na escola, o que me dava mais liberdade para gritar com ele assim que o encontrasse. Os professores geralmente ficavam no último andar escondidos dos alunos e seus barulhos constantes, não os julgo, faria o mesmo se estivesse na mesma posição. Ter que aturar esses adolescentes implorando por atenção era cansativo até pra mim.

Parei abruptamente no corredor dando alguns passos para trás. Ali estava o nosso premiado do dia, de pé no canto da sala olhando pela janela, com os braços para trás enquanto eu estudava a melhor forma de matá-lo à distância.

Dei alguns passos para dentro, não tão silenciosamente quanto eu queria, pois o meu pé agora se arrastava, reprimi a vontade de xingar enquanto me aproximava, ele olhou para trás engolindo em seco assim que me viu. Pude ver o pomo de adão subir e descer quando seus olhos encontraram os meus.

Coragem Capitu.

— Maria – sorriu movendo-se lentamente, talvez receoso – o que veio fazer aqui?

— Porque contou a minha mãe o que aconteceu?

Tadeu não respondeu nada, abriu a boca um pouco surpreso com a minha pergunta.

— A sua mãe te contou? – devolveu coçando a têmpora esquerda.

— Pra você ver que ela não guarda muito bem os segredos – lembrei – nem você.

Ele riu com as mãos nos bolsos da frente da calça. Ele estava rindo, como antes.

Foco.

— Você é engraçada – disse me encarando – diz que me odeia, que não quer me ver e – apontou para meu corpo inteiro – olha só onde está.

Abri a boca em descrença.

Olha eu aqui? Mas que droga esse verme tem na cabeça?

— Eu vim aqui justamente para arrancar a sua língua – vociferei dando um passo em sua direção – que diabos você tinha na cabeça pra contar tudo à minha mãe? Não foi suficiente me humilhar naquele dia?

— Ei, espera – ergueu a mão para me calar – eu não fiz isso pra te humilhar, contei a sua mãe porque não aguentava mais fingir que nada havia acontecido, e era o único jeito de tentar me desculpar.

Ri em descrença e desafio. Sei que ele odeia quando eu faço isso.

— Claro, tava demorando pra ele começar com esse papo de arrependimento. Conta outra, já disse que não acredito.

Cruzei os braços mordendo o interior da boca esperando ele começar com suas lamúrias, não era difícil imaginar tudo que ele começaria a dizer a qualquer momento. Me desculpa, fui um idiota, não devia ter feito aquela maldita aposta e blábláblá.

— Não tô nem aí se não acredita – começou dando um suspiro cansado – isso estava me queimando por dentro, mas agora, não é meu problema a sua descrença, eu mudei e queria te provar isso, pois não a queria sofrendo e se martirizando por algo que não foi sua culpa. Tudo bem se quiser se afastar, sumir da cidade ou nunca mais me dirigir uma palavra – ergui a sobrancelha ouvindo tudo atentamente – o que importa é que minha consciência está limpa.

— Isso é sério? Porque eu ainda não entendo o motivo de você ter me exposto dessa forma ridícula e egoísta.

Ele suspirou alto me deixando um pouco mais irritada e apreensiva, pois ele continuava se aproximando.

— Você continua irritante – resmungou passando a mão pela testa – mesmo eu tendo dito tantas coisas contado tudo a sua mãe correndo o risco de levar uma surra do Claudio ou coisa pior você não acredita em mim – dei alguns passos para trás, ou pelo menos tentei, para me afastar um pouco mais dele – não sou um monstro, muito menos louco, se fosse não estaria dando aulas.

Engoli em seco sentindo minhas pernas vacilarem e aquela estranha vontade vomitar apareceu.

— É melhor você se afastar, ser meu professor já está de bom tamanho para quem transformou minha vida num filme da Disney.

— No que? – perguntou confuso.

Meus olhos passearam por seu belo rosto, descendo para seus ombros, parecia que o ar estava paralisado, não conseguia ouvir nada além das nossas respirações pesadas. Tadeu tinha aquele sorriso delicado nos lábios, era como uma anestesia para mim. Droga, se concentra, você não veio aqui para se deixar levar por esse sentimento esquisito.

— Sabe, me seduzir, me humilhar e depois se dizer arrependido – revirou os olhos divertido – mas okay, eu aceito as desculpas e nunca mais tocamos nesse assunto.

Fiz uma careta para o que eu havia acabado de dizer, não vim falar isso, queria arrancar sua língua e jogar para os cães. Mas é aquele ditado não é mesmo?

Um enorme sorriso iluminou o rosto de Tadeu, pareceu não acreditar naquilo por alguns segundos, pois me encarava com o dedo erguido balançando a cabeça negativamente. Só faltava ele começar a falar que não acreditava em mim.

Me afastei um pouco mais sentindo meu pé queimar, grande vida essa minha. Ouvi o som de passos firmes e arrastados que eu reconheceria até no meio da multidão, revirei os olhos virando-me para a porta esperando só aquele ser surgir.

— Maria – Tadeu me chamou agarrando meu pulso. Péssima ideia, péssima ideia – prometo que não vai se arrepender.

Meus olhos estavam grudados em sua mão, eu podia arrastar o meu braço e correr mancando até a porta para pelo menos aparentar que não estávamos ridícula e perigosamente próximos.

Sorri nervosa erguendo o olhar para seu rosto.

— Capitu – virei-me para a porta novamente vendo Bernardo com as mãos nos bolsos nos encarando.

Certo, dois homens me chamando ao mesmo tempo, um deles eu odeio e o outro eu tenho uma leve queda. Tá bom, agora eu tenho que descobrir por qual deles eu sinto o que.

Puxei meu pulso lentamente da mão do professor, abrindo e fechando a boca procurando pelas palavras.

— Vamos pra casa – o hater falou com a voz grossa pela primeira vez.

Juro que tentei não rir.

— Tudo bem – respondi lançando um olhar confuso para o outro – até mais, professor.

[...]

É, eu estava muito ferrada, agora sim minha vida se tornaria um inferno com esse garoto me enchendo de perguntas e fazendo insinuações na frente dos meus pais, provavelmente também seria chantageada das maneiras mais escrotas.

Apertei o passo tentando acompanhá-lo pelo corredor da escola, ele só havia olhado para trás uma vez, e depois manteve os passos firmes para a saída, minha vontade era xingá-lo bem alto.

— Bernardo – o chamei apoiando-me na parede para ergueu um pouco o pé machucado – Bernardo!

Ele parou no mesmo instante, por um momento pensei que ele fosse me xingar de algo bizarro e continuar andando, mas ele se virou, me viu parada com o pé levantado e voltou para onde eu estava. Passou a mão pelo cabelo e bagunçou ainda mais deixando claro que estava irritado. Sou uma idiota por não ter percebido antes.

Prendi a respiração sentindo a dor crescer – se é que era possível. Aquilo estava incomodando de um jeito absurdo, pensei que aguentaria até voltar para casa, um gelo poderia resolver.

— O que foi? – perguntou a alguns passos.

Mordi o lábio temendo responder, ele disse que não ligaria se piorasse.

— Meu tornozelo – respondi num fiapo de voz – está doendo.

Me encarou de maneira estranha, talvez querendo me matar.

— Claro que está – opa – eu devia te fazer andar até em casa, só pra aprender a não brincar com essas coisas.

— Como se você fosse algum tipo de médico – rebati.

— E realmente não sou, então vá procurar algum para te ajudar.

E no segundo seguinte ele estava virando-se de costas para sair. Engoli a vontade de pedir para ele voltar e voltei a andar o mais firme que podia, não ia entregar os pontos tão facilmente, tudo o que esse insuportável queria era um pretexto para ficar me enchendo a paciência, gritando aos quatro ventos que eu implorei por sua ajuda tão...

Um par de braços me arrancou do chão abruptamente me fazendo gritar.

Ele me olhou por um instante e voltou a andar me ajeitando em seus braços.

— O que você pensa que ta fazendo? – brandei segurando – me em um de seus ombros.

— Te ajudando, não ta vendo?

Notas finais
Esse capítulo foi reeditado e reescrito.