Quando o Ano Não Queria Virar
2 A Véspera e os Fantasmas
Lúcia acordou no dia seguinte com a sensação incômoda de que o tempo tinha avançado sem pedir permissão. O relógio marcava pouco depois das sete, mas o corpo dela parecia ter atravessado a noite inteira sem descanso real. Ficou alguns minutos deitada, olhando para o teto, ouvindo os sons da casa acordando devagar. Um carro passando na rua, o latido distante de um cachorro, o estalo seco da madeira dilatando com o calor que já começava a se anunciar.
A véspera de Natal tinha esse peso estranho. Não era o dia em si, mas o que ele carregava. Um acúmulo de expectativas alheias, de memórias antigas, de obrigações emocionais que ninguém ensinara como cumprir sem se machucar no processo. Lúcia levantou com cuidado, como se qualquer movimento brusco pudesse quebrar algo invisível.
Na cozinha, a árvore montada na sala ainda piscava em ritmo lento, refletindo suas luzes coloridas na parede branca. Por um instante, Lúcia pensou em desligá-la. Não por rejeição, mas por cansaço. Acabou deixando como estava. Havia algo de quase reconfortante naquele brilho insistente, como se a árvore se recusasse a aceitar o clima emocional da casa.
Ela preparou café sem muita atenção, repetindo gestos já automatizados. Enquanto a água fervia, apoiou-se na pia e deixou os pensamentos correrem soltos. Clara sempre acordava animada na véspera de Natal, mesmo nos anos em que tudo parecia dar errado. Dizia que aquele dia era uma espécie de fronteira. Não importava o que tivesse acontecido antes, o Natal obrigava as pessoas a parar, nem que fosse por algumas horas.
— Nem sempre isso é bom — Lúcia costumava responder.
Clara sorria e dizia que o bom nem sempre era o ponto.
O café ficou forte demais, mas Lúcia bebeu assim mesmo. Passou a manhã ocupada com tarefas pequenas, quase irrelevantes, como se estivesse se preparando para algo sem saber exatamente o quê. Dobrou roupas que não precisavam ser dobradas, organizou documentos antigos, separou objetos que poderiam ser doados algum dia. Em determinado momento, encontrou um cachecol esquecido no fundo de uma gaveta. O cheiro ainda estava ali. Guardou de volta sem pensar muito.
Perto do meio-dia, sentou-se no chão da sala, de frente para a árvore. Observou os enfeites um a um, reconhecendo histórias em cada detalhe. Alguns tinham sido comprados juntos, outros eram lembranças de viagens curtas, feitas quando ainda acreditavam que o tempo era infinito. Havia um anjo de plástico meio torto que Clara insistia em colocar todos os anos, mesmo depois de uma das asas quebrar.
— Ele fica mais interessante assim — dizia.
Lúcia sorriu sozinha ao lembrar.
O celular vibrou pouco depois. Um número desconhecido. Por um segundo, pensou em ignorar. Aquele dia parecia exigir menos interrupções, não mais. Ainda assim, atendeu.
Era André.
A voz dele soou estranha, um pouco distante, como se atravessasse uma linha antiga. Houve um silêncio desconfortável antes de qualquer palavra fazer sentido. André disse que estava na cidade. Que pensara em ligar antes, mas não soubera como. Lúcia ouviu sem interromper, tentando organizar dentro de si uma reação que não fosse extrema demais.
Eles combinaram de se encontrar num café perto da antiga escola, um lugar neutro o suficiente para evitar memórias específicas. Lúcia saiu de casa com uma sensação confusa no peito, algo entre ansiedade e resistência. O céu estava encoberto, o ar pesado, como se o clima também estivesse indeciso.
André já estava lá quando ela chegou. Parecia mais magro. Ou talvez apenas mais cansado. Os cabelos começavam a mostrar fios brancos que Lúcia não lembrava de ter visto antes. Eles se cumprimentaram de forma contida, sem abraço, como se estivessem testando a distância permitida entre irmãos que não se viam havia tempo demais.
A conversa começou com banalidades. Trabalho. Trânsito. O calor insuportável daquele dezembro. Era mais fácil falar do mundo do que deles mesmos. O café esfriou antes de alguém perceber. Em determinado momento, André respirou fundo, como quem se prepara para mergulhar.
— Eu achei que fugir ia doer menos — disse, finalmente.
Lúcia não respondeu de imediato. Havia muitas respostas possíveis, e nenhuma parecia certa. André continuou, como se o silêncio dela fosse permissão.
Disse que cada ano tornava o retorno mais difícil. Que o tempo não suavizara a culpa, apenas a tornara mais pesada. Disse que não soubera lidar com a morte do pai, nem com a forma como tudo se desorganizou depois. Clara fora mencionada apenas de passagem, como um território que ele ainda não sabia atravessar.
— Eu não soube voltar — repetiu.
Lúcia percebeu que não estava ali para oferecer perdão imediato. Nem para cobrar explicações completas. Estava ali porque, de alguma forma, ainda existia um fio ligando os dois. Fino, desgastado, mas não completamente rompido.
— A mãe perguntou se você vem hoje — ela disse, depois de um tempo.
André desviou o olhar.
— Eu não sei se devo.
Lúcia pensou na casa da mãe, na mesa apertada, na cadeira vazia que ninguém ocupava desde que o pai morrera. Pensou na própria casa, na árvore acesa, na solidão que se tornara rotina.
— Eu vou — disse, surpreendendo a si mesma. — Se você quiser ir, vai ser estranho. Mas talvez seja melhor do que continuar adiando.
André assentiu devagar.
A ceia daquela noite não foi perfeita. Longe disso. O peru passou do ponto, a comida ficou salgada demais, e ninguém parecia saber exatamente onde sentar. A mãe tentava manter a conversa fluindo, como se o esforço pudesse preencher os espaços vazios. A cadeira de Clara permaneceu desocupada, e ninguém fingiu não perceber.
Houve momentos de silêncio pesado, seguidos por risos tímidos, quase constrangidos. Em alguns instantes, Lúcia sentiu vontade de ir embora, de se esconder novamente na própria casa. Em outros, percebeu que, apesar de tudo, ainda havia algo ali que valia o esforço.
Depois da meia-noite, não houve troca de presentes. Não parecia apropriado. Houve abraços demorados, alguns desajeitados, outros mais firmes do que Lúcia esperava. Quando saiu, o ar da noite estava mais fresco, e ela respirou fundo, como quem atravessara algo difícil sem saber exatamente como.
Voltando para casa, a árvore ainda estava acesa. Lúcia sentou no sofá e ficou ali por um tempo, ouvindo o silêncio. A véspera tinha passado. O Natal estava ali. E, pela primeira vez em muito tempo, ela não sentiu apenas vontade de apagar as luzes e fingir que o dia nunca existira.
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