Quem matou Afonso Dallas?

10 Episódio IX - Acordo Pétreo


Notas iniciais
Os desdobramentos do primeiro acontecimento mórbido, há há. Comentem. Não tenham medo.

I

03/01/2016, 16h35min.

AGORA TODOS OLHAVAM PARA O CADÁVER de Joana. As únicas pessoas que não estavam presentes eram Juliana, Afonso — que deviam estar no Quarto da Reclusão — e Gabriela, que, segundo a mãe, estava abalada demais.

Virgínia chorava desconsoladamente, sendo assistida por Jorge, que lhe afagava as costas, proferindo-lhe palavras encorajadoras e motivacionais. Alice observava a cena pasma. Estava abraçada com Rodrigo, que estava com o queixo sobre sua cabeça. A maioria dos outros tinham semblantes aflitos e assustados. “Por que ela tinha feito isso?” era a pergunta que era possível discernir no cenho de cada um dali. Contudo, ninguém sabia a resposta.

— Devíamos avisar o papai? — perguntou Marcelo aos irmãos.

— Não — replicou Melissa. — Ele já tem muita preocupação. Qualquer coisa pode piorar a saúde deles.

— Ela está certa — confirmou Gabriel. Ele suava muito e estava muito angustiado. Seus olhos, injetados e vermelhos, sempre desviavam daquele cadáver.

Num paralelo, as figuras de Virgínia e Jorge estavam como sob holofotes.

— Não vai ficar tudo bem, Jorge — explodiu a mulher. — Ela não vai voltar com essas malditas palavras! Ela não vai! Minha amiga se foi.

— Ei, calma aí, ele só tentou ajudar — interveio Robson. — Não desconte sua frustração em outras pessoas. Ele não tem nada a ver com isso. — Então, como sempre, a sua péssima mania de dizer coisas inoportunas em momentos inoportunos. — Ou tem?

— Como assim? — rugiu Jorge, sinceramente magoado. — Você acha que eu ajudei ela a fazer isso?

— Não sei...

— Robson — repreendeu Valquíria, puxando-o para perto. — Cale a boca.

— Por que ela fez isso? — indagou Virgínia, para os céus, as mãos levantadas.

— Talvez ela achava que a vida dela — observou Otávio — não valia nada. E, se ela pensou assim, ela estava certa. Acho que nem sabia o nome dela. Era Jaqueline? Ou Júlia?

Alice tomou as dores de Joana.

— Você não pode falar coisas assim — verbalizou ela, um pouco mais alto do que queria.

Rodrigo virou-se para a namorada e murmurou:

— Calma.

— A loirinha ficou com raiva de mim? Eu poderia saber por qual motivo?

Alice deixou a pergunta continuar pairando. Gabriel pigarreou.

— Precisamos ligar pra polícia.

— O quê? — indagou Valquíria. — Acho que não precisa disso tudo.

— Como assim? — perguntou Lígia. — Você quer que ela fique balançando pra sempre?

— Não é isso que ela quer dizer — interveio Marcelo. — Poderemos ser suspeitos disso, não?

— Do que você está falando? — perguntou Mirian, com a mão na boca. — Ela se suicidou! Como poderíamos ser suspeitos num caso como esse?

Melissa tomou a vez. Ela tinha o mesmo tom arrogante que Otávio possuía, embora fossem apenas tia e sobrinho.

— Por qual motivo ela teria se suicidado?

Gabriel parou um pouco e pensou. Era esta sua área de trabalho.

— Ela estava tão bem quando chegamos — expôs Jorge. — Não deu nenhum sinal de depressão ou algo do tipo.

— É verdade — concordou Virgínia.

Gabriel então pegou a linha de raciocínio.

— Então, depois de tudo que aconteceu mais cedo, ela simplesmente...

Bum — completou Adriana —, se suicidou.

Lígia não conseguia entender.

— Vocês estão insinuando que toda aquela confusão de mais cedo pode ter influenciado no suicídio dela?

Vários assentiram. O local era mais úmido que o resto do lugar.

— O que devemos fazer então? — perguntou Gabriel.

— Vamos enterrar aqui — sugeriu Robson. — Tem um cemitério ali mesmo.

Virgínia chorou alto ao ouvir.

— Mas algum parente pode sentir a falta dela — analisou Eduardo.

— Bem — refletiu Mirian —, ela não tinha nenhum parente. A única pessoa que ela tinha era a mãe, que morreu.

— Se encontrarem o corpo, a repercussão será ainda maior... — disse Lígia.

— Mas ninguém vai falar nada — gritou Marcelo. — Vai ficar tudo bem. E, afinal de contas, ela era só uma empregada. Não tem honra mesmo.

Jorge, Virgínia e Mirian desviaram os olhares, constrangidos. Alice não gostava de como a família tratava seus subordinados. Eram quase como se eles não valessem nada, fossem meros insetos que só serviam para ocupar espaço e limpar a sujeira real.

— Então vai ficar assim — finalizou Otávio. — Enterraremos o corpo e ficaremos de boca fechada. Fim. Todo mundo feliz. Agora, vamos nos preocupar com a herança que não iremos receber. Ah, e eu me recuso a ajudar a enterrar. Eu nunca tocarei um cadáver. Urgh, que nojo.

O pessoal parecia hesitante, mas, por fim, eles aceitaram. Iriam enterrar a mulher na mansão, no cemitério de Afonso, o mesmo cemitério que guardava o túmulo de Heloisa Dallas, a eterna rival de Joana no amor.

II

03/01/2016, 16h49min.

— VOCÊ NÃO ACHA AQUELE OTÁVIO UM CHATO? — perguntou Alice a Rodrigo. Eles estavam sentados próximos a Gabriel, que descansava depois de cavar a cova. Agora estava na vez de Robson. Quem o ajudava era somente Marcelo. Os outros estavam no interior da casa.

Rodrigo engoliu em seco.

— Por quê? — perguntou.

— Não me responda com outra pergunta. Eu acho ele muito chato. Ele fala com tanta arrogância, como se soubesse de tudo.

— Ah, é só isso? — Rodrigo suspirou.

— Por quê? Eu tinha outro motivo pra odiá-lo?

— Odiá-lo? Achei que você só achava ele chato.

— Eu não sei, mas não gosto dele.

— Ele parece ser uma pessoa certa — observou Rodrigo.

Juliana se aproximou deles três.

— O que aconteceu? — perguntou, meio embabascada com toda a comoção. — Vi Virgínia chorando muito, como se tivesse perdido alguém muito próximo.

E o que ela queria dizer com isso era que Virgínia era uma falsa. Havia falado mal da mulher e estava pagando de amiga. Juliana apostava que essa ceninha toda era para ganhar apreço da família. Ela já tinha trabalhado com gente assim no hospital. O pessoal chorava na morte de paciente para ganhar um carinho dos chefes, talvez até ser promovido por ter um bom coração e fazer as coisas com mais esmero, o que já tinha acontecido algumas vezes. Talvez no hospital isso funcionasse, mas Juliana duvidava que o mesmo se repetisse na mansão, a julgar pela insensibilidade dos Dallas.

Alice assentiu para Rodrigo, incentivando-o a falar o que quer que fosse.

— Joana se suicidou.

— Nossa. — Juliana pareceu indiferente.

— Aconteceu alguma coisa? — perguntou Alice, notando a expressão impassível no cenho da doutora. — Digo, você ficou tão normal.

— Estou acostumada com mortes. Lido — e, ao perceber que não fazia isso há algum tempo, se corrigiu: —, lidava, com isso diariamente. Morte não é algo do outro mundo pra mim.

Alice, então, percebeu que Gabriel não estava ali.

— Cadê seu pai?

— Ele deve ter ido tomar um ar — respondeu. — Ele sempre faz depois de um caso. Demora um tempão remoendo as coisas e normalmente acaba dormindo ao relento. Ele, ao contrário da médica, é meio fraco com mortes. É uma mania dele. Todo mundo da família sabe disso. Fiquei surpreso por você não saber.

— Me desculpa se essa é a minha primeira vez com sua família paterna. — Alice percebera que o corpo já havia sido enterrado. Virgínia, Mirian, Jorge e Juliana estavam parados, provavelmente fazendo algumas orações. Os outros haviam se espalhado. — Você não acha que ele escolheu o emprego errado?

— Meu pai? — Alice assentiu. — Ele diz que procura sempre chegar à vítima antes que ela morra. Por isso que escolheu; sempre está tentando salvá-la para evitar esse tipo de coisa. Mas, sim, acho que ele escolheu. Toda vez que alguém morre em algum caso dele, ele passa mais de horas sozinho, ruminando as coisas. Ele se culpa pelas mortes. É um complexo estranho. — Rodrigo parou de falar, pensativo. — Eu sinto pena dele.

— E ele deve estar fazendo isso agora?

— Infelizmente.

III

03/01/2016, 19h23min.

O JANTAR FOI TENSO. Ninguém conversava como sempre, mas, dessa vez, as coisas pareciam estar mais carregadas. O clima daquela casa era muito vultoso. Parecia que era tão denso que Alice via vertigens. A mesma coisa que ela reparara outras horas era que ninguém costumava levar os celulares para a mesa. Sempre deixavam no quarto ou carregando em algum lugar. Alice não sabia bem o motivo, mas achava que era para passar a imagem de pessoas que não estavam viciados na era da globalização digital — ou, no caso de Valquíria e família, para não pagar o mico, na concepção deles, de possuírem celulares com teclas.

Sentados à mesa, a família Dallas comia em silêncio. Gabriel, seu sogro, o pai de Rodrigo, ainda estava fora, provavelmente com sua mania de passar tempo remoendo as coisas depois de ver algum morto. Os empregados, por sua vez, como sempre, deviam comer em seus quartos, para não incomodar os filhos abastados de Afonso. Alice achava isso tremendamente desumano, mas ela não podia dizer nada; o pessoal com certeza não levaria na esportiva.

IV

03/01/2016, 20h34min.

TODOS DEVIAM ESTAR EM SEUS RESPECTIVOS quartos agora. Haviam jantado e Alice se sentia saciada. Estava assistindo televisão quando tédio bateu. Saiu do quarto e se esgueirou na direção do cemitério. Achava que devia uma oração à falecida. Durante seu trajeto, não encontrou ninguém. A mansão corroborava para os desencontros, afinal era enorme, mas, além disso, o pessoal não costumava passar o tempo livro conversando uns com outros. O que faziam juntos eram basicamente as refeições à mesa — e aquela reunião para lidar com a morte. Alice ainda não compreendia a família Dallas.

A noite estava bela. A lua era um disco claro que emitia lampejos cristalinos por todo o local. O vento uivava e era terno e carinhoso com sua pele. Quando atravessou o estacionamento, na direção do cemitério, que ficava num ponto oposto, além do amontoado de vagas para se ancorar os carros, ela notou que algo estava errado. Olhou para todos os carros. Foi na garagem particular de Afonso e encontrou os dois automóveis no mesmo estado que os outros. Todos estavam com os pneus furados. Todos. Os. Carros. Estavam. Com. Seus. Pneus. Furados. O que isso significava? Alice correu para o quarto de Rodrigo e o chamou.

— Chame os outros. Eles precisam ver algo.

— Do que você está falando? — perguntou, já assustado, calçando as sandálias, colocando uma camiseta e seguindo a namorada.

— Você vai ver.

V

03/01/2016, 20h38min.

— ISSO NÃO FAZ SENTIDO — OBSERVOU Juliana.

— Descobriu isso sozinha, queridinha? — perguntou Adriana. — É claro que não faz!

A tensão era palpável em todos. As luzes dos postes espalhados pelo estacionamento criavam poças de luzes amareladas pelo local, instituindo silhuetas fantasmagóricas. A luz lançava raios tremeluzentes e bruxuleante para completar o clima mórbido.

Alice, observando tudo aquilo, perguntava-se se poderia ficar pior.

— Por que alguém faria isso? — perguntou Melissa.

— Agora nós estamos isolados aqui — verificou Eduardo.

Otávio veio correndo. Estava suado.

— Eu estava no meu quarto. Meu celular sumiu.

— Como se os nossos telefones, meu filho, fossem ajudar em alguma coisa.

— Eu não verifiquei se o meu estava no lugar onde deixei — expôs Marcelo. — Deixei ele carregando.

— A maioria dos celulares estava carregando àquela hora — notou Robson. — Quem pegou eles deu a sorte grande.

— O meu está aqui — disse Rodrigo, ao lado da mãe —, mas ele não está funcionando.

Mirian, que estava próxima à filha, tomou a vez:

— Eu verifiquei os telefones da casa e não estão funcionando.

Jorge pigarreou, receoso.

— De qualquer forma, mesmo se vocês tivessem o telefone, não iria adiantar nada. O sistema de segurança provavelmente foi acionado. Ele impede que qualquer informação chegue ou saia daqui via satélite.

Eles se entreolharam-se.

— Estamos sem contato com o mundo de fora — arrematou Marcelo.

Notas finais
O que acharam?