Quem matou Afonso Dallas?

11 Episódio X - Grito Plúmbeo


Notas iniciais
Gente, não precisa ficar com medo. Sou bem legal. Vocês podem dizer suas hipóteses e o que estão achando sobre a história. Me fará feliz.

I

03/01/2016, 21h27min.

AGORA, ELES ESTAVAM DE VOLTA À COZINHA. Como acontecera na conversa com Afonso mais cedo, eles estavam circundando a mesa, cada um com uma posição demarcada tacitamente.

— Eu não acredito muito nessa teoria de alguém querer nos isolar aqui dentro — expôs Marcelo, a mão no ombro de Adriana. — Por que alguém iria querer fazer isso?

— Pode ser uma brincadeirinha de mau gosto — disse Robson, em tom brincalhão. — Eu faria isso pra assustar todo mundo depois de um suicídio.

Melissa estalou os dedos.

— Isso pode ser uma boa hipótese. Mas cadê o Gabriel? Ele se daria melhor do que a gente com esse dilema.

— Tia, ele está tomando um ar — disse o filho do homem, abraçado singelamente à namorada, que parecia assustada. — Aquela mania dele depois de ver presenciar...

— De qualquer forma — verbalizou Valquíria, depois de um bom tempo de silêncio —, isso não é um problema. Digo, podemos comprar um telefone e pneus, até carros, com a herança — sugeriu, pingando sarcasmo.

— Mas, infelizmente, mãe, não há herança.

Alice se perguntou se os dois haviam combinado isso.

— Não podemos fazer muito ficando por aqui — averiguou Adriana.

— Mas o que faremos? — perguntou Eduardo. — Digo, como vamos embora? Aqui não passa ônibus, é isolado de tudo...

Juliana chegou à sala. A cabeleira loira brilhava sutilmente.

— Eu falei com Afonso — informou. Aquilo era, para a maioria, uma notícia indecifrável. — Ele disse que não faz a menor ideia sobre disso tudo, mas disse para ficarmos tranquilos.

— Tranquilos? — ecoou Lígia. — Nós estamos presos aqui. — E abaixou a cabeça para rezar. Afagava o terço com os dedos. A falsa religiosa perguntava-se se, depois de tanto tempo fingindo que andava rezando, o terço na mão, ela não havia criado um TOC. Ela achava que sim, pois aquilo estava se tornando viciante e indispensável para sua calmaria interna.

— Sim, tranquilos, minha cara Lígia. Se não me interrompesse, saberia o que eu ia dizer. — Ela recuperou a compostura. Os olhos astutos, de um âmbar vivaz, percorriam todos os semblantes ávidos pelo prosseguimento dela. — Ele disse que alguns comerciantes vão passar aqui amanhã.

— É verdade — confirmou Melissa. — Papai queria comprar alguns móveis, um sofá, acho, mas, como não podia ir à loja, ela viria até aqui.

— Ninguém perde a chance de ter um pouco do dinheiro da família Dallas — escarneceu Otávio. — Ainda estou inconformado com essa herança. Enfim, isso não vai dar em nada mesmo. Então, eu tô saindo.

Aquilo pareceu ser uma deixa. Aos poucos, os residentes foram saindo, menos aflitos do que estavam antes. Alguns se esgueiraram para as escadas e outros permanecerem naquele mesmo nível. Outros, ainda, saíram da mansão. Alice e Rodrigo continuaram na cozinha logo após todos a deixarem.

— Não devíamos chamar seu pai?

— É melhor não — aconselhou. — Da última vez que fui chamar ele pra entrar, ele me respondeu tão mal que agora eu prefiro que ele entre sozinho, nem que ele tenha que ele fique a noite inteira lá. Se minha mãe quiser, ela fala com ele.

Alice assentiu e seguiu para seu quarto.

II

03/01/2016, 21h31min.

OTÁVIO ESTAVA TREMENDO DE RAIVA. Toda vez que se lembrava de que não iria receber a herança, ele abafava os gritos, sufocando-os em sua própria garganta. Havia feito tantos planos para, no fim, acabar daquela forma, sem um pingo de centavo, sem seu celular de teclinhas e o único carro de sua família inutilizado. Isso tudo era inadmissível.

Ele pegou o travesseiro e jogou contra a porta. O ruído fofo soou pela quietude do quarto. Ele precisava espairecer, precisa colocar a cabeça no lugar, antes que fizesse alguma besteira. Ele achava que toda aquela tensão que pairava na casa piorava ainda mais as coisas na sua cabeça, mas ele não podia fazer nada para confrontá-la; era algo natural da família Dallas. Criar a atmosfera pesada e nebulosa era uma marca característica daquela mansão abastada e, infelizmente, inseparável. Seus pensamentos obscuros pareciam pesar, dificultando qualquer lógica ou linha de raciocínio sensata que quisesse criar e analisar.

Ele precisava fazer outra coisa.

Olhou para si mesmo no espelho e, num vislumbre de seu corpo, lembrou-se de um homem que muito promissor. Marcelo poderia não querer fazer, mas queria menos ainda que as notícias se espalhassem... Ficaria tão ruim para ele!, riu-se o jovem, em pensamentos.

Otávio esgueirou-se do quarto e desceu as escadas. Era um dos poucos que dormiam no segundo andar. A escada era grande e coberta de um material brilhante, talvez mármore. O corrimão era delgado e esguio, serpenteando conforme as curvas e voltas dos degraus. Otávio os galgou com impaciência, mas conteve-se em fazer barulho. Não precisava avisar todo mundo sobre o que iria fazer. Seguiu na direção do quarto de Marcelo e Adriana, que ficava ao lado de Eduardo. Otávio estava supondo que bateria na porta e inventaria qualquer desculpa esfarrapada para falar com Marcelo, como alguma dúvida sobre a academia que ele comandava ou algo assim. Mas, por sorte, o homem estava lendo um livro, sentado, sozinho, numa mesa da sala de estar.

— Cadê Adriana? — perguntou Otávio.

Sobressaltado, Marcelo derrubara o livro e levantara as mãos num quase sinal de rendição.

— Que susto, cara. — Ele abaixou o tronco e alcançou o livro. Deixou-o em seu colo. — Ela deve estar com o Edu — replicou. — O que você quer?

— Qual é! Precisa mesmo dizer? — Ele virou o semblante para baixo e sorriu. — Achei que está meio claro.

— Não me diga que...

— Ei, tio, não finja que não gostou, tudo bem? Nós dois sabemos que aquilo foi muito bom. — O jovem colocou a mão no queixo, os cabelos espetados naturalmente bagunçados. — Acho que, se você não é bicha, deve adorar sexo...

Marcelo revirou os olhos.

— Eu não sou bicha! — defendeu-se. — É só que...

— Você não consegue controlar quando as coisas já estão muito avançadas. — Marcelo, hesitante, pareceu aquiescer, meneando a cabeça. — Te entendo. Bem, infelizmente, isso se torna um defeito quando você quer ser leal, certo? — Marcelo não falava nada. Somente ouvia as palavras pedantes de Otávio. — Achei que você tivesse ficado no centro de reabilitação.

Era incrível como aquela casa, mesmo com a quantidade considerável de hóspedes, tornava os desencontros palpáveis. Os dois estavam a sós ali.

— Mas eu fiquei. Eu não uso mais drogas.

— É — escarneceu Otávio —, mas ainda tem outros vícios, e eu não digo só o da bebida...

Então Otávio havia descoberto!

— Isso é tão complexo e constrangedor — disse Otávio, alisando os cabelos lisos do homem que lhe chegavam até a nuca. — Digo, vício de sexo parece uma coisa surreal... — Agora, ele afagava o peito do homem. — Vai ser rápido, vamos? — Marcelo se levantou sentindo-se coagido. — Você tem camisinha?

— O quê? — indagou ele, os olhos arregalados mais uma vez. — Vamos chegar a este ponto?

— Fique tranquilo. Prometo que não rebolo muito rápido.

III

03/01/2016, 21h38min.

RODRIGO TENTOU DISFARÇAR A ANSIEDADE quando adentrou o quarto de Alice. Ele queria mais uma vez com ela. Ele tinha tirado a virgindade da garota e já estava ávido por outra vez. Estava muito apaixonado por ela, embora não se sentisse digno, por conta de tudo...

— O que você tá fazendo aqui?

Rodrigo reparou a televisão ligada.

— Oi pra você também — disse ele, aconchegando-se ao lado de uma Alice deitada e sonolenta. — Já vai dormir?

— Não estou me sentindo muito bem. Sabe, as coisas aqui são tão estranhas.

Rodrigo escondeu o rosto.

— Me desculpa. Eu te arrastei pra isso tudo.

— Não fica assim — disse ela, tocando o queixo dele. — Foi eu quem pedi pra vir. Não é sua culpa.

Ele olhou Alice nos olhos.

— Você está a fim? — perguntou, malicioso.

— Rodrigo! — Ela o empurrou. — Para de ser insensível. É claro que não. Eu não quero que sexo se torne uma coisa casual. Você sabe como eu sou...

— Romântica e iludida... — murmurou.

— Ei! — Alice parecia sinceramente aborrecida.

— Me desculpa — disse ele, novamente, mas por um motivo diferente.

— Tudo bem, mas não força assim de novo, ok?

— Claro — respondeu ele, triste.

IV

03/01/2016, 21h39min.

LÍGIA NÃO ERA LÁ O TIPO DE PESSOA TÃO religiosa como o pessoal achava que fosse. Ela fingia sempre estar rezando, andando com um terço na mão, mas a verdade era que não fazia nenhuma oração. E para que tudo isso? Não é óbvio? Para ela, é, sim, e muito. Quando você finge ser uma pessoa serena, você acaba ganhando a atenção, compaixão e apreço por todos, o que era muito conveniente na vida como um todo. Sempre lhe referiam como aquela mulher boa, que fazia ações boas para os pobres. Na realidade, ela só iria fazer isso, ajudar os necessitados, se fosse reconhecida. Havia feito algo do tipo com um parente que ninguém queria ajudar. Ela o recebera e até lhe dera abrigo, mas, por dentro, estava odiando toda aquela falsa solidariedade. Ela achava que o homem tinha mesmo era que se ferrar. Mas, como a vizinhança toda estava sabendo daquele acontecimento, ela combinou com um homem que lhe daria um dinheiro para supostamente roubar algumas coisas. Lígia, logo em seguida, pegaria as coisas de volta, venderia ou faria o que fosse, e não iria prestar queixa na polícia, porque era uma pessoa superior, que sabia perdoar os outros. Mera ilusão.

O plano, no fim das contas, havia funcionado; ela havia sigo elegido, segundo o povo, como uma das poucas mulheres que ainda eram humanas.

E as coisas tinham que continuar assim. Às vezes, como quando falava mal das pessoas, ela não conseguia fingir completamente que era aquela pessoa imparcial, neutra, que respeitava todo mundo. Mas, como todo mundo tinha defeitos, os outros iriam engoli-lo, sobrepujando-o ao reparar na grandeza de suas qualidades envolvendo a graça e a pureza. Assim, a maioria havia acreditado — e odiado — quando ela fingira que estava adorando o fato de a herança estar indo para a caridade. Mas a verdade era que ela queria mesmo era o dinheiro para ela e não para quem realmente precisava. Ela pensaria sobre isso mais tarde. Agora, tudo que ela precisava era falar com o marido. Ele ainda não havia voltado, e Lígia estava começando a se preocupar. Ele passava um tempo enorme sozinho, geralmente dormindo num ambiente rural. Normalmente, isso acontecia em um lugar calmo, como em uma fazenda ou no quintal de casa, e Lígia sempre precisava chamá-lo para retirá-lo daquele estado catatônico.

Então, ela saiu da mansão sem muita dificuldade. Atravessou o jardim, fitou a piscina brilhante e fantasmagórica à luz da lua e estava de frente para o portão. Não precisou andar muito para se deparar com a cena tétrica que estava estendida à frente dela. Gabriel, morto, jogado no chão. Ele quase não tinha amostra de sangue exterior para afirmar que estava morto, mas os elementos — estava deitado, de olhos abertos, o cenho e os membros plúmbeos, com alguns mosquitos lambendo-lhe os lábios e as bochechas — revelavam a condição. Mesmo à luz parca da lua, ela pôde perceber as marcas de corda ao redor do pescoço do homem e a marca que mostrava que alguém tentara arrastar o corpo.

Lígia colocou a mão na boca e gritou.

Notas finais
Espero os comentários.