Quem matou Afonso Dallas?

9 Episódio VIII - Choro Lívido


Notas iniciais
Não postarei novos episódios durante uma semana, pois estarei viajando.

I

03/01/2016, 16h08min.

ENTÃO ESTAVA FEITO. O momento fora desprezível. Até para Afonso.

O velho pudera perceber a verdadeira faceta de sua família. Todos fingiam que o estavam adorando, que amavam aquele pai afetuoso que nunca tiveram. Mas a verdade era que eles não esperavam a hora da morte daquele velho ranzinza para botar a mão na bufunfa dele. Como ele tinha imaginado, como ele presumivelmente tinha imaginado. Mas algo o incomodava. Ele sabia que isso poderia acontecer — que as chances de isso acontecer eram enormes —, todavia algo parecia afligi-lo. Ele não queria pensar nisso, não queria remoer sobre esse fato, mas parecia incontornável: ele ainda tinha um corisco de esperança que o que acontecera fosse apenas uma suposição de sua mente esquelética, embora sempre tivesse essa alienação absurda e se orgulhasse da mesma. Contudo, ele vira com os próprios olhos que o dinheiro superava a moral familiar. Mas eles eram sua família! Todo mundo havia despejado suas vontades, seus anseios particulares, quando se via a iminência de ter tudo a perder. Eles não teriam a herança quando o velho morresse. Isso os acabrunhava.

E também atormentava Afonso.

Sua família não gostava dele. Tudo bem que ele nunca fizera nada para fazer da família Dallas a mais aconchegante de todos. Sempre fora indiferente quanto aos filhos, deixando-os com Heloisa, sua falecida esposa, a quem jurara amor eterno. Bem, isso não se mostrara veraz; Afonso vivia pulando a cerca, inclusive com os próprios empregados, como acontecera uma com Joana. Coitada da mulher. Depois daquela noite, ela havia se apaixonado pelo patrão. Mera ilusão se achasse que algo entre eles ia acontecer, embora parecesse a Afonso que ela era bem pé no chão, sem acreditar em quimeras adolescentes como o verdadeiro amor. Mas, voltando ao assunto central, Afonso nunca apoiara a família. Nunca os ajudou com dinheiro e sempre estava fora resolvendo seus assuntos ilícitos, junto de Jeferson, que o fizeram subir de vida tão facilmente. Ainda contava com um repertório de traição enorme, que os filhos sabiam, mas não contavam para a mãe, a doméstica que vivia para a família.

Mas, mesmo com tantos adultérios, infidelidades e traições, Afonso achava que havia uma pessoa de que ele realmente gostava naquela mansão. Bem, gostar não era a palavra certa, mas poderia estar perto disso. Talvez um “sentir atração física” fosse mais apropriado. Enfim, Mirian, a mulata gostosa, era a tal mulher. Já fazia um tempo em que eles tinham encontros escondidos. Dallas pagava a ela uma certa quantia — muito gorda, por sinal — e ela o deixava fazer tudo que ele bem quisesse. Havia começado de uma forma diferente, mas, agora, parecia haver uma responsabilidade inegável. A empregada tinha que obedecê-lo, para o bem de sua imagem, se é que ela tinha uma.

— Você devia disfarçar mais — observou Mirian, fechando a porta atrás de si.

O quarto contava com uma cama de casal, uma estante, várias mobílias e criados mudos, dois banheiros, um guarda-roupa enorme, uma televisão de plasma, uma geladeira, uma pia, um fogão, alguns armários e sofás estirados debaixo da janela. E havia quadros, muitos quadros. Era basicamente um ótimo local para se trancafiar e ficar o resto dos dias. A torre da Rapunzel.

— Acho — argumentou ele — que sussurrar “agora” é um tanto discreto.

Ela deu de ombros e se sentou num sofá.

— O que você quer? Tá de dia. Alguém pode ter me visto vindo pra cá. — Todas os “programas” sempre aconteciam a noite. Ela estranhou esse pedido em questão.

— O que você acha que eu quero?

— Mas você está doente e...

— E minha piroca não sobe mais? — Ele riu. — E quem disse que vai ser com ela? Tenho minha língua, meus dedos, um vibrador.

Mirian escondeu o asco que sentia. Quando ela deixara chegar àquele ponto?

— Faça rápido. A casa está cheia hoje. — Ela se aproximou e subiu na cama. — Não sei por que você quer fazer isso agora. É tão perigoso.

— Bem, primeiro, mesmo que descobrissem, o que estaria errado? Eu não sou comprometido e nem você. E, além do mais...

— Além do mais...? — incentivou ela, retirando a calcinha e abrindo as pernas.

— Além do mais, essa pode ser a nossa última vez.

Eu espero fervorosamente que isso seja verdade.

— Não diga isso.

— Você vai sentir minha falta, não vai?

Só do seu dinheiro.

— Um pouco. — Ela deixou escapar um gemido pela garganta quando ele a tocou com os dedos gelados. — Quanto vai ser hoje?

— Oh, minha cara, tenha um pouco de respeito com um quase-morto. Você devia estar fazendo isso como uma recompensa depois de todas as transas que tivemos. Te fiz sentir muito prazer.

Maldito! Ele não vai pagar dessa vez?

— Mas eu preciso pagar algumas coisas pra Gabriela. — Ela fingiu gemer. Não gostava mais daquilo. No início, quando ele era jovem e relativamente mais bonito, ainda era até legal. Agora as coisas tinham se invertido completamente.

— Tudo bem... — cedeu ele, com os olhos fixos naquela parte deliciosa da mulher. Ele usava uma mão para acariciar sua região íntima e a outra para afagar seus seios macios. — Tudo, ah, bem... — Mirian achava estranho como Afonso gemia lascivamente sendo que era ela que tinha vários dedos enfiados na boceta. — Vou te, ah, isso aí, dar um trocado. — Ele estava totalmente indiferente ao que falava. Sua mente estava focada em algo mais prazeroso. Ele colocou a língua e começou a lamber. Era delicioso. — Que vontade de meter fundo em você, sua vadia.

Uma pena que você não consegue.

— Usa o vibrador — é melhor do que a língua, completou ela mentalmente.

E aquilo continuou durante alguns segundos. Então, infelizmente, para a raiva de Afonso, houve um barulho. Fora alto, como se algo tivesse se quebrado.

— Merda — xingou Mirian, pulando da cama e recolocando suas roupas.

— Quem está aí? — perguntou Afonso. Houve um tempo prolongado antes de surgir um novo barulho, o de passos. — Quem está aí? — chamou ele de novo. Então a maçaneta girou. Era alguém que tinha a chave do quarto.

— Sou eu — expôs Juliana. — Sinto muito atrapalhar, bem, isso aí.

Afonso fulminou-a com o olhar.

— Você não devia ter visto isso.

Juliana estava inconformada. Mirian, por sua vez, estava extremamente envergonhada.

— Eu estava vindo checar como você estava. — Por fora, Juliana falava afavelmente; por dentro, fervia como uma chaleira no fogo. — Imagino que a companhia dela seja melhor do que uma médica. — Acabava que, mesmo com sua força de vontade, alguns comentários ácidos saíam livremente. Ela não conseguia evitar. — Aposto que ela sabe cuidar muito bem de você.

Afonso bufou.

— Saia daqui — ordenou para Mirian. Ela se esgueirou e, quando passou por Juliana, a médica percebeu que ela estava mal. Não gostava daquilo que acontecia. Menos mal, pensou ela, visando ao futuro. — Juliana, irei pedir para que você não diga nada a ninguém. Por mais que isso não seja errado...

— Legalmente errado — corrigiu ela, arrogante —, você quer dizer. Já que, se formos analisar a ética e a moral familiar que você tanto prega, obviamente as coisas mudarão de perspectiva. — Ela não conseguira ficar sem despejar a acidez que portava em seu ego médico.

— Por mais que isso não esteja legalmente errado, não será bom se o pessoal ficar sabendo disso. Mas eu tenho certeza de que você não irá falar nada. Eu posso estar à beira da morte, mas basta um toque para algum conhecido meu e você deixará de existir do mapa. Está me entendendo?

Juliana não se intimidou.

— Eu não irei falar nada porque eu estou aqui profissionalmente. Não quero me meter em picuinhas familiares. — Ela se lembrou de Robson, mas afastou o pensamento. — Mas não pense que é por causa dessa chantagem barata, meu caro Afonso. Não ache que irei me subordinar a você porque você tem dinheiro.

— Você devia temer a mim, Juliana. Você não sabe do que eu sou capaz. Minha mente não anda muito certa, e acho que você já deve ter percebido.

Ah, eu percebi. Percebi mesmo.

— Com a licença da Vossa Excelência, eu me retirarei dos Aposentos Reais.

Juliana já estava saindo, de costas para ele, quando ouviu a voz rascante do homem, impregnada de raiva e tormento.

— Eu dispenso sarcasmo. É uma das coisas que eu mais odeio.

— Eu sinto muitíssimo, meu Rei. — Ela continuaria com o escárnio, principalmente agora que soubera que ele não gostava. — Ah, e eu sem querer quebrei sua estatueta. Espero que aquelas coisas que você acredita que ela faça sejam mentiras, porque, do contrário, sua vida não está sendo mais protegida.

II

03/01/2016, 16h32min.

DEPOIS DE PASSAR NO BANHEIRO PARA SE arrumar um pouco melhor, Mirian voltou para o quarto. Sua filha estava lá. Ela parecia abatida.

— O que foi, Gabi?

— Nada — mentiu.

— Gabriela, eu te conheço melhor do que isso.

Gabriela cedeu. Penteava os cabelos com o dedo. Eles estavam enormes.

— Joana morreu.

— O quê?

— Ela se suicidou.

Mirian estava em choque.

— Como assim? Como você sabe?

— Eu fiquei com medo de contar pra alguém. Sabe, vai que eles suspeitam de mim. Então achei melhor esperar até que alguém encontrasse ela, mas acho que não consigo. — Gabriela começou a chorar profusamente. Mirian não entendeu porque ela estava fazendo esse berreiro, já que não era muito próxima de Joana.

— Fique calma, minha filha, mas me mostre onde ela está.

Gabriela assentiu. Elas se levantaram.

— Mãe.

— Sim, filha.

— Meu cabelo está muito grande. Precisamos cortar.

— Tudo bem. Hoje a noite eu corto. Mas, vamos, você precisa me mostrar.

Elas saíram da mansão e seguiram para o estacionamento. Os carros estavam todos lá No ponto oposto ficava o cemitério particular de Afonso, onde estava enterrado o corpo de Heloisa Dallas. Mirian vivia se perguntando qual era o problema para o velho ter um cemitério dentro da própria casa, mas sabia também que coerência não era forte do velho. Aquele era um dos lugares que, antes de estar quebrantado, ele ia constantemente visitar. Colocava flores no túmulo da falecida esposa e fazia o sinal da cruz na lápide, onde estava escrito: “eterno amor”. Mirian abominava essa frase.

Elas andaram além do lugar e se encontraram na parte do jardim que, segundo Afonso, era justamente para esse propósito: parecer um bosque. Havia muitas árvores altas e uma cobertura de plantas que atrapalhava a visão do interior. Era um lugar que poucos iam. O motivo para o isolamento era que o bosquezinho não precisa de tantos cuidados como o resto. Uma das poucas pessoas que visitavam a florestinha era Gabriela. Ela gostava de ir para lá para ficar só, afinal era um dos poucos lugares que não eram tão movimentados na mansão. Ela tinha um apreço enorme por aquele cantinho, e talvez fosse este um dos motivos para ela ter chorado tanto; o lugar que ela julgava ser um santuário fora maculado por uma morte.

Depois de andarem um pouco, as duas viram. Joana estava lá, pendurada numa árvore, o semblante lívido a encará-las, a corda presa a um galho, a cadeira sumida da cozinha derrubada e seu corpo balançando ao vento. Era uma imagem triste e, então, Mirian soube por que Gabriela chorara tanto. Realmente, o local estava maculado. Aquela mancha, aquela morte, seria sempre vista quando Gabriela voltasse ali.

Mirian chorou como a filha.