Pé de Coelho
2 Capítulo 1
— Aposto tudo! — disse o homem de chápeu preto e barba grisalha enquanto empurrava todas suas fichas para o centro da mesa.
Seu nome era Devânio, presidente do Sindicato Dos Trabalhadores da Cidade de Gyn. Mas esta era apenas uma de suas funções, além de um viciado em jogos de azar, chefiava metade dos cartéis da zona sudoeste, comandando o contrabando de cigarros e bebidas, foi o homem que mais lucrou com a aprovação da Lei Seca. Em pé ao teu lado estava Caroline, uma jovem arquiteta de vinte anos de idade, olhos de topázio, cílios grandes e lábios vermelhos. Seu corpo esguio estava perfeitamente desenhado por debaixo de um vestido de seda azul-turquesa. Caroline Maciel, o pé de coelho de Devânio, assim era ela chamada. Isto porque o tal homem não ia a lugar algum sem levá-la consigo. Negócios, jogos, todos os lugares onde era preciso um pouco mais de sorte. Haviam boatos de que as poucas vezes em que saiu sem ela, ele perdera negociações rentáveis e muitas apostas nas casas de jogos espalhadas pela cidade. Após perder mais de dois milhões de réis em um jogo de truco a três anos atrás, ele passou a algemar a garota ao teu punho esquerdo. Onde ele estava ela o acompanhava. Era seu amuleto da sorte, seu pé de coelho.
Bastava olhar na expressão dos olhos da garota para ver seu descontentamento. Olhar para eles era como se estivesse em uma casa ardendo em chamas. Nos primeiros 20 segundos todo os pelos de seu corpo queimam, depois, em dez segundos suas unhas começam a derreter, teus lábios estão rachando de tão secos e o sangue que escorre se evapora, a água presente no globo ocular também se evapora e teus olhos estouram como milho de pipoca, então seus rins, fígados, pancreas e coração são cozidos. Era esta a expressão nos olhos de Caroline.
A garota olhava algo que não estava ali, na verdade, nem ela mesma estava ali. Distante, em outro mundo, ela sorria, não se sabe porque. É difícil imaginar que alguém com aquela expressão no olhar possa ser capaz de sorrir, mas ela sorria. E era um sorriso esplendoroso, tão magnifico que atraiu os olhares de todos a mesa. Devânio, é claro, não gostou daquilo, voltou teu olhar na direção dos olhos de Caroline. A garota desfez o sorriso.
— Está certo disto senhor Devir? É uma aposta muito alta. Não que o senhor não possa pagar, sei que pode.Mas é mesmo sensato apostar tão alto? -quem perguntava era Orácio, braço direito e tesoureiro de Devânio.
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