Os dias foram passando e a cidade ainda estava muito cheia. Durante o dia geralmente íamos os quatro – Elô, Esdras, Gabi e eu – para a praia e a noite saíamos para algum barzinho. Parecíamos dois casais de namorados que saiam juntos. Tecnicamente era isso, mas ninguém sabia e não era exatamente namoro o que eu e a Elô tínhamos. Estávamos curtindo, segundo ela.

Já fazia duas semanas que eu estava em Caraguá. Esdras e Eloísa ficavam muito tempo aqui. Esdras com minha irmã e a Elô comigo. Nos aproximamos muito nesse tempo. E como previa, estou ainda mais apaixonado por ela. Não sei como ninguém ainda notou o modo como a olho. Eu não consigo evitar ela é o amor da minha vida.

Eloísa não parece ter a idade que tem. A maturidade dela é assustadora. Às vezes eu até me esqueço que ela só tem 16 anos quando estamos juntos.

Henrique a procurou no começo, tentando voltar, falando que ia mudar e que a amava. Eloísa simplesmente disse que não o amava e que esperava que ele a entendesse. Henrique ainda tentou mais algumas vezes, mas quando viu que não a teria mais, ele se revoltou e nunca mais apareceu. Elô pareceu aliviada.

Hoje era um dia que iriamos ficar juntos na casa dos meus pais, mas Gustavo resolveu ir para Ilhabela e levou-a junto. Elô disse que a madrinha dela morava em São Paulo e que fazia muito tempo que não a visitava então só me restou vê-la amanhã.

Eu estava sentado no balanço da varanda pegando meu celular para ligar para Lígia.

Depois dos cumprimentos eu já fui direto ao ponto.

- Leandro deu algum sinal sobre a obra?

- Não se preocupe que está tudo andando conforme ele tinha dito. – afirmou minha secretária. – Acredito que será entregue antes do previsto.

Assenti, mesmo que ela não conseguisse ver.

- Ótimo. – recostei no balanço e olhei para o mar. – Isso estava me tirando do sério.

Ouvi Lígia rir.

- Você se estressa muito. – tinha um traço de humor em sua voz. – Sabe que todos os operários te respeitam muito e sempre entregam a obra na data prevista. Mesmo com os contratempos.

- Sei disso, mas sempre tem uma primeira vez para tudo. – É. Eu que o diga.

A linha ficou muda por alguns segundos.

- Aconteceu alguma coisa com você. – não era uma pergunta.

- Como assim? – perguntei confuso. – Não aconteceu nada comigo.

- Aconteceu sim. – Lígia diz com convicção. – Você está diferente.

Me mexi meio desconfortável. O pessoal que estava na mesma casa que eu, não notou nada de diferente em mim, mas minha secretária do outro lado da linha notou.

- É impressão sua, Lígia.

- Ah é? – perguntou em desafio. – Estamos conversando há mais de 5 minutos e você ainda não falou nenhuma obscenidade pra mim. Alguma coisa aconteceu. O que foi?

- Não foi nada. – respondi simplesmente.

- Foi sim, mas tudo bem se não quiser contar. Eu respeito.

Suspirei. Lígia, além de ser uma pessoa que eu tenho certo tipo de envolvimento, ela era também uma amiga e alguém em quem eu confiava muito. E seria bom falar com alguém que não estava perto para poder ter uma opinião neutra.

- O que você diria se eu te dissesse que conheci uma pessoa e que comecei a me envolver com ela? – sondei.

Ouvi o som de surpresa do outro lado da linha.

- Faz quanto tempo?

- Duas semanas.

- Mas faz exatamente duas semanas que você foi viajar. – eu podia ouvir a confusão em sua voz. – Só se você a conheceu no dia que chegou aí.

- Pois é.

Fez-se silêncio do outro lado do telefone.

- O que aconteceu com você? – Está aí a pergunta de milhões.

Suspirei cansado.

- Eu não sei. – disse sincero. – De verdade, eu não sei o que está acontecendo... quer dizer, eu sei, só não... Só não esperava que isso acontecesse nesse momento. Com essa pessoa.

Eu estava com a mente a mil.

- Você está dizendo que se apaixonou?

Fiquei em silencio. Não queria admitir isso em voz alta ainda.

- Caramba, Nick... não sei o que dizer. – disse Lígia sincera.

Suspirei.

- Eu estou muito ferrado. – murmurei mais pra mim, mas sei que ela ouviu.

- Por que diz isso? Se apaixonar não é o fim do mundo. – minha secretária falou do outro lado da linha. – Isso iria acontecer com você alguma hora. – e riu. – Só não esperava que você se apaixonasse em um dia.

Revirei meus olhos.

- Para de rir, Lígia. A coisa é séria.

- Certo. – ela se recompôs e pude ouvir traços de riso em sua voz. – Desculpe. Mas me diz, por que você fala que está ferrado?

Me levantei, ainda com o celular no ouvido e fui em direção a cozinha.

- Porque as coisas não são tão fáceis assim. – disse colocando o celular no viva voz e depositando-o na ilha da cozinha enquanto eu abria a geladeira e pegava uma garrafinha de água de dentro dela. Abri e bebi.

- Não vejo complicação.

Peguei a garrafa e o celular, tirando-o do viva voz e voltando a colocá-lo no ouvido. Voltei para a varanda e tirei do meu bolso um maço de cigarro e o isqueiro. Fazia um bom tempo que eu não fumava, mas eu estava muito estressado.

Sentei no sofá que tinha ali fora, coloquei a garrafa na mesinha de centro e acendi o cigarro, sentindo a fumaça entrar pelos meus pulmões e me relaxando por uns segundos.

- No momento eu vejo duas. – Comecei depois de soltar a fumaça. – A primeira, e não tão significante, é que eu moro em outro estado e as coisas entre a gente estão muito boas, mas não consigo parar de pensar em como vai ser quando eu for embora. – Balancei a cabeça dando mais um trago e soltando a fumaça. – Não quero ter que me afastar dela. – Essa última parte saiu como um sussurro.

- Dominic... você a ama. – Constatou. – Sabe disso, não é?

Joguei o cigarro dentro da garrafa de água que já estava vazia em minha mão – nem vi a hora que tomei tudo – e me levantei, caminhando até o portão que separava o quintal dos meus pais da praia. Abri o portão e tirei o chinelo antes de pisar na areia. Começando a caminhar pela beira do mar.

- O que eu faço, Lígia? – perguntei perdido. – Não esperava que isso acontecesse.

- Ninguém espera se apaixonar, mas acontece. – ela fez uma pausa e percebi que tinha traço de humor na sua voz quando voltou a falar. – Tudo bem que com você foi na velocidade da luz, mas...

- Você é muito chata. – ri.

- Lembro que você me disse que eram dois problemas... só me contou um. Qual é o outro?

Era agora que eu ouviria, pela primeira vez, se o que eu estava fazendo era loucura ou se a loucura estava só na minha cabeça.

- O outro problema é que... – me sentei na areia e continuei com os pés na agua. – Ela tem 16 anos.

Eu fiquei em silencio só esperando o que viria a seguir. A verdade é que eu estava com medo do que ia ouvir. Eu não vou deixar nada me afastar da Eloísa, não importa o que vão falar, mas ainda assim eu fiquei apreensivo. Não por mim, mas pela Elô. As pessoas podem ser muito maldosas quando querem.

- Hum... – Lígia resolveu falar depois de um tempo. – Como você consegue fazer sua vida virar 360 graus em apenas duas semanas?

Eu ri sem humor.

- Não sei, acho que é um dom.

- Brincadeiras à parte... você sabe que isso é loucura, não sabe? – era isso o que eu temia.

- Eu sei. – disse num suspiro.

- Não é considerado ilegal você se envolver com uma adolescente de 16 anos, mas ainda assim os pais da menina podem te processar e acabar com sua vida e a sua carreira. Também sabe disso, não sabe?

- Eu sei. – repeti.

- E vale o risco? – Lígia perguntou.

Eu sorri só de me lembrar daqueles lindos olhos.

- Ela vale.

- Eu nunca imaginei que fosse te ouvir falando algo do tipo. – Eu conseguia ouvir surpresa em sua voz.

- Eu mudei um pouco.

- Um pouco? – quase gritou. – Você mudou da água para o vinho.

Me levantei e comecei a andar de volta para casa à beira do mar enquanto limpava minha bermuda.

- Então me diga... o que acha de tudo isso?




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