Querido Hater
13 Capítulo 13
Notas iniciais
“Bem, como hoje eu estou muito pra baixo, com o corpo todo dolorido e sem nenhum pingo de vontade de ir para o colégio, resolvi escrever isso aqui um pouco mais cedo para vocês. Sei que ando escrevendo muita besteira, mas é que não está tendo muito movimento na minha vida nos últimos dias – sim, ainda odeio o Bernando.
Acho que não tenho um tema específico para falar hoje, poderia comentar sobre aquele joguinho viciante do piano, que particularmente peguei antipatia por motivos de minha visão está indo pro buraco. Também poderia continuar aquela lista sobre coisas que odeio no Bernardo, mas já estou me cansando de escrever aquilo, são muitos defeitos, então vou resumir tudo colando uma foto do mesmo ali, problema resolvido.
Quando leio meus textos me sinto tão amarga, mas que se danem todos. Odeio vocês. Não, não odeio.
Não sei mais o que escrever, então para não ficar muito curto eu vou falar sobre um rascunho que achei nas coisas da minha mãe enquanto procurava balas. Ele é sobre uma garota antipática, um pouco briguenta e que nada romantica, mas tudo isso muda quando ela conhece um rapaz mais velho que trabalha com seu padrasto, e depois de muita insistência dele, a garota finalmente se deixa levar por aquela paixão, alguns meses depois ela descobre que tudo não passou de uma aposta idiota dele com os amigos, então a pobre menina fica arrasada, o que piora ainda mais o seu temperamento. Achei muito bem feito essa parte dela piorar, pois como eu sempre digo, o amor é uma flor roxa que nasce no coração de trouxa. Provavelmente num universo paralelo ela seguiu meus conselhos e seguiu com a vida dedicando-se a si própria.
O que eu odiei nesse rascunho foi que o canalha que a magoou profundamente retorna para assombrá-la com o papinho de que está arrependido, ah, e a idiota ainda continua apaixonada por ele. Sério, parei com livros de romance, as garotas são muito idiotas, meu conselho para ela seria: deixa de ser trouxa.”
— E pronto!
Apertei a última tecla antes de publicar o meu desabafo.
Eu nunca fiz um desabafo tão melodramático como esse, devia ter ouvido o conselho da minha mãe e continuado a dormir, pelo menos não faria uma merda dessas. Mas também que ideia publicar praticamente a minha história. História essa que ninguém sabe, logo é realmente um rascunho da minha mãe.
Afundei na cadeira de Bernardo fitando o contador de visualizações no canto, cada vez mais pessoas viam o meu site, eu até poderia melhorar o conteúdo trabalhando com poesias ou textos de auto-ajuda, muitas pessoas precisam desse tipo de coisa.
Olhei para as prateleiras procurando algo que me ajudasse a ter uma nova ideia. O quarto dele como eu já havia percebido, é muito bem organizado, geralmente os garotos não ligam muito para arrumação, sem papéis espalhados pela mesinha ou livros largados em qualquer canto, e tem também esses bonequinhos engraçados que eu odiava quando era criança, não via graça em colecioná-los.
Ri balançando a cabeça, olhei para as gavetas ao alcance das minhas mãozinhas curiosas e uma vontade de saber mais sobre o Bernardo tomou conta do meu ser, não sei quase nada da vida desse menino gente, e no tédio que eu to isso vai ser uma injeção de ânimo.
Muito deselegante ficar bisbilhotando as coisas dos outros, porém, chumbo trocado não doi, não é mesmo?
Não Maria, você não pode ficar no quarto dos outros olhando seus pertences, mesmo que a curiosidade esteja te matando.
— Filhinha – parei a mão antes de tocar naquela maldita gaveta.
Ergui a cabeça torcendo para Claudio ser lento o bastante para não perceber que eu ia mexer nas coisas do seu afilhado querido. Por sorte ele não ligava para essas coisas.
— Saiu mais cedo ou veio pegar alguma coisa? – perguntei pondo o cabelo atrás da orelha.
Meu padrasto entrou se aproximando de mim.
— Eu saí mais cedo – começou puxando-me para cima – para almoçar com a minha garotinha.
Deixo claro que a garotinha sou eu, tá?
— Mas almoçamos todos os dias juntos, aqueles suplementos devem estar roendo seus neurônios – disse sorrindo.
Claudio me abraçou beijando a minha testa, como fazia quando eu ficava triste depois daquele pequeno desastre.
— Eu quero almoçar só com você, sem a sua mãe e sem o Bernardo.
— Hum, sem o Bernardo é tentador – afastei-me um pouco para fitar seu rosto.
Revirou os olhos divertido.
— Eu deixo você escolher o lugar.
Dando pulinhos de felicidade, corri para trocar de roupa no meu quarto. Já estava estranhando a demora de Claudio em me chamar para almoçar, fazíamos isso uma vez por mês, era divertido passar um tempo só com ele, fazendo coisas de pai e filha.
[...]
Quando o Claudio apareceu me chamando para almoçar, aposto que todos imaginaram uma mesa num restaurante, nossos pratos bem coloridos e os dois conversando civilizadamente enquanto saboreamos a bela comida que nos era servida. Eu também imaginava um almoço assim na primeira vez que fizemos esse programa, só que é tudo muito diferente, por isso a minha mãe odeia quando fazemos isso às escondidas, pois agradamos o nosso paladar infantil sem julgamentos.
Meu padrasto lindamente me arrastou para uma barraquinha de cachorro quente perto de uma pista de skate, sempre vínhamos aqui, além de ter o melhor podrão da cidade ainda é um dos meus lugares favoritos, foi aqui que aprendi a andar de bicicleta quando tinha oito anos, um pouco tarde, eu sei, mas a minha figura paterna só surgiu quando eu tinha seis anos, então tenho um desconto.
— Capitu – ele me chamou enquanto eu rebocava meu almoço com maionese – como anda sua relação com o Bernardo?
Parei instantaneamente o que fazia e permaneci encarando a minha arte pensando numa resposta rápida e convincente para aquilo. Convincente para nós dois.
Pus a maionese de lado tomando coragem para encará-lo.
— Como sempre esteve.
Só que agora nos beijamos para aliviar o estresse.
— A sua mãe falou comigo outro dia — ele estava receoso — parece que se beijaram.
Ai meu Deus!
Engoli em seco desviando os olhos de Claudio para todos os pontos possíveis ali perto e abaixei meu cachorro quente sentindo-me um coelho encurralado.
— Desculpa.
— Não precisa se desculpar — ele estava sério — eu sei que isso acontece entre os adolescente, é normal e-
— Pelo amor de Deus, não precisamos falar sobre isso, é constrangedor.
Ele pigarreou concordando com a cabeça e tomando um gole da cerveja. Mas aí ele respirou fundo e naquele exato momento eu soube onde ele queria chegar.
Claudio abaixou a cabeça afastando os guardanapos sujos de lado na mesa, observei atentamente cada movimento para medir o grau de raiva que ele sentia, talvez, só talvez ele tivesse descoberto sobre o novo professor e estava rodeando para despejar verdades sobre minhas mentiras. Não estava tremendo e suas veias não estavam alteradas, isso me parece um ótimo sinal.
— A questão é que eu tenho medo – falou calmamente – tenho medo que se envolva com outra pessoa e sofra mais uma vez, eu não vou impedir, só quero que tome cuidado.
Eu contive o riso para não parecer desrespeitosa com ele, entendi o que quis dizer e achei bem fofo da parte dele. Mas eu me envolver com o Bernardo?
— Aquele idiota só me pegou desprevinida — ri — eu nunca me apaixonaria por ele.
Tudo bem, sem exageros, Maria. Todos sabemos que você está quase rendida pelo “Hater maldito”, caso contrário não teria beijado ele mais duas vezes depois do quarto.
— Maria, você entendeu o que eu disse.
Revirei os olhos voltando a comer um pouco mais aliviada.
Ótimo, além de ter uma fofoqueira dentro de casa ainda tenho que ser taxada como burra.
— Você também vai fazer essa acareação com o Bernardo? ou por ele ser homem tá tudo bem?
Claudio ergueu as sobrancelhas incrédulo com o que eu havia acabado de perguntar. Era a coisa mais sensata a se fazer nesse momento, trocar de assunto antes que ele arranque alguma coisa sobre o Tadeu.
— Exatamente por ele ser homem eu não me preocupo.
— Puxa, nunca pensei que você pudesse ser tão nojento e sexista — fiz uma careta.
— Nojento? O que houve com o “padrasto bonitão”?
Ele sorriu de boca cheia como um garoto da minha idade.
— Virou um ogro no momento em que insinuou que eu poderia me apaixonar por um estrupício.
— Eu não disse nada sobre paixão, você quem disse — eu não acredito nisso — duas vezes.
Senti meu rosto queimar, provavelmente eu estava ficando vermelha, esse maldito sabe como me tirar do sério.
— Cala a boca.
Me joguei no encosto da cadeira vendo-o rir e o acompanhei notando alguns garotos de uniforme chegando na pista, significava que as aulas haviam acabado e o nosso recreio também. Me sentia mais leve, por mais que não tivesse exatamente desabafado, era bom saber que alguém se preocupava comigo de verdade e disposto a cuidar de mim, mesmo que eu me jogasse de um precipício.
Era como eu me sentia, à beira de um precipício novamente, sem saber se pulava ou seguia me martirizando por um cara que me magoou. Por outro lado, lá no fim desse precipício havia bernardo e aquele sorrisinho metido a besta me esperando para brigar novamente, ele me distraía como ninguém, mas às vezes nem ele consegue.
O telefone de Cláudio tocou arrancando-me dos meus dramas adolescente, suspirei vendo-o atender sério e passar a mão no rosto.
— Fim do recreio — ele disse se levantando.
—Problemas na academia?
Ele assentiu enquanto recolhemos nosso lixo pela mesa.
Claudio agarrou minha mão e passou o braço por meu pescoço dando um beijo estalado na minha testa. Caminhamos até o carro em silencio, a ideia de ir com ele para a academia passou na minha cabeça, mas logo a ignorei, mesmo sentindo muita falta dos treinos.
Um pequeno preço a se pagar pela paz de espírito — ou evitar uma crise de ansiedade.
E tudo volta para o Tadeu.
Apesar de todo o sofrimento, os momentos que passei ao lado daquele traste valeram a pena, eu ria demais, brincava demais, era feliz demais. Não é à toa que tudo demais enjoa, mas eu não enjoei dele, pra falar a verdade eu nem sei se enjoaria daquele sorriso e todas as palhaçadas.
Seu grande idiota, você merece ouvir tudo o que está atravessado na minha garganta e conviver com a culpa de ter destruído a minha vida.
Certo, não vamos exagerar.
[...]
Assim que Claudio me deixou na porta de casa, dei-lhe um beijo em seu rosto e corri para dentro de casa, tudo o que eu precisava no momento era um banho e conversar com as minhas amigas, ou amiga. Não sei se Marina ainda é minha amiga, na verdade me sinto a pior das amigas por ter beijado o cara que ela é afim, mesmo ele sendo um canalha com ela por pegar as bernadetes sem vergonha alguma. Francamente, ela já devia ter dado um pé na bunda dele, ficar à disposição desse garoto sempre é muita vergonha.
Entrei em casa ouvindo uma música alta vindo lá de cima, provavelmente ele já chegou em casa. Claro que chegou, são quase duas da tarde.
Larguei as chaves em cima da mesa e corri para cima pronta para mandá-lo desligar essa porcaria, entrei no meu quarto primeiro para guardar a bolsa, estava tudo aparentemente normal até eu ouvir uma risada... Feminina. Então, ou eu estou ficando maluca – mais – ou tem uma piriguete dentro da minha casa. Saí do meu quarto furiosa indo direto para a porta do seu quarto, eu devia bater primeiro, mas não vou dar a chance nem dele pensar numa provocação para mim. Sem titubear empurrei aquela joça arrependendo-me amargamente por isso.
Bernardo e Marina sentados um do lado do outro no chão do quarto. Os dois juntinhos rindo, agora me encarando como dois bocós.
— Vai me dizer porque faltou aula hoje?
Marina levantou de onde estava deixando hater me encarando com aquele maldito sorriso debochado.
— Não me disse que estavam ficando de novo — falei arrancando um sorrisinho dela.
— Tem Bernardo pra todo mundo, não precisa de ciúmes — ele disse se levantando também.
Encarei o garoto enquanto Marina passava por mim na direção do meu quarto, ele permanecia sustentando meu olhar com aquele jeito Bernardo de fazer tudo, o que me irritava ainda mais. E pior, só me fazia lembrar de ontem à noite, daquele beijo na praia, das coisas que ele fez voltarem à tona e agora agir como um, como um homem.
Não deixe isso te afetar, Maria, é só o Bernardo, não há nada de especial nele — exceto o beijo, o sorriso e todo o resto.
Cala a boca, pensamento.
— Você fica linda com ciúmes — ele alcançou uma mecha do meu cabelo e deslizou por seus dedos — onde estava?
Onde eu o que?
Abri a boca indignada com o que eu acabara de ouvir, ele está mesmo perguntando onde eu estava sendo que não temos nenhum tipo de relacionamento amistoso, quando estava até há pouco se agarrando com outra garota?!
— Não sei, talvez eu estivesse tendo aulas particulares com o meu professor novo — respondi dando as costas para o mesmo.
— Maria-
—Vá pro inferno Bernardo — gritei enquanto entrava no quarto.
Marina, sentada na minha cama como se fosse a dona, me encarava como um cachorro que acabou de fazer xixi no tapete, ela sabia que havia feito coisa errada e não era a primeira vez.
Tirei minhas sandálias apanhando o telefone para olhar as notificações apenas para ganhar tempo e não acabar descontando minha raiva nela, apesar de tudo ela não tem culpa dele ser esse idiota.
— A Malu foi hoje para o colégio, quis saber de você, já que não estava respondendo e nem o Be sabia do seu paradeiro.
— Daí você veio me ver no quarto dele? — ela riu — esquece.
Ficamos conversando no quarto até o horário que meus pais chegaram, ela me contou como Malu estava, pelo que ela disse, estava até que bem, só havia passado mal algumas vezes, prometi à mim mesma que iria visitá-la mais, estava perto do parto e pelo histórico médico dela, não seria tão fácil. Marina ainda ficou conversando com minha mãe e Bernardo, até que o idiota ofereceu carona, pelo menos pra levá-la em casa ele serve, se é que não vão parar pelo caminho. Com certeza vão.
Joguei-me na cama imaginando o que eu estaria fazendo se algumas coisas não tivessem acontecido. A vida da gente muda tanto em tão pouco tempo que até achamos graça quando paramos pra pensar, refiro-me ao Bernardo, certamente numa hora dessas eu estaria vendo TV na sala e comendo pizza enquanto vez ou outra entrava numa rede social para ver o que estava acontecendo. Nossa, seria um verdadeiro tédio então. Voltando um pouco mais na linha do tempo, eu estaria na academia do Claudio rindo das palhaçadas do Tadeu.
Ah, pare de pensar em Tadeu pelo menos um dia, Capitu. É pedir muito? Certamente.
Afundei o rosto entre as mãos bufando como um touro. Nunca me senti tão confusa em toda a minha existência, exceto quando minha mãe perguntou se eu queria ganhar uma bicicleta ou um gato, eu sempre quis um gato, mas a bicicleta era questão de status naquela época entre as crianças. Enfim, eu achava que crescer era a melhor coisa do mundo, sem brigas estúpidas com crianças remelentas e mimadas, sem receber ordens da minha mãe e que finalmente eu teria um namorado. Aí eu descubro que os garotos são os novos problemas após a infância, eles sugam nossa sensatez e paciência num passe de mágica, você não pode agir naturalmente porque o seu jeito anti romântico pode assustá-lo, o “você” no caso sou eu mesma. É um porre ter que fingir que se importa com os dramas do outro, ouvir atentamente as reclamações sobre o seu jeito insensível e prometer nunca mais fazer, aquilo vai piorando e quando você vê já está completamente diferente.
Chega, eu quero voltar a ser criança.
Ri mais uma vez sozinha. Se o Bernardo ouvisse isso diria: Me fala onde tá o adulto, porque não to vendo.
Aquele grande idiota.
Eu definitivamente não sou adulta ainda, mal consigo resolver meus problemas sozinha, até hoje tenho medo do escuro e de trovões, sem contar que faço birra quando quero alguma coisa, e principalmente, tenho medo de fantasmas. Não fantasmas normais, nem acredito nessas coisas. O único fantasma que me assombra até de longe.
Mas eu posso enfrentá-lo, eu sou a minha própria arte – okay, isso não pareceu grande coisa.
Estiquei o braço para pegar a bolsa em cima da cama num ato repentino de loucura. Os deuses que me perdoem por isso, mas eu não consigo parar de ser trouxa.
Peguei o celular indo direto para a agenda, respirei fundos procurando pelo número camuflado pelo nome “Conhecida”. Uma tática para despistar a minha mãe ou qualquer outro curioso. Acho que só outro curioso já que eu e minha mãe nos respeitamos muito no quesito privacidade, ela entende bem os adolescentes, acho que isso é meio nítido já que ela trabalha diretamente com esse público.
Ali estava ele, o número que ficou por muito tempo esquecido e parou de me ligar três dias depois de certo acontecimento. Não entendo porque estou tão nervosa, provavelmente esse número nem existe mais, ou é de outra pessoa. Vamos tirar a prova apertando nesse telefone verde.
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