Quebra de Acordo
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Após o Conde ser gentil e ter emprestado o livro para que Belle pudesse ler, ela decidira também se dedicar mais ao seu trabalho. Ela não era nenhuma serva excepcional nas artes de limpeza do lar, mas passou a se dedicar com mais afinco para aprender e, de alguma forma, tentar agradecer a gentileza. Também tentou aprender a fiar melhor, mas essa era uma coisa que ela realmente não levava jeito e duvidava que, mesmo com o treino, conseguiria fiar um fio relativamente bom um dia.
Ela tivera um pouco de dificuldade para ler no começo, mas, após algum tempo, a leitura fluía naturalmente. Ela estava apenas sem prática. Durante os dias fazia seus afazeres como serva e, à noite com o auxilio da luz de um candelabro, mergulhava na leitura. Ela levou, exatamente, 15 dias para terminar de ler e ficou extremamente encantada com aquilo. Ela nunca em sua vida pudera ler um livro completo e agora sentia o vazio de tê-lo terminado. Esperava que o Conde, em suas viagens, pudesse encontrar mais algum livro e que pudesse permitir ela ler. Com esse pensamento, assoprou as velas e deitou-se em sua humilde cama de palha. O Amanhã seria um novo dia.
Belle acordara assustada com o grito de um dos prisioneiros das masmorras. Odiava que seu quarto ficasse exatamente naquela área do Castelo. Por mais que soubesse que os prisioneiros tinham motivos para estarem lá, acorrentados, ela ainda se apenava deles. Mesmo se fossem cruéis, eram humanos e mereciam ao menos um pouco de respeito. Ela, não aguentando mais ouvir os gritos de sofrimento do pobre homem, saiu com o livro nas mãos. O entregaria para o Conde. Foi para onde imaginava que ele estaria: no grande salão. O Conde era um homem de rotinas e gostava de tomar o seu chá todo dia na mesma hora e acompanhado de seu filho.
—Senhor? –Ela o chamou assim que o viu sentado em seu habitual lugar. Estranhou o fato de não ver Baelfire com ele.
—Sim, Belle? –Perguntou, em seu tom natural e calmo de falar.
—Eu vim lhe trazer seu livro e agradecer pela oportunidade de lê-lo. –Ela disse, pousando o objeto sobre a mesa.
—Gostou da leitura?
—Sim. Aristóteles foi um grande filosofo e escritor.
—Não conheço muito suas obras, mas não deixe o cardeal saber que anda lendo essas coisas. São obras que a Igreja não permite.
Belle engoliu em seco. Como a Santa Igreja poderia impedir que obras como aquelas fossem proibidas e escondidas do povo?*
—Por que a Igreja não permite, senhor? –Ela ousou perguntar.
—Dizem que vai contra as leis de Deus. –Respondeu com indiferença.
—Isso é inacreditável! A Igreja não pode decidir o que podemos ler ou não. Essas obras nos ensinam ética, nos ensinam a sermos mais humanos! –Ela falou, com a voz um pouco alterada.
O Conde a olhou com bastante curiosidade. Não imaginava que a humilde moça possuísse um senso de justiça e moral tão altos para uma camponesa.
—E nessa terra, em que o mais forte vence, quem quer ser humano? O poder está acima da ética e sempre estará. –Ele falou, com um pouco de ironia.
—A ética sempre existirá. Minha mãe me ensinou isso e é nisso que acredito. –Ela respondeu, com segurança.
—Interessante, senhorita Belle. Vejo que o livro despertou seu lado ético. Eu adoraria continuar essa conversa, mas estrou atrasado para meus afazeres. Será que poderia me fazer um chá? Bae precisou sair e não teve tempo de preparar para nós.
Belle, então, finalmente se deu conta de que estava discutindo de ética com o temido conde, com a Fera. Ela percebeu a imprudência que cometera e, mais que depressa, foi preparar o chá para seu senhor.
Chá pronto, ela o colocou nos novos jogos de copo que ele trouxera da última viagem e se encaminhou para a sala.
—A ética é algo formidável quando escrita nas letras de um livro. Na vida real, a única ética que conta é a da espada mais afiada e do movimento mais rápido. Ganha quem conseguir espalhar mais o sangue do inimigo pela terra.
Belle acabou se assustando com o comentário e derrubou, sem querer, o copo com todo o chá do Conde. Rapidamente o pegou do chão, mas percebeu que o copo ficou lascado. Uma pequena lasca em sua borda. Não o inutilizaria por completo, mas ela temeu que sofresse algum castigo por isso. Era o jogo mais novo de copos do Castelo.
—Senhor, me perdoe. Não foi minha intenção. Está um pouco lascado, mas quase não dá para perceber...
—É apenas um copo. Meus cavaleiros destroem muito mais que isso quando bebem. Não dê tanta importância, nem era um bom copo. Tentarei conseguir algo melhor em minha próxima viagem. –Ele falou, um pouco surpreso pela estranha preocupação de sua criada.
—Obrigada, senhor. –Ela agradeceu mais aliviada de ver que não seria punida. –Irei agora mesmo preparar outro chá para o senhor.
—Não precisa. Estou atrasado. Também não voltarei para o almoço, mas pedirei a alguém para deixar algum frango para que prepare para o jantar. Guarde o livro com você até eu voltar. –Ele falou, antes de se retirar.
Belle pegou o livro e o guardou em seu quarto. Depois foi fazer seus afazeres costumeiros.
***
Já era noite quando o Conde finalmente retornou ao Castelo. Baelfire já havia jantado e se recolhido em seus aposentos. Belle serviu Rumplestiltskin que jantara sozinho.
—O homem que havia escolhido para trabalhar com o seu pai, em seu lugar, teve um pequeno acidente no percurso e acabou sendo morto pelos normandos. Tive que escolher um outro. –O conde disse, calmamente, enquanto tomava um gole de vinho.
Belle o olhou, espantada. Ela não conhecia o homem que trabalharia com o seu pai, mas ficou sabendo que também era um moleiro e isso a acalmara um pouco. Agora não sabia quem seria esse novo servo do Conde.
—O novo servo já chegou? –Ela ousou perguntar.
—Já. É somente mais um servo que vagava sem proteção. Espero que seu pai saiba ensinar a ele a arte de moer grãos. Farei a cerimonia amanhã. **
—Fico feliz, senhor. Espero que ele sirva bem ao cargo.
—Ele servirá, não tenho dúvidas disso. Todos aqui sabem o destino daqueles que não me servem como o combinado.
Belle estremeceu com aquelas palavras. Ela havia ouvido falar muitas histórias acerca do Conde, histórias terríveis sobre mortes e torturas daqueles que quebravam o juramento, mas achava que grande parte era apenas uma invenção, uma arma de intimidação para que trabalhassem bem. Ouvir o Conde falar algo que, praticamente, dava veracidade às histórias que escutara, lhe causou um frio ruim na espinha.
—Deseja mais alguma coisa, senhor? –Belle perguntou, torcendo para que o Conde a dispensasse. Sentia-se um pouco mal.
—Desejo. Aquele livro ainda está com você?
Belle, por um momento, esqueceu-se completamente de devolver o livro e sentiu-se envergonhada por isso.
—Está, senhor.
—Traga para mim.
Ela, rapidamente, foi para seu quarto e pegou o livro. Sentia medo de que o Conde a pudesse punir de alguma forma. Sabia que aquele era um medo irracional, mas não pôde evitar senti-lo.
—Aqui, senhor. –Ela disse, entregando o livro para o homem que estava de pé na porta e apoiado em sua bengala.
—Siga-me. –Ele ordenou.
Belle sentiu receio, mas o seguiu. Eles caminharam até o segundo andar do Castelo e o conde adentrou em uma das portas que ela fora proibida de entrar. Ela aguardou do lado de fora, mas ele fez sinal para que ela prosseguisse.
Assim que adentrou no pequeno quarto mal iluminado, ela sentiu-se extasiada. Era o quarto mais cheio de todos, com variados objetos empilhados. Sua curiosidade logo aflorou, mas ela estava se contendo para não demostrar isso em frente ao Senhor.
—Tome. Segunda estante, terceira prateleira. –Ele disse, entregando o livro para Belle.
Ela pegou, sem entender bem o que ele dissera, até que ele apontou para uma estante um pouco escondida atrás de tantos objetos curiosos. Ela se aproximou e percebeu que ele tinha mais alguns livros ali.
—Divirta-se. –Ele falou, antes de se virar e sair do recinto.
Belle ainda ficou um momento parada, apenas observando e se perguntando se não estaria sonhando. Ela tinha uma pequena estante com uns 20 livros*** a sua disposição e o conde havia dado permissão para que ela lesse. Ela se perguntava se realmente foi essa a intenção dele ao falar “divirta-se”. Não se aguentou e saiu rapidamente para o corredor a ponto de ver o Conde virando para entrar em seu quarto, que ficava a duas portas daquele local.
—Senhor? –Ela o chamou.
Ele parou e se virou para ela, antes de perguntar?
—Algum problema?
—O que o senhor quis dizer com “divirta-se”?
—Espero que consiga conciliar seu apetite para a leitura com as suas obrigações. –Ele falou antes de adentrar no quarto.
Ela realmente não entendera errado. Rumplestiltskin havia posto sua coleção de livros para que ela lesse. Isso era surreal demais para que ela acreditasse. Mas não ousaria perguntar mais, não por momento. Voltou alegremente para o quarto e escolheu um livro para ler.
***
O dia seguinte havia começado cedo e a primeira ação do dia de Rumplestiltskin foi providenciar para que Gaston, o homem que trabalharia com Maurice no moinho, lhe fizesse o juramento de fidelidade.
Continua.
Fale com o autor