Notas iniciais
Boa leitura.

Pássaros

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Escrito por Amanur e Noel Blue

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Capítulo 10


Os ponteiros do relógio pareciam não sair do lugar, apesar daquele tic-tac cada vez mais ruidoso em seus ouvidos. Mas ela teve que atender as mesmas consultas de sempre, aos mesmos problemas de sempre. Em casa ou no consultório, era tudo sempre a mesma coisa.


Aquele sempre, sempre interminável, sempre inquestionável e sempre implacável, que a tragava cada vez mais para o fundo daquele poço chamado rotina. Isso a embriagava em melancolia e estresse, de modo que não sabia mais o que sentir. Raiva, frustração, remorso, agonia, desespero...


Mas ela sentia aquilo tudo com grande paciência e apatia. Via tudo se passar em seu sistema nervoso passivamente, como quem assiste a um programa de televisão tedioso demais para pensar em qualquer outra coisa.


No inicio da tarde, como praxe, ela arrastou seus pés pelo corredor do quinto andar. Sasuke estava sozinho no quarto, assistindo a um canal qualquer, sem realmente prestar atenção às cenas. A mente dele havia se transportado para algum lugar distante daquele hospital.

Itachi havia deixado-a no estacionamento, e correu de volta para casa tomar um banho e descansar, com a promessa de que voltaria antes de anoitecer. Apesar de ele ter todo o conforto de um quarto privativo, dormir no hospital nunca será a melhor opção para quem trabalha e tem problemas a resolver.


— Hey... — ela disse forçando um sorriso, ao entrar no quarto.


De repente, sentiu uma súbita vontade de sair correndo, com vergonha de si mesma e do que Itachi lhe falou. Ele estava mais do que certo, e ela sabia muito bem disso, apesar de seu orgulho profissional. Mas a quem ela queria enganar? Ela não tinha uma postura profissional, e deveria ser considerada como um tremendo fracasso da medicina.


— Olá. — ele exclamou com um pequeno sorriso de lado, ao se virar para vê-la entrar em seu quarto.


E Sasuke notou que havia algo diferente nela, naquele dia. Algo estava errado, por que ela não encontrou seus olhos em nenhum momento, e percebeu que seu sorriso era mais do que forçado. Era daqueles sorrisos sem alma, sem profundidade. Era completamente raso, livre de qualquer alegria ou contentamento; era um sorriso sem vida, sem força, sem brilho. Além disso, ele também percebeu que ela não puxou uma cadeira para sentar-se perto dele, para que ele pudesse sentir o doce perfume de seus cabelos, como sempre acontecia. Ao invés disso, a moça apenas ficou em pé, de costas para ele, olhando pela janela a chuva que começara há alguns minutos.


Por que, como se não bastasse, a ultima conversa que tivera com seu paciente, na sala de fisioterapia, ainda martelava em sua mente como um eco interminável, para lhe pôr ainda mais pressão sobre suas responsabilidades — não só como profissional, como ser humano.


Sakura suspirou.


— Bem, você deve estar um pouco dolorido pela reabilitação, e cansado. — ela comentou sem saber onde queria chegar com aquela conversa — Falei com um terapeuta ocupacional para agendar uma visita para você. Ele organizará o seu cotidiano, possibilitando melhor qualidade de vida. Provavelmente vocês conversarão sobre próteses ou equipamentos que o auxiliará na recuperação.

—Aconteceu alguma coisa? — ele perguntou, sem se preocupar com o que ela disse a respeito se sua própria recuperação.


E ela, é claro, notou aquilo. Era a primeira vez que falava em prótese e equipamentos, e achou que ele estivesse mais do que ansioso por isso, portanto, não compreendeu aquela reação.


Eles ficaram se encarando por alguns segundos, com algo subjetivo pairando no ar, mas só até ela desviar o olhar para a porta.


— Não, está tudo bem. Vou chamar as enfermeiras para levarem você para a sala de fisioterapia, ok? — Sakura não esperou a resposta dele e quase correu quarto a fora.


Ela falou com as enfermeiras que vagavam pelo corredor, pedindo para o levarem, e diferente do que sempre fazia, não voltou ao quarto para acompanhar. Ela foi direto para a sala de fisioterapia, como um rato que foge do gato, com o pretexto de precisar se preparar tanto mentalmente quando fisicamente para mais uma seção. Ao entrar na sala, tirou as sapatilhas e sentou-se nos tatames. Pegou um prendedor e amarrou o cabelo em um rabo de cavalo, e ficou esperando seu paciente, que não tardou a chegar com um olhar confuso no rosto.


— Obrigada.— disse as enfermeiras, quando o colocaram perto dela, no tatame.


Depois que elas deram as costas, Sakura olhou bem para o seu paciente. Estavam próximos, e apesar de tudo, ela só conseguia enxergar aqueles olhos que pareciam não deixar nada escapar. Depois de um suspiro, quando Sakura começaria a dar seu sermão sobre os exercícios do dia, ele a interrompeu rapidamente.


— Sério, o que está acontecendo? Você está estranha, parece que está em outro lugar, com apenas o corpo presente. — ralhou com ela.


Sakura mudou de expressão, sem saber ao certo o que sentia, além dos olhos umedecerem. Mas ali, diante de seu paciente, ela se forçou a não chorar, porque não podia.


— Olha, isso não tem nada haver com você, ok? Vamos começar? — tentou mudar de assunto, mas ele não cederia tão fácil.

— Não vou colaborar com você, enquanto não falar. Ontem foi um fiasco fenomenal, e não pretendo deixar isso acontecer outra vez.


Ele sabia que ela escondia alguma coisa, e que essa coisa era grande demais para ela engolir. E pelo modo como ela andava, sempre com os olhos no chão, arrastando os pés como se estivesse cansada demais para dar mais um passo, ele via que ela não tinha com quem contar. Afinal, ele não era burro, e aquela era uma conta fácil de se fazer. Fossem lá quais fossem seus motivos, ele acreditava que poderia ser aquela pessoa. Porque, não só por gostar da moça, mas dizia a si mesmo que era pelo bem de sua recuperação. Por algum motivo, ele acreditava naquela médica, que tanto insistia em seu caso. Ele não se esqueceu do que ela lhe disse no primeiro dia em que se viram, e era por isso que dizia a si mesmo que não poderia deixá-la escapar.


“— Eu não pedi sua ajuda.

— Por que você não precisava pedir! — emburrada, ela deu as costas a ele, sem a pretensão de voltar a vê-lo ainda aquela noite. ”


Desde então, embora não quisesse admitir na ocasião, ele sabia que ela era a medica certa para o seu tratamento. E sabia que havia algo implícito naquilo, algo importante e de relevância, e ele estava se remoendo para saber o que era. Por isso, ele a encarou firmemente, cheio de determinação. Não importava, para ele, se estava sendo intrometido, audacioso, impertinete e importuno.


E ela o olhou por um momento, vendo toda aquela determinação naquela escuridão que habitava no olhar daquele homem, antes de soltar um suspiro exausto. Ela puxou as pernas para o peito e as abraçou, descansado seu queixo nos joelhos, olhando longamente para o moreno a sua frente.


Ele parecia realmente interessado nela, e por um momento ela quis lhe contar tudo. Mas Sakura ainda hesitava porque tinha medo de se expor, do que ele pensaria, do que diria. Tinha medo de assustá-lo, de afastá-lo. E não era o que queria.


Mas aqueles olhos tristes pareciam compreendê-la subliminarmente. Eles pareciam se comunicar em silêncio, e era o tipo de elo que ela precisava manter com alguém. Aquela ligação silenciosa precisava ser mantida para manter seu equilíbrio.


E então, ela deixou tudo sair.


— Eu estou em pleno inverno, dentro de mim, desde que tudo aconteceu. É tudo cinzento, sem vida, sem cor, sem calor. E não consigo evitar essa rajada de vendo gelado que me pega todas as manhãs... Ele pode ter morrido, mas tudo que ele fez não se foi com ele, e eu não posso esquecê-lo, porque eu ainda sinto sua presença ao meu lado. E é estranho, por que sinto como se meu passado permanecesse no presente... — ela fez uma pausa, esperando que ele dissesse algo.


Mas Sasuke permanecia imóvel, ouvindo atentamente suas palavras. Então, ela resolveu dar continuidade a sua agonia.


— Ele foi um idiota pelo que fez, e talvez você não entenda porque me sinto assim... — ela hesitou, com medo de seu julgamento.

— Estou ouvindo. — mas Sasuke era mais sensato do que ela pensava, por que ele estava interessando em ouvir a versão dela sobre aquele homem que nunca chegou a conhecer.


Ela suspirou mais uma vez.


— Minha vida só começou realmente quando o conheci, e amá-lo foi como estar livre de tudo que me prendia na tristeza que era minha vida. Ele me mostrou coisas que eu sequer pensava que existiam, entre elas, como ser feliz. Ele era o tipo de cara que chamava a atenção de todos com a sua animação. Ele tinha o espírito de uma criança, como eu dizia... Casar com ele foi me prender novamente, mas foi bom, e eu aceitei porque na minha cabeça era para ser assim. O caminho foi longo e cheio de obstáculos, mas estaríamos juntos até o fim. E eu aprendi a confiar nele, apesar de suas traições. Ele era um cara a quem se podia depender; e um sempre podia contar com o outro. — ela desviou o olhar do de Sasuke, olhando para o lado — E embora ele tivesse sido um tremendo cretino no último ano, saindo com outras mulheres, chegando bêbado em casa e mentindo; sempre que eu caia, sempre que eu precisava, ele estava lá por mim. E isso, eu nunca vou esquecer, porque eu só tinha ele para me apoiar. Ele nunca me deixou na mão. Exceto agora... Ele se foi, e eu fiquei. Eu tento seguir em frente, superar, mas toda vez que fecho os olhos, é o rosto dele que eu vejo preso em minhas pálpebras. Então, eu desmorono de novo. E todos os dias, eu penso em como seria o amanhã se ele estivesse aqui. Ele pode ter se despedido de mim, quando fechou a porta de casa no ultimo dia em que o vi sair para trabalhar, mas eu não. Não estou pronta para isso ainda, não posso deixá-lo ir ainda. — ela fungou — Dói não falar, mas expor isso me destrói.


Ela finalmente olhou para ele, que a olhava sério, sem nunca desviar o olhar. Ela não estava chorando, tinha apenas os olhos lacrimejados. Nenhum dos dois disse nada por algum tempo, até que ela arquejou as sobrancelhas, indicando que esperava alguma resposta.


— Eu sinto muito. — ele sussurrou para ela.


De repente, ela se sentiu decepcionada com aquela resposta. Ela esperava mais dele.


— Mentiroso. Você não sente nada.


Ele ficou encarando-a, com aquele olhar enigmático que ela não soube ler o que dizia.


— É, você tem razão. Eu não sinto. — ele disse — Por que eu não passei pelo que você passou, mas lhe garanto que tenho minha cota de cicatrizes a encarar. Como todo mundo tem. Já pensou nisso? Que cada um que pisa neste hospital, nesta cidade, no mundo inteiro, tem algo pelo que lamentar, se remoer, chorar, gritar? Você não é a única. E deveria parar de agir como se fosse.

— Saber disso não ameniza em nada a minha dor. Achei que você soubesse disso. — e então, insinuantemente, ela olhou para os braços dele. Ou o que restara do seu corpo.


Ele estreitou os olhos, com um sorriso sarcástico.


— Eu gosto desse jeito frio com que você parece gostar de lidar com as coisas. Não é hipócrita. É bem realista. A vida é essa coisa feia, cheia de podridão encoberta por sorrisos falsos, produtos que maquiam a realidade, trazendo a satisfação temporária. Você sorri por aquilo, mas depois enjoa, o sorriso desaparece, e arruma outra coisa para preencher aquele buraco. E então, tudo começa outra vez. Mas aquela coisa feia, o que machuca e trás sentimentos negativos continua, é a única coisa que realmente permanece.


Ela respirou fundo e passou a mão pela nuca, como uma massagem.


— Você deve passar horas conversando com a Tenten, não é mesmo? — ela questiona, cheia de cinismo.

— Na verdade não. Ela pergunta se estou bem, e lhe dou a resposta que ela quer ouvir, e ficamos por isso mesmo. Acho que talvez eu devesse mesmo estudar psicologia. Acho que eu seria muito melhor. Por que se ela que é a profissional não lhe convenceu a abrir a boca, eu devo ser incrível mesmo! — ele sorriu, cheio de si, mas sem a intenção de ser o melhor. — Ou será que é apenas o meu charme?


Finalmente, conseguiu arrancar da fisioterapeuta um sorriso sincero.


— Muito bem, aspirante a psicólogo, piloto e... Charmoso. Vamos começar nossa seção? — ela indagou, meio sem jeito.

— Eu sabia! Minha mãe sempre me disse que faria muito sucesso!


Ela revirou os olhos, mas grata por ele não lhe fazer mais perguntas que não gostaria de responder. E, assim, deram inicio a longos setenta minutos de fisioterapia entre piadinhas, suor e esforço.

Notas finais
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