Querido Hater
14 Capítulo 14
Notas iniciais
Ali estava ele, o número que ficou por muito tempo esquecido e parou de me ligar três dias depois de certo acontecimento. Não entendo porque estou tão nervosa, provavelmente esse número nem existe mais, ou é de outra pessoa. Vamos tirar a prova apertando nesse telefone verde.
Pus o aparelho na orelha mordendo a minha unha, demorou um pouco e o primeiro toque foi dado. Uma onda de euforia tomou conta de mim obrigando-me a colocar a mão sobre a boca para conter a vontade de gritar.
— Capitu?— era a voz dele.
Depois de quase dois anos ouvir a voz dele por telefone ainda me causa essas sensações, tudo bem que eu o vejo sempre na escola e ouço sua voz a contragosto, mas agora é diferente, posso falar tudo o que quiser sem a intervenção de ninguém.
Mas eu não consigo. Estou completamente travada.
— Capitu, é você?— ele parecia surpreso – por favor, fala alguma coisa.
Desliguei rapidamente sentindo meus olhos arderem.
Como eu sou imbecil, burra, idiota. Pra que eu fui fazer isso?
Masoquista miserável, é isso que eu sou.
Apertei os olhos para melhorar a visão, senti o celular vibrar em minhas mãos. Era ele. Continuei olhando para a tela tentando controlar minha respiração, talvez não fosse tão corajosa assim, difícil saber se ele realmente havia se arrependido daquilo, porém, levando em consideração todo esse tempo e ele ter se tornado professor, eu diria que seu grau de maturidade esteja bem maior, o que explicaria a sua postura em não forçar uma aproximação entre nós. Certo, pare com isso Capitu, você é inteligente e sabe muito bem como são os homens.
Okay, talvez não saiba, mas tenha uma pequena noção, eles usam as mulheres e não se importam com seus sentimentos, fim.
O telefone voltou a tocar, olhei para o aparelho vibrante em cima da cama e resolvi enfiar de vez o pé da na jaca. Estiquei-me pegando-o e atendendo de uma vez.
— Capitu, você está aí? Aconteceu alguma coisa?
Suspirei criando coragem para respondê-lo.
— Foi engano, não me ligue mais.
A mentira foi mais para mim do que pra ele. Em menos de cinco minutos eu provei para meu ego que sou uma covarde de carteirinha, que nem pra enfrentar um fantasma antigo sem ficar à beira de um ataque eu sirvo.
— Não, não foi engano e nós dois sabemos disso— falou sério
Eu não conseguiria enganar uma pessoa que me conhece tão bem.
— Eu... Eu só liguei por curiosidade – por algum motivo a minha garganta estava gelada – queria saber se ainda tinha esse número.
Ouvi seu riso abafado.
— Não sei por que eu trocaria, os contatos mais importantes estão nele.
Por essa eu não esperava, tiros “Madeu” pra todo lado.
Certo, volta pra terra Capitolina, ele ainda é um canalha aproveitador. Você só precisa falar o básico.
— Eu tenho que desligar, Tadeu – não era bem isso que eu tinha em mente.
— Maria, espere-
Desliguei o telefone deslizando-o pelo meu rosto lentamente como nos filmes americanos. Acho que eu fiz uma grande besteira tentando concertar outra maior ainda.
Mas que droga Maria, não é assim que se resolvem os problemas. Pra começar eu nem devia ter ligado, podia muito bem esperar amanhã chegar para conversar com ele na escola.
Apertei os olhos puxando o travesseiro para o rosto, definitivamente eu não devia ter acordado hoje.
[...]
A melhor parte em dormir durante a tarde é a maravilhosa sensação de paz que temos quando acordamos, parece que todos os seus problemas sumiram, mas só parece.
Depois de um longo e relaxante banho eu finalmente tive disposição para ver as pessoas que estavam em casa, pela hora deveriam estar jantando, maravilha, acordar, comer e voltar a dormir. Desci ruidosamente justamente para mostrar que não queria papo com ninguém, minhas sandálias de solado duro e tiras que me causavam calos foram postas exclusivamente para me castigar por causa das besteiras que fiz essa tarde, devia ter pego um cinto e ficar batendo em minhas costas até cansar. Eu sou um fracasso.
— Filha – minha mãe apareceu sorridente agarrando-me pelos pulsos – eu já ia te chamar, nem imagina quem está aqui.
Surpresinha, ótimo, já sei que vou odiar com todas as minhas forças.
— Mãe, por favor, se for algo relacionado a Bernardo e parentes, tô fora – choraminguei enquanto ela me arrastava para a cozinha.
— Pare de reclamar – riu. Ela parecia estranhamente feliz – aproveite que o insuportável do seu padrasto e o Be estão fora.
Ótimo, eles estão fora, isso significa que minha mãe armou uma surpresa para mim, geralmente eu não...
— Ai meu Deus! – congelei ao ver o ser de pé arrumando a mesa – Tadeu?
Olhei para a mulher completamente surtada ao meu lado, ela bateu em meu ombro sorrindo como uma criança psicopata que acabou de espalhar doce por toda a cozinha.
— Oi Capitu – ele sorriu – a sua mãe me convidou para o jantar.
Ah não, isso só pode ser sacanagem do destino.
Sabe aquelas cenas de filmes de terror antigos, quando o assassino vai se aproximando da vítima e o violino arranhando dá uma tensão extra? Pois então, parece que estou ouvindo-a do meu lado. Eu olho para frente vendo Tadeu arrumando a mesa como se fosse de casa e em seguida para minha mãe sorridente me olhando e torço para que seja apenas um sonho, de preferência daqueles bem ruins.
Minha mãe está surtada, só pode. Mas também não posso culpá-la, ela acha que eu e Tadeu terminamos porque não dava mais certo por conta dos estudos dele, não conhece uma vírgula do que realmente aconteceu, eu sei que devia ter contado, só que é complicado repetir tudo o que aconteceu em voz alta, a Malu mesmo só ficou sabendo porque Cláudio a chamou para dormir comigo e contou, eu estava em choque, não parava de chorar encolhida na cama revivendo aquele horror em minha mente.
— Querido, deixe isso comigo – ouvi a doce e inocente voz da minha mãe – sentem-se logo, o que estão esperando?
Aproximei-me da mesa sem conseguir tirar os olhos de cima do meu novo professor e ex namorado, ele parecia realmente bem, agora olhando detalhadamente percebo que sua mudança foi maior do que eu notei antes. Não foram apenas o cabelo e os músculos, tinham alguma coisa nele diferente que eu não conseguia decifrar, talvez a barba estivesse deixando seu rosto um pouco mais... Másculo? Quer dizer, não que ele não fosse antes, me refiro a parecer mais homem agora.
Deixa pra lá.
— Vocês vão ficar se encarando ou vão conversar como pessoas normais? – minha mãe perguntou pondo a lasanha na mesa.
Laura e seus jantares improvisados. Não quero nem estar perto no dia que não tiver lasanha no congelador.
— Que horas o Cláudio volta? – quis saber olhando de soslaio para a possível vítima da noite caso meu padrasto chegasse.
— Não se preocupe, ele está assistindo umas lutas com o Bernardo. Parece que não é a única que ele rapta para entupir de besteiras – essa indireta eu peguei na orelha – Quantas vezes eu já disse que não quero você comendo essas porcarias de rua?
— Mãe! – a repreendi ouvindo a risada abafada de Tadeu.
— Nem adianta falar, Laura, a Capitu é muito teimosa – intrometeu-se olhando diretamente para mim – não esqueça de que passei dois meses tentando conquistá-la.
Minha mãe apertou minha bochecha rindo da “piada” de péssimo gosto.
— E que terminamos o nosso relacionamento de forma trágica – pontuei fazendo seu sorriso diminuir – quase deu cadeia. Não que ainda não possa rolar, lembre-se do Claudio.
Ela olhou para o outro como se tentasse entender as minhas alfinetadas.
— Por favor, Maria, não use os ciúmes do seu padrasto como motivo para o término de vocês. Por mim estariam juntos até hoje.
Por favor, batam na minha cabeça com uma pá e me enterrem na lama, eu não mereço ficar presa com essa louca e o aproveitador.
— Sim Capitu, foi realmente bem trágico – ele concordou no mesmo tom ácido que eu conheci – Mas não esqueça de que nem me deixou explicar o que aconteceu.
Ri alto cruzando os braços na mesa.
— O que você explicaria? — ele piscou — ainda acho que deveria ter deixado o meu pai te dar uma surra.
Provavelmente a minha mãe estava de olhos arregalados completamente horrorizada com as minhas indelicadezas para com o meu ex. Só que pasmem, ela está comendo e assistindo a nossa pequena discussão como se fosse a coisa mais normal do mundo. Claro, estava acostumada a ouvir as ameaças mais obscuras que eu fazia diariamente a Bernardo.
Decidi me calar e entupir minha boca antes que dissesse algo comprometedor, se a palavra é de prata, o silêncio é de ouro como já dizia alguém que não sei quem é, mas achei a frase legal e trouxe pra vida.
— Já que a Maria não falou mais nada, é melhor eu falar antes que ela mude de idéia – Laura começou enquanto Tadeu se servia – O que anda fazendo?
Atazanando minha vida. Pensei revirando os olhos.
— Depois que saí da academia foquei nos meus estudos, iniciei uma graduação para poder lecionar-
— E estagiar como professor substituto – completei pegando o suco.
Ele riu pelo nariz erguendo a sobrancelha para mim.
— Sim – concordou – Depois eu descobri que era a mesma escola em que a Maria estuda.
Ah meu Deus, eu não mereço.
— Jura? – minha mãe parecia ainda mais eufórica – quando você ia me falar?
— Nunca – dei de ombros revirando meu prato. — Pra que? Ele vai ser chutado de lá daqui a pouco, é professor substituto.
Estava agarrando-me a isso para ter um pouco mais de paz, isso se eu não enlouquecesse hoje mesmo.
— Na verdade fui contratado – ele riu – o outro professor foi demitido por falso atestado, então quando a Alice voltar, eu pego a outra sala.
— Que maravilha! Meus parabéns Tadeu.
— É, meus parabéns, vai poder infernizar a minha vida mais um pouco.
Recebi um belo chute por baixo da mesa que me fez prender a respiração. Minha mãe certamente está ficando muito irritada com o meu jeito inquieto de ser com as visitas que não quero em minha casa.
E pela primeira vez eu desejei que o Bernardo estivesse ali para me distrair, olhar para aquela cara de deboche constante faria toda essa agonia por ficar perto desse aproveitador se esvaísse, quem sabe até eu comentasse sobre o beijo na frente dele só para que todos percebessem que eu não o queria mais, infelizmente o ego do meu querido hater explodiria de tão inchado. Acho que uma maldição caiu sobre minha cabeça no dia em que eu nasci, ou então o meu pai biológico era um azarado e passou para mim.
Esqueci meus devaneios voltando a olhar ao redor, minha mãe conversava animadamente com o Tadeu, eles sempre se deram bem, não me admira em nada toda essa intimidade e sorrisinhos, mas eu também nem tenho o direito de ficar irritada com isso, reservei esse momento na minha vida no momento em que decidi esconder tudo aquilo dela, mais uma vez me pergunto qual tipo de maldição eu tenho.
— ... E você filha?
Arregalei os olhos voltando a ouvir o que estava acontecendo, os dois me encaravam com expectativa, vamos torcer para que a pergunta não tenha sido muito difícil.
— Ahn, o que disse?
— Já decidiu o que quer fazer depois que terminar o colégio? – ele perguntou olhando profundamente para mim.
Golpe baixo, muito baixo.
— Não, prefiro fazer isso depois – respondi desviando os olhos.
Eles se calaram voltando a comer. Essa definitivamente foi a coisa mais normal que ouvi nessa mesa, não havia pensado muito no que faria depois do colégio, apesar de gostar de escrever, acho que curar letras não seja uma boa ideia.
— Ah meu Deus – minha mãe saltou levantando-se apressada – esqueci completamente de enviar o relatório da entrevista pro meu chefe. Tirem a mesa, eu já volto.
Claro, tinha que ser ela mesmo. Ainda não sei por que seu chefe ainda não a demitiu, não é a primeira vez que isso acontece, pra falar a verdade isso já aconteceu mais vezes do que posso contar. E ainda por cima me deixa sozinha com esse troglodita imbecil.
Olhei para o meu prato vazio imaginando como faria pra me livrar de Tadeu, poderia muito bem sair correndo para o meu quarto e deixá-lo sozinho com os farelos. Que bela covarde você está se saindo, primeiro liga para ele sem motivo tentando perder o medo dos fantasmas e agora fica com medo de pôr um simples prato na pia? Esperava mais de você Capitu.
Levantei-me vagarosamente empurrando a cadeira para trás, esperando que não tivesse feito muito barulho. Peguei o prato e o copo da minha mãe também afastando-me da mesa sem olhar em sua direção, certamente ele estava de olho em mim, eu sentia o calor do seu olhar queimando minhas costas enquanto eu começava a lavar os talheres. Jesus, a minha vontade é de gritar e pular como uma criança assustada, um nó havia se formado em minha garganta, estar sozinha com ele era bem diferente de estar na companhia da minha mãe.
— Você quer ajuda? – perguntou baixo levantando-se.
Afastei-me um pouco para que ele não tocasse em minha pessoa quando chegasse à pia, mas para o meu azar ele entendeu como uma resposta positiva à sua pergunta pondo-se ao meu lado.
Engoli em seco passando o prato limpo para ele que prontamente alcançou algo para secá-lo. Mordi o lábio contendo o impulso de olhar para o lado, toda aquela proximidade me deixava nervosa de um jeito bom e ruim.
— Porque você veio? – perguntei num fiapo de voz – porque aceitou o convite da minha mãe?
Ele se calou por um instante. Talvez procurando uma bela mentira para usar no momento?
— Queria te ver – gelei – depois daquela ligação não consegui pensar em mais nada, precisava dar um jeito de falar com você.
— Então ficou cercando a minha mãe – deduzi tentando não parecer abalada com suas palavras.
Tadeu bufou.
— A encontrei por acaso, frequentamos a mesma lanchonete, mas eu sempre me escondia quando a via por lá. Nós conversamos um pouco e – se calou, continuando em seguida – e ela me convidou.
— E você aceitou – continuei num sussurro – E se Claudio estivesse aqui? Sabe muito bem o que ele faria com você.
— Mas não está – replicou rapidamente. Parou o que fazia virando-se totalmente para mim – e sinceramente, se ele entrasse nessa casa agora, não me importaria nem um pouco em sair com um olho roxo ou algumas costelas quebradas.
Sorriu de lado.
Se esse é algum tipo de jogo sujo da parte dele, eu vou logo adiantando que to caindo direitinho. Meu deus, porque meus inimigos tem que ser tão lindos?
— Isso não tem graça, Tadeu. Sabe o que estou aguentando só por te ter aqui na minha frente?
Meus olhos arderam cedendo ao que eu mais temia naquele momento. A tristeza.
Parei de lavar os copos apoiando as mãos na pia, não podia chorar na frente dele, na verdade não podia demonstrar que isso ainda me machucava, mas eu também não quero esconder isso pro resto da vida, é um fardo muito pesado para eu carregar sozinha.
— Eu sei que nada do que eu disser vai diminuir esse sentimento – disse sério – fui o culpado por tudo, admito, mas também me arrependo. No começo foi tudo por aquela aposta, só que depois fui vendo que você era bem mais do que a filhinha mimada do meu professor, vi o quanto era especial.
— Não acredito em nada – disse limpando o rosto – acho que nunca vou ser capaz de acreditar em uma palavra que me disser.
— Maria, por favor – deu mais um passo em minha direção agarrando uma de minhas mãos contra seu peito – eu estou arrependido do que fiz, acredita em mim pelo menos dessa vez. Olha nos meus olhos.
Soltei o ar pela boca tentando puxar minha mão de sua posse, de repente senti uma imensa vontade de vomitar, não de nojo dele, mas sim de nervosismo. Era como se estivesse apaixonada como da primeira vez.
Só que eu não podia acreditar nele, já me enganou uma vez, repetir isso não ia lhe custar muito.
— Olha – tocou meu queixo erguendo-o – olha pra mim Capitu.
Abri os olhos lentamente como se estivesse sob algum tipo de hipnose, meu corpo encontrava-se em estado de dormência com seu toque, era tão bom. Seus olhos pareciam mais duas lâmpadas acesas para mim de tão brilhantes, como da ultima vez que ele me olhou e eu enxerguei verdade por alguns instantes.
— Eu sinto muito, muito mesmo – murmurou acariciando minha bochecha.
Fechei os olhos soltando o ar lentamente. Preciso de tempo pra voltar à realidade.
Criando coragem eu me afastei dele, não foi de total vontade, precisei esticar a minha sanidade pelos cabelos para que tomasse as rédeas novamente. Tadeu ainda mexe comigo, mais até do que eu imaginava, talvez eu tivesse subestimado a minha paixão doentia quando achei que ficar perto dele não seria grande sacrifício.
— Você me fez acreditar que estava apaixonado — cuspi as palavras em sua direção sem olhar em seus olhos — me enganou por uma brincadeira idiota de adolescentes — aquelas palavras eram mais para mim do que para ele agora — Meu Deus, como você foi podre.
— Não foi tudo mentira – ele quase murmurou.
Nesse momento todos os meus divertidamente pararam para ouvir o que Tadeu acabara de dizer. Estava chocada o suficiente para deixar escapar da minha boca a única coisa que estava engatilhada.
— Seu grande cretino!
Ele sorriu. E depois me encarou daquele jeito que ele fazia quando ia fazer uma declaração.
— Estou de coração aberto para você — começou — se eu tivesse uma segunda chance, teria feito tudo diferente — revirei os olhos apanhando o pano de prato para secar as mãos — mas como eu não posso voltar no tempo, só peço que acredite quando digo que sinto muito.
Olhei para seu rosto quando um clique alto foi ouvido lá em cima, afastei-me um pouco dele sentindo meu rosto ardendo, grande maravilha, além das pernas bambas ainda fico corada com esse cara. Ele não pode estar falando a verdade, não pode.
Voltei-me para a mesa procurando por alguma coisa para arrumar, um talher esquecido ou a fruteira torta. Por favor, a fruteira é redonda e fica bem longe de onde estávamos, óbvio que não vai ficar desalinhada. Mordi o lábio torcendo para minha mãe apressar os passos na escada e chegar logo aqui, momentos tensos, parecia que o ar estava encolhido com a mão na boca prestando atenção em cada movimento nosso, pelo que eu percebia o Tadeu continuava me encarando, exatamente como antes.
— Acreditam que eu já tinha enviado tudo? – Laura apareceu sorridente pela cozinha – devo estar envelhecendo rápido, tudo culpa da Maria e do Bernardo.
Revirei os olhos apoiando-me na mesa.
— Aquele garoto da escola que anda grudado na Capitu? – perguntou fingindo interesse.
— Grudado? – questionou olhando pra mim – enfim, esses dois vivem se estapeando pela casa, outro dia peguei o Bernardo raspando o cabelo dela depois de ganhar uma bela mordida no braço.
Ouvi Tadeu rindo e parando do meu lado.
Por favor, alguém me enterre antes que eu tenha um ataque de pânico. Não vou conseguir aturar esse cara na minha casa, pior do que ele conversar comigo é vê-lo cheio de intimidades com a minha mãe, ah se ela soubesse pelo menos a metade dessa missa.
Os dois engataram numa conversa sobre sei lá o que, prefiro nem saber o que é. Mergulhei nos meus pensamentos enquanto seguia os dois para a sala, tive a oportunidade de olhar para as costas do meu ex-namorado, e caraca, parece que o mito da evolução tem um ‘Q’ de verdade não é mesmo? Me desculpem, trabalho com verdades quando o assunto é a beleza alheia.
— Uma pena você ter que ir tão cedo – minha mãe falou fazendo-me voltar à realidade.
Tadeu já estava indo até ela para cumprimentá-la, Laura parecia realmente contente em tê-lo aqui em casa. Claro que estava, minha mãe era louca por ele quando o aluno de seu marido frequentava essa casa.
— Agora eu tenho que trabalhar – riu afastando-se – mas manteremos contato.
— Claro querido. Maria, acompanha o Tadeu até a porta?
Parei de roer minhas unhas tentando buscar em minha mente o que ela havia pedido. Não que eu não tivesse escutado, foi porque eu realmente não estava acreditando naquilo.
— Eu? – questionei apontando para meu peito.
A face da minha mãe ficou sem expressão nenhuma, aquilo era um aviso de: faz o que eu to mandando agora!
Bufei arrastando-me pela sala ouvindo os dois se despedindo mais uma vez. Não sei qual a necessidade disso, mas tudo bem, o importante é que ele ta indo embora.
Abri a porta apoiando-me na madeira enquanto Tadeu caminhava até mim, senti o vento gelado da noite invadindo a casa e respirei fundo fechando os olhos. Eu podia dar uma volta para aproveitar a noite como o meu padrasto fazia comigo logo quando se casou com minha mãe. Eram noites tão legais, mesmo eu fingindo que não gostava muito dele, coitado, cortou um dobrado até que eu o aceitasse como figura paterna.
Sorri sendo interrompida logo em seguida por um pigarro atrás de mim. Balancei a cabeça voltando-me para Tadeu, ele tinha um sorriso mínimo nos lábios, mas ainda conseguia ver que seus olhos não estavam tão brilhantes como antes.
— Não quero que sinta raiva de mim – murmurou alcançando meu dedo mindinho com seu indicador.
Prendi a respiração contraindo minha mão, apertando minimamente seu dedo.
— Não quero que continue forçando uma aproximação – murmurei de volta desviando os olhos para minha mãe, que agora marchava para a cozinha nos deixando a sós.
Ele pressionou os lábios inclinando-se até meu rosto, beijando meu maxilar. Isso me pegou de surpresa, talvez eu devesse xingá-lo e chutá-lo da minha casa, mas não consigo, novamente não consigo me afastar.
— Boa noite, Maria – disse passando por mim.
Apertei a maçaneta vendo-o partir pela calçada sem olhar pra mim mais uma vez, senti um alívio imenso com sua ida, não só por causa do risco que corria, como também a minha angústia de ficar com ele assim depois de tanto tempo. Respirei fundo mais uma vez enquanto fechava a porta, agora era só ficar ouvindo minha mãe falar e falar sobre como o Tadeu está bonito e educado.
Ele não me chamou de Capitu antes de partir, como sempre fazia, parecia gostar da sonoridade de meu apelido quando saía de seus lábios.
Bom, pelo menos eu gostava.
Fale com o autor