Quando menos esperamos
30 CAPÍTULO 30
2 ANOS DEPOIS.
Hoje era mais um dia estressante. Finalmente todos os projetos haviam sido terminados, tudo estava pronto, mas meu chefe ainda se recusava a me transferir para São Paulo. Eu tinha conversado com ele assim que tinha chegado de viagem há dois anos. Disse que queria voltar para casa, mas ele não queria perder “um dos melhores arquitetos com quem ele teve o prazer de trabalhar” segundo as palavras dele.
Isso que estava me tirando do sério. Eu queria voltar para São Paulo. Eu queria ficar com a Eloísa. Nós estávamos bem. Conversávamos sempre e agora que ela estava na Europa estudando, o contato ficou um pouco mais difícil, mas ainda assim nós conseguíamos nos falar.
Há uns anos, no noivado da Gabriela, eu descobri que a Elô tinha ganhado uma bolsa de estudos para terminar o ensino médio em Londres. Claro que ela não poderia recusar e a mesma foi para lá. Infelizmente não nos vimos mais. A última vez foi na nossa despedida antes de eu voltar para Curitiba.
Confesso que sinto muito a falta dela. Todos os dias. E por incrível que pareça, não tive mais nenhuma mulher desde então. É como se eu não sentisse a necessidade de ter nenhuma outra, somente ela.
Eu sei que a Elô está se saindo muito bem e está amando tudo de novo que estava acontecendo com ela. Confesso que fico com ciúmes, cada vez que ela sai ou cada vez que vejo fotos suas com seus novos colegas de escola.... Ela estava em um ambiente novo, totalmente diferente do qual se encontrava e isso tirava meu juízo. Por isso que não queria ter mantido um relacionamento. Se caso ela se envolver com alguém lá, eu não queria saber e não queria sequer imaginar, na verdade. Só de pensar eu pirava.
Suspirei, saindo do banho. Não aguentava mais de saudades dela. Há algum tempo que não nos falamos. Alguns meses, na verdade.... Ela andava bem ocupada com os estudos, já que lá era mais puxado do que no Brasil e eu estava atolado tentando terminar os projetos e finalmente consegui.
Meu celular toca e eu o pego em cima da minha cama ainda com a toalha enrolada na cintura.
- Oi, princesa. – atendi sorrindo e indo até meu armário pegar uma calça moletom e uma blusa. Hoje estava relativamente frio em Curitiba.
- Olá, maninho. Como você está?
- Estou bem.... Tentando resolver umas coisas para ver se consigo ir embora para São Paulo, mas ainda não consegui muita coisa. – disse frustrado.
Gabi riu.
- Seu chefe não quer te libertar é? Pede a ele sua carta de alforria.
Revirei meus olhos.
- Mas me diga.... Por que ligou?
- Nossa, não posso ligar para saber como está meu irmão não? – fingiu indignação.
- Claro que pode, mas eu te conheço... você nunca liga apenas por isso, então desembucha.
Gabi suspirou.
- Queria saber se eu posso ir te visitar. Ficar uns dias aí com você. Estou de férias da faculdade e queria sair um pouco daqui.
Estranhei. Gabi nunca ficaria longe do Esdras.
- O que aconteceu? – perguntei colocando no viva voz e começando a me vestir.
- Não aconteceu nada...
Não me convenceu.
- Gabriela. – a repreendi.
Ouvi um resmungo do outro lado da linha.
- Eu e Esdras tivemos uma pequena discussão.
Depois de trocado eu peguei meu celular e tirei do viva voz o colocando no ouvido.
- Como assim? O que aconteceu? – os dois nunca brigavam, literalmente.
- Ah, ele fica de gracinha com uma biscate aí e eu não gostei. Falei que queria terminar e fui embora da casa dele.
Franzi o cenho.
- Como assim, Gabi. – fiquei sem entender. – O Esdras de gracinha? Esse cara lambe o chão que você pisa. Do que você está falando?
- Ah, claro. Depois que ele começou a ter essa mulher como cliente eu surtei. – minha irmã realmente está muito brava. – Ele atende o telefonema dela a qualquer hora. TEM NOÇÃO DISSO? QUALQUER HORA. – o grito dela me fez tirar o telefone um pouco do ouvido.
- Gabriela, você não está exagerando? Ele...
- Não me venha defender ele, Dominic Miller. Nunca. Você é meu irmão. Tem que ME defender.
Revirei os olhos e sentei na cama.
- Ele já deu a entender que estava tendo alguma coisa além de trabalho com ela? – perguntei tentando entender esse surto.
- Hum.... Não.
- Nas ligações, ele atende escondido de você?
- Não.
- Ele sai de perto de você quando atende as ligações dela?
- Não.
- Ele a atende durante a noite ou madrugada?
- .... Não.
- Então não entendo seu surto.
- Ah ta, e se fosse com você? Se fosse a Elô que ficasse de ligaçãozinha toda hora com um cara, iria gostar?
Respirei fundo.
- Gabi, vocês são noivos. Você tem que entender que ele é advogado. Ela é uma cliente dele. Devem estar discutindo sobre o caso dela.
- Não interessa. Eu não gosto. – a ouvi fungar.
Franzi o cenho. Era isso mesmo? Ela estava chorando?
- Gabriela... Você está chorando?
- Não... – outra fungada.
- Princesa... Ele te ama. Não precisa ficar assim. Tenho certeza que ele deve estar maluco na casa de vocês dois. – tentei colocar juízo na cabeça dela. – Liga para ele. Conversa. Diz como você se sente com isso, tenho certeza que ele vai te entender.
- Ta bom. Vou tentar... – sentia que ela queria me dizer mais alguma coisa.
- Tem mais né?
- Você promete não ficar bravo e nem surtar?
Pronto, já estou na defensiva. Tenho até medo do que vai vir por aí.
- Tem mais o que para me contar, Gabriela.
- Promete?
- Acho que sim. – não podia prometer nada.
- Eu estou grávida.
Sabe aquele momento que parece que tudo some? Aquele momento que você pensa que não ouviu muito bem? Era assim que eu estava.
Comecei a me lembrar da minha irmãzinha engatinhando, aprendendo a andar, caindo de bicicleta e chorando correndo para mim, o sorriso banguela dela sempre que ganhava um presente de natal... E agora a minha menininha estava esperando um bebê? Como assim?
- Gab... – tentei respirar e pisquei os olhos algumas vezes. – Como é que é?
- Descobri semana passada. – disse como se estivesse falando que o sol é amarelo.
- Como é que isso foi acontecer, Gabriela. – disse nervoso. Caramba, ela só tinha 21 anos. Como assim está gravida?
- Ah, você sabe, eu e o Esdras trans...
- Pode parando. – não a deixei terminar. – Não foi isso o que eu quis dizer. Sei bem como funciona.
A filha da mãe riu.
- Não contei ainda para ele.
Respirei fundo. Meu Deus, eu seria tio. TIO.
- Não acredito nisso, Gabi. – disse quase chorando. – Você ainda é muito nova.
- Eu sei..., mas eu já amo esse serzinho que está dentro de mim. – a voz dela era de pura devoção.
Balancei a cabeça e deitei na cama.
- Pelo menos a mamãe não vai mais ficar me pressionando para casar e dar netos para ela. – eu ri de nervoso.
- Bom, já estou noiva e o casamento sai esse ano, então...
Ficamos em silencio por alguns minutos.
- Parabéns, maninha. – disse sorrindo.
- Obrigada, Nick. – ficou uns segundos calada. – Vou conversar com o Esdras.... Obrigada por me ouvir.
- Sempre que precisar...
- Eu te amo.
- Também te amo.
E desligou.
Vê se eu posso com uma coisa dessas. Minha irmãzinha tem um bebê na barriga... Meu Deus. Eu estou ficando velho mesmo.
Ouço minha campainha tocar e franzo o cenho. Já são 22:00. Quem iria bater na minha porta a essa hora?
Caminhei a passos lentos e abri a porta sem nem ao menos olhar no olho magico. Só poderia ser Lucas... Ele que sempre aparece sem avisar.
Assim que a porta se abriu eu paralisei.
Poderia imaginar qualquer pessoa.... Qualquer uma mesmo, menos aquela pessoa que estava parada na minha frente com um sorriso no rosto.
- Surpresa.
...
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