Notas iniciais
Um super cap, esperamos que gostem.
Boa leitura!

Pássaros

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Escrito por Amanur e Noel Blue

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Capítulo 8

E, então, olhando para o seu pequeno calendário sobre o criado mudo, ela percebe que cinquenta e sete dias se passaram desde ficara sozinha. E o que é pior: suas paredes não perderam aquele tom melancólico que inundava seu humor. Aquela trégua, de alguns dias atrás, havia sido apenas momentânea; foi um bom dia que amanheceu colorido, depois de um breve desabafo, mas que logo escapou de seus dedos num piscar de olhos. Por que aquele silêncio entorpecente parecia impregnado em seu cerne, e ela já estava começando a se preocupar com isso.

Com os olhos marejados, por mais um sonho com seu marido, sentiu o peito apertar ao olhar para o lado vazio da cama. Sakura gemeu baixinho e cobriu os olhos com o braço, desejando que todo aquele sofrimento acabasse. Respirou fundo algumas vezes antes de decidir sentar-se com sua cabeça dolorida. Havia uma garrafa de vinho tinto barato ao lado do seu despertador, lhe chamando atenção, e esticou o braço para desligar o relógio antes que começasse com aquele bip irritante. Com os dedos, limpou as lágrimas que ainda caiam de seu rosto e levantou-se da cama. Caminhou para o banheiro e tirou a camisola com seus dedos trêmulos. Soltou o cabelo que estava em uma trança folgada e mal feita pela cama, percebendo que os olhos vermelhos e lacrimejantes chamavam a vontade de chorar. Ela sabia, no entanto, que precisava de alguma forma fazer com que isso parasse — aquela maldita rotina já estava lhe sufocando pela garganta como uma mão invisível a lhe estrangular.

A água gelada fez contato com sua pele, a fazendo arfar levemente. Lavou o cabelo como quem lavasse a alma; esfregou bem o couro cabeludo como se esfregasse seus problemas, e quando a água voltou a cair sobre sua cabeça desejou que ela levasse junto toda sua dor, todo o amargor e o amor que ela ainda sentia pelo homem que, inconscientemente, estava a matando aos poucos.

Quando passou o condicionador no cabelo, puxando os fios com mais força que o necessário como se para punir a si mesma, se perguntou até quando tudo aquilo duraria. Era tão ridículo estar naquele estado por tanto tempo, mas ela não sabia mais o que fazer para se livrar daquilo tudo que parecia fazer parte do seu sangue. Era como se ficar triste fosse a única coisa que soubesse fazer. E, contudo, ela sabia que a água e o sabão não levariam sua tristeza embora. Aquela maldita melancolia não a deixava em paz, e se sentia tão mal consigo mesma que chegava a lhe ser cansativo.

Suspirou. O pior ainda estava por vir, e ela sentia isso nos pêlos que se eriçavam. Ela fazia de tudo para não chegar àquele estágio da depressão, mas se afogar no trabalho não estava mais resultando em nada. Ela não queria, e lutava muito contra aquilo, mas as pernas fraquejaram e ela caiu sentada no box do seu banheiro. Encolheu as pernas, cobriu o rosto com as mãos, e finalmente se rendeu àquela vontade súbita de se jogar para morte.

Ela queria que algo acontecesse e a levasse embora, para onde quer que seu marido estivesse. Ela queria desaparecer do mundo, virar aquela mesma ausência, aquele mesmo espaço vazio que seu marido ocupava. Ela queria furar o próprio peito com as mãos, e arrancar aquele órgão pulsante, mas falso — que fingia torná-la um ser vivo. Por que ela estava, na verdade, morta. Ela não conseguiria passar por mais um dia sem ver aquele rosto, sem ouvir aquela voz, sem tocar aquela pele. Ele estava desaparecido para nunca mais ser visto.

As lágrimas se misturaram com a água e o creme do cabelo, e finalmente terminou seu banho. Era estranho como a pouco tempo ela achava que estaria finalmente começando a entrar em processo de cicatrização, mas de repente tudo caiu de volta sobre sua cabeça. Talvez tivesse sido apenas uma falsa ilusão dos seus desejos lhe pregando uma peça.

Praguejando, ela pegou a toalha e enxugou-se lentamente, sentindo o corpo inteiro pesar toneladas. Depois pegou outra e a enrolou lentamente no cabelo; esse foi um dos poucos dias em que ela resolveu não se importar com o horário, porque se sentia arrasada, inutilizada e com saudade. Ela se julgava no direito de fazer o que quisesse, por que não se importava com mais nada.

Escovou os dentes encarando apenas a pia, evitando olhar o que ela já sabia que encontraria no espelho — uma figura diferente do seu rosto. Ao termino, voltou para o quarto, abriu o guarda roupa e ficou por um tempo olhando as roupas masculinas que permaneciam ali por sua falta de coragem, até que fechou aquela porta com força total, e resolveu pegar algo das gavetas.

Ela já estava se preparando para ir embora, quando viu sem querer seu reflexo no vidro da sua janela, e se deu conta de que aquela figura não poderia aparecer daquela forma no hospital. Então, arrastando os pés, voltou para passar a maquiagem básica de sempre, caprichando um pouco mais nas olheiras; estava tão pálida que resolveu passar um batom rosado, para dar um pouco de cor, tanto na pele quanto no espírito — coisa que, de qualquer forma, ela não via sentido em fazer. Mas estava tão cansada de ouvir as reclamações da Tenten, que achou melhor se esforçar mais para fingir que estava bem.

Quando todo aquele sacrifício terminou, deixou seu olhar cair sob a aliança, e pela primeira vez desde que a tirou e a pôs ali, tocou seus dedos suavemente sobre ela. Sakura ainda ousou um pouco mais, e a pegou para vê-la mais de perto, mas aquele pequeno objeto pesava em sua mão. Obviamente, sentiu a vontade de chorar voltar com tudo, e mesmo assim a colocou no anelar esquerdo. Mas agora, depois daquele tempo todo sem usá-la, parecia tão estranha. Era quase uma inimiga com quem ela duelava. Mas antes que pudesse se desmanchar em lágrimas, Sakura a tirou e deu as costas, pegando a bolsa e as chaves para sair dali o mais rápido possível.

O trânsito parecia estar mais lento que o normal, e Sakura disse para si que não podia chegar atrasada novamente porque se lembrou que seu superior ainda estava lhe incomodando como uma pedrinha no sapato. Então pegou outro caminho, e em menos de 15 minutos ela já estava no hospital. Estacionou o carro e viu Naruto saindo de seu próprio automóvel. Ele a viu, e quando ela acenou para ele, o rapaz virou as costas. Ela ainda não tinha conseguido falar com ele porque fazia de tudo para evitá-la, e sequer aparecia para almoçar com elas. Então, resolveu pôr um fim naquilo, e correu pelo estacionamento para alcançá-lo.

Os dois passaram pelo saguão em passos apressados. Ele passou seu cartão de pontos na frente dela, e foi correndo até o elevador. Mas a fisioterapeuta conseguiu chegar a tempo de pegar o elevador com o cardiologista.

— Até quando pretende fazer birra? — ela indagou, atrás dele.

— Não quero falar com você.

— Tudo bem, não precisa falar comigo. Mas escute o que eu tenho a dizer.

Então, ele se virou para encará-la.

— Mas eu não quero mais ouvir a sua voz! Não quero sentir o seu perfume, não quero ver seu rosto, não quero sentir a sua presença...

Aquilo foi um tapa na cara. Por essa ela não esperava. Desde quando se tornara repugnante a ele? Ficou chocada, olhando nos olhos azuis dele, sem saber o que dizer. Nem quando o elevador abriu as portas e ele saiu, a deixando-a sozinha lá dentro, conseguiu processar o que acabara de ouvir daqueles lábios que só lhe ofereciam conforto há alguns dias atrás.

Ela arrastou seus pés até sua sala, largou a bolsa e o jaleco de qualquer jeito por cima da mesa, e sentou-se em sua cadeira apoiando os cotovelos sobre a mesa cobrindo o rosto com as mãos. Ela sabia que a culpa era inteiramente sua por ter sido tratada daquela forma pelo colega. Respirou fundo e ficou assim por alguns minutos, tentando limpar da sua mente qualquer pensamento. Como não conseguiu, resolveu vestir o jaleco, e saiu daquele cubículo para caminhar pelos corredores, sem saber bem para onde ela deveria ir naquela manhã. Ela havia chegado, por milagre, quinze minutos antes da primeira consulta, e resolveu tomar um ar. Mas quando se deu conta, havia parado no quarto 523.

Ela ficou olhando para aquela porta, sem ter certeza de que deveria entrar. Não fazia sentido estar ali, se mais tarde voltaria a vê-lo.

Quando fez menção a tocar a maçaneta, a porta se abre de repente. Itachi ia saindo de mansinho do quarto ainda escuro, porque o paciente ainda dormia. Ele olhou surpreso para a médica ali parada, e então sorriu.

— Eu pretendia buscar um café para tomar, enquanto ele ronca. — lhe diz.

— Ah, ele está dormindo ainda... — ela resmunga, meio decepcionada.

— Ainda é cedo. — ele diz, olhando seu relógio de pulso —... São seis e meia da manhã.

— Mentira! — ela exclama surpresa, olhando para o próprio relógio. E então percebe que ele havia parado de funcionar por falta de bateria, e resmungou qualquer coisa para si.

Itachi riu, percebendo o constrangimento dela. Ele achava a fisioterapeuta muito bonita, apesar de não conseguir ler através dela. Tinha vontade de dar em cima da médica, mas havia algo nela, que não sabia explicar, que o afastava. No entanto, ele resolveu jogar contra a sorte e se arriscar.

— Imagino que já tenhas tomado seu café da manhã, mas... Posso convidá-la para me acompanhar? Se não tiver que atender alguém, isto é...

— Claro... Quero dizer, não tenho... Não a essa hora. — e Sakura, sempre em seu mundinho fechado, não percebeu as intenções do irmão do seu paciente, pensando apenas em como seria bom matar o tempo vago daquela manhã estranha.

Ela ainda estava com dificuldades para acreditar que acordara tão cedo, mas lembrando-se do sonho, achou que, talvez, não fosse tão estranho assim. E para completar as esquisitices, aquele encontro constrangedor com Naruto.

Enfim, os dois caminharam lado a lado pelo corredor até o elevador. Desceram no terceiro andar, e foram até a cafeteria do hospital. Havia um número considerável de pessoas circulando lá dentro. Médicos, enfermeiras, e parentes de pacientes internados. Itachi foi direto ao balcão de pedidos para pegar um sanduíche imprensado com café com leite, enquanto Sakura pediu mais um café preto forte, com um pão de queijo. Sentaram-se aos fundos, como ela sempre fazia. Começaram a comer em silêncio, os dois sem saber como começar aquela conversa estranha. Algumas pessoas olhavam para ela, por causa do seu jaleco, mas certamente achavam que o Itachi apenas esquecera-se de pôr o seu.

De repente, os dois decidem falar ao mesmo tempo.

— Então, como foi... — ele disse.

— E o Sasuke, como... — ela disse.

Eles se olharam por uns segundos, decidindo silenciosamente quem começaria, até que ele lhe deu a vez.

— Desculpe... Eu só ia perguntar como o Sasuke tem passado. Tenho falado pouco com a psicóloga dele, mas sei que ainda toma alguns medicamentos fortes.

— Essa noite acordei com ele chorando enquanto dormia. Mas percebo que ele tem se esforçado em não pensar sobre acidente durante o dia. Ele fala pouco comigo sobre isso... Sobre qualquer coisa, na verdade. Ele nunca foi muito aberto a esses tipos de conversas com a família.

— Bom... Acho que nem adianta eu perguntar mais alguma coisa sobre isso, então.

— Pois é. — ele dá de ombros — Eu poderia tentar arrancar algo dele, mas não sei se é um boa idéia.

— Não... Deixe-o quieto. — resmungou, bebendo seu café, sem tocar em seu pão de queijo. Ela sabia bem como era sentir aquela dor, quando alguém tentava meter o dedo naquela ferida — apesar de seus ferimentos serem diferentes, ela sentia como se uma atraísse a outra. Era quase como se uma pudesse se comunicar com a outra.

E Itachi ficou observando a moça à sua frente, percebendo que havia algo de errado no olhar dela. Não era a primeira vez que via aquele brilho estranho, mas achou melhor não tocar no assunto, se reservando apenas àquelas pequenas observações.

— Não está com fome? — apenas perguntou.

— Desculpe. — ela diz, acordando dos próprios pensamentos — Às vezes fico tão concentrada no trabalho, que me esqueço de comer. — ela forçou um sorriso torto, sem graça, e deu uma mordida naquela coisa fedorenta e enjoativa, se perguntando por que o havia escolhido.

Itachi queria continuar a induzi-la a falar, ele adorava o som daquela voz, mas achou que a pergunta que iria fazer, inicialmente, perdera o sentido. Como uma moça tão bonita foi parar num lugar tão feio como aquele? Afinal, hospitais cheiram mal, estão cheios de pessoas doentes e apressadas, que falam o tempo inteiro em coisas ruins, e são deprimentes. Ajudar pessoas era uma causa nobre, mas ele achava que não combinava com ela (e talvez isso fosse à má disposição em que ela se encontrava durante aqueles últimos meses).Além disso, ela não parecia estar muito disposta a conversas. Então, preferiu deixar para que ela começasse algum dialogo, se é que começaria um, e terminarem o café à disposição dela.

E como esperado, ela não disse mais nada. Os dois saíram da cafeteria sem dizer mais uma única palavra. Ela desceu no quarto andar, dando-lhe um “até mais” tímido, e em seguida ele subiu para o quinto.

Sua manhã foi tortuosa e mais lenta, e ela culpou seu relógio biológico por tê-la acordado mais cedo do que deveria. Ela atendeu os pacientes com os problemas de sempre, ouvindo os mesmo resmungos e reclamações de sempre. O que mudou, foi que não desceu para almoçar com as amigas. Depois daquele encontro cabuloso com Naruto, ela preferiu se afastar, para não precisar falar sobre o assunto. Então, ficou trancada em sua sala, ouvindo o tic-tac do relógio atrás de si.

Uma dor de cabeça começava a se formar e ela pegou sua bolsa para procurar um analgésico que sempre levava consigo desde que começara a beber daquela forma. O tirou da cartela e o pôs na boca, o engolindo. Cruzou os braços sobre a mesa, e descansou a cabeça ali, pensando em como as coisas estavam caminhando devagar para lugar nenhum. Ela estava na mesma, e já estava ficando insuportável.

Ficou assim por um tempo, até que se levantou e caminhou para a porta. Começou a andar em direção ao elevador, que a levaria ao quarto 523.

Quando o elevador se abriu, para a levar ao andar desejado, viu uma mulher se desmanchava em prantos e soluços que pareciam incuráveis, sendo amparada por outra mais jovem, que tinha idade para ser sua filha. Sakura logo se sentiu mal no momento que colocou o pé ali dentro daquela caixa metálica, carregada com aquela energia negativa sufocante.

— Ele nos deixou, ele foi embora! — a mulher estava a beira do histerismo — O que faremos agora? O que eu faço agora? —ainda indagou a mais jovem, que também chorava, mas em silêncio, naquele tipo de tristeza que mais sufocava.

— Seguir em frente, mãe... Era isso o que papai iria querer.

Sakura desviou o olhar, encarando os números subir, e mordeu a ponta da língua até sentir o liquido de gosto metálico invadir seu paladar. E isso só para não deixar aquela vontade de chorar vencer, porque não se permitiria chorar daquela forma na frente dos outros. Era seu orgulho, que sempre carregou consigo. Preferiria morrer engasgada com a própria tristeza.

Quando o elevador se abriu, ela saiu quase que correndo daquele espaço, segurando firme para não deixar cair uma única lágrima.

— Dia dos infernos! — resmungou para si. Respirou fundo e bateu na porta 523, ouvindo um “pode entrar” de Sasuke.

Eles trocaram olhares quando ela entrou; ele lhe mostrando um pequeno sorriso, que ela devolveu muito à força. Em seguida, ele percebeu que o olhar dela buscava algo pelo quarto, e logo se deu conta do que seria.

— Meu irmão precisou dar uma saída para resolver alguns problemas, mas volta antes da noite cair... — comentou.

— Bom, Sasuke, espero que esteja pronto para o seu primeiro dia de reabilitação. — já havia passado mais de um mês desde que dera baixa no hospital, e os pontos em suas costas já estavam quase todos bons.

— Mais do que pronto, doutora! Até bateria continência se tivesse minha mão funcionando. — ela notou a piadinha sem graça, da qual ele ainda se forçou a rir como se tivesse alguma graça, mas não disse nada.

— Tenho que avisá-lo que é cansativo. Muito cansativo, na verdade. É um processo lento, e as vezes, doloroso emocionalmente. Durante esse processo, você terá o acompanhamentos de uma equipe interdisciplinar, formado por, além de mim, um educador físico, seu médico ortopedista, enfermeiro, terapeuta ocupacional, psicólogo, assistente social, nutricionista, dentre outros. Todos eles serão de extrema importância em sua vida e em sua recuperação.

Vale lembrar também, Sasuke, que sua família e amigos mais próximos também terão atenção por parte da equipe de saúde, pois a lesão medular é uma situação que acarreta mudanças drásticas na vida do paciente e, consequentemente, na vida das pessoas ligadas a você.

— Meus amigos próximos não farão parte desse processo.

— O que quer dizer com isso?

— Que eu não os quero por perto.

Ela o encarou severamente, reprovando aquela atitude, mas Sasuke sustentava o olhar dela com seriedade. Ele queria passar por aquilo sozinho, e tinha seus motivos particulares para acreditar que estava fazendo a escolha certa.

Ela suspirou.

— Sasuke, entenda que o medo, a angústia, o desespero, depressão, necessidade de mudança em seus planos e em seus sonhos são sentimentos que pacientes e seus familiares experimentam, a partir do momento em que recebem a notícia da lesão medular.

— Acredite, doutora, eu sei disso.

— Tem mais uma coisa que preciso lhe informar antes de darmos início. Talvez o seu médico já tenha lhe informado, mas sabe-se que as sequelas podem ser diferentes de paciente para paciente, tudo depende da forma como a medula de cada pessoa é lesada. A recuperação dos pacientes também é completamente distinta em cada caso. A Fisioterapia é parte essencial e totalmente indispensável no tratamento deste tipo de lesão. O fisioterapeuta avalia e reavalia o paciente constantemente e, conforme as suas necessidades, traçamos um programa de tratamento específico. Por meio da Fisioterapia realiza-se a prevenção de úlceras de pressão ou de escaras, feridas que podem acometer pessoas com alteração de sensibilidade e de movimentação, e também se preveni complicações, como os encurtamentos musculares e a rigidez articular.

— Sim, senhora.

— Por meio de técnicas específicas, também é possível estimular o potencial remanescente do seu sistema nervoso, no sentido de recuperar os seus movimentos, controlar o seu equilíbrio corporal, além de tentar fazer com que o paciente possa voltar a andar. Mas veja, Sasuke, isso é uma possibilidade, não uma garantia.

Ele continuou encarando ela, com aquela seriedade mortal, trincando os dentes. Agora ele se sentia ansioso, mas não deixava aparentar.

— Eu vou apostar minhas fixas em você. — apenas disse.

Ela suspirou novamente, sem saber se sentia-se aliviada com isso, ou ainda mais nervosa. Ela, de fato, queria acreditar que seria capaz de fazer algo por ele, já que não pôde pelo marido.

— Enfim... Os exercícios irão estimular a sua autonomia. Eles servem para ajudá-lo a retomar as suas atividades diárias, como se vestir, se alimentar e se higienizar. Quando não for possível que você faça determinada atividade de forma completamente independente, eu tentarei adaptar essa atividade para que você faça com a menor ajuda possível. Então, eu peço paciência da sua parte; tudo ao seu tempo, ok? — ela disse, vendo-o assentir.

— Serei seu melhor paciente.

Com a ajuda de uma enfermeira, ela o colocou na cadeira de rodas. Depois, as rodas giraram até a sala onde aconteceria a fisioterapia, naquele mesmo andar, ao final do corredor. A sala era um espaço enorme, com paredes pintadas de azul e branco. Havia algumas camas ao fundo, e Sasuke percebeu que estava cheia de aparelhos de ginástica comuns. Parecia uma academia qualquer, com tatames no chão e algumas bolas suíças para fisioterapia. Havia também esteiras, balanças, bicicletas ergométricas, rolos de espuma, halteres, andadores, camas elásticas e barras paralelas para deficientes. Além disso, havia um armário onde guardavam outros instrumentos médicos, e kits para primeiros socorros.

Quando entraram, um dos fisioterapeutas que ocupava a sala se preparava para deixá-la com seu paciente, e cumprimentou a Sakura num gesto sutil, que passou despercebido pela moça; e o homem pensou que ela estava apenas sendo arrogante. Sasuke notou o descuido dela, mas não disse nada.

Com algum esforço, ela conseguiu o colocar sobre uma das camas, cuidadosamente para não forçar a recente cicatriz dele. Em seguida, ela precisou se apoiar na lateral da cama, para recuperar o fôlego; mas não porque ele pesasse demais. Ela se sentia fraca, e qualquer esforço trazia de volta a tontura.

E pela primeira vez, ele percebeu que estava começando a gostar desses momentos de aproximação, em que podia sentir o perfume dela, ou seus cabelos roçar em seu rosto. Mas Sasuke manteve esse pequeno segredo para si, pelo menos por enquanto.

Como Sasuke não usava mais os curativos, ela deu uma rápida olhada para averiguar como estava o andamento daquela cicatrização, para disfarçar o mal estar. Alguns pontos já haviam caído, outros dissolvidos pela pele, mas alguns ainda restavam intactos. A pele no local estava ainda sensível, e era preciso cuidado para não abrir a cicatriz recém formada. Ele não poderia fazer muitos esforços ainda, e anotou na prancheta o que faria com ele no primeiro dia de fisioterapia.

Enquanto ela escrevia no papel, ele notou que ela não havia prendido bem aquele rabo de cavalo, e uma mecha de cabelo escorria pelo pescoço magro e pálido. Além disso, nas costas dela havia muitos fios soltos presos na roupa, indicando queda de cabelo. Seus olhos escorreram mais para baixo, e ele viu também que a mão da fisioterapeuta tremia, e ela respirava relativamente alto.

— Tens sentido alguma tontura, ultimamente? — ele indagou de repente, a assustando.

— Por que pergunta?

— Já fiz curso de sobrevivência na selva, durante seis meses, para caso fôssemos mandados para alguma missão de risco. Vi colegas sofrerem com anemia, sabe?

Ela não o respondeu, desviando o olhar. Em seguida, pegou um material de borracha específico para flexões, que tirou de um dos armários. Ela o colocou em volta de si, para fazer uma demonstração de como ele deveria proceder. As borrachas tinham amarras no peito, e outras que iam aos braços. Lentamente, ela abria e fechava, levando os ombros com os movimentos dos membros.

— Nós vamos tentar isso... Entendeu?

— Perfeitamente. — respondeu, com um suspiro.

Depois de tirar a borracha, ela se aproximou dele para ajudá-lo a tirar a camisa que vestia. Felizmente, para ele, já não precisava mais usar aquelas camisolas horríveis do hospital, voltando a usar suas próprias roupas, trazidas pelo irmão. Na cintura, ele vestia uma bermuda que ia até os joelhos. Ela tentou não olhar para o peito dele, que ainda conservava seus dias de exercícios físicos que era obrigado a fazer no início da carreira na aeronáutica. O corpo dele lembrava seu marido, embora ela calculasse que Sasuke fosse um pouco mais alto, pela estrutura física.

E ele notou como ela desviava o olhar dele, não mantendo-se muito focada em si. Ela colocou meio as pressas as borrachas em volta do peito dele, e prendeu o resto em torno dos seus bíceps.

Com ajuda dela, ele começou a abrir e fechar os braços como ela instruiu, olhando nos olhos dela. Mas Sakura não olhava o peito dele; ela ou olhava nos olhos dele ou encarava a prancheta que deixou de lado na maca.

— O que vai anotar? — ele perguntou, enquanto ela o forçava os exercícios nele.

— Seu ângulo de abertura.

— Como é que você está anotando meu ângulo de abertura, se não está me olhando? — ela parou de fingir que pensava em algo para encará-lo.

— Eu estou te olhando!

— Eu não estou exercitando os meus olhos...

— Sasuke, eu estou te vendo!

— Não como deveria! Como diabos vou melhorar se você não faz seu trabalho direito! — ele não saberia dizer por que se deixou explodir daquela forma, mas de repente, a indignação lhe veio com tudo. — Você sequer está em condições de tratar alguém! Era você quem deveria se tratar aqui! Mal consegue separar sua vida profissional da pessoal. Que profissional mais patética você tem se saído!

Num impulso, ela deu um tapa na cara dele. Sasuke engoliu a seco, sabendo que não deveria ter dito aquilo. Não com aquelas palavras.

— Desculpe, eu não...

— Fique quieto! Eu disse que isso não seria fácil, e seria um processo demorado. Então faça o que eu digo, e espere pelos resultados no momento certo.

Notas finais
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