Pássaros
9 Capítulo 9
Notas iniciais
Pássaros
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Escrito por Amanur e Noel Blue
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Capítulo 9
De repente, ela sentou de solavanco sobre seu colchão. Teve algum pesadelo ruim, mas ao abrir os olhos, as imagens não estavam mais em sua memória. Seu coração palpitava, e sua respiração era ofegante, lhe indicando que não tivera um sonho bom. E então, começou a se sentir tonta e nauseada, e ao olhar para seu quarto, sua cabeça parecia girar sobre o pescoço. A garrafa de vinho que enchera seu estômago à noite passada ainda estava ali, como uma proibida tentação. Mas ela sabia que não deveria beber àquela hora da manhã, e nem se permitiria àquilo; seria degradante demais.
Resmungando, se levantou às custas, e obrigou seus pés a obedecê-la até a cozinha. Tropeçou nos próprios pés, e quase rolou escada abaixo, mas conseguiu se apoiar na parede. A pilha de louça acumulada na pia era assustadora, mas resolveu não se incomodar com isso agora. Abriu os armários com as mãos trêmulas para ver o que tinha, em busca de algo que preenchesse aquele vazio em seu estômago e, quem sabe, em sua alma também, mas estavam tão vazios quanto se sentia. Há semanas Sakura não visitava o mercado para fazer compras.
— Merda... — murmurou. Estava se sentindo tão fraca que não achava que seria capaz de chegar ao carro para ir trabalhar. Não seria nem capaz de subir as escadas para tomar banho. Então, se jogou no sofá, pegou o telefone sem fio sobre uma das almofadas, e começou a discar os números da Ino. Mas seu dedo se conteve no botão verde para acionara chamada. Sua amiga a encheria de reclamações, e ela não precisava ouvir nada naquela manhã. Estava se sentindo um lixo, um nada, e qualquer coisa que lhe dissessem, seria capaz de se jogar pela janela.
Mas para quem ligaria? Tenten faria a mesma coisa que a Ino, mas ao invés de dar sermões sobre sua precária alimentação, a morena reclamaria do seu estado de espírito, o que seria ainda pior. E Naruto não era mais o seu amigo.
E ela não tinha mais ninguém. Seus pais moravam no outro lado do país...
Suspirou, pensando em como seria bom se acabasse com aquele sofrimento todo. Mas até o último suspiro, ainda agonizaria muito. Então, sem perceber, foi discando um número que apareceu de repente em sua memória.
E aquela voz grave e sonolenta atendeu ao segundo toque.
— Sim?
Sakura não conseguiu responder, por que de repente se deu conta de que não deveria estar fazendo aquilo. Mas que outra opção tinha, além de se deixar apodrecer ali? Ela poderia chamar uma ambulância, e a levariam para o hospital em que trabalhava, mas isso seria humilhante demais. E com certeza o insuportável do seu chefe chutaria a sua bunda para fora daquele lugar.
— Tem alguém aí? — a outra voz insistiu.
— Itachi...?
— Sim!
— Ok, isso é constrangedor, mas o seu número é o único que consigo pensar para pedir ajuda...
— Quem está falando?
— Doutora Haruno. A fisioterapeuta do Sasuke...
— Onde você está?
Ela deu seu endereço, e o rapaz desligou em seguida com a promessa que iria lhe ajudar. Enquanto isso, ela se revirou no sofá, e cobriu o rosto com uma almofada, querendo abafar aquela vergonha que tomava conta do seu rosto. Aquilo era o cúmulo do rebaixamento, e a consciência de que estava, sim, chegando ao fundo do poço lhe atormentava ainda mais, porque não sabia o que fazer para sair dalí.
Ela deve ter pegado no sono, pois se assustou quando a campainha do interfone tocou, e ela não viu o tempo passar. Com sacrifício, foi até o aparelho e, sem dizer nada, lhe deu acesso ao prédio. Em seguida, deixou a porta aberta para que ele entrasse, e voltou a se atirar no sofá, com medo de cair no chão. E não demorou para ouvir os passos dele subirem pelas escadas.
— Sakura?
— Aqui... — resmungou.
Itachi entrou meio tímido no apartamento, se sentindo meio estranho por estar ali, mas ao mesmo tempo estava grato por ela ter lhe telefonado. Ele tinha estima por ela, e saber que ela se lembrou dele foi bom. No entanto, se assustou com a aparência da moça quando a viu jogada de qualquer jeito sobre o sofá. Ela estava descabelada, e muito pálida. Olhando em volta, viu inúmeras garrafas de bebidas vazias espalhadas pelo chão e armários, e logo compreendeu a gravidade da situação.
Por sorte, ele passou na cafeteria do hospital, e comprou café da manhã para os dois. Assim sendo, deixou a sacola plástica que trouxe consigo, e a pegou pelos braços. Ela parecia prestes a desmaiar, com aqueles olhos verdes revirando lentamente sem foco.
Ele a levou escada a cima nos braços. Ao passar pelo quarto dela, se assustou com a bagunça. Aquela faxina que fizera precisava ser refeita a cada dois dias, devido sua nova falta de organização. Sem dizer nada, querendo ser o mais discreto possível, ele a colocou embaixo do chuveiro com roupa e tudo. Mas ela não agüentou o peso do próprio corpo, e acabou caindo sentada no box.
— Levante a cabeça, e respire fundo. — ele lhe disse — Já volto.
Sakura obedeceu ao comando, e assim que ele lhe deu as costas, começou a se sentir constrangida ao se lembrar que vestia a camisa do ex-marido. Era a primeira vez que resolveu colocá-la no corpo, desde sua separação, e justo no dia seguinte tinha que ter sido pega daquela forma? Ela praguejou se amaldiçoando.
Enquanto isso, Itachi desceu as escadas às pressas, foi até a cozinha e pegou o saleiro. Voltou para a sala, onde recolheu a sacola, e voltou para o quarto dela. Ao voltar ao banheiro, a encontrou com a cabeça encostada na parede, deixando a água cair diretamente no rosto.
— Não faça isso! Não vai lhe fazer bem. — ele a ergueu, se vendo obrigado a se molhar com ela.
Sakura se sentia tão fraca que não conseguia mais esboçar nenhuma palavra. Ela estava completamente entregue a ele. Para a sua sorte Itachi era um homem de boa índole, e não se aproveitaria de sua fragilidade e indefesa.
E ele viu que ela não estava vestindo nenhuma roupa debaixo, graças a transparência da camisa cor de creme que usava. Tentando manter o profissionalismo, ele a ergueu no colo, fechou o registro e a levou para fora do banheiro. Itachi pegou a toalha que encontrou pendurada atrás da porta, e a enrolou com cuidado, para em seguida colocá-la na cama.
Ainda sem dizer nada, ele levou o sal para ela pôr uma pequena quantia embaixo da língua. Em seguida, lhe deu café.
— Beba isso, vai te fazer se sentir melhor. Trouxe algo para você comer, também.
Ela bebeu tudo em poucos goles. Estava morta de sede, e aquele sal ia secar ainda mais sua boca. Depois, Sakura suspirou e fechou os olhos, grata pelo silêncio dele.
Enquanto aguardava a moça se restabelecer aos poucos, ele tirou as roupas que estavam jogadas pelo caminho, colocando-as empilhadas sobre uma cadeira vaga que encontrou. Em seguida, tratou de tirar aquelas garrafas de bebidas, e desceu até a cozinha para jogá-las fora. O vinho sobre o criado-mudo dela ainda estava pela metade, mas ele fez questão de jogar tudo fora pela pia. E ainda se meteu a vasculhas os armários e geladeira para ver se ela ainda guardava mais alguma bebida.
Ele sabia que estava sendo intrometido, mas achou que no momento em que ela o ligou pedindo ajuda, adquiriu o direito a ser intrometido.
Quando voltou ao quarto, a encontrou comendo um sanduíche natural. O cheiro de comida, como suspeitava, lhe despertou a fome.
— Obrigado... — ela resmungou, tentando se acomodar melhor na cama. Com algum esforço, sentou sobre o travesseiro.
Ele não disse nada, apenas sentou na beirada da cama, ao lado dela, e tratou de tomar o próprio café. Embora comessem em silêncio, ele não tirava os olhos dela, se perguntando o que acontecera. E Sakura notou o olhar do homem sobre si, mas fazia de tudo para não encará-lo. Enquanto mordia o ultimo pedaço do seu pão, ela notou que ele dera uma rápida ajeitada em suas roupas no chão, e que inclusive levara suas garrafas. Isso a incomodou, mas não ousaria a ser ingrata diante de suas ações irresponsáveis.
Quando terminou a refeição, ela se sentia muito melhor. Não se lembrava de quando havia sido sua última refeição, embora suspeitasse de que não comia desde o almoço do dia passado — e ainda naquelas circunstâncias precárias de algumas poucas garfadas rasas.
— Preciso me trocar. — ela resmungou mais para si, como se lembrasse de algo muito trabalhoso de fazer, mas ele a ouviu.
— Acha que consegue?
— Graças a você, ganhei mais consistência nas pernas. Elas pareciam gelatinas. — ela tentou usar algum humor, para lhe mostrar que ele não precisava mais se preocupar, mas sem saber se surtiria algum efeito positivo.
— Ok. Esperarei lá embaixo. — ele se encaminhou lentamente até a porta, mas se deteve ao ouvi-la.
— Você pode ir embora, se quiser.
Incrédulo, Itachi se virou para encará-la. Havia um tom de censura e repreensão tanto em sua voz, quanto em sua postura, que a fez desviar o olhar.
— Você está mesmo me dizendo isso?
— Eu só não queria aborrecê-lo mais do que já devo ter aborrecido.
— Não se preocupe com isso.
Sem mais, ele desceu as escadas, lhe dando toda privacidade. Mas apesar de estar na própria casa, ela se sentia estranha, ao lembrar que ele era a primeira pessoa que botava os pés ali, desde o ocorrido. E aquele conhecimento apenas piorava o que sentia.
Para espantar aquele mal estar, ela chacoalhou os pensamentos para longe, e se focou em suas roupas. Como quem tira um bandeide de uma ferida, ela tirou a camisa do seu ex. E sem olhar para os pés, onde a jogou, foi até seu armário, surpresa por ainda ter alguma coisa limpa. Ela precisava urgentemente lavar suas roupas, limpar a casa, e desinfetar a alma.
Sakura escolheu uma calça jeans branca, e por cima uma blusa com rendas azuis, e cobriu os pés com uma sapatilha no mesmo tom da blusa.
Enquanto ela se olhava no espelho, dando os retoques finais, no andar de baixo Itachi jogava as garrafas que encontrava pela frente. Depois, ele amarrou aquelas quatro sacolas, e as levou para até o local indicado para lixo, naquele andar.
Quando Sakura desceu, Itachi estava sentado no sofá, olhando para a televisão desligada a sua frente. De novo, o constrangimento se fez presente, e não soube o que dizer.
Mas Itachi parecia ter tudo na ponta da língua, e se levantou. Ele reparou no quão melhor ela parecia, e suspirou. Apesar de tudo, ele precisava fazer aquilo. Se pôs bem de frente para a fisioterapeuta, encarando-a nos olhos, com toda sua seriedade.
— Preciso aproveitar esse momento para lhe dizer algumas coisas, doutora. Sinceramente, gosto da senhora. Talvez até mais do que deveria. Sasuke me contou sobre sua determinação em atendê-lo, mas me contou também sobre o banho de água que a senhora deu nele, e sobre os sermões. Fiquei sabendo também que a senhora insistiu para que sua amiga psicóloga o atendesse, e sei que ela é a melhor do hospital. E realmente acho que estão fazendo um ótimo trabalho. Não sabe o quanto sou grato por isso! A melhora dele, com relação ao primeiro dia em que o vi, é gritante! Mas quero também que saiba que não posso deixar meu único irmão nas mãos de alguém que não consegue sequer se manter de pé, num dia de trabalho. Entende o que eu quero dizer?
Ela ergueu a cabeça, tanto por orgulho, como em consentimento.
— Entendo. — sua voz saiu falhada.
— Ótimo. Não leve para o lado pessoal. Como disse, gosto da senhora, e gostaria que as coisas não fossem assim. Mas acho que isso deva ficar ao seu critério.
Itachi era uma mistura de severidade e suavidade que ela não compreendia muito bem. Mas assim que ele virou as costas para ela, sentiu o ar frio do medo lhe invadir.
— Por favor, não tire o seu irmãos das minhas mãos. — murmurou — Tenho certeza de que sou a única capaz de ajudá-lo.
Na verdade, ela não sabia ao certo. Apenas sentia apta para tal, mesmo que ainda não lhe fizesse muito sentindo. A maneira como ele ainda olhava para os lados, sem o brilho nos olhos, ou como ele acordava de seus devaneios, chamava sua atenção. Era como se a tristeza que os dois carregavam fossem, de alguma forma, compatíveis.
Ele parou na soleira da porta, com a mão na maçaneta, pronto para ir embora.
— Então mostre de que é capaz. — e então, desapareceu.
Ela ouviu os passos dele nas escadas, e se apressou.
O encontrou no saguão do prédio.
— Bom, eu vim de carro. Permita-me levá-la até o hospital?
— Ok. — deu de ombros.
Itachi tinha um belo conversível prateado, com bancos de couro branco, câmbio automático, aparelho de som digital com comando de voz... E olhando-o melhor, ela notou que ele tinha um porte elegante, se vestia bem, e muito mais bem apessoado do que lhe pareceu a primeira vista. Era um tanto intimidador, na verdade, e se perguntou se Sasuke também vivia naquele mesmo mundo.
O carro mal emitia algum ruído, enquanto ele corria pelas ruas. Ela deu uma rápida olhada em seu relógio de pulso, para constar que estava trinta minutos atrasada. Mas havia acontecido tanta coisa naquelas primeiras horas da manhã que preferiu fechar bem os olhos e tentar esquecer sua necessidade por pontualidade. Que dane-se seu superior! Seus pacientes não eram casos terminais, e nenhum deles morreria por atraso no atendimento. Naquele momento, ela só conseguia pensar em o quanto estava grata ao Itachi por não lhe fazer mais perguntas.
Ao descerem do carro, no estacionamento do hospital, ela viu o carro do Naruto estacionado, e se lembrou que precisava fazer as pazes com ele. De repente, se viu distraída, com a cabeça naquele dia da festa, quando o loiro a beijou. A estranheza e angustia ainda estavam lá, guardadas em algum canto superficial da sua mente, com aquelas imagens bem vívidas. Até que, Itachi lhe tocou no ombro.
— Sente alguma coisa?
— Não! Estou bem... Obrigada pela carona...
— Não tem problema.
— Obrigada por não fazer perguntas...
— Não tem problema.
— Obrigada por estar lá, quando eu não tinha mais ninguém...
Desta vez, ele não respondeu, contraindo os lábios numa expressão estranha. Ela não sabia se era pena, repreensão, ou compreensão. Mas ficou calado, naquele silêncio estranho.
— Não diga nada ao Sasuke, ok?
— Não precisava nem pedir... — e ele lhe deu as costas.
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