Quem matou Afonso Dallas?

8 Episódio VII - Pensamentos Nebulosos


Notas iniciais
Que família, em?!

I

03/01/2016, 14h14min.

DEPOIS DAQUELA CONVERSA SUPER AMIGÁVEL, cada pessoa foi para seu quarto. Como havia vários, ficou dividido implicitamente que cada um poderia ter um. Gabriel e sua esposa, Lígia, estavam com um. Alice e Rodrigo tinham um quarto separado para cada um. Assim como esses dois jovens, Otávio e Eduardo dispunham de um quarto diferente dos pais, um no andar de cima e o outro no térreo, respectivamente. Valquíria e Robson também eram como Gabriel e Lígia, assim como Adriana e Marcelo. Casal, na concepção de todos eles, deviam ficar juntos, já que eram um casal, certo? Melissa, como usual, tinha o seu próprio, no andar superior. Os empregados eram a mesma coisa; até Gabriela tinha um quarto só para ela, ao invés de ter de dividir com Mirian ou com outra pessoa, como poderia acontecer em casas menores.

Quando cada um foi para o quarto, encontraram aqueles papeis. Estavam supostamente guardados num cofre cuja chave da fechadura se encontrava bem perto dali. Quando abriram, ou para guardar os pertences mais caros ou somente bisbilhotar, encontraram um papel. Era um papel bem importante. Bem importante mesmo para aqueles mesquinhos.

II

03/01/2016, 14h18min.

ALICE ESTAVA DEITADA. Lia um livro qualquer, encontrado no criado-mudo. Quando Rodrigo adentrou o quarto, ela tomou um susto.

— Estou tão feio assim? — perguntou ele, fingindo estar ofendido.

— Claro que não. Você é muito lindo. — Eles se beijaram. — Climão aqui, né?

— Eu falei pra você que minha família por parte de pai não se dava muito bem.

— Sinto muito.

— Não sinta — disse ele, e sorriu.

Era um rapaz tão bonito, na visão de Alice. E não somente de aparência. Rodrigo conseguia ser tão educado, solícito e paciente, muito diferente da maioria dos jovens na idade deles. Rodrigo sempre tentava ajudar as pessoas que podiam. Mas a verdade era que ele não fora sempre assim. Seu passado obscuro, como ambos se referiam àquela época, implicava que Rodrigo fora um rapaz compulsivo e totalmente volátil, esquecendo-se da razão com muita frequência. Mas, agora, ele havia mudado. Talvez fosse uma consequência de Lígia que, por mais que fosse muitas vezes hipócrita, ainda fazia lá algumas coisas boas — e também daquele psicólogo que Rodrigo mencionara. Alice se lembrava de uma história que acontecera com a mãe do namorado. Ela ajudara um homem, um familiar que havia se perdido no caminho vil e que ninguém mais queria saber. Ela chegara a acolhê-lo em casa, coisa que nenhum dos parentes, inclusive o pai e mãe, não faria. No outro dia, várias coisas haviam sumido e o homem havia fugido. Ela prestou queixa na polícia, mas, depois de um tempo, quando o encontrara novamente, vendo a situação em que ele se encontrava, ela preferiu retirar a queixa a denunciá-lo. Alice sabia que nunca faria uma coisa assim. Ela nunca perdoaria uma pessoa que havia abusado de sua gentileza.

— Rô, você é tão bom pra mim — confidenciou-lhe Alice.

Rodrigo passou as mãos pelos fios loiros de Alice.

— Você também é. — Alice remexeu os fios lisos e escuros que desciam pela testa do jovem. — Ei, não faz isso! — Ele tentou arrumar, em vão. — Olha que você fez.

Ela o beijou. O beijo se iniciou devagar, sempre caloroso e voraz, e, aos poucos, tomou uma urgência desesperadora. Rodrigo apertava as costas da namorada, enquanto ela fazia o mesmo com ele. Rodrigo se virou tirando a blusa.

— Você acha que está pronta?

Alice olhou nos olhos dele. Eram de um castanho claro.

— Você lembra que eu disse que isso só aconteceria quando eu tivesse a certeza de que tudo entre nós estava resolvido?

— Lembro — replicou, inseguro.

— Foi logo depois da gente reatar, depois da sua viagem. Eu temi que as coisas pudessem estar embaçadas, que você pudesse ter feito algo. Mas agora eu sei que tudo está claro.

Ele assentiu.

— Eu te amo.

— Eu te amo — correspondeu ela.

III

03/01/2016, 14h22min.

MARCELO E ADRIANA VIRAM AQUELE PAPEL E se assustaram. Aquilo não poderia ser verdade. Eles leram, releram e sempre chegavam à mesma conclusão: era doidera. Afonso não poderia estar fazendo aquilo, mesmo com toda sua maluquice. Ok, ele podia, sim. Mas era a dúvida que os afligia.

— Vamos deixa isso pra lá — disse ele. — Vamos focar em outros assuntos, que tal?

Marcelo até tentou, mas parecia que, depois do que acontecera com Otávio, as coisas estavam mais difíceis. Ele não havia conseguido dizer não. Até tentara, mas o desejo carnal, o seu vício momentâneo, fora muito maior do que ele. Fora uma coisa efêmera, mas muito ruim para ele. Depois do ocorrido, depois da porra dos vícios — tanto da bebida e do sexo — o deixarem assim, ele havia combinado com o rapaz para que não contasse nada a ninguém. Ele havia aceitado, mas parecia a Marcelo que havia algumas indicações a serem cumpridas. Otávio fingia não ter nada a perder revelando tudo aquilo, ao contrário de Marcelo, que poderia ter sua vida colocada a baixo. Então, Marcelo tinha medo de que Otávio usasse isso se quisesse algo.

Adriana também estava se sentindo mal. Por Marcelo. Estava traindo-o com o próprio filho sob o mesmo teto. Isso era inadmissível. Mas, ao mesmo tempo, ela não conseguia contar a verdade para ele. E, mesmo se o fizesse, as coisas iriam desabar. Ela não sabia se isso era o melhor. Na realidade, o melhor que poderia ocorrer era que ela terminasse aquilo que ela tinha com Eduardo. Ela o faria.

Agora só faltava a força de vontade. Ia falar agora com ele.

— Amor, vou ver como o Dudu está. Ele pode ter ficado abalado com aquela conversa.

Marcelo sentiu pena da mulher. Tão boa para mim e para meu filho e eu fiz isso com ela. Eu sou um monstro!

— Tudo bem, vai lá. — Ela já estava no batente da porta quando ele a chamou. — Obrigado, Driga. Eu te amo.

— Eu também te amo.

Ela foi até o quarto ao lado, o de Eduardo, e bateu na porta.

— Sou eu, Adriana.

— Tá aberta.

Ela adentrou o recinto. Já estava ensaiando o que ia dizer. Falaria que as coisas não poderiam ficar daquela forma, que Marcelo não merecia aquilo, que eles deviam “terminar” agora. Mas, ao se deparar com o rosto maravilhoso, os olhos azuis, o sorriso resplandecente, o nariz afilado, os lábios preenchidos e maliciosos, a sobrancelha arqueada, o pequeno brinco na orelha, os cabelos enrolados como os de um anjo, ela achava que não iria conseguir fazer o que pretendia. Lembrou-se de sua afeição enorme por dramas policiais. Como Eduardo gostava de assistir CSI e os derivados, principalmente na presença dela... Fora assim que eles foram se aproximando e acontecera o inevitável, o maldito e perfeito primeiro beijo deles.

Adriana não iria conseguir.

— Só vim aqui te dar um beijo.

Eles se beijaram, mas não como mãe e filho, como Marcelo julgava ser. Beijaram-se vorazmente como homem e mulher, como um casal, o que eles eram.

Adriana não havia conseguido.

IV

03/01/2016, 14h29min.

VALQUÍRIA ACORDOU E NÃO ENCONTROU Robson no quarto. Ele devia estar jogando vôlei na quadra perto da piscina. Ela se levantou e saiu dos seus aposentos. Subiu as escadas almejando ir até a sacada e tomar um pouco de ar. No entanto, ao passar pelo quarto de Eduardo, seu sobrinho, ela soube que havia algo ali. Ouviu atrás da porta e perguntou-se se era possível o próprio filho trair o pai com a namorada dele. Bem, isso não era da sua conta. Valquíria ficaria quieta, deixaria aquela jovem, Adriana, resolver seus próprios problemas. Ela era uma moça bonita e, caso se separasse de Marcelo, seu irmão, talvez Valquíria pudesse oferecer um pouco de consolo a ela. Abrir as pernas para uma jovem enfiar os dedos era ótimo, às vezes até melhor do que uma piroca enorme.

Ela voltou ao tempo presente. Mas, novamente, ela estava casada. Ela não iria trair Robson. Nunca.

Ademais, fazer picuinhas era coisa de Melissa, sua irmã. Era a uma mulher que Valquíria abominava. Desde pequenas, Melissa sempre fora a preferida, ganhando os melhores presentes e estudando nas melhores escolas. Era algo que Valquíria não suportava. Melissa sempre fora a mais bonita, a mais certa e sofisticada, a única que havia aprendido a atirar, pois o pai via nela uma mulher forte, enquanto Valquíria era tida como a ovelha negra, por gostar dos dois sexos, tatuagens e piercings. Não era uma coisa muito legal numa família que vivia de aparência. Acabou que, mesmo crescidas, Valquíria ainda sentia raiva da irmã. Ela devia ter mudado o pensamento, crescido e se tornado uma pessoa melhor. No entanto, parecia que a família Dallas só tendia a regressar.

V

03/01/2016, 14h43min.

GABRIEL E LÍGIA JÁ HAVIAM DEIXADO DE lado aquele papel difidente. Gabriel, que era detetive, sabia que aquilo poderia proceder, mas esperavam que não, principalmente Lígia, com aquele seu comportamento teoricamente ético.

— A família de vocês não é muito unida.

— Lígia, não precisa dizer o óbvio para me afetar. Você não vai conseguir me fazer mudar de ideia. Essa herança é algo muito maior. Precisamos dela.

VI

03/01/2016, 15h39min.

QUANDO VALQUÍRIA DORMIU, depois de conversarem sobre aquele papel e se perguntarem se ele era mesmo veraz, Robson se esgueirou para o quarto de Juliana. Eles fizeram um sexo mais adorável do que da primeira vez, pois eles dispunham, agora, de mais tempo, já que a maioria estaria dormindo depois do almoço e de uma conversa extremamente árdua. Talvez, ainda, pudessem estar remoendo sobre o que aconteceria, fazendo hipóteses e suposições para contornar o problema e encontrar uma solução, mas Robson duvidava disso.

— Foi bom, não foi? — perguntou Robson, suado, ao lado de Juliana. Os peitos delas, enormes, estavam caídos cada um para um lado. — Você faz bem pra porra.

— Tenho muita experiência.

— Nunca tinha trepado com uma vadia assumida.

— Eu acho que você nunca tinha trepado com uma mulher tão gostosa como eu. Se tivesse, saberia que elas fazem muito mais sexo. Elas podem escolher qualquer homem. — Ela revirou os olhos. — Mas não ache que eu seja uma prostituta. Eu só gosto de fazer sexo. Mas, bem, deve ser com a pessoa certa.

— E, nesse caso — inquiriu Robson, sentindo o perfume doce daquela cocota —, essa pessoa certa sou eu?

— Na realidade, foi por falta de opção. Eu imagino que Gabriel não vá trair a Lígia e Marcelo parece ser bem apaixonado pela Adriana. E, infelizmente, a Melissa é chata demais, mesmo tendo aquela bunda enorme.

— E os mais jovens? — sugeriu Robson.

— Pode não parecer, mas eu não acho certo pegar os novinhos. — Ela riu com a expressão. — “Novinhos” é tão Orkut. De qualquer forma, mesmo se eu quisesse, acho que não daria certo. Como o pai, Rodrigo parece ser bem fiel. Eduardo é muito imaculado pra mim, com aquele rostinho angelical.

— E meu filho?

— Otávio? — Juliana mediu as palavras. — Bem, ele é gay.

Robson arregalou os olhos.

— O quê?

— Você não sabia? Não viu como ele fica contemplando o rosto fofinho do Eduardo ou o corpo do sarado do Rodrigo quando ele toma banho de piscina? Você deve ser bem próximo do seu filho... — alfinetou a médica, os cabelos loiros bagunçados.

— Isso não importa, de qualquer jeito. Valquíria é bissexual e vai achar super normal. Vai até incentivá-lo.

— Ela é bissexual como eu? Interessante...

— Não vai me dizer que está a fim dela.

— Ela até bem bonita. — E, percebendo que Robson temia alguma coisa, ela desconversou: — Se eu for transar com ela, prometo que te aviso pra podermos fazer um sexo a três.

E eles continuaram conversando. Eventualmente, a conversa mostrou-se muito promissora.