Quebra de Acordo
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Já havia se passado uns dias desde que Gaston chegara ao moinho de Maurice. Desde então, Belle estava evitando visitar seu pai. Ela não entendia o motivo de seus receios, mas, desde que vira o novo servo de Rumplestiltskin, sentia um medo lhe percorrer a espinha. Definitivamente, ela não havia simpatizado com Gaston.
Enrolava seu tempo vago alternando entre suas leituras e tecendo alguns tecidos. Ela descobriu que tinha grande habilidade para tear, ao contrário de fiar, que ainda era seu ponto fraco.
Sua rotina era sempre a mesma: limpar alguns aposentos, cozinhar, lavar e servir os donos do castelo e, algumas vezes, seus convidados. Já estava habituada a isso e não reclamava mais. A única coisa que não se habituara, e duvidava que um dia se habituaria, eram os gritos dos presos das masmorras ao serem torturados. Isso ainda assombrava suas noites. Esse era mais um dia normal. O Conde havia caçado um pequeno servo que ela teve que limpar e destrinchar. Já estava pegando prática nisso e fazia esse serviço cada vez mais rápido e com menos nojo. Após cozinhar alguns pedaços de carne e servir o almoço ao Conde e seu filho, foi retirar os utensílios sujos.
—Belle? –Rumplestiltskin a chamou antes que saísse.
—Senhor, algo mais em que posso servi-lo?
—Há quantos dias não vai ver o seu pai?
Belle pensou um pouco e realmente fazia um tempo desde que não o via, desde que Gaston havia chegado. Na verdade, ela não sabia exatamente quantos dias fazia.
—Não sei, senhor.
—Tire o resto do dia de hoje. Vá ver o velho moleiro, mas volte para preparar o jantar.
Ela assentiu com a cabeça e se retirou. Sim, tinha saudades de seu pai, mas o moinho era o último lugar que queria estar naquele momento. Antes iria visitar sua amiga Ruby. Assim que saiu, estranhou o movimento às portas do castelo. Uma carruagem seguida por dois cavaleiros armados se aproximava. Ela queria sair, mas sua curiosidade foi maior e esperou para ver quem seria seu ilustre passageiro. Ficou surpresa ao ver que era uma passageira muito bem ornamentada com joias e um lindo vestido em um tom negro. Preferiu sair dali ao ver a mulher lançar ordens e ofensas para os guardas do castelo. Não sabia quem era aquela pessoa, mas não era um ataque. Ninguém atacaria uma fortaleza daquela com apenas dois cavaleiros.
***
Rumplestiltskin estava relaxando em sua cadeira quando um de seus cavaleiros entrou apressadamente e ele logo ficou em estado de alerta, imaginando se seria um outro ataque normando.
—Senhor, me perdoe, mas não consegui evitar a entrada dela. –O cavaleiro anunciou, poucos segundos antes de uma mulher entrar na porta.
—Que recepção mais desanimada para uma dama. Agora se retire que quero falar com seu senhor a sós. Ande se não quiser perder sua cabeça. –A mulher ameaçou.
O assustado cavaleiro olhou para o seu senhor e, assim que Rumplestiltiskin acenou com a cabeça, ele se retirou do grande salão, fechando a porta atrás de si.
—Regina querida, a que devo a honra de sua infeliz visita? –Rumplestiltskin perguntou.
—Já foi mais cavalheiro, Rumplestiltskin. Nem mesmo vai me oferecer uma bebida. Cadê seus empregados?
—Eles servem a quem merece. Não me faça perder tempo e diga logo o que quer.
—Pra começar, um pouco desse seu vinho barato.
Ela pegou um copo e se serviu, mas, antes de leva-lo a boca, notou o pequeno lascado na borda do copo.
—Você já foi mais cuidadoso com seus pertences. –Comentou, olhando para o copo.
Rumplestiltskin andou até ela e, delicadamente, retirou o copo da mão dela e sorveu um gole do vinho antes de falar:
—Isso é para distinguir o meu copo dos demais. Acho que ainda não escutei o que quer?
—Quero uma aliança.
O homem soltou uma alta gargalhada antes de responder:
—E por que eu faria uma aliança com você? Acho que não tenho muito o que ganhar. Você ainda só tem o suas terras porque eu permito. Sabe bem que se eu quisesse, eu já teria te tomado elas e matado aquele homem que chama de pai. Você está no ramo errado, querida. Cuidar de um castelo não é trabalho para uma mulher. Case-se logo com algum nobre rico e vá cuidar dos filhos e deixar de brincar de Baronesa.
A mulher ficou irritada com o comentário. Ela sabia que esse cargo que assumia era um grande fardo para uma mulher. Sim, seu pai ainda era vivo e o verdadeiro senhor, mas ele não tinha mãos firmes para administrar um castelo como se devia e ela ficou responsável por essa parte.
—Eu sei a localização dos normandos que tanto odeia. –Ela falou.
—E por que eu deveria acreditar? Se realmente soubesse, já os teria aniquilado. São tanto seus inimigos como meus.
—Eles não tem motivos para me atacar, não agora, ao menos. Se me ajudar, posso fornecer a localização e alguns de meus cavaleiros para lutar contra eles.
—E o que isso me custaria, exatamente?
—Me ajude a tomar a coroa e ser a nova rainha.
—Você rainha? Se queria ser a piada, conseguiu, querida.
—Então não vai mesmo me ajudar?
—Quando realmente tiver algo com que possamos negociar, poderei. Não estou interessado em uma simples informação que nem sei se é verdadeira.
—Quando os normandos te atacarem e te deceparem, estarei assistindo com um sorriso no rosto.
A mulher lançou um olhar de ódio para o Conde e saiu batendo a grande porta de madeira. Rumplestiltskin apenas riu do comentário dela. Regina não poderia ser tão burra de saber a localização dos normandos e não ataca-los. Eles também eram seus inimigos, ele pensou.
***
Belle estava perto da casa da vovó conversando com Ruby quando a carruagem de Regina e os seus soldados passaram rapidamente próximo a elas.
—Quem são, Belle? –Ruby perguntou.
—Não sei, Ruby. Só consegui ver que ela uma mulher bem vestida, mas não sei quem é.
—Será que é alguma pretendente do Conde ou amante?
—Não sei.
—É estranho o conde não ser casado. A maioria se casa para aumentar bens.
—O conde é um homem que tem riquezas. Talvez ele espere pela amor.
—Amor, Belle? Aqui ninguém se casa por amor. Casamento só é mais um acordo para aumentar a riqueza.
—Ainda acredito que encontrarei alguém por amor.
—Encontrar não é o difícil, o difícil é conseguir se casar com alguém assim. Minha avó foi uma exceção. O conde era para ter nos mandado embora assim que ela ficou viúva. Só não o fez porque ainda precisa de nossos serviços. Não duvido nada ele arrumar alguém para se casar comigo depois que vovó morrer. *
—Ele não é assim tão ruim, Ruby.
—Ele é sim. Não duvido nada ele também arrumar algum cavaleiro para ser seu marido. Sabe que aqui é ele que tem a palavra final.
Belle parou por um momento e pensou. Realmente ela e Ruby já estavam na idade de se casarem e servirem o lar. Por parte da outra jovem ela não poderia dizer, mas em relação ao seu destino ela sabia que o seu pai interviria por um casamento. Pela primeira vez ela se perguntou o porquê as mulheres não poderiam ter o arbítrio da escolha sobre suas vidas. Aquilo era injusto.
—Isso é injusto, Ruby. Devíamos poder escolher o nosso par.-Belle protestou.
—Eu nunca disse que ela justo, mas eu bem que ficaria feliz se o Conde me escolhesse de par para aquele servo novo do moinho. Ao menos é bonito.
—Não gosto dele.
—Como pode não gostar dele? Outro dia até falei com ele e é simpático.
—Não sei o motivo, só sei que não gosto.
—Você é bastante seletiva, hein!
—Preciso ser se quero algo bom. Agora, mudando um pouco o rumo da conversa: Já deu um jeito naqueles seus bichos?
—Os lobos? Eles estão bem. Crescem cada dia mais.
—Ruby, se livre desses bichos antes que arrumem confusão.
—Eles não arrumarão.
—Espero que esteja certa. Às vezes preciso concordar com a sua avó quando ela diz que você precisa de um pouco de juízo nessa sua cabeça.
Belle ainda ficou um tempo mais conversando com a Ruby, mas sabia que em algum momento precisaria ir encontrar seu pai. Já estava ficando tarde e, em poucas horas, precisaria voltar para o castelo para preparar o jantar do Conde e seu filho. Com certa resignação, tomou coragem e se encaminhou para o moinho. Chegando lá, porém, não encontrou seu pai, mas sim Gaston.
—Poderia ajudar a bela senhorita? –Ele galanteou.
—Sou filha do senhor Maurice. Meu pai está?
—Então você é a famosa Belle. Estava curioso em conhecê-la. Sou Gaston e fui escolhido para ajudar seu pai.
Gaston se aproximou, pegou a mão dela e, delicadamente, depositou um beijo ali, num gesto galanteador. Belle sentiu-se um pouco enojado com aquilo.
—Onde meu pai está? –Ela tornou a perguntar.
—Ele foi realizar uma entrega para o velho padre. Mas deve demorar. Acho que poderíamos aproveitar esse tempo para nos conhecermos, ou melhor, você me conhecer. Eu já te conheço do tanto que seu pai fala.
—Fico lisonjeada, mas não tenho interesse em conhecê-lo, senhor Gaston. O que quero é falar com meu pai. Boa tarde.
Mesmo com os protestos para que ficasse, Belle se afastou rápido e ignorou o homem. Seguiu o mais rápido que suas pernas permitiram em direção à Igreja. Assim que entrou, Pinóquio, um jovem de 20 e tantos anos veio recepciona-la. O padre, Gepetto, era um homem solitário e há muitos anos acolhera um garoto órfão para cuidar. Hoje o garoto já havia se tornado o homem que estava parado a sua frente.
—Olá, Pinóquio. –Belle o cumprimentou.
—Belle, há quanto tempo não aparece por aqui.
—Agora eu estou trabalhando no Castelo.
—Fiquei sabendo. Sinto muito por isso.
—Tudo bem. Meu pai já chegou?
—Sim. Está lá nos fundos com o padre. Você sabe o caminho.
—Obrigada.
Belle seguiu até uma pequena salinha e encontrou seu pai conversando com o padre Gepetto. O padre decidiu dar-lhes um pouco de privacidade após cumprimentar Belle.
—Aconteceu algo, filha?
—Não, papai. Eu apenas vim visitar o senhor.
—E como vai, minha filha?
—Bem, na medida do possível.
—O Conde a tem tratado bem?
—Até mais do que mereço.
—Fico feliz em saber, não gosto daquele homem. Você já conheceu o Gaston?
—Já. –Respondeu, desanimada.
—O que achou dele?
—Sinceramente, não gostei muito.
—Por que não? Ele parece ser um bom homem.
—Apenas não gostei.
—É questão de se conhecerem melhor. Aproveitando que está aqui, me ajudaria a recolher alguns grãos para moer?
—Claro, papai.
Belle foi ajudar seu pai e conversar com ele. Ela preferiu não discutir, por momento, mas não tinha a mínima vontade de conhecer o novo moleiro.
Continua.
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