Pérolas e Safiras
15 Outro Lado da Moeda – Parte I
Notas iniciais
“Vim lhe encontrar, dizer que sinto muito, você não sabe o quão amável é. Tenho que lhe achar, dizer que preciso de você e te dizer que eu escolhi você.” – Coldplay, The Scientist.
O frio não conseguia penetrar as paredes de madeira nobre do qual a casa era feita, um verdadeiro feito arquitetônico. Hinata se aquecia na sala de estar, tomando um chá com bolinhos e ao sua frente, Toshida a sondava, preocupado com a desanimação presente nas feições delicadas da morena.
Já fazia dois dias que haviam desembarcado em Sutäruna1 e nada da garota se pronunciar sobre a aceitação da oferta. Ren queria muito ajuda-la, se sentia na obrigação. Devido a isso, depois que pisaram em terra firme a levou diretamente a mansão dos Otsutsuki, construída por Hamura. A Hyuuga ficou encantada com a beleza da mansão, que mais parecia um palácio cravado nas pedras de uma montanha. Ela era enorme, espaçosa e bem ventilada, fora o fato de possuir um belo jardim nos fundos, onde sabia que ali ocorreram treinamentos no passado.
O velho Toshida queria que a morena se sentisse em casa, por isso lhe deu a melhor suíte da mansão. O quarto era um verdadeiro projeto decorativo no estilo imperial, os moveis antigos e luxuosos demonstravam estar intactos mesmo depois de tantos anos sem uso. Talvez isso demonstrasse o esmero que o velho tinha por aquele lugar.
Voltando ao presente, o silêncio instalado no ambiente era assustador. Apenas os barulhos do vento enregelante do inverno batendo na porta, o som das xícaras sendo colocadas em cima da mesa e os estalos da madeira flamejante quebravam a harmonia do silêncio. Impaciente com aquela atitude estática e pétrea, Ren decide iniciar uma conversa calma e descontraída.
– A senhorita está se sentindo bem? – Ele a questionou com candura. Ela o olhou firmemente com o rosto neutro, passivo de emoções.
– Não estou acostumada a viver em grandes altitudes... – Murmurou voltando a tomar mais um gole do seu delicioso chá.
– Você se acostuma...
– De quem era essa casa? – perguntou mudando drasticamente de assunto, decidiu que quanto mais informação conseguisse, melhor para ela.
– Do seu avô materno, é claro. – Ele respondeu animado por finalmente quebrar a tensão do cômodo. – Um legítimo Otsutsuki. Foi aqui que sua mãe cresceu.
– Como eles podem ter continuado com o nome, sendo que a nossa ancestral era uma mulher? – Ela estava com essa pulga atrás da orelha desde que descobriu a verdade.
– Tay, — falou calmamente, perdido em memórias. – foi uma grande feminista. Ela não queria casar e ceder seu nome para um homem. Ela simplesmente escolheu um parceiro e teve seus filhos, sem jamais ter algo muito sério que a fizesse perder o sobrenome.
– Ela me parece ter sido bem determinada... – Hinata murmurou pensativa. Ren sorriu e apontou para uma tapeçaria acima da lareira. A morena seguiu com o olhar e viu que haviam bordado o retrato de sua ancestral.
– Aquele quadro ali... – O velho apontou para um caríssimo quadro onde um casal e uma menininha, sorriam para uma câmera que eternizaria os sorrisos alegres. Hinata seguiu o dedo do homem e observou as pessoas no retrato. – Aqueles são seus avós e sua mãe quando era pequena...
Ele falou de maneira afetuosa. Tom que deixou a morena curiosa para entender o motivo.
– O que vocês tiveram? – Ela questionou repentinamente, a pergunta assustou um pouco o velho.
– Do que está falando? – Ren estava confuso com o rumo da conversa.
– Mamãe e você... Dá pra perceber em seus olhos que vocês eram próximos.
Toshida parou para pensar por um instante a resposta. Ele perguntava a si, se a Hyuuga nunca sentiu raiva ou perdeu o controle de suas emoções. A morena era tão calma e doce que aquilo o assustava. Ela não era muito diferente de Himiko se tratando da aparência, mas em contradição, as duas tinham personalidades opostas...
Essa calma... Deve ter herdado do pai... – pensou ainda em silencio.
– Eu e a Hiko-chan iriamos nos casar, se não fosse pelo seu pai. – Admitiu suspirante, desviando seu olhar para as chamas tremeluzentes da lareira.
– Certo...
Hinata resmungou meio chocada com a revelação. Isso significava que sua mãe poderia nunca ter amado Hiashi... Não conseguia aceitar essa teoria. Desde criança via o amor estampado no rosto da senhora Hyuuga, uma expressão muito semelhante a sua quando próxima ao Naruto.
– Você vai aceitar minha ajuda? — Ren voltou à conversa depois de muitos minutos em silêncio.
– O que você tem contra Kaguya? Por que quer me ajudar? – Hinata parecia frenética. Andava sobre pressão esses dias...
– Nossa família foi designada a servir lealmente ao clã Otsutsuki. – Explicou enquanto seu rosto, que continha algumas rugas, ficou franzido. – A sorte dos ancestrais dos meus pais, foi que ficamos responsáveis pela casa do Hamura. Ele era um homem muito bom e gentil.
Voltou a olhar diretamente para a morena e a encontrou o observando atentamente, escutando todos os detalhes da história.
– A antiga mansão de Hagoromo e Kaguya fica mais ao leste da montanha. Elas estão definitivamente destruídas e inabitáveis. Por isso te trouxe aqui. – Falou enquanto retirava um pouco de seus cabelos grisalhos dos olhos. – Eu não tenho motivos para gostar de Kaguya pelo motivo de ter feito a minha família de escrava e ter causado sua extinção. Eu sou o único Toshida vivo.
– Sinto muito.
– Não precisa. – Esnobou bufando e balançando as mãos. – Meu ódio por aquela vadia apenas aumentou por causa do assassinato de sua mãe...
– Então você sabe... – Disse hesitante, com medo das reações do homem.
– Sim, eu sei de tudo. – Ele falou suspirando pesadamente. – Não o culpo por aquele desfecho. Ele deve estar se sentindo um miserável...
Hinata não sabia responder, mas tinha a certeza de que seu pai estava arrependido do passado. Ele nunca havia tentado sair dele. Novamente o manto do silêncio cobriu a sala. A morena estava imersa em pensamentos e Toshida aguardava ansiosamente a resposta da garota.
– Eu não consigo confiar plenamente em você, mas se você tem Kaguya como inimigo, então é meu aliado. – Respondeu baixinho, mas ficou impressionada com a repentina mudança de estado do homem, que estava melancólico e ansioso, migrou para eufórico e aliviado.
– Me siga, — disse enquanto se levantava da almofada. – tenho de te mostrar uma coisa.
A Hyuuga o obedeceu e seguiu Ren que a levava mais a fundo pela casa. Até que pararam em frente a uma porta firmemente trancada. Ele pegou um enorme argola arrodeada por chaves e escolheu uma. A porta se abriu e ele – como um cavalheiro – a deixou passar primeiro.
A morena observou cada detalhe daquele grandioso lugar, que estava coberto por enormes estantes – que iam do chão ao teto – de madeira, com suas prateleiras lotadas de pergaminhos e manuscritos. O lugar cheirava a poeira e mofo, mas Hinata não ligava para isso, estava encantada com a perfeição da biblioteca. Ren se aproximou da estante mais próxima e começou a vasculhar as pilhas de documentos que ali tinha.
– Eu acho que tem um pergaminho, onde podemos descobrir uma maneira de interromper o progresso da Kaguya até que achemos uma versão definitiva de derrota-la. – Sua voz saiu abafada devido a sua cara que estava enfiada nas prateleiras que alcançava.
– Progresso? – A morena o questionou confusa, enquanto explorava anda mais o cômodo, que era iluminado por lampiões.
– Não adianta esconder de mim. – Ele falou retirando sua cabeça das prateleiras e a observou com seriedade. – Sei que Kaguya está tentando retornar. Os espasmos frequentes de suas mãos evidenciam isso...
Hinata olhou para suas mãos, lembrando quanto estava se tornando complicado manter a Deusa sobre controle. Na viagem de barco até Sutäruna, ficou apavorada quando sentiu os primeiros espasmos incontroláveis de sua mão direita, que tentou ataca-la, enforcando-a. Era tão terrível imaginar ser assassinada pelo próprio corpo.
Ren a deixou quieta por um longo período de tempo, queria que ela se acalmasse, ficasse confortável e repensasse melhor suas estratégias. Sendo assim, continuou sua procura a um pergaminho raro e muito útil para aquela situação.
Entendendo que não podia ajuda-lo na procura, Hinata começou a vagar ainda mais entre as estantes de tamanho médio que dividia a sala em corredores. Seguindo em frente, encontrou um altar, onde sobre um suporte de madeira, estava uma bela katana e ao seu lado uma armadura, velha e gasta. A morena ficou encantada com a espada. E como num transe seguiu diretamente a ela. Chegando mais próximo, observou com precisão cada detalhe da arma.
A capa protetora da espada tinha desenhos em alto relevo de dentes-de-leão2, e entre dois conjuntos das flores, havia dois leões se encarando. A cor preta evidenciava ainda mais a beleza da capa. O punho de cor branca tinha os desenhos de luas minguantes e a bainha era enrolada por uma fita da cor preta, onde na ponta havia dois penduricalhos de dentes-de-leão.
A espada era tão magnífica e atrativa que Hinata não conseguiu conter sua vontade e pegou na arma para olhá-la mais de perto. No mesmo instante em que sua mão tocou no objeto, Ren – que achara o pergaminho – a encontrou, próxima do altar e não pode conter o desespero ao vê-la tocar a katana. Sem pensar duas vezes ele correu até ela e exigiu que soltasse a espada de imediato.
Assustada com o grito do velho, a Hyuuga soltou de vez a espada e virou-se abruptamente para encarar um Toshida frenético.
– Você está bem? – Ele a questionou com o semblante pálido e preocupado.
– Sim, o que houve?
Respondeu intrigada com o desespero do homem, que sem pedir permissão pegou na mão da garota e avaliou a palma. Ele franziu suas sobrancelhas ao ver que não havia acontecido nada...
– Ela não te machucou... – Ele falou mais para si, entretanto, devido à proximidade, Hinata escutou tudo.
– Claro que não! – Disse com o coração acelerado por causa do susto. – Aconteceu alguma coisa, Toshida-san?
O homem permaneceu quieto por um bom tempo avaliando seus conhecimentos, mas decidiu que não havia com o que se preocupar. Suspirando em alívio, soltou a mão da morena com delicadeza e abriu um sorriso fraco.
– Parece que a Tsuki no raion2 te escolheu.
– O que? – Hinata perguntou perdida naquela conversa confusa. Ren apenas sorriu e aproximou-se da espada.
– Tsuki no raion3 é o nome da espada. – Toshida olhou para a morena que tinha o semblante coberto de perguntas. – Foi uma criação do Hamura. Ele queria que alguém de sua família a empunhasse promovendo justiça e paz no mundo shinobi. Claro que era um sonho utópico, já que isso não garantiria que quem o empunhasse tivesse boa índole. – Falou revirando seus olhos brilhantes, Hinata soltou uma risadinha baixa devido a careta. – Entretanto, o poder da espada era tanta que acabou por criar um espirito, uma vida e por isso apenas os seus escolhidos podem tocá-la ou ergue-la sem se machucar ou quase morrer eletrocutado.
Falou enquanto pegava a mão alva da garota a aproximou da katana.
– Meu pai costumava a me dizer que, o escolhido podia sentir a vibração do espirito selvagem presa na lâmina... – Por incrível que pareça, a morena sentia a vibração poderosa da espada. Ela era tão atraente e envolvente que a retirou da base para segurá-la com as duas mãos. – Ás vezes me dizia que o escolhido poderia até escutar a voz da espada.
Ele riu de si e observou a garota examinar o objeto com extremo cuidado.
– E quantas pessoas podem tocar nela? – Ela perguntou curiosa com o relato magnífico.
– Hamura e agora você.
A morena arregalou os olhos, não conseguia acreditar no que havia escutado. Aquilo não podia ser sério, mas o rosto calmo e brilhante do velho indicava a verdade ouvida. A espada a escolhera.
– Encontrei o que procurava. – Toshida falou com seriedade entregando para morena, que aceitou o pergaminho com hesitação.
Ela desenrolou o documento e leu o que havia escrito. Não entendia muito bem aqueles símbolos, mas sabia do que se tratava. Era uma saída perigosa e imprudente, entretanto era a única coisa que poderiam fazer no momento.
– Quando vamos começar? – Ela questionou encarando o homem com frieza.
– Amanhã de manhã. – Respondeu igualmente sério, aquela não era o momento propício para brincadeiras e historinhas. O momento estava ficando tenso.
Hinata confirmou balançando a cabeça e foi devolver a espada para o seu suporte. Entretanto, Ren a impediu alegando que agora a espada pertencia a ela. A morena sorriu amavelmente e dando um educado “boa noite” seguiu para o seu quarto com sua espada.
Ela precisava descansar e se preparar para o dia da amanhã. O dia que iniciaria um final feliz ou trágico.
Fale com o autor