Pé de Coelho
1 Prefácio
Notas iniciais
Queda livre
A liberdade é como grilhões em teus pés e a vida o oceano no qual estás a nadar.
De onde estou posso ver quase toda a cidade. Toda a extensão da Avenida Cívica com seus calçadões de paralelepípedo, carros luxuosos e pessoas vestidas em casacos de pele e no cruzamento com a Alameda dos Feiticeiros uma enorme estátua de bronze com o busto de um dos feiticeiros; o córrego Botafogo com suas águas escuras e violentas; o plano da Praça Goyazes com seu teatro de arena e o Palácio das Esmeraldas; a estação ferroviária de cor amarela e seu relógio eternizado ás 22 horas e 4 minutos; e o Parque dos Buritis com seus lagos de cor esverdeada.
Estou no topo do mundo, e aqui, nenhum mal poderá me alcançar. Sinto-me liberta, como se tivesse passado toda minha vida acorrentada pelos pés e mãos, com olhos vendados e a boca amordaçada – o que de certo modo é verdade. E nestas condições tudo o que sabia sobre o mundo era o que ouvia, e principalmente, o que ouvia dos lábios de meus algozes. Mas um dia um bem-feitor apareceu, matou meus algozes e me libertou. Agora eu poderia conhecer a realidade com meus próprios olhos, mas a luz feria-nos, e tudo o que via eram borrões em meio a intensa claridade. E mesmo após acostumar-se com a luz, ainda não podia ver — abstratamente — pois tudo o que me apresentava era desconhecido, novo, incompreensível.
Eu estava livre, mas ainda assim, presa. Pois as correntes que me foram tiradas ainda permaneciam em minha alma. Era uma criança pequena em meio à multidão de um parque de diversões e cujo os pais se distanciaram para fazer algo e lhe disseram "Não saia daí". Tinha um universo à sua frente, mas não podia explora-lo.
Uma brisa suave toca-me o rosto, trazendo lembranças e boas sensações, como quando era criança e meu avô me pegava no colo para ensinar sobre a vida e a morte, sobre amor e ódio, alegria e tristeza, conquistas e sacrifícios. A sensação é a mesma de quando colocamos um torrão de açúcar na boca após experimentarmos o sabor amargo da decepção.
Aqui em cima eu sou deusa de minha própria existência. Olho para baixo, lá, as pessoas parecem formigas e os veículos automotores são como pequenos besouros. Eles se movimentam de um lado para o outro, apressados, estressados, lamentando suas vidas medíocres, vidas não muito diferentes da minha. Mas não aqui, aqui em cima minha vida é perfeita, sem dor, sem angústia, sem ódio. Aqui em cima minha vida é como estar em uma roda gigante suspensa no ar durante uma chuva de verão. É como beber o arco íris e comer pãezinhos de mel com cobertura de infância.
Olho para cima, para o céu, para a lua, para as estrelas e muito além. Olho para um lugar que existe apenas para mim, no mais íntimo de meu ser. Um lugar onde posso ser quem quiser, sem me preocupar com o que os outros pensam ou dizem. Um lugar somente meu.
Fecho os olhos para sentir mais intensamente a brisa a beijar-me as maçãs do rosto. Estou satisfeita. Não é morrer que eu quero, não, quero ser melhor. A morte é o que eles querem para mim e eu não lhes darei motivo para festejar. Dou um passo para trás, mas meus pés vacilam, escorrego e tombo para frente.
O vento corta-me o rosto, abro os olhos assustada — como quando sonhamos que estamos sendo perseguidos por um assassino e quando ele irá nos esfaquear, acordamos. À minha frente as formigas e os besouros se aproximam, tornando-se cada vez maiores. Eu estou caindo.
Fecho os olhos e sorrio. Um sorriso triste de aceitação.
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