Quando o Ano Não Queria Virar
3 Entre o Que Foi e o Que Ainda É
Os dias que vieram depois do Natal não pareciam pertencer a lugar nenhum. Não eram mais festa, mas também ainda não eram recomeço. Para Lúcia, aquele intervalo sempre fora estranho, um espaço suspenso onde as pessoas fingiam descansar enquanto aguardavam o ano seguinte, como se a virada tivesse o poder de reorganizar o que o tempo inteiro não conseguira.
Naquela semana, a sensação era ainda mais intensa. André não foi embora no dia seguinte, como havia dito que faria. Primeiro, alegou trabalho acumulado. Depois, simplesmente parou de justificar. A mãe não perguntou nada. Apenas arrumou um quarto de visitas que há muito tempo não era usado e colocou lençóis limpos na cama, como se a presença dele fosse algo previsto desde sempre.
A casa da mãe tinha uma dinâmica própria, diferente da casa de Lúcia. Havia mais ruído, mesmo quando ninguém falava. O relógio da cozinha fazia um som constante, a geladeira ligava e desligava com frequência, e sempre havia alguma panela no fogão, mesmo que ninguém estivesse com fome. Era como se manter o ambiente em funcionamento fosse uma forma de negar o silêncio absoluto.
As conversas entre Lúcia e André surgiam quase sempre à noite, depois do jantar, quando a mãe se recolhia mais cedo, alegando cansaço. Sentavam-se na varanda ou na sala, às vezes com a televisão ligada sem som, apenas para preencher o espaço. Falavam de coisas pequenas no começo, memórias fragmentadas, lembranças que surgiam sem aviso.
Falaram do pai com mais calma do que Lúcia imaginara ser possível. André contou detalhes do dia do acidente que nunca haviam sido ditos em voz alta. Falou da ligação que recebeu de madrugada, do caminho apressado até o hospital, da sensação de irrealidade que o acompanhara por semanas. Lúcia ouviu em silêncio, percebendo que cada um carregara aquela perda de forma diferente, e que nenhuma delas fora simples.
— Eu não soube lidar com nada disso — André disse certa noite, encarando o chão da varanda. — Nem com a morte dele, nem com o jeito que a casa ficou depois.
Lúcia entendeu. Também não soubera. Apenas escolhera ficar, o que não significava ter feito melhor.
Clara surgiu nas conversas aos poucos. No início, André falava dela com cuidado excessivo, como se qualquer palavra errada pudesse provocar um colapso. Depois, começou a fazer perguntas. Como tinha sido. Quanto tempo tinham ficado juntas depois do diagnóstico. Como Lúcia lidara com os últimos meses.
Não havia respostas simples.
— Às vezes eu ainda espero que ela chegue — Lúcia confessou numa dessas noites. — Não de um jeito racional. É só uma sensação. Como se alguma coisa estivesse fora do lugar.
André assentiu, sem tentar consolar. Aquilo, Lúcia percebeu, já era muito.
Durante o dia, a mãe se mantinha ocupada. Cozinhava mais do que o necessário, limpava superfícies já limpas, reorganizava armários. Em alguns momentos, Lúcia a pegava parada, olhando para algum ponto fixo, quase sempre a cadeira vazia na mesa. Quando percebia que estava sendo observada, a mãe desviava o olhar e retomava alguma tarefa qualquer.
No dia 29, Lúcia voltou para a própria casa para buscar roupas e alguns objetos. Entrar ali depois do Natal foi estranho. A árvore ainda estava montada, as luzes desligadas. O silêncio parecia mais denso do que antes. Ela andou pelos cômodos devagar, tocando nos móveis como quem confirma que tudo ainda existia.
Pensou em desligar a árvore definitivamente, guardar tudo, fingir que o ano já tinha acabado. Não fez isso. Ligou as luzes por alguns minutos e ficou observando. Clara teria reclamado dos fios tortos, feito alguma piada sem graça. Lúcia sorriu sozinha.
Na volta para a casa da mãe, o céu estava pesado, carregado de nuvens que prometiam uma chuva que não vinha. O calor deixava tudo mais lento, mais denso. Fogos começaram a estourar ao longe, testando a noite que ainda estava distante. Cada estouro fazia Lúcia sentir um leve desconforto no peito, como se o corpo se preparasse para algo que ainda não sabia como enfrentar.
Na tarde do dia 31, a casa parecia diferente. Havia uma expectativa silenciosa no ar, não exatamente alegria, mas uma tensão contida. A mãe preparava a comida com movimentos automáticos, repetindo receitas que conhecia de memória. André andava pela casa como alguém que ainda não sabia se pertencia àquele espaço.
Lúcia percebeu que, apesar de tudo, havia algo novo ali. Não era felicidade. Era possibilidade. Uma palavra pequena, frágil, que ainda não ousava dizer em voz alta.
No começo da noite, enquanto organizavam a mesa de forma simples, a mãe desapareceu por alguns minutos e voltou com uma caixa de sapato velha nas mãos. A tampa estava torta, o papelão desgastado pelo tempo. Lúcia reconheceu o objeto imediatamente.
A caixa das promessas.
Ela foi colocada no centro da mesa, como se ocupasse um lugar de honra que ninguém tivera coragem de reivindicar antes. Por alguns segundos, ninguém falou. O objeto parecia carregar mais peso do que realmente tinha.
— Encontrei no fundo do armário — a mãe disse, num tom neutro demais. — Achei que vocês quisessem ver.
Lúcia sentiu um aperto no peito. Aquela caixa guardava versões antigas deles mesmos, desejos escritos por mãos que já tinham mudado, expectativas que o tempo não cumprira. Parte dela queria dizer que não era uma boa ideia. Outra parte sabia que ignorar não faria desaparecer.
André foi o primeiro a se aproximar. Abriu a tampa com cuidado, como se o gesto exigisse permissão. Dentro, os papeizinhos coloridos estavam dobrados, alguns amarelados pelo tempo. Lúcia reconheceu a letra de Clara imediatamente.
Ninguém leu nada em voz alta.
Fecharam a caixa novamente e a deixaram ali, intocada, enquanto a noite avançava. A televisão foi ligada sem som, apenas para marcar a passagem do tempo. O relógio da cozinha parecia mais alto do que nunca.
Lúcia percebeu que aquela noite não seria sobre comemorar. Seria sobre atravessar. E, talvez, pela primeira vez em muito tempo, ela não estava completamente sozinha para fazer isso.
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