Querido Hater

16 Capítulo 16


Notas iniciais
Oi você que está lendo, estou reescrevendo e reeditando a maior parte, então caso do nada tenha mudado algo, me desculpe haha modéstia à parte, a história agora está beirando a perfeição. Aproveitem ♥

Eu encarava Bernardo diante de mim, ele estava sentado num banco ao lado da fila de cadeiras onde eu estava, mantinha os cotovelos nos joelhos e o queixo apoiado na mão enquanto fitava as unhas da outra, parecia bem distante, em nenhum momento me lançou um olhar sugestivo ou alguma piadinha sobre ter avisado que isso aconteceria, nós apenas entramos – ele comigo nos braços chamando toda a atenção desnecessária – e o garoto foi fazer a minha ficha, preencher algumas coisas, toda a burocracia que só servia para me irritar. Era apenas um tornozelo, poderia me encaminhar para algum enfermeiro desocupado, desses que ficam com os pés esticados sobre uma mesa enquanto mexe no celular.

Okay, apesar de não suportá-lo, achei fofo da sua parte me trazer aqui – sob protestos e xingamentos – até porque eu não teria vindo por conta própria, o que poderia causar a perda do meu pé. Só que ainda assim, foi demais ele entrar comigo nos braços, Santo Cristo, me dar apoio para caminhar já estava de bom tamanho, já bastava eu me sentir inválida perto de Tadeu.

Não Capitu, esqueça aquele cara, já está resolvido, vocês nem precisam mais se falar.

Curvei-me sobre os joelhos soltando um sonoro suspiro, atraindo os olhos de Bernardo para mim. Permaneci encarando aquele rosto que eu odiava, quer dizer, não sei se ainda odeio, insatisfação é o sentimento correto de agora, ele batia o dedo nos lábios sem desviar os olhos, se é algum tipo de jogo comigo, eu não ia perder tão fácil. Argh. Eu preciso parar de fazer essas competições bobas, sou quase adulta.

Revirei os olhos voltando à minha posição normal quando ele lançou um de seus sorrisos.

— Resistir é inútil – comentou.

— Como é? – ergui a sobrancelha voltando a olhá-lo.

Bernardo riu encostando-se na parede. Ai não, vai começar.

— Eu vi como estava me olhando, era tipo: Nossa, ele é tão perfeito, mas não posso parar de agir como um cão raivoso. Ele vai descobrir que sou completamente apaixonada.

— Nos seus sonhos – bufei olhando ao redor procurando por Marina.

Aquela garota disse que ia apenas pegar um café para nós, deve estar xeretando a vida de algum paciente em estado terminal, sei lá, ela tem dessas loucuras de fazer coisas sobre-humanas. Havia apenas algumas pessoas na recepção, do jeito que essa clínica é, não me admira muito, não pelo atendimento, mas pelo preço. Se eu pudesse viria aqui sempre que tivesse uma dor de barriga, a maioria dos profissionais é competentes, exigência do dono.

— Ah, você não faz ideia – riu.

Eu sorri de volta – involuntariamente.

Um formigamento estranho percorreu minha nuca com esse gesto, por mais que eu quisesse acreditar, sabia que não era um arrepio qualquer. Eu to mesmo me arrepiando por causa dele?

— Onde a Marina foi? – perguntei pigarreando para afastar esses pensamentos esquisitos.

— Não sei. Quem se importa? Eu não me importo – deu de ombros se levantando assim que meu nome foi chamado.

— Mas é um babaca mesmo, até a semana passada estava aos beijos com ela naquela sala – resmunguei agarrando seu braço para me manter de pé.

Ele balançou a cabeça oferecendo-me o braço como um homem gentil dos anos noventa, eu entrelacei o meu dando os passos – ou pulando – como uma pata manca.

— Você leva tudo muito a sério, só fiz uma brincadeira – e aí está o Bernardo insuportável – Porque nunca ri das minhas brincadeiras?

— Talvez não sejam tão engraçadas – dei de ombros entrando na sala.

O hater ficou parado na porta com uma careta pensativa, queira Deus que avaliando todas as suas gracinhas sem graça e decidindo largar a carreira de humorista.

Arrastei-me dolorosamente até a maca apontada pelo médico e sorri contente, um lugar macio para descansar era tudo que eu precisava. O doutor me ajudou a subir e me ajeitar, respirei fundo vendo-o puxar uma cadeira até a minha frente.

— Quer dizer que a senhorita machucou o tornozelo e ainda está de sapato fechado?! – falou puxando minha perna para si.

— Não foi por falta de aviso, disse a ela que era melhor ficar em casa ou vir logo se consultar – o garoto falou encostado à porta – até ameaçou enfiar minha cabeça no volante.

— Mulheres – o outro concordou rindo – ignore sua dor e leve uma bronca, tente ajudá-las e levará uma pior.

Revirei os olhos ignorando os dois amiguinhos de infância.

O homem de mãos firmes tocou meu calçado e olhou para cima, mordi o lábio para conter um possível grito de dor, então era provável que eu lhe desse um chute por impulso. Começou a puxar o sapato lentamente e cada célula do meu corpo ficou apreensiva, qualquer resquício de dor eu faria um escândalo, pois é tudo culpa do Bernardo, se ele não tivesse me irritado eu não teria subido as escadas daquela forma, o degrau não teria quebrado e tudo isso seria diferente.

Respirei fundo enquanto o médico examinava meu pé tentando ser o mais delicado possível, não senti dor durante o processo, aquelas mãos grandes eram mais macias que as minhas – inveja. A todo momento Bernardo comentava algo sobre a minha teimosia, algo que já estava me irritando num nível máster, o doutor ria de suas brincadeiras e puxava assunto sobre o Claudio e minha mãe – logo após descobrir que eu era sua enteada.

— Bem, parece que não foi nada grave – comentou abrindo sua gaveta do outro lado da mesa – vou passar uns medicamentos, uma pomada para aplicar na área e massagear – continuou anotando na receita e ergueu a cabeça para Bernardo – é importante que ela fique em repouso, nada de ficar pra cima e pra baixo.

— Pode deixar, vou tomar conta dessa pirralha – o hater apanhou a receita antes que eu abrisse a boca.

Agora estou inválida só porque esse garoto é perturbado.

Desci da maca apoiando levemente o pé machucado no chão, estava apenas de meias, não que fosse preciso tirar o outro sapato, mas era sempre bom me livrar deles. Segurei meu calçado nos dedos esperando os amiguinhos de infância se despedir.

— Não preciso de babá, sei me cuidar – falei indo para a porta.

— Disse isso hoje cedo.

— Certo meninos, podem ir que ainda tenho muita gente pra atender hoje – o médico se aproximou para nos acompanhar – qualquer coisa que acontecer com a sua namorada pode me ligar.

— Ele não é meu-

— Claro, pode deixar.

Bernardo ofereceu-me o braço novamente para que eu me apoiasse. Balancei a cabeça entrelaçando-me nele decidindo ignorar a brincadeirinha besta.

Queria entender o motivo dos garotos que nos odeiam ficarem fazendo esses comentários, esse prazer em nos irritar e insinuar uma relação inexistente com os outros é uma das piores coisas, além de ser totalmente infantil. Malu tinha uma teoria de que quanto mais o garoto nos inferniza, mais eles gostam de nós, que é paixão reprimida, seria ótimo para mim se não fosse esse hater, embora ele esteja sendo muito gentil comigo.

— E a sua mãe, como está?

Fui puxada para trás com a parada abrupta de garoto, reclamei um pouco brava, mas ele pareceu não se importar, estava olhando para o outro com o maxilar trincado, seus músculos ficaram tensos sob a minha pele.

— Ela está bem, eu acho – respondeu seco voltando a caminhar comigo sem deixar o homem perguntar mais uma coisa.

Como assim ele acha que a mãe está bem? Geralmente os filhos sempre sabem como suas mães estão, a menos que sejam desprovidos de coração ou consciência. Se bem que eu nunca o vi falando da família ou ao telefone com o pai que o mandou para cá – eu odeio aquele homem. No mínimo estranho tudo isso.

Voltei a focar no caminho de volta para a recepção, uma das mulheres que estava com as pestes, digo crianças, passou por nós apressada. Até eu estaria com pressa e tivesse filhos que não param quietos, vou te contar viu, se a Constança por acaso começar a agir como um diabinho eu não terei pena de lhe dar umas broncas.

— E a Marina? – perguntei olhando ao redor mais uma vez antes de sairmos da clinica.

— Me mandou uma mensagem dizendo que ia ver a Malu – respondeu me ajudando a descer os três degraus – e antes que comece o fogo para ir atrás dela eu aviso que não vai a lugar algum.

Apertei seu braço parando onde estava.

— Agora só me falta você querer dar uma de guarda-costas. Bernardo, eu preciso ver a Malu, saber como ela está.

— Celular existe pra isso – rebateu fazendo-me andar novamente – depois ligamos para a Marina, se for algo minimamente preocupante eu te levo até a casa da sua amiga. Tudo bem assim?

Claro que não estava bem, me sinto uma péssima amiga, deveria estar com ela desde o primeiro dia que faltou com uma barriga daquele tamanho qualquer coisinha deve ser grave.

— Se não fizer isso eu arranco seus olhos com um alicate sem ponta – resmunguei seguindo para o carro.

Durante todo o percurso ficamos calados, eu trocava mensagens com os meus seguidores, respondia comentários e ignorava os dos haters. Eu não sei lidar muito bem com eles então a cada um que eu lia xingava e amaldiçoava o Bernardo por ter começado isso, antes dele começar a me criticar eu não tinha um hater se quer, todos que liam meus textos adoravam e me davam carinho. Enquanto eu dava meus ataques ele ficava rindo e rebatendo com suas piadinhas sem graça, talvez fosse melhor eu calar a boca, mas sou taurina, a teimosia me controla.

[...]

Chegamos em casa um pouco mais tarde do que planejávamos, pegamos um engarrafamento ridículo por causa de um maluco que caiu de moto, ele só arranhou um pouco o corpo, nem foi tão grave. Um guardinha ficava pra cima e pra baixo com as mãos no cinto como se eu não pudesse mostrar-lhe o dedo do meio sempre que passava por nós. Enfim, fiquei morrendo de fome dentro daquele carro abafado – não tinha ar condicionado – tendo que ouvir as músicas sem nexo que tocavam no rádio.

— Finalmente você fez seu trabalho – gritei para o guarda enquanto saíamos daquele lugar.

Bernardo puxou-me pela calça me sentando de volta no banco.

— Você quer que eu perca alguns pontos na carteira por estar com uma louca? – esbravejou.

— Que carteira? Você é menor de idade, seu imbecil – ralhei de volta.

O garoto sorriu apoiando o braço na janela.

— Eu sou emancipado, gatinha. Como acha que paguei sua consulta?

O que?

Meu queixo caiu. Como assim esse descerebrado é legalmente maior e eu não? Sou muito mais esperta e responsável do que três dele juntos.

— E não diga que agora está interessada em mim, sua interesseira.

— Cala essa boca – cruzei os braços voltando a olhar para frente – nem se você fosse um príncipe.

Ouvi sua risada mais uma vez.

— Quer apostar como até o seu aniversário você está caidinha por mim? – perguntou.

Olhei para ele novamente.

— Eu não sou um objeto e você nem sabe quando é o meu aniversário. Para de show, Bernardo.

— Não ofenda a minha perspicácia, você nasceu no dia primeiro de maio. Precisa ser um espião para saber disso? – revirei os olhos rezando para chegarmos em casa logo – e não, você não é objeto, objetos são mais fáceis de se lidar. Mas vou te mostrar que nem mesmo você está a salvo do charme do garotão aqui.

Ri alto batendo as mãos.

— Seu ego é enorme – comentei encarando-o.

— Ah querida, você nem imagina – piscou sorrindo de lado.

Certo, acabou a brincadeira, desvia os olhos Capitu.

Evitei olhar novamente para aquele ser demoníaco e de algum modo manter o olhar fixo nele por mais de três segundos estava sendo algo muito estranho para mim. Das últimas vezes acabei beijando-o.

Não demorou muito e entramos no condomínio, aquele lugar maravilhoso onde não existia barulho e muito menos vizinhos chatos. Tirei o cinto de segurança me preparando para saltar do carro assim que ele parasse.

Quando entramos em casa não havia ninguém, claro, meus queridos pais não se lembram de esperar as crianças voltarem da escola com o almoço pronto. Quer dizer, o Claudio até lembra, mas o seu tempo de professor e ex-campeão é muito curto para estar aqui todos os dias para o almoço, o que eu acho uma injustiça. Na minha época de aluna super aplicada eu o forçava a vir para casa, fechava a academia e me trazia, até porque ele não gostava de me deixar só naquela idade. Mas agora tem o Bernardo, para eles eu estou protegida de todo o mal com ele por perto, fala sério, o garoto raspou meu cabelo, me jogou na água e me fez torcer o pé, que tipo de protetor é esse?!

Tomei um desajeitado banho enquanto tentava me equilibrar com uma perna no Box escorregadio, agora parada eu conseguia ver o tamanho da merda que havia feito quando não ouvi o hater, sinto vontade de vomitar por admitir isso, mas ele estava certo quando me mandou ficar em casa. Enrolei-me numa toalha e saí mancando para o meu quarto coloquei minha roupa de mendigo – eu não iria sair mesmo – e voltei para o andar de baixo ouvindo uma das minhas musicas favoritas.

— Meghan Trainor? – perguntei indo até o sofá.

Bernardo estava sentado na outra extremidade fuçando o celular.

— Pensei que gostasse – respondeu sem me encarar.

— Pensei que você não gostasse – rebati me sentando.

Rimos nos encarando por alguns segundos.

— O que pensou que eu gostava de ouvir?

Virei meu corpo para ele colocando a perna em cima do sofá.

— Screamo, Heavy Metal e Rap – ele gargalhou jogando o corpo no braço do sofá.

— Por quê? – questionou entre risos – pareço um serial killer ou algo do tipo?

— Algo do tipo – concordei rindo – fala sério, nunca imaginei que você gostasse de pop.

— Eu não tenho um estilo definido, se a música é boa eu curto. Você também é assim, vi seu desabafo dramático no blog – pontuou esticando o corpo para pegar o controle remoto.

Balancei a cabeça e outra musica começou a tocar.

— Não foi nada dramático – me defendi – estava reclamando dos carros de som barulhentos que passam por mim.

— E quem pediu pra saber o que você gosta?

Atirei uma almofada em seu rosto achando graça do modo como ele falou.

— Cala essa boca. Você fala varias merdas desnecessárias e eu não reclamo, na verdade pouco me importa o que você faz.

— Claro que não – ironizou sentando-se um pouco mais perto.

Algo no clipe começou a prender minha atenção, Bernardo mudou o canal de propósito.

Abri a boca para mandá-lo para aquele lugar, essa era uma coisa que eu odiava com todo o meu ódio, é falta de educação mudar de canal sem consultar a pessoa do lado, principalmente se a casa não é sua.

— Falta de educação – comentei.

O hater pegou meu pé dolorido sem pedir permissão e o colocou em suas pernas.

— Comprei seus remédios e a pomada – falou olhando a marca roxa um pouco abaixo do osso.

Engoli em seco sentindo suas mãos tocando minha pele. Vamos lá, é apenas o Bernardo, olhe para ele e tenha certeza.

Ergui os olhos de suas mãos para seu rosto, não adiantou muito, ele estava me encarando sério, os lábios entreabertos e a respiração leve. Definitivamente havia algo diferente nele, nada físico, mas estava ficando tão evidente que era quase palpável.

Ah céus.

— Digamos que você demorou um pouco no banho, não ia esperar para poder sair – continuou me olhando.

Pigarreei.

— E você não vai tomar banho agora?

Um sorriso brotou em seus lábios.

— Está corada – apontou mostrando os dentes alvos – meu Deus, você está corada por minha causa! Acho que te seduzo antes do prazo que dei, não é?

Apertei os olhos querendo ser um avestruz para enfiar minha cabeça na terra. Passei a mão no rosto como se isso fosse diminuir o rosado das minhas maçãs.

Ouvi a risada de Bernardo alta, ele estava contente por isso?

— É muito canalha mesmo, fazendo competição interna para seduzir uma garota? Me admira que ainda tenha fãs.

Seu sorriso desapareceu quando eu disse isso. Orgulho ferido talvez?

Ele bufou olhando para a TV e mudando o canal mais uma vez.

— Aquele Tadeu fez bem pior com você, caso não lembre – cuspiu ríspido.

Puxei minha perna de sua posse me levantando o mais rápido que consegui, a irritação queimava dentro de mim como lava, esse imbecil tinha mesmo que jogar na minha cara que fui uma idiota?

— Eu lembro muito bem, não preciso de um idiota como você para me lembrar – alterei a voz.

Resmungando eu o deixei no sofá caminhando para a cozinha.

A cozinha era o meu lugar favorito após uma briga, tinha coisas para comer e para cortar, e facas para machucar certos idiotas.

— Idiota posso até ser, mas eu nunca faria com você uma coisa dessas – falou alto para que eu o ouvisse – porque ao contrário dele, eu estou completamente apaixonado.

Girei nos calcanhares para peitá-lo novamente.

— E coitada dessa garota, certamente-

— Essa garota é você, sua idiota.

Fechei a boca recuando a cabeça, olhei para os lados, balancei a cabeça. Não!

— Para de falar merda.

— Pelo amor de Deus – ele esfregou o rosto pondo-se de pé – Capitu, eu sou apaixonado por você! Ficou claro agora?

Notas finais
Esse capítulo foi reeditado e reescrito.