Enquanto íamos saindo da frente de casa e pegando a avenida foi que eu me lembrei do porque eu nunca saia de carro na temporada.

Era julho.

Mês de férias.

Mês que os pais e os filhos descem para a praia... então a cidade estava fervilhando de gente e a casa dos meus pais fica na tabatinga, — um dos últimos bairros de Caraguá – e onde queremos ir é um pouco mais longe.

Geralmente dentro de uns 15 a 20 minutos já estaríamos lá, se não tivesse transito. Agora, sinceramente, nem sei se vai dar tempo de chegar para pegar qualquer onda que fosse sem se tornar perigoso. Porque aquela praia é realmente brava. O nome não é só para colocar medo, o nome é para avisar do perigo.

Já estávamos no transito há 20 minutos e ainda não andamos nem 30 metros. Nessas horas eu agradeço a Deus pelo ar-condicionado.

- Eu tinha me esquecido disso. – pensei alto.

Esdras, que estava ao meu lado o banco mexendo no celular, me olhou e sorriu.

- Pois é. Nós nos acostumamos.

- Eu não. – Murmurou Gabi.

O celular dela tocou e a mesma atendeu enquanto eu arrancava mais uns centímetros com o carro. Isso mesmo, centímetros.

- Oi Elô.... Sério? – Vi pelo retrovisor que Gabi balançou a cabeça em negação. – Ele é um babaca... onde você está?... Certo. Vamos te buscar, ta? Não sai daí. – Desligou. – Adivinha. – Olhou para o namorado. – Henrique e a Elô brigaram... de novo.

Esdras suspirou.

- Já conversei com ela. – deu de ombros. – Uma hora ela vê. Só espero que não se machuque muito.

Eu até agora ouvi tudo em silencio, mas não estava conseguindo me manter assim por muito tempo.

- Posso perguntar qual é a desse Henrique? -perguntei enquanto arrancava um pouco mais com o carro.

Pude perceber que ele estava se decidindo se falava ou não. Por fim resolveu contar.

- Henrique aparentemente é um cara legal, uma pessoa que se dá com todo mundo, mas não é um bom namorado. – começou. – Há um bom tempo eu percebi a Eloísa meio triste. Os olhos dela não brilham mais como antes. – ele me olhou. – Eu e ela sempre fomos muito unidos, ela sempre me contou tudo, mas depois que ela começou a namorar com esse garoto, eu sinto que tem coisas que ela não quer me contar e é por medo. – ele olhou para frente de novo. – Nunca vi nada de diferente nela. Digo marcas pelo corpo. – se deteve um pouco, mas continuou. – Mas nós sabemos que não é só fisicamente que ferimos pessoas.

Eu não esperava por essa. Realmente não esperava.

- Você acha que ele é abusivo com ela? – perguntei incrédulo e o vi assentir. – Esdras, isso é muito sério.

- Eu sei. – falou passando as mãos nos cabelos em sinal de nervosismo. – Eu tentei falar com ela. Tentei sondar, mas ela não fala. Ela meio que trava. – arranquei mais alguns metros com o carro enquanto o ouvia. – É como se ele tivesse trancado a minha irmã feliz em algum lugar lá dentro dela.

Quando conversei com Eloísa, eu realmente percebi no olhar dela. Por mais lindo que fosse, faltava um brilho ali. Brilho que só vi por um instante quando ela falou sobre a mãe.

- Eu também tentei falar sobre isso com ela. – minha irmã começou a falar. – Pensei que talvez só não se sentisse à vontade em falar com o irmão, mas não... ela não toca no assunto e quando tentamos de novo ela desvia. – suspirou. – Bom, ela merece coisa muito melhor. – finalizou. – Ela está nos esperando em frente ao ponto do Gama pequeno do Getuba.

Assenti sabendo onde era.

Enquanto íamos ao seu encontro eu me peguei pensando em tudo o que ouvi.

Não consigo acreditar que algo dessa magnitude possa estar acontecendo com uma garota tão nova assim. Sei que muitas mulheres passam por isso, o que é um tremendo absurdo, como pode alguém sequer imaginar machucar uma mulher? E saber que muitas vezes elas preferem ficar em silencio, seja por medo, seja por vergonha... eu quero poder ajudar a Eloísa. E eu vou fazer isso.

Meus 36 anos vão servir para gluma coisa no fim das contas. Sei que maturidade eu tenho. Provavelmente o pai e a madrasta dela não estão sabendo de nada. Significa que somente Esdras, irmão dela – que na cabecinha dela pode ter medo de contar para ele e acabar em desastre -, e minha irmã – que se soubesse acabaria contando para o namorado e consequentemente poderia acabar em desastre também. Mas eu sou alguém que veio de longe. Alguém que provavelmente ela não vai ver tão cedo pelo fato de quase nunca vir visitar.

Ela pode acabar vendo em mim alguém com quem desabafar e é aí que eu vou saber se aquele infeliz está machucando-a. Se ele estiver... vai ser um homem morto.

Sai dos meus pensamentos quando a vi.

Preciso dizer que ela estava magnifica?

Os cabelos estavam presos em um rabo de cabelo frouxo com alguns fios soltando da franja falsa que ela tinha, a saída de praia era azul clara de renda e o biquíni podia ver era da mesma cor, usava um chinelo branco e segurava em suas mãos uma bolsa de palha. Simplesmente linda.

Parei o carro em sua frente e a mesma entrou no banco de trás com a minha irmã que a abraçou na mesma hora.

- Oi Elozinha. – disse Gabi.

Arranquei com o carro. Agora o transito estava fluindo mais rápido. Certo, eu estava andando pelo menos. A 10 por hora? Sim, mas ainda era andar.

- Oi gente. – a olhei pelo espelho retrovisor, já que Elô estava sentada atrás de mim, e sorri.

Foi com muito prazer que a vi ruborizar e desviar o olhar com um meio sorriso e aquela covinha.

- Meu povo, já passa das 15:30. – Esdras falou indignado. – Pegamos a pista faz uma hora e meia.

E ainda estávamos no início da serra.

- Olha só... – comecei com a minha ideia, enquanto estávamos parados mais uma vez por conta do pare-siga. – Surfar eu sei que hoje eu não vou mais. – já falei conformado – Já que eu esqueci como era isso aqui na temporada. Então eu sugiro irmos ao mercado, comprar algumas coisas e irmos fazer uma fogueira na praia. – finalizei. – Aproveitamos que Esdras trouxe o violão e ficamos por lá. O que acham?

- Fogueira as 16:00? – perguntou minha irmã divertida.

Aproveitei que inda não andei com o carro e olhei para trás.

- Você tem alguma esperança de sair desse transito antes das 18 horas? – voltei a atenção para a estrada.

Ouvi Gabi gemer de frustração e Eloísa soltar uma risada, sendo acompanhada pelo irmão.

- Vamos ouvir música. – falou a morena. – Dominic, posso emparelhar meu celular com o som?

Assenti e a vi sorrir pelo retrovisor. Gostava do som do meu nome saindo dos lábios dela.

- Já até sei qual vai ser... – comentou Esdras.

- Shiu. Eu gosto. – Eloísa respondeu ainda mexendo no celular.

Esdras ligou o emparelhamento e ouvimos o som de conexão.

Passaram alguns minutos e eu quase bati no carro da frente quando a música começou a tocar.



...

Notas finais
Não esqueçam de comentar *-*