Quebra de Acordo
18 Capítulo 18
Notas iniciais
Belle estava entrando em desespero. Ela não tinha conseguido se juntar a Ruby. Ela chegou a correr desesperada até chegar à caverna, mas já era muito tarde. A única coisa que conseguiu, quando chegou lá, foi ouvir um uivo distante, prova que sua amiga tinha cumprido com o que disse e já estava longe demais para alcançar.
Isso já fazia alguns dias e agora ela não sabia como reagir. A data do casamento já estava marcada e ela não sabia o que fazer.
— O senhor vai sair? — ela perguntou ao perceber que Rumplestiltskin estava trajando o habitual colete de couro dele.
— Eu preciso verificar alguns pontos onde foram relatados ataques. Devo chegar antes do anoitecer. Se quiser, pode tirar o resto do dia de folga.
— Eu posso ficar aqui, senhor?
— Claro, mas você não prefere ir até o moinho do seu pai? O seu casamento é daqui a dois dias.
Ela abriu a boca para falar, mas tinha medo de começar a chorar e apenas balançou a cabeça em negação. Ela tinha estado no moinho do pai dela, pedido para adiar o casamento até que ela pudesse pensar em algo, mas, como ela já temia, Maurice nem sequer considerou aquela possibilidade. Ele estava decidido em ver a sua única filha casada com um homem que ele considerava o ideal para ela. Não restava mais nada a ela a não ser aceitar o destino. Ela não via mais saída.
Rumplestiltskin assentiu e fingiu não perceber o que acontecia com a serva dele. Ele tinha percebido como Belle havia mudado desde a visita ao moinho. Ela não era mais a mesma pessoa que tinha ido trabalhar para ele. Ela estava mais triste, mais distante. Ele estava realmente preocupado quando ela recusou a oferta para pegar emprestado um outro livro dele. Ela estava se tornando uma sombra de quem ela era e ele sabia que o casamento iria matar ela lentamente. Mas não havia nada que ele pudesse fazer quanto a isso. Ele repetia para si mesmo todas as noites que ele tinha dado a escolha para ela quando ela disse que não queria se casar, antes dele dar a aprovação dele. Que ele tinha feito as coisas corretas e que se agora ela estava assim era por culpa dela mesma. Ele dizia isso para si mesmo todas as noites, em todos os momentos para não descumprir as palavras dele. Ele sabia o que a quebra de um acordo poderia provocar. Ele já tinha visto isso acontecer antes. Os servos eram a parte poderosa de um local. Se eles se reunissem contra o senhor da terra, havia pouco que esse poderia fazer.Ele era apenas um. Um não poderia derrotar a todos, mesmo que ele fosse o mais capacitado para lutar. Talvez ele conseguisse resistir por um tempo, mas tinha certeza que eles terminariam por derrota-lo, tomar o seu castelo e mata-lo. E, mesmo que ele vencesse, contra todas as probabilidades, ele não seria ninguém se não tivesse gente para servi-lo. Um senhor de terra nunca sobreviveria sozinho sem servos. Rumplestiltskin sacudiu a cabeça para espantar esses pensamentos e saiu para sua ronda.
***
— Precisamos de água, Belle. — Grace informou.
Já era quase noite e, com toda a agitação do dia e as preocupações que permeavam a cabeça de Belle, ela tinha se esquecido de ir pegar água no poço que ficava a perto ao castelo. Grace tinha se oferecido para ir, mas ela não permitiu que a garota saísse sozinha naquela hora. Tinha medo de que algo pudesse acontecer a ela. Ela estava enchendo o balde que levaria para o castelo quando Gaston se aproximou sem que ela o visse.
— Belle? — Gaston a chamou .
Ela ficou tensa e tentou não deixar isso mostrar. Fechando os olhos quando ele tirou a corda das mãos dela e deixou o balde cair dentro do poço com um alto som na água, demorando mais que o necessário enquanto deixava as mãos dele percorrerem os braços nus dela.
— O que faz aqui, Gaston? — perguntou enquanto tentava pegar a corda do balde, uma tentativa para se livrar dele.
— Como você não foi mais lá, eu vim aqui. O casamento é daqui a dois dias, Belle. Precisamos de você lá.
— Eu tenho trabalho a fazer aqui. — mentiu.
— Vamos lá... Eu sei que você pode conseguir uma folga com o conde se pedir. Eu vi que agora tem uma garota trabalhando lá. Ela pode se virar uns dias sem você.
— Eu não posso largar o meu trabalho agora.
Ele a abraçou por trás e colocou um beijo ao lado do pescoço dela. Belle enrijeceu enquanto ele sussurrava no ouvido dela.
— Eu mal posso esperar para o nosso casamento. O conde vai ter que arrumar outra serva. Eu quero você para servir apenas a mim e cuidar dos muitos filhos que vamos ter. Se você tivesse o dia livre hoje, poderíamos começar a adiantar a única parte boa do casamento. — falou antes de beijar o pescoço dela e apertar o seio dela com possessividade.
Belle saltou para longe dele. Olhos arregalados enquanto ofegava rapidamente. O medo percorrendo o corpo dela. Gaston apenas riu e deu um passo a frente, mas Belle se virou e correu de volta para a segurança do castelo. Não se importando que o homem prometido a ela dava altas gargalhadas.
Quando ela conseguiu chegar ao castelo, tinha o rosto banhado em lágrimas pelo medo e pela humilhação. Ela não passou pela cozinha, mas sim correu direto para o quarto que tinha sido destinado a ela. Apesar do local ser úmido e frio, ela se sentia segura lá. Ela se sentia segura no castelo do conde e sabia que isso tudo iria mudar em apenas dois dias.
***
Rumplestiltskin chegou tarde. Ele teve que resolver um pequeno conflito no lado leste de suas terras. Os moradores tinham matado dois normando e prendido outro com vida. Um julgamento foi necessário e, no fim, eles enforcaram o homem que havia ameaçado suas vidas. Ele estava cansado. Queria apenas comer algo, tomar um chá que fosse preparado por Belle e ir dormir.
Quando Grace levou a comida a ele, ele sabia que aqueles não eram alimentos preparados por sua serva habitual apenas por provar aquilo. Ficou um pouco triste quando o pensamento de que ela podia ter tomado o dia de folga e ido para o moinho.
— Onde está Belle, Grace? — ele perguntou tomando um gole do chá.
— Ela saiu para buscar água, senhor, mas correu para o quarto desde que chegou. Eu não sei o que aconteceu. Ela não quis me falar. Pediu-me apenas para deixar as coisas prontas para quando o senhor chegasse.
— Obrigado. Você pode se retirar agora.
Grace assentiu e saiu da sala. Rumplestiltskin terminou de tomar o chá de uma só vez. Tomando respirações profundas antes de pegar sua bengala e ir para o quarto de Belle, percebendo tardiamente que ele ainda não tinha cumprido a promessa de dar a ela um quarto real, mas sabendo que aquilo não seria necessário se ela fosse permanecer apenas mais dois dias em seu castelo. Aquele não seria mais o lugar dela. Ele sacudiu a cabeça e tentou afastar a raiva que se instalava nele antes de bater suavemente na porta.
— Eu não estou com fome, Grace, por favor, vá embora. — ela gritou e ele percebeu a voz chorosa dela. Ficando alarmado instantaneamente.
— Belle, sou eu, Rumplestiltskin. Me deixe entrar. — ele falou suavemente. Tentando manter a voz em um tom neutro.
Ele escutou os passos dela antes que a porta foi aberta. Havia apenas uma tocha no corredor que mal iluminava o local, mas, mesmo na penumbra, ele viu os olhos brilhosos com lágrimas. Lentamente ele estendeu a mão e limpou uma que corria pela bochecha dela.
— O que aconteceu? Uma palavra e eu mato a quem te fez mal. — ele falou suavemente.
— Ninguém ainda me fez mal. — disse com um soluço de choro antes de se jogar para frente e abraçar ao conde.
Rumplestiltskin enrijeceu por alguns segundos, mas logo fechou os braços ao redor dela e a conduziu para dentro do quarto. Deixando a escuridão do lugar mascarar a expressão de pavor que ele próprio tinha.
— Me conte, por favor. Eu não vou permitir que ninguém te faça mal.
— O senhor não pode impedir isso.
— Eu quero entender. O que está acontecendo com você?
— Eu não quero me casar. Eu não amo Gaston.
Ele a abraçou mais fortemente. Tentando proteger ela de um destino que ele sabia que não podia. Sem palavras para confortar ela. O desejo de matar ao outro homem grande, mas sabendo que não poderia fazer isso. Ele também não tinha ninguém em quem confiava que poderia delegar esse serviço de matar Gaston.
— Eu sinto muito, Belle.
— Não é sua culpa. Eu sei que você não pode fazer mais nada. O acordo já foi selado e você nunca quebra um acordo. — falou com falsa resignação.
— Se houvesse outra maneira que eu pudesse te ajudar...
— Não há, minha única alternativa está perdida.
— Que alternativa? —ele afastou ela um pouco do abraço dele. Tentando olhar para os olhos dela na penumbra. Apenas o brilho da tocha que entrava pela fresta da porta iluminando o local.
— Eu iria fugir, senhor. Fugir para não me casar. Talvez procurar por uma nova vida longe daqui, longe de tudo. — confessou.
— Porque você não fugiu? — perguntou suavemente. Desejando que ela tivesse fugido.
— Como eu poderia quando você precisava tanto de mim? Eu nunca iria te abandonar em um momento de necessidade.
— Você ficou por mim?! — perguntou incrédulo.
— Por quem mais eu ficaria? Não por Gaston, eu garanto.
— Mas por quê?
— Porque você é o meu melhor amigo. A única outra pessoa que já me tratou com alguma dignidade.
— Oh, Belle...
Ele a puxou novamente para si. Abraçando ela fortemente enquanto permitia que algumas lágrimas teimosas caíssem dos olhos dele. Durante todo o tempo em que Belle havia vivido no castelo, ele tinha visto o tipo de pessoa que ela era. Alguém interessante, inteligente no meio de tantos outros, mas o medo de ser traído havia cegado ele. Ele tinha deixado a única outra pessoa, além do filho dele, em quem ele, agora ele percebeu, confiaria a vida dele escapar por entre seus dedos. Ele tinha sido um tolo covarde. Falhado mais uma vez para aqueles que eram queridos por ele.
— Eu sinto muito, Belle. Eu fui um tolo. Eu nunca deveria ter permitido esse casamento. Eu deveria ter conseguido alguém que você gostasse.
— Não foi sua culpa. Você não poderia impedir que eu me cassasse. Eu entendo os deveres de uma mulher, mesmo não querendo cumprir isso.
— Eu vou falar com o seu pai e suspender tudo. Eu não vou permitir que você se case com aquele homem.
Com isso ela se afastou dele e o olhou com pavor.
— O senhor não pode quebrar o acordo...
— Eu não me importo! Dane-se o acordo. Eu me importo com você e não posso permitir que você sofra se eu puder impedir isso.
Ela se aproximou dele e esboçou um sorriso triste antes de levar a mão dela até a bochecha dele. Instintivamente, Rumplestiltskin fechou os olhos e inclinou para o toque.
— Eu não posso permitir que o senhor pague um preço que é meu. Eu sei o que pode acontecer se o acordo for quebrado. Eu não quero que nada de ruim te aconteça.
— Por que você se importa comigo?
— Porque você é a melhor pessoa que eu já conheci.
— Eu não sou bom, Belle. Eu já fiz muita coisa errada. Você não me conhece totalmente. Eu sei que sou um monstro.
— Você não é um monstro, você é um homem que fez o necessário para proteger o seu filho e a si mesmo.
— Você é a única pessoa que pensa assim. Nem mesmo Baelfire irá me perdoar pela morte da mãe dele.
— Ele não conhece a história toda. Ele te perdoaria se você contasse.
— Como eu posso se nem mesmo sei onde ele está? Nem sei se está vivo e bem.
— Eu sei que para onde ele foi é um lugar onde ele estaria seguro.
— Eu só queria poder fazer algo certo alguma vez. Eu queria poder te ver feliz.
— O tempo que eu passei aqui no castelo foi um dos mais felizes de toda minha vida. Aqui eu pude ser eu mesma, ter o meu pensamento e aprender coisas novas sem o medo de ser pega e acusada por feitiçaria. Eu só tenho que te agradecer, Rumplestiltskin.
Ele fechou os olhos ao ouvir o nome dele na boca dela. Ela raramente o chamava pelo nome dele, sempre optando pelo título que ele carregava ou apenas por senhor. Sem se dar conta exatamente sobre o que estava fazendo, ele inclinou para frente, ainda com os olhos fechados, antes de sentir os lábios suaves de Belle sobre os dele. Gemendo baixo antes de puxá-la para si e a beijar mais vigorosamente. Mordendo o lábio inferior dela até que ela, surpresa, abriu a boca e ele pôde escorregar a língua para dentro da boca dela. Ele a beijou como se a vida dele dependesse disso. Não se importando que ela não parecia saber o que fazer e que os dentes, muitas vezes, se chocassem. Foi algo desajeitado, mas perfeito.
Após um tempo que ele não soube determinar, ele terminou o beijo e encostou a testa na dela. As respirações de ambos ofegantes. Belle se afastou um pouco e o olhou com os olhos arregalados. Levando a mão até os lábios inchados dela e sentindo coisas que nunca tinha sentido antes. Não entendendo a estranha pressão que parecia se acumular logo abaixo de sua barriga. Aquele tinha sido o primeiro beijo real de toda a vida dela.
— Rumplestiltskin... — sussurou.
Aquilo tirou o conde do transe em que ele se encontrava e, olhando para o rosto dela, percebeu o que havia acontecido. Ele pensou que tinha destruído a única outra coisa boa que ele tinha na vida. Dando um passo para trás, ele bateu as costas na porta enquanto a olhava com espanto.
— Eu sinto muito... Eu não queria, Belle, por favor, me perdoe. Prometo que nunca mais vai acontecer. — balbuciou antes de sair em passos apressados.
Belle se deixou cair na cama enquanto ouvia o barulho dos passos de Rumplestiltskin e a batida da bengala dele contra o chão de pedra cada vez mais longe. Confusa e encantada demais com o que tinha acabado de acontecer. Ela ainda não sabia se isso tornava as coisas melhores ou piores.
Continua.
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