Quatro caras e Alex

3 Quatro caras, Alex e a surpresa


Notas iniciais
Olá, queridos! Peço desculpas pela pequena demora, mas a insolação me pegou de jeito e não queria me largar. Enfim, estou melhor e estou de volta. Espero que gostem.

Há exatos quatro dias Alex havia se mudado para o sobrado 401. Depois de vestir sua calça jeans azul bebê e a primeira camiseta preta que encontrara em sua arara — Billy havia levado uma bela surra para montá-la e ela sorriu ao se lembrar da sua expressão vitoriosa quando finalmente terminou — ela reparou como era engraçado o fato de que, de repente, o número quatro havia se tornado um tanto presente em sua vida. Encarando o grande espelho recostado na mesma parede da arara, ela optou por colocar um óculos de sol — o redondo, um de seus favoritos — no topo da cabeça para impedir que seus cabelos lisos caíssem em seu rosto. Do lado de fora do quarto, os rapazes gritavam e xingavam a mãe do juiz do jogo que assistiam na TV. Mesmo morrendo de curiosidade, ela não havia saído de seu pequeno quarto para saber de que era o tal jogo, mesmo que ele soasse extremamente interessante.

De repente, os gritos cessaram. Havia acontecido tão repentinamente que ela pode ouvir o comentarista anunciar uma cesta — ah, então era basquete. Estranhando o silêncio e dando-se por vencida, ela girou a maçaneta silenciosamente e colocou apenas a cabeça para fora do quarto, encontrando o que menos esperava: parada na porta, provavelmente tentando decidir qual dos rapazes gostava mais, estava Amber. E o pior, um Rayan completamente sem camisa havia aberto a maldita porta.

— Amber! — ela exclamou, saindo do quarto e batendo a porta. Na pressa, não mediu a força aplicada e a porta acabou batendo com um forte estrondo, atraindo rapidamente a atenção dos rapazes. Depois de um momento, eles voltaram seus olhos curiosos e babões para sua amiga novamente. — Pensei que fosse me esperar no carro.

— Eu ia. — respondeu, dando de ombros. — Mas cheguei cedo e resolvi surpreendê-la.

— Tenho certeza que não fui a única surpreendida. — indagou Alex, seguindo com um pigarreio.

Entendendo a indireta, os quatro homens sacudiram suas cabeças no mesmo ritmo e voltaram suas respectivas atenções para a TV. Até mesmo o Rayan descamisado havia se sentado. Amber, por sua vez, apenas sorriu para Alex. Dona de um cabelo loiro sedoso e ondulado, olhos claros, um corpo que parecia ainda mais maravilhoso naquele vestido roxo e de seu próprio escritório de marketing, não era necessário dizer que ela tinha um sorriso encantador e confiante.

— Rapazes. — disse Alex, mas ninguém moveu um músculo para fitá-la. Levemente magoado por ter sido ignorada, ela começou a dar alguns passos para frente. — Eu estou indo jantar com a Amber e de lá vou direto para o clube. Só estou avisando porque não quero que se preocu...

— Alex, saia da frente da TV! — interrompeu Will, berrando.

— Sério? — ela sussurrou, indignada. — Tudo bem.

Moveu-se na direção de sua amiga, liberando o campo de visão dos quatro brutamontes.

— Alex. — ouviu Carter chamando-a quando já estava prestes a sair.

Finalmente, alguém sensato o suficiente para se importar.

— Sim?

— Sabe, já está escurecendo. Não há necessidade para essa antiguidade. — ele disse, apontando para seus óculos de sol com certo desdém, como um genuíno assistente de moda que era.

— Oh. — seus óculos favoritos. — Vou deixá-los aqui em cima, então. — disse, retirando-os e os colocando sobre o móvel mais próximo. — Obrigada pela dica.

— Disponha. — respondeu ele, lançando-lhe uma piscadela.

Alex se virou e, daquela vez, fez questão de medir bem sua força e bater a porta com a maior quantidade da mesma que conseguiu unir.

— Idiotas. — indagou irritada, seguindo em direção ao carro da amiga.

— Calma lá, querida. Não é todo dia que se pode vislumbrar Alexandra Dallas xingando outro ser vivo. — disse Amber, batendo seus saltos apressadamente atrás Alex. — Mesmo que eu não considere isso um xingamento de verdade.

A mulher parou, repentinamente mais calma. Afinal, irritação realmente não fazia parte de sua personalidade.

— É que as vezes eles conseguem ser tão... — pausou, procurando a palavra apropriada.

— Homens? — Amber completou, sorrindo. — Eles são todos assim, Alex, e você sabe. E foi você que escolheu morar logo com quatro de uma só vez.

— Sim. — suspirou, entrando no lado do passageiro. Mesmo que tivesse uma habilitação, sabia que teria de vencer a Terceira Guerra Mundial para que Amber a deixasse conduzir seu precioso carro. Assim que a amiga bateu sua porta delicadamente, ela continuou. — Só achei que fosse ser diferente. Ontem, eles pediram comida chinesa e nem se incomodaram em perguntar se eu queria algo. Droga, você sabe como eu amigo comida chinesa.

— Você sempre poderá vir morar comigo. — sugeriu, dando partida.

— Amber, eu amo você. — indagou, virando-se para encarar sua melhor e única amiga. — Mas não amo os seus namorados. E você tem um novo a cada semana.

— Assim você magoa meus sentimentos. — disse, rindo. A duas eram tão próximas que seria necessário um xingamento extremamente pesado para que Amber se sentisse realmente ofendida, coisa que Alex jamais seria capaz de dizer. — Olha, o que você precisa fazer é ganhá-los.

— Ganhá-los? Como num jogo, por exemplo? — perguntou, confusa.

— Quase. — pensou durante um segundo em como explicar a situação. — Digamos que, no caso, o prêmio é o coração daqueles idiotas e você precisa arrumar um jeito de conquistá-los.

— Não, esse não é o tipo de relação que quero ter com eles. — indagou Alex rapidamente, sacudindo a cabeça.

— Você entendeu errado. — tentou ela, mais uma vez. — Você precisa fazê-los lhe respeitar. Seja porque você cozinha, dança, canta, arrasa jogando basquete ou no tribunal.

— Ainda estamos falando sobre mim? Por que, sabe, eu só consigo fazer metade das coisas que você citou.

— Alex, você é maravilhosa. — mesmo dirigindo, Amber retirou uma de suas mãos do volante para pousá-la sobre a de sua amiga. — Não vai demorar muito para que eles percebam isso e, daqui a pouco, vocês estarão todos espremidos naquele sofá xingando a televisão, juntos.

— Espero que você esteja certa. — ela disse, suspirando. — Mesmo que, para isso, eu tenha que xingar a mãe do juiz também.

— Você não conseguiria.

— Eu poderia tentar, oras.

Rindo, Amber voltou sua mão para o volante, pensando onde havia conseguido uma amiga tão extraordinária.

***

Alguns dias haviam decorrido desde sua conversa com Amber sobre como melhorar a sua relação com os caras, tornando-se, quem sabe, amiga deles. Naquela mesma noite, Alex havia passado a noite inteira e parte da manhã fora de casa, devido ao grande movimento no clube, e quando chegou e não se deparou com nenhuma pergunta sobre como fora seu trabalho ou o porquê da demora, resolveu que algo deveria ser feito. Ela havia cuidado de cada pequeno detalhe de sua surpresa sem que ninguém desconfiasse, desde as compras até mesmo toda a arrumação no apertado quintal de grama sintética dos fundos, e se sentia confiante de que tudo sairia como planejado. Afinal de contas, a cereja do bolo era a escolha do dia preferido deles, o tão aconchegante sábado, então, nada daria errado.

Depois de vestir sua saia rodada de listras pretas e brancas e uma blusa de mangas curtas, ela calçou sua sapatilha — da sorte — vermelha e se dirigiu para o quintal, pronta para executar o próximo passo de seu plano. Prendeu o cabelo, colocou seu avental de cozinha favorito e começou a preparar alguns aperitivos para acompanhar o prato principal: o churrasco especial da Alex, que recebera esse nome num ensolarado dia de domingo, quando ela resolveu adicionar um ingrediente secreto aos bifes — havia dado tão certo, que ela fora contratada para trabalhar em diversas festas nas semanas seguintes. Era hora do almoço, portanto, se apressou, pois eles provavelmente não demorariam a entrar pela porta da frente desesperados por comida, onde quer que tenham ido.

Espera, ela não sabia onde tinham ido. Sabia que Will — ou Rayan, não se lembrava ao certo — havia comentado algo quando ela chegara em casa do trabalho, mas estava tão cansada que não conseguia recordar o que era. Haviam ido a uma feira? Uma reunião? Se esforçou para lembrar enquanto preparava a maionese, mas nada vinha em mente. Bem, o que quer que fosse, ela sabia que estariam em casa para o almoço.

"Estariam?" —foi o que ela passou a se perguntar no meio da tarde. A comida quente já havia esfriado e as frias, com mais algumas horas de calor, iriam estragar. Sentada em uma das cadeiras da cozinha, ela tirou as sapatilhas e as jogou em um canto, bufando. Pegou seu celular e colocou sua playlist alegre para tocar no modo aleatório, tentando se distrair.

"Não, não estariam." — pensou ao cair da noite, enquanto seu telefone dava um último suspiro antes que sua bateria se esgotasse por completo. Frustrada demais para procurar por um carregador, ela se sentou no chão, já sem o avental (que já não sabia onde havia ido parar) e bufou pela milésima vez. Foi quando ouviu o barulho de motor e logo em seguida o da chave destrancando a porta da frente.

— Qual é, Rayan. Você sabe que as pessoas não contratam homens para esse tipo de exposição. — disse Billy, rindo.

— Mas eu ainda achei que fosse conseguir um emprego por lá. — retrucou ele, suspirando. — Que droga.

— Cara, ninguém quer ver homens sem camisa banhados de óleo em cima daqueles carros potentes. — completou Will, o último a entrar em casa, com uma cara de nojo. — O povo gosta das mulheres de biquíni!

— Que seja. — resmungou e deu de ombros.

Até então, nenhum deles havia reparado em uma Alex desolada, sentada em um canto da cozinha. Foi quando, com certo esforço, ela se levantou a atraiu a atenção dos presentes.

— Que diabos você estava fazendo ali? — perguntou Carter, apontando para o canto escuro de onde ela havia acabado de sair.

— Estava esperando vocês. — respondeu, encolhendo os ombros. Estava chateada, mesmo sem saber com quem, o quê ou o porquê.

— Para quê? — foi a vez de Will se pronunciar. Sussurrando, ele perguntou aos amigos: — Espera, a gente marcou alguma coisa com ela?

Discretamente, eles sacudiram a cabeça negativamente em resposta.

— Eu queria fazer o churrasco especial da Alex. — disse, recebendo olhares confusos em sua direção. — Era uma surpresa.

— Mas por que? — ele insistiu, ainda sem entender.

— Porque eu queria ser amiga de vocês, droga! — exclamou e, sem perceber, estava desabafando sua frustração. — Eu gastei meu dinheiro comprando um monte de comida, vesti meu avental favorito, cozinhei e esperei por todo um maldito dia só porque queria me sentir parte do maldito grupinho de vocês!

Depois de alguns segundos de silêncio, Rayan resolveu se pronunciar:

— Mas a gente avisou que ia em uma exposição de carros. Essas coisas demoram.

— E a sua intenção foi boa, mas não é assim que se conquista a amizade de alguém, Alex. — completou Will, calmamente. — Leva tempo, confiança... O pacote completo.

— Sim, claro. — ela concordou, para a surpresa de todos. Em seguida, completou: — Eu cresci tentando agradar todo mundo, sempre. Mas vocês não são tem nenhuma culpa pela minha infância estúpida então, me desculpem. Eu vou parar de forçar a barra.

Dito isso, Alex simplesmente deu as costas para seus colegas de casa e se dirigiu para seu quarto, louca por um banho e depois trocar aquela saia por um pijama de moletom e se afundar em sua cama pelo resto da noite, aproveitando sua folga do jeito mais melancólico possível. Pegou as peças de roupa necessárias e demorou mais um pouco para sair do quarto, querendo evitar qualquer encontro com os rapazes. Nada disso era culpa deles, afinal, eles haviam avisado que passariam o dia fora, mas ela simplesmente não estava afim de encará-los. Rapazes evitados com sucesso, ela tomou um longo banho morno, vestiu seu moletom e suas pantufas de leão e se arrastou para fora do banheiro. Desceu as escadas procurando por possíveis barulhos no andar de baixo e, assim que os ouviu, se sentiu segura para correr para o conforto de sua cama. Assim que o fez, ouviu batidas tímidas na porta. Chateada e cansada, ela nem sequer se moveu.

Mas isso não impediu que alguém abrisse a mesma.

— Espero que esteja vestida. — disse Carter, entrando sem pedir autorização. Atrás dele, os outros três.

— Estou pelada. Vão embora. — ordenou, enfiando a cabeça no travesseiro.

— Agora mesmo que eu entro. — anunciou Rayan, atropelando os amigos. Suspirou frustrado quando encontrou Alex vestida em enormes pijamas de moletom, o encarando como se fosse um pervertido.

— Enfim. — disse Billy, lançando um olhar reprovador para Rayan e logo depois fitando Alex. — Nós estávamos pensando em fazer o churrasco especial dos quatro idiotas que não conseguem reconhecer uma garota legal, mesmo vivendo sob o mesmo teto que ela.

Por um momento, Alex os encarou. Todos estavam com os ombros encolhidos, como se estivessem dando uma péssima notícia para o chefe, e ela teve que se segurar para não rir.

— É um nome um pouco grande, não acho que vai pegar. — disse, dando de ombros.

— Nós não somos muito bom com isso. — foi a vez de Will se pronunciar. — Nem em fazer churrascos, então, será que você poderia nos ajudar?

Ninguém falaria em voz alta, mas aquele era o jeito que eles haviam encontrado de pedir desculpas, por mais infantil que fosse. Mesmo achando que eles poderiam fazer um pouco melhor, ela sabia que eles estavam tentando e, no final das contas, era a única coisa que importava.

— Claro que posso. — ela respondeu, se levantando. — Até porque, não quero que vocês queimem meus bifes especiais.

— Também não somos tão idiotas assim. — retrucou Will, ofendido.

— Certeza? — perguntou ela, segurando a risada quando ele fechou a cara.

E, em meio a cervejas congeladas por terem sido esquecidas no congelador e comida requentada, eles tiveram, simplesmente, o melhor churrasco de suas vidas.

Notas finais
Críticas? Elogios? Sugestões? Podem mandar! Até o próximo :)