Quando o Amor Acontece

85 Capítulo 85 - Parassonia


O dia transcorreu normalmente na mansão Cullen, mesmo sendo um dia nublado a temperatura estava amena. Nada parecia mais perfeito, naquele dia, para a família que vivenciara há a pouco tempo momentos de angustia e desespero.

Carmen e o marido Eleazar almoçaram com a família. Conversaram durante toda à tarde, riram de bobagens ditas em um momento de descontração em família. Durante as horas que se passaram, Rosalie fora mimada tanto quanto uma criança. E gostaria de acreditar que sua amiga Vera estivesse tendo a mesma sorte.

O casal de amigos se despediu de todos, por volta das dezessete horas, com promessas de que voltariam em breve.

Às dezenove horas a família jantou reunida na grande sala de jantar. Depois disso Carlisle e Emmett decidiram jogar xadrez no escritório, tentando focar os pensamentos em algo que não fosse os últimos acontecimentos. Mãe e filha voltaram à sala de vídeo onde permaneceram assistindo televisão, juntinhas no colchão de solteiro que Emmett colocara ali pela manhã. Rosalie apoiava a cabeça no ombro da mãe, respirando tranquilamente, sentindo o perfume materno na segurança de seu lar.

Esme assistia a seu programa de TV favorito, fazendo cafuné nos cabelos dourados de sua única filha. Algumas vezes Rosalie cochilava, e nesse meio tempo, seu corpo convulsionava, à medida que o sono a transportava a estranha mansão de Royce King. Flashbacks de momentos de angustia e dor tomavam seu subconsciente de forma implacável. De repente a jovem Rosalie abriu os olhos encarando o vazio.

– Ei amor – disse Esme, passando a mão na testa da filha, afastando alguns fios de cabelos dourados. – Você está em casa com a mamãe.

Rosalie piscou como se tentasse voltar à realidade. – Onde estão o papai e o Emmett?

– Ainda estão jogando xadrez no escritório.

Um tanto atordoada, Rosalie sentou-se no colchão. Ela parecia extremamente confusa, olhava em volta parecendo querer lembrar onde estava.

– Eu quero ir ao banheiro – avisou.

Prestando atenção as reações da filha, Esme também se sentou no colchão.

– Já está na hora de tomar os remédios e deitar em sua cama – avisou Esme.

– Não quero dormir agora, nem ficar em meu quarto, sozinha – ficou de pé atrapalhando-se com os cobertores, só não chegou a cair porque Esme a ajudou, afastando o emaranhado de cobertores dos pés.

– Está bem, vou deixá-la ficar aqui só mais um pouquinho. Mas você precisa dormir filha.

Rosalie saiu de cima do colchão arrastando os próprios pés, o cansaço a dominava. Seu corpo inteiro ainda dolorido, mas sempre que fechava os olhos os pesadelos se iniciavam. Por isso a necessidade de induzi-la ao sono pesado.

Passando os dedos por entre os fios dourados de seus cabelos, Rosalie entrou no banheiro que ficava ao lado da sala de vídeo, e, antes mesmo que fechasse a porta atrás de si, após um dia inteiro nublado, a brisa fria da noite soprou através do basculante, fazendo com que a porta batesse. Rosalie deu um salto à frente, sentindo seu coração esmurrar forte o peito, seu corpo inteiro tremer movido pela adrenalina do medo. Por instinto ela chamou logo pela mãe, que de onde estava ouviu quando a porta bateu.

– Mamãe... – o timbre de voz da jovem Rosalie, naquele momento, era angustiante. Rapidamente Esme ficou de pé indo ao encontro da filha. – Mamãe... – continuava ela a chamar.

Esme levou a mão à maçaneta da porta, abrindo-a com cautela, temendo que Rosalie estivesse atrás, mas a jovem estava mesmo era no meio do grande banheiro, com ambas as mãos no rosto em um ato desesperado de não ver nada a sua volta.

Esme se aproximou abraçando a filha carinhosamente. – Está tudo bem, querida. Foi apenas a porta que bateu com o vento. Tire as mãos dos olhos Rose, olhe para a mamãe – pediu com cautela.

Lentamente Rosalie foi afastando ambas as mãos do rosto, revelando um olhar assustado que fazia Esme lembrar-se de quando sua filha era apenas uma garotinha, com medo de fantasmas.

– Não quero ficar sozinha – sussurrou, envolvendo os braços a cintura da mãe, afundando o rosto no vão do pescoço materno. – Sinto como se Royce estivesse me observando a todo instante...

Esme beijou afetuosamente a testa da filha antes de responder:

– Ele não está meu bem. Royce está na prisão agora.

– Eu não confio na mente diabólica daquele homem mamãe. Não confio...

– Não tenha medo, filha. Royce não vai te machucar nunca mais. Seu pai e eu faremos o impossível para que ele apodreça atrás das grades. Com tantos crimes que ele carrega consigo será impossível ficar em liberdade. Fique tranquila, meu bem. Ficarei te esperando do outro lado da porta enquanto você usa o banheiro, está bem amor?!

– Aham... – murmurou Rosalie em resposta.

Esme olhou preocupada para a filha, antes de sair do banheiro, fechando a porta devagar atrás de si.

[...]

No escritório, Carlisle e Emmett estavam fadigados de jogar xadrez, então decidiram ir ao encontro de ambas na sala de vídeo. Enquanto isso, no trajeto até lá, eles conversavam sobre algo relacionado ao basquete, Emmett sempre respondia as perguntas do sogro sem hesitar. Basquete era sua área, sua paixão, depois de Rosalie obviamente. Não havia nada que ele não soubesse a respeito.

Genro e sogro andavam lado a lado quando encontraram Esme, no extenso corredor, parada em frente à porta do banheiro ao lado da sala de vídeo.

Carlisle foi o primeiro a questioná-la. – O que aconteceu?

– Ela está assustada, estava cochilando no colchão e os pesadelos se iniciaram – sussurrou Esme em resposta.

Carlisle maneou a cabeça, inconformado. Emmett teve que se controlar para não invadir aquele banheiro e assegurá-la de que ninguém mais iria machucá-la, muito menos com ele por perto. Mas ele bem sabia que o casal a sua frente seria capaz tanto quanto ele de protegê-la com a própria vida se preciso fosse.

Esme sentiu a maçaneta girar, então retirou a mão, permitindo que Rosalie abrisse a porta. A jovem de cabelos dourados saiu do banheiro deparando-se com três rostos preocupados a sua frente e não soube o que dizer.

– Eu vou preparar a sua cama filha. Você precisa descansar, e para isso você precisa tomar a medicação – avisou Esme, com autoridade de mãe.

– Mamãe... – murmurou Rosalie, sem coragem para admitir na presença do namorado que não queria dormir sozinha no quarto.

– Está tudo bem amor, um de nós te fará companhia até que a medicação faça efeito, o que não vai levar mais que alguns segundos. Chega de TV e computador por hoje, Rose – Esme se retirou, deixando os três no corredor olhando um para o outro.

Carlisle estendeu o braço direito em um convite a filha, assim que ela se aproximou, ele a abraçou pela cintura.

– Quer que o papai lhe conte uma historia, como quando você era uma garotinha? – brincou ele, tentando distraí-la.

– Para papai – queixou-se envergonhada. – Vai estragar a minha reputação de garota durona. O que Emmett vai pensar de mim?! – seus olhos alcançaram Emmett, que observava com atenção cada gesto, controlando a vontade de abraçá-la.

Carlisle olhou para a filha depois para Emmett. – Ele vai achar que tem uma namorada que tem um pai bobo, e que a ama muito – disse ele afagando o braço da filha.

Ambos sorriram.

– Você não é bobo papai – disse ela, seguido de um beijo na bochecha do pai. Logo depois estendeu a mão direita para Emmett, que recebeu puxando-a para um abraço. A mão livre de Rosalie ficou espalmada sobre o peito forte de Emmett, enquanto ele mantinha as grandes mãos másculas em sua cintura.

– Eu estou pensando apenas que você tem a família dos sonhos de muita gente por aí – brincou ele, com um sorriso de garoto.

Ambos sorriram novamente do comentário.

– Eu vou subir e verificar se sua mãe está precisando de ajuda com algo. Qualquer coisa é só chamar filha. E esse braço como está? – perguntou, tocando cuidadosamente próximo ao curativo no antebraço direito da filha.

– Melhorando papai, só pinica quando me movimento muito.

– Ótimo, fico mais tranquilo em saber que houve uma melhora significativa – olhou para Emmett. – Cuida bem dela, hein – avisou antes de sair.

– Pode deixar sogro – respondeu Emmett de forma brincalhona.

Carlisle seguiu em direção as escadas, pensando em oferecer ajuda a esposa. Mas na verdade, ele tencionara deixá-los um pouco a sós antes que Rosalie tomasse a medicação que a doutora Salazar prescrevera. Já que durante todo o dia eles não tiveram a chance de ficarem a sós, e conversarem como qualquer casal de namorados.

Assim que o sogro saiu do campo de visão, Emmett fez o que tanto estava tentando controlar durante o decorrer do dia. Ergueu Rosalie do chão em um abraço de urso cheio de saudade, e um tanto possessivo.

– Ah anjo, estive o dia inteiro com vontade de te abraçar assim. ... – sussurrou ao pé do ouvido dela.

Rosalie gemeu em seus braços, e Emmett não teve certeza se fora por culpa do corpo dolorido, ou porque ela sentira falta daquele abraço de urso tanto quanto ele. Afrouxou o abraço colocando-a de volta ao chão, mantendo ambas as mãos levemente nos braços dela.

– Está tudo bem?

– Aham... – sussurrou ela em resposta. – Me abraça, ursinho – pediu, tocando as laterais da cintura de Emmett.

– Eu quero fazer muito mais que isso... – sussurrou, mantendo uma das mãos na cintura curvilínea de Rosalie, enquanto a outra segurava a nuca por sob os fios dourados. Seus lábios se aproximando lentamente dos dela, que já estavam entreabertos a espera do beijo. Quando seus lábios se uniram em um beijo sôfrego, que fora ansiado por todo o dia, Rosalie amoleceu nos braços fortes de Emmett. A grande mão máscula que estava em sua cintura traçou caminho até alcançar o seio esquerdo, apalpando levemente por sobre o tecido do vestido que ela usava.

No mesmo instante, Rosalie gemeu interrompendo o beijo. Seus seios estavam extremamente doloridos pela forma brutal e possessiva com que Royce King os manipulara anteriormente.

– O que foi? – perguntou Emmett, segurando-a pelos ombros, olhando diretamente no fundo dos olhos.

– Não é nada – respondeu ela, desviando olhar.

Segurando o queixo de Rosalie ele disse:

– Claro que há. Eu não usei força alguma e mesmo assim você sentiu dor quando acariciei seu seio. O que mais aquele maldito te vez naquela madrugara, Rose? – questionou, passando a mão na cabeça, a raiva dando seus sinais.

– Nada... – sibilou Rosalie antes de entrar na sala de vídeo. Emmett a seguiu, segurando-a pela mão fazendo-a parar.

– Olha pra mim Rose – pediu com a voz autoritária cujo Rosalie havia presenciado poucas vezes. – Estou tentando, nesse exato momento, não ir até aquela prisão e matá-lo lá mesmo, na presença de quem estiver por perto. Então você me fala agora o que aquele miserável fez em seus seios, porque eu definitivamente não acredito que não foi nada.

Rosalie virou o rosto, tentando fugir da conversa. – Não quero falar Emmett... Você é meu namorado, não precisa ficar sabendo de certas coisas. Não gosto que saiba que ele me tocou de forma tão intima – seus olhos se encheram de lágrimas enquanto evitava o olhar de Emmett.

– Ele te violentou sexualmente outra vez? Me responde, Rose.

– Não... Quer dizer, não necessariamente.

– Certo – sibilou Emmett raivoso, soltou a mão de Rosalie e foi até a porta fechando-a com a chave.

– O que vai fazer? – disse ela, preocupada, assim que o viu fechar a porta.

– Me deixa ver o que ele fez?! – pediu Emmett, tentando controlar a raiva momentânea. Saber que Royce a tocara, várias vezes, despertara o que há de pior em si.

– Não quero que os veja assim...

– Não irei abrir essa porta até que me deixe ver o que ele fez em seus seios, Rosalie. Você está entendendo?!

– Não faz isso Emmett – pediu ela, segurando as lágrimas que queimavam seus olhos, ameaçavam cair a qualquer momento.

– Faço sim. Faço porque te amo, e estou preocupado com você. Eu sabia que estava extremamente machucada, mas, como foi sua mãe a lhe ajudar no banho quando chegamos, e hoje também, eu não cheguei ver realmente como está todo o seu corpo. Me deixa ver amor, por favor – pediu com a voz, agora, embargada.

Com os olhos marejados de lágrima, Rosalie abaixou primeiro uma alça do vestido, depois a outra, abaixando reativamente à medida que seus seios ficassem expostos. Uma lagrima escorreu em seu rosto rapidamente, e ela secou com a mão esquerda.

Os olhos de Emmett desviaram dos dela, previamente conferindo o estrago na pela clara e sensível dos seios. Grandes hematomas circundavam a pele rosada dos mamilos, e marcas de unhas indicavam que ele cravara suas garras malditas onde nenhum outro homem deveria tocá-la. Os olhos de Emmett transmitiram toda a raiva que estava sentindo naquele momento. Ele cerrou as mãos em punho, seus lábios traçando uma linha reta. Andou de um lado para o outro, algumas vezes seguidas. Tornou a parar em frente à Rosalie, que respirava ofegante por ter que mostrar ao homem que ama as marcas da agressão, em seus seios, causadas por um sádico que dizia amá-la.

Emmett ergueu as mãos duas vezes, e sempre desistia de tocá-los, temendo lhe causar dor.

– Anjo... – sussurrou ele, erguendo ambas as mãos mais uma vez, e dessa vez, permitiu-se tocá-los cuidadosamente. Lágrimas de angustia percorreram as bochechas de Rosalie. Emmett se inclinou, beijando um seio por vez, seus lábios tocaram a pele machucada, como se fossem de veludo. Ele se afastou, levando suas mãos as alças do vestido de Rosalie, ajudando-a a cobrisse novamente.

– Vai ficar tudo bem amor – assegurou, fazendo carinho no rosto dela. – Já está cuidando disso, não está?

– Sim, mamãe está me ajudando com tudo que preciso.

Emmett a abraçou protetoramente, Rosalie envolveu seus braços em torno da cintura máscula, sentindo segurança no calor daquele peitoral forte. Sentindo o perfume maravilhosamente sem igual.

– Eu te amo, e quero cuidar de você anjo.

– Eu sei... – sussurrou Rosalie contra o peito forte.

– Não esconda nada de mim – pediu ele. – Por menor que seja – beijou a testa de Rosalie antes de se afastar indo abrir a porta. Deixou a porta entreaberta e voltou sentando-se em uma poltrona. Estendeu a mão direita para ela convidando-a sentar em seu colo. Sem cerimonias, Rosalie sentou de lado, mantendo a cabeça recostada ao peito forte do namorado a quem confiava cegamente.

Emmett lhe deu um beijou no topo da cabeça, enquanto uma de suas mãos lhe acariciava o braço, carinhosamente.

Apenas alguns segundos que haviam sentado ali, Esme chegou com a intenção e fazer a filha subir para seu quarto. Passava das vinte e três horas, e Rosalie precisava descansar, ou do contrario, sua fadiga e dores só levariam mais tempo para recuperação total. Mas ao vê-los tão íntimos e cheios de carinho um com o outro, Esme se permitiu observá-los por alguns instantes. E, foi nesse curto espaço de tempo que sua mente divagou, insinuando que a decisão que o marido e ela tomaram há cerca de nove anos, vinha afetando a vida de sua única filha até os dias de hoje.

Esme foi puxada de volta a realidade quando Emmett perguntou algo a Rosalie.

– Se sente melhor agora?

Se aconchegando ao peito dele, ela respondera. – Sim... – Emmett lhe segurou levemente o queixo, lhe beijando os lábios rosados.

Esme pigarreou propositalmente, chamando a atenção para si. Rosalie se afastou minimamente do namorado, passou os dedos nos lábios sem se dar conta. De um jeito meio atrapalhado mudou sua postura no colo de Emmett, que afastou as mãos do corpo dela mantendo-as sobre os braços da poltrona.

– Está na hora de ir dormir filha – disse Esme ao se aproximar. – Se não estivesse tão machucada a mamãe até te deixaria ficar namorando mais um pouquinho. Mas, agora você precisa descansar mocinha.

– Tudo bem – Rosalie fez menção de sair do colo de Emmett, mas ele a impediu.

– Tudo bem, eu te levo até seu quarto.

Como Rosalie estava sentada de lado sobre as pernas de Emmett, tudo o que ele precisou fazer foi apoiar suas grandes mãos com firmeza em volta do corpo dela, e ficar de pé. Rosalie envolveu os braços em volta do pescoço de Emmett e lhe sorriu. Ele saiu da sala antes mesmo de Esme, que ficou desligando a TV e apagando as luzes.

– Mamãe traz o meu tablet, por favor.

– Você vai dormir agora, Rose – disse Esme, com firmeza.

– Eu sei mamãe, é apenas para não deixar aqui.

– E o notebook é pra ficar?

– Ah é, eu tinha me esquecido dele.

Emmett sorriu maneando a cabeça. Esme se abaixou e pegou os pertences da filha, inclusive o celular que estava embaixo do edredom. Ambos seguiram em frente até chegar ao inicio das escadas, subiram devagar, e quando passaram pela suíte principal que estava com a porta aberta, Carlisle os viu. Ele os seguiu, e chegou ao quarto da filha no momento em que Emmett a colocava sobre a cama cuidadosamente.

– Você precisa tomar a medicação, mocinha – avisou Carlisle, estendendo a mão para pegá-los sobre a mesinha de cabeceira. Pegou também uma nova garrafinha de água mineral dentro do frigobar, passando para as mãos de Rosalie, que fez cara de tedio. Odiava o fato de ter que precisar de remédios para dormir, isso a fazia parecer tão vulnerável.

Bufou frustrada, abrindo a mão para receber os medicamentos.

– Ei, o que foi isso? – pediu Carlisle, não entendendo aonde sua filha queria chegar com tal atitude.

– Não quero ter que tomar dois – resmungou, recolhendo apenas um dentre os dois que estavam dentro da tampinha.

– Rosalie – murmurou Carlisle, com a voz firme.

Ela colocou o primeiro comprimido na boca, e com um gole de água ingeriu. Pegou o segundo e fingiu ter ingerido também.

– Abre a boca – pediu Carlisle, desconfiado.

– Papai, eu não sou mais criança para que me peça para fazer isso.

– Mas está agindo como tal, e na presença de seu namorado. Não se sente envergonhada com isso, mocinha?!

Rosalie rolou os olhos, desacreditando no que estava prestes a fazer. Abriu a boca de má vontade, mostrando que não havia nada embaixo de sua língua.

– Certo – disse ele. Segurou o braço da filha, cuidadosamente retirando o curativo antigo, olhando o ferimento, limpou cuidadosamente e refez o curativo. Esme se aproximou, segurando o pijama de cetim da filha – algo como uma camisola. Carlisle beijou a testa da filha e se afastou.

Emmett se despediu com um “boa noite”, seguido de um breve selinho.

Em questão de segundos estavam apenas mãe e filha no quarto. Já sonolenta, sentindo os afeitos do calmante em seu organismo, Rosalie ergueu os braços permitindo que a mãe retirasse o vestido que estava usando.

Com cuidado Esme passou o vestido pela cabeça da filha, e se afastou, pegando um frasco de óleo de rosa mosqueta – indicado pelos conhecedores de cosméticos, como ajudante na prevenção de rugas, cicatrizes, manchas e estrias –, pediu que a filha passe nos seios para ajudar eliminar os hematomas, e as marcas deixadas pelas unhas de Royce King.

– Depois... – sussurrou Rosalie já meio grogue, tombando a cabeça nos travesseiros.

– Amor você não vestiu o pijama.

– Depois... – repetiu ela, sem nem saber mais do que estava falando.

Esme sorriu consigo mesma, sabendo que eram os efeitos da medicação. Maneando a cabeça, deixou o óleo de rosa mosqueta na mesinha de cabeceira.

– Não me deixa sozinha... – sussurrou ela, com a voz arrastada, de olhos fechados. Sem coragem de deixá-la, Esme deitou ao seu lado, lhe fazendo cafuné nos cabelos dourados. Esme cochilava quando Carlisle entrou no quarto e lhe tocou o ombro levemente.

– Vem deitar em nossa cama, amor – disse ele. Esme abriu os olhos devagar, olhou para o marido depois para a filha, que dormia alheia ao que acontecia ao seu redor.

– Ela vai ficar bem – tranquilizou. – Vai dormir a noite inteira com os dois comprimidos que tomou. Vai ver, ela terá a mesma noite tranquila que teve ontem. Ele só não sabia que Rosalie havia lhe passado a perna, quanto a ingerir os dois comprimidos.

– Ela pediu para não deixá-la sozinha, Carlisle.

– Meu amor, olha para você. Está tão cansada e ainda nem vestiu o seu pijama. Nossa filha vai ficar bem – estendeu a mão em um convite. Esme aceitou, segurando a mão do marido saiu da cama devagar.

Seguiram juntos até a porta do quarto, onde a mãe preocupada permitiu-se dar mais uma olhada na filha antes de se retirar. O quarto agora estava apenas à meia luz, sendo iluminado por um pequeno abajur localizado sobre a mesinha de cabeceira. Achou melhor deixar a porta entreaberta ao sair. Em frente à porta do quarto da filha o casal trocou um beijo singelo. A passos curtos se encaminharam a suíte principal, e então Esme fez uma pergunta:

– E Emmett? Não podemos deixá-lo sozinho lá embaixo. Não é educado Carlisle.

Com o braço em volta dos ombros da esposa, Carlisle respondeu. – Ele também já foi dormir, não tem com que se preocupar, Esme.

– Sendo assim, vamos tentar dormir também – disse ela.

Carlisle alcançou a maçaneta da porta, cedendo espaço para que Esme passasse primeiro. Ela foi direto ao closet se trocar.

[...]

No quarto de hospedes Emmett dormia completamente largado sobre a grande cama de casal. Usando o short do pijama, optando sempre por ficar sem a parte de cima. Geralmente ele dormia só de cueca boxer, mas como não estava em sua casa, decidiu ser um pouco mais comportado.

[...]

Horas depois...

O relógio marcava quatro horas e cinquenta e três minutos. Todos na mansão dormiam tranquilamente, quando foram surpreendidos por gritos angustiantes vindos do quarto de Rosalie. Rapidamente Carlisle e Esme pularam da cama, para verificar o porquê dos gritos, sendo que Rosalie deveria dormir a noite inteira. Esme agarrou seu robe de seda que estava sobre a poltrona próxima à cama, e vestiu enquanto saia do quarto.

No quarto de hospedes Emmett também acordou sobressaltado, e tudo que encontrou pela frente, que pudesse usar para se recompor, foi à parte de cima do seu pijama cujo vestiu rapidamente e correu para o quarto de Rosalie.

Ambos se encontraram no extenso corredor de acesso aos quartos, com feições sonolentas. Emmett estava tão preocupado quanto os sogros, tanto que nem deu importância ao fato de ter sido o primeiro a entrar no quarto de Rosalie.

A primeira imagem que tiveram, ainda recebendo apenas a iluminação do abajur, foi de uma Rosalie assustada, de olhos fechados, se debatendo na cama em meio aos gritos de terror.

Emmett pulou sobre a cama, ficando ao lado dela, agarrando fortemente seus braços tentando acalmá-la.

– Me larga – gritava ela em meio a sua agonia. – Por favor, me deixa em paz – pedia em meio ao desespero, tropeçando nas palavras.

Carlisle e Esme se aproximaram da cama. Mas Emmett a abraçou tão possessivamente que não lhes deu chance.

Esme olhou para o marido, inconformada com o que estava acontecendo com sua única filha. – Carlisle você disse que os remédios seriam o bastante para ela dormir a noite inteira – queixou-se com lágrimas nos olhos, preocupação nítida de mãe.

– Era para isso ter acontecido da mesma forma que ontem... – refletiu Carlisle. – A menos que... Ela não tenha tomado os dois comprimidos como eu pedi – olhou em volta mexendo nos cobertores, encontrando o comprimido perdido, dispensado ali. – Rosalie – sibilou ele, inconformado com a atitude da filha.

Enquanto isso, Rosalie não parava de gritar e se debater nos braços de Emmett.

– Filha... – sussurrou Esme, lhe acariciando os cabelos dourados.

– Anjo abre os olhos – pediu Emmett.

Relutante, Rosalie abriu os olhos extremamente assustada, murmurando coisas sem sentido. – Royce está aqui mamãe. Royce está aqui... – sua voz ficou falha em meio ao desespero.

Emmett lhe beijou a testa suada, murmurando. – Ele não está aqui anjo. Somente seus pais e eu estamos aqui. Não há mais ninguém na casa.

– Mamãe... – sussurrou ela, afastando os braços do pescoço de Emmett, estendendo para Esme, que estava ao lado extremamente preocupada.

– Está tudo bem filha – tranquilizou Esme. – Royce não está aqui. Só o papai, a mamãe e o Emmett.

– Olha no banheiro, por favor... – pediu em meio aos soluços.

– Não tem ninguém no banheiro filha – fora Carlisle quem respondera dessa vez.

– Ele quer matar a mim e a Vera... – afirmou ela, nervosa.

Esme olhou sugestivamente para o marido, não foi preciso muito para ele entender que sua esposa queria que fizesse o que a filha estava pedindo, mesmo sabendo que não havia ninguém na casa, além deles mesmo.

Segundos depois ele retornou, com a expressão tranquila no rosto, após constatar que aparentemente estava tudo normal. Que tudo não passava de pesadelos.

– Não tem ninguém no banheiro filha – disse ele.

– Eu sei que ele vai voltar... – murmurou Rosalie, olhando assustada para o pai. – O mal sempre volta... O mal está sempre à espreita...

Emmett segurou a mão dela, depositando um beijo na palma. – Não dessa vez, Rose – sussurrou ele.

– Ursinho que bom que você está aqui – disse ela, com a voz embargada.

Carlisle colocou um pouco de água em um copo descartável, que estava sobre a mesinha de cabeceira, e passou para Rosalie, lhe entregando também um novo comprimido.

Com a mão trêmula ela aceitou sem reclamações, ingerindo-o em seguida.

– Mamãe você não estava aqui... – queixou-se.

Esme olhou para o marido com olhar acusador.

– Tudo bem Esme, você pode ficar dessa vez com ela. Na verdade, tive uma ideia melhor. Rose vem para o nosso quarto, como fazia quando era uma garotinha.

Esme esboçou um leve sorriso para o marido levantando-se da cama onde estava ao lado da filha, lhe estendeu a mão ajudando-a a sair da cama também. Rosalie esticou o braço pegando o ursinho de pelúcia.

– Ele vai também, amor? – perguntou Esme.

– Não mamãe, Emmett vai ficar com ele no quarto de hospedes – estendeu a mão que segurava o urso para que Emmett pudesse pegá-lo. – Fica com ele amor – disse ela.

– Por quê? – pediu ele, surpreso.

– Ele é o nosso filho – respondeu ela.

Meio sem jeito, Emmett recebeu o urso de pelúcia, que ele mesmo lhe dera no passado, e a beijou na testa antes de se afastar novamente.

– Quer dizer que sou avô de um urso de pelúcia e nem sabia – brincou Carlisle.

Ambos esboçaram um leve sorriso ao sair do quarto. Quando se aproximaram da suíte principal, Emmett brincou.

– Vai dormir com o papai e a mamãe, hein anjo?!

Rosalie abraçou a mãe, recostando a cabeça aos seios dela.

– Boa noite, ursinho.

– Boa noite, anjo.

Emmett voltou ao quarto de hospedes, levando o ursinho de pelúcia nas mãos. Já Rosalie, entrou com os pais na suíte principal. Devagar ela deitou-se na grande cama que tinha o aroma familiar e acolhedor. Esme ficou em uma extremidade da cama e Carlisle na outra, permitindo que Rosalie ficasse entre ambos.

Em pouco tempo Rosalie estava entregue novamente ao sono induzido. Segurava a mão do pai enquanto recebia cafuné nos cabelos da parte da mãe.

– Eu estou muito preocupada com ela, Carlisle. Coitadinha estava tão assustada... – murmurou, beijando os cabelos da filha.

– Ela vai superar essa fase, meu amor – garantiu Carlisle. – Com um bom psicólogo, e com todo amor que ela sempre recebeu de nós, isso vai passar, é só uma questão de tempo. Se ela não tivesse me passado a perna, não teria acordado há essa hora aos gritos.

– Carlisle não fale assim – pediu Esme, fazendo carinho nos cabelos dourados da filha, recostando sua cabeça ao lado da dela.

– Sua filha me passou a perna Esme. Essa é a verdade.

– Nossa filha. – corrigiu ela.

Carlisle fez um leve carinho no rosto da filha, depois no da esposa.

– Nossa filha – repetiu ele.

E durante aquelas horas que restavam para clarear o dia, Rosalie dormiu no calor e conforto da cama dos pais, da mesma forma que fazia quando era apenas uma garotinha que acordava assustada no meio de noites de tormentas.

Notas finais
Sill