Ouvi o namorado da minha irmã rir e começar a balançar a cabeça assim que a música começou a soar e vi, pelo retrovisor, Gabi revirar os olhos. E eu já sabia muito bem do porquê.

A música que a Eloísa colocou era uma música que eu ouvia demais enquanto morava aqui. Na verdade, eu amava ouvir, mas também gostava de irritar minha irmã, porque ela queria assistir os desenhos de princesa dela no meu – veja bem que eu disse meu – quarto e eu não deixava, então eu colocava essa música e Gabi sempre fazia essa careta, mas depois começava a cantar.

Primeiro foram os toques e depois a melodia.


Seu sorriso é tão resplandecente

Que deixou meu coração alegre

Me dê a mão

Pra fugir dessa terrível escuridão.


Eu não acredito que eu estava mesmo escutando Dragon Ball GT.

Foi nesse momento que eu me vi ferrado mais uma vez.

Essa menina ia me impressionando a cada minuto que passava. Quem diria que eu e ela tivéssemos coisas em comum. Eu sempre gostei de Dragon Ball, na verdade era meu desenho favorito. Era como se a criança dentro de mim ficasse pulando de alegria só de ouvir essas notas.

E devo confessar que ouvir essa música, depois de tanto tempo, me trouxe uma nostalgia muito grande. Me lembrei de coisas que nem sequer me lembrava que tinha passado e que vejo que sentia falta.

- Desde o dia em que eu te reencontrei. / Me lembrei daquele lindo lugar / Que na minha infância era / Especial para mim. – Eloísa começou a cantar e eu não resisti e cantei junto. – Quero saber / Se comigo você quer vir dançar / Se me der a mão eu te levarei / Por um caminho, cheio de sombras e de luz.

Eu a olhei enquanto cantava e vi seus olhos em mim.

Naquele momento eu me esqueci onde eu estava. Esqueci do transito, das pessoas no carro. Só prestei atenção na letra e percebi que era assim que eu me sentia com relação a ela.

- Você pode até não perceber / Mas o meu coração se amarrou em você / Que precisa de alguém / Pra te mostrar o amor que o mundo te dá.

Era isso.

Eu me ferrei.

Estava decretado.

Não era encanto, não era deslumbre... eu simplesmente me apaixonei. Me apaixonei por uma garota de 16 anos e em apenas um dia.

Esse baque me acertou de tal forma que eu fui incapaz de continuar olhando para aqueles olhos verdes tão penetrantes.

Eu olhei para frente, ainda com a música tocando no som do carro e Eloísa continuou cantando, mas eu não me atrevi a olhar em sua direção.


Meu alegre coração palpita

Por um universo de esperança

Me dê a mão

A magia nos espera.


Esdras começou a cantar junto com a irmã e eu ia prestando atenção na estrada. Mas quando olhei para o retrovisor para vê-la, me surpreendi ao encontrar aqueles olhos em mim. Exatamente quando a outra parte da música começou.


Vou te amar por toda minha vida

Vem comigo por esse caminho

Me dê a mão

Pra fugir dessa terrível escuridão


Mais uma vez não consegui manter contato visual. Voltei a olhar para a estrada, que andava mais um pouco.

Estávamos saindo da serra já era quase 17 horas e a música ainda tocava no carro.


Haja o que houver, eu te amarei

E quero para sempre ao seu lado estar

Deixe de pensar em tudo, que já ficou para trás


Quero saber se é comigo que você vai sonhar

Se não tenho alguém em quem confiar

Já não encontro o caminho que me leva a você


Eu não me lembrava que ela era tão grande assim...


Quando enfim consegui confessar

Todo meu sentimento e desejo de amar

Não sei o que me parou

Mas hoje eu vou lutar com tudo o que sou


Meu alegre coração palpita

Por um universo de esperança

Me dê a mão

A magia nos espera


Vou te amar por toda minha vida

Vem comigo com este caminho

Me Dê a mão

Pra fugir desta terrível escuridão


Quando a música acabou eu quase soltei um suspiro aliviado. Sempre gostei dessa música, sempre ouvi e nunca prestei atenção na letra. Vou prestar justo quando estou dentro de um carro, com a minha irmã, meu cunhado e a irmã dele, que é a razão do meu desespero.

- Você ama essa música, né Elô. – perguntou minha irmã divertida.

Eu manobrei e estacionei no mercado da Martins de Sá mesmo. Descemos do carro enquanto Eloísa respondia.

- Muito.

Ativei o alarme do carro e fui na direção delas com as mãos no bolso da calça.

- Eu também. – respondi.

- Pior é que é verdade. – murmurou Gabi.

Eloísa me olhou e sorriu. Acho que não tinha nada nela que não fosse lindo.

Cansei de ficar pensando que isso é errado. Dessa vez não vou pensar em nada. Claro que não vou me aproximar mais do que o necessário, vou tentar não ficar tempo demais olhando para ela... Observe que falei “tentar”.

Já aceitei que cometi a loucura de me apaixonar por uma garota de 16 anos, vou aceitar e continuar vivendo. Mesmo que esse absurdo tenha acontecido em apenas um dia. Como que se apaixona na primeira vez que vê alguém. Isso é completamente irracional.

Mas desde quando o amor é racional?

E essa frase que minha mãe sempre dizia veio em minha cabeça com força total.

Pois é, quem diria que a pessoa que fisgaria o coração de Dominic Miller iria ser uma adolescente.

Soltei um sorriso involuntário já dentro do mercado, por conta dos meus pensamentos e notei que minha irmã viu.

- Que sorrisinho é esse, Nick?

Me recompus e balancei a cabeça enquanto vi a Elô e o irmão irem para a parte das bebidas.

- Não sei do que está falando. – dei de ombros.

- Não sabe, não é. Só não sabe porque não te convém.

Ri e passei meus braços pelos seus ombros.

Fomos as compras.




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