Pássaros
7 Capítulo 7
Notas iniciais
Pássaros
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Escrito por Amanur e Noel Blue
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Capítulo 7
Mais uma vez, ela abriu os olhos antes do seu despertador tocar. Pelo menos, pôde evitar que aquele maldito bip ecoasse em sua mente. Mas as pálpebras ainda pesavam como se reclamassem de seu esforço em acordar para mais um dia de sofrimento. Ela rolou algumas vezes pelo colchão, protelando seus compromissos. Se ao menos as pessoas esquecessem sua existência, tudo seria mais fácil...
E então, eis que se deu conta de um fato incomum (pelo menos, desde que caiu naquele poço de amarguras): a costumeira dor de cabeça não estava mais lá. E o teto do seu quarto não parecia um imenso mar de águas brancas, ou um espaço vazio e apático; era apenas o teto do seu quarto. O silêncio ainda a incomodava, a ausência de um corpo a mais naquele apartamento era ainda algo a ser superado, mas havia algo diferente em sua cama que não parecia mais tão fria. Sentou-se sobre seus lençóis e olhou ao redor, coçando a nuca como se tentasse entender algo complicado. Sua cabeça estava mais leve, o que lhe era um enorme alívio, apesar do corpo cansado. Finalmente, o quarto não fedia mais a álcool, não estava sujo nem bagunçado porque havia feito a tão necessitada faxina em seu apartamento no domingo a tarde, depois que saiu do hospital.
Mas, de alguma forma, aquela mudança pareceu errada. Era como se sentisse falta daquela melancolia cinzenta que dominava seu corpo todo.
Ainda sem entender ao certo o que estava acontecendo, ela olhou para o mesmo porta-retrato que havia virado, deixando-o de frente para a parede. Ela ainda não se sentia preparada para encarar aquele rosto tão familiar e ao mesmo tempo tão estranho.
Sakura suspirou pesadamente, e saiu da cama arrastando o lençol consigo pelo chão, como se ele não a deixasse sair da cama.
Ela foi direto ao banheiro para tomar seu banho. Quando ligou o chuveiro, ficou olhando para a água cair, se perguntando mentalmente o que havia mudado. Fez o coque antes de entrar de baixo da água e então tomou seu banho, na mesma água gelada que ela não tinha coragem de colocar na morna. Estranhamente, Sakura não sentiu vontade de chorar naquela manhã, e achou que fosse pela falta de bebida. Elas sempre a influenciavam negativamente, embora fosse compelida a bebê-las.
Terminado o banho, foi escovar os dentes. Olhou-se no espelho e viu que seu reflexo parecia um pouco melhor; suas olheiras estavam menores, apesar do rosto ainda pálido, sem cor. Ao finalizar sua higiene, foi ao quarto vestir-se. Ela resmungava algo sobre como essas pequenas tarefas sempre lhe pesavam sobre os ombros como um enorme fardo a carregar. Sempre a mesma coisa de sempre... Ela ficou um bom tempo parada, encarando suas roupas como se enfrentasse um inimigo feroz, até que se decidiu o que vestir. Estranhamente, como toda aquela manhã parecia ser, sentiu vontade de prender o cabelo em uma elaborada trança lateral. E para completar aquele show de bizarrices, ela voltou ao banheiro para pôr a mesma maquiagem básica, acrescentando um gloss transparente nos lábios.
Era para ser apenas aquilo, mas algo ainda a fez olhar para aqueles seus acessórios e querer usá-los. Então, colocou os delicados brincos de botão perolado e, antes de sair, deu uma olhada rápida na aliança, como se para garantir que ela ainda estivesse lá.
O trânsito continuava a mesma droga, e dessa vez não teve tempo de passar na cafeteria. Assim sendo, Sakura foi direto ao hospital, e embora não sentisse fome, a primeira coisa que fez ao chegar, depois de bater o ponto, foi caminhar em direção a cantina para se envenenar com cafeína. Olhou ao redor para ver se havia alguém conhecido por perto e voltou para os corredores procurando pelo Naruto. Perguntou para a recepcionista, depois de procurá-lo nas áreas de emergência, e ela lhe informou que, à principio, ele deveria estar ali em alguma sala. Sakura concordou, mas ficou com a pulga atrás da orelha, com a estranha sensação de que estava sendo evitada pelo colega.
Então voltou a seu escritório, com mais uma culpa para a coleção. Desabou em sua poltrona como se jogasse seu corpo num precipício. Era tanta coisa acontecendo a sua volta, que não entendia como poderia ser capaz de não chorar aquela manhã. Ela se culpava de tanta coisa! Por seu casamento desmoronar aos poucos, por seu marido a trair, por ele morrer, por não cuidar da casa, por não pagar as contas como deveria, por abandonar seus amigos e magoá-los, e ela ainda teve a ousadia de dar as costas para sua família quando eles queriam lhe confortar. Ela se sentia uma incompetente.
Ela bateu a testa contra o tampo da mesa, pensando que deveria ter se esforçado mais. Ela deveria ser uma pessoa melhor, como foi educada e instruída para tal, mas tudo o que ela tinha vontade de fazer era se desintegrar e deixar que suas cinzas voassem para o espaço se espalhando por todas as partes, como a neblina que fazia naquela manhã. E com isso em mente, aquela vontade de chorar, tão sufocante quanto libertadora, finalmente voltou. Mas antes de poder desabafar aquela angustia que lhe apertava no peito, ouviu uma forte batida na porta. Respirou fundo, dando tapas no rosto para acordar daquele pesadelo e voltar à sua dura realidade, e então mandou entrar.
Era um de seus superiores, o mais chato de todos, com aquela sua expressão nada amigável. Havia pouco tempo que ele começara a trabalhar no hospital, substituindo um colega que desviava verbas para a própria conta bancária, e Sakura não descartava a possibilidade de que esse também faria a mesma coisa. Sem cerimônias, ela o viu fechar a porta atrás de si, e sentar-se a sua frente com toda sua arrogância estampada na ponta do nariz empinado.
— Vamos direto ao ponto, sim? Eu estou tentando evitar que você entre em julgamento por sua falta de ética, dona Haruno. Mas devo dizer, que você não está colaborando com a causa.
— Sejamos sinceros, ok? O senhor está mais preocupado com a sua reputação de bom administrador, do que com a minha ética ou a qualidade do hospital...
Ele estreitou os olhos, não apreciando aquela falta de delicadeza daquela funcionária atrevida, mas Sakura não se importou. Ele dilatou as narinas, trincando a mandíbula, fazendo de tudo para manter a calma.
— Vou ignorar seu comentário por que ele é inteiramente desnecessário.
— Então vamos direto ao ponto, sim? — ela provocou.
Ele ficou encarando-a por uns breve segundos, batendo as pontas dos dedos sobre a mesa, ao som do relógio de parede que ela tinha atrás de si. Ele viu que ela estava querendo jogar sujo com ele, e resolveu fazer o mesmo, pegando mais pesado com ela.
— Bom, primeiro aquele incidente ridículo e sem cabimento em que você insulta o paciente e ainda joga água na cara dele! Depois entra no hospital podre de bêbada, fedendo mais que um pé-rapado, incomodando as pessoas que esperavam na recepção, e passa pela autoridade do segurança sem que ele certifique sua identidade, como se você fosse a rainha da Inglaterra. E então, para fechar seu espetáculo patético, você dorme com seu paciente. Parabéns! Se é atenção que você quer, você conseguiu!
— Primeiramente... — ela ia dizendo, com a veia saltada na testa, mas o homem a interrompeu.
— Eu ainda não terminei! Olhei sua ficha, dona Haruno, e pude constar que essa não foi a primeira vez que a senhora causou problemas para o hospital. A senhora tem um longo registro de atrasos, e negligências, que são totalmente intoleráveis...
— Isso foi quando eu estava na faculdade, e precisava de mais tempo para terminar minha monografia! Os superiores estavam cientes disso!
— Isso não importa, por que não é uma atitude admissível num profissional da saúde. Você está trabalhando num hospital de verdade, que lida com pessoas doentes de verdade! O que importa é que pacientes com dores não foram atendidos por sua causa.
Ela praguejou internamente, desejando que ele entrasse em combustão e desaparecesse de sua frente. Engoliu a seco, se controlando para não pular no pescoço dele. Ela sabia que ele tinha razão, mas apenas em partes, porque não era como se o hospital não tivesse mais profissionais de sua área, e nem como se ela nunca tivesse dado aviso prévio sobre suas condições. Mas ela viu que não adiantaria argumentar sobre isso com aquele cabeça-dura, que desde o início, desde que pôs os pés em sua sala tivera a intenção de confrontrá-la.
— Antes de continuar com as acusações, permita-me corrigir um erro seu. — ela continuou — Eu não dormi com paciente algum! Apenas passei a noite no quarto dele, o que é totalmente diferente de dormir com alguém... E foi somente devido às condições em que ele está. Ele não podia ficar sozinho à noite, e não havia nenhum parente com ele.
— Isso não é problema seu.
— É problema meu, porque o paciente é meu, e quanto mais ele demorar para se recuperar, pior será para o meu desempenho.
— Então, agora você está preocupada com o seu desempenho? — ele indaga, sarcasticamente.
Sakura estava farta dele, e resolveu mandá-lo pastar. Mas, antes, ela disfarçou ajeitando os papéis sobre sua mesa.
— Bom, sinto muito interromper essa agradabilíssima conversa, mas o senhor poderia se retirar? Se não percebeu, tenho consultas a fazer e os pacientes com dores estão me esperando. Se quiseres continuar essa conversa, sabes o meu horário de saída.
Ele sorriu de canto, cheio de malicia, mas concordando com um gesto de cabeça.
— Claro... — ele disse, arrastando a cadeira para trás — Obrigada por sua adorável atenção.
— Sem problemas. Tenha um bom dia.
— Ah, eu terei. — ele ainda lhe disse, cheio de desaforo e sarcasmo.
Ela mostrou seu dedo do meio para as costas dele, e assim que ele fechou a porta, ela cuspiu em sua lata de lixo. Se já detestava aquele homem, agora detestaria ainda mais.
Em seguida, ela pegou sua prancheta com a lista de nomes dos pacientes, com seus horários marcados. Ela daria início a suas consultas com meia hora de atraso, e teve que se desculpar com todos eles.
Seu primeiro paciente do dia entrou na sala reclamando e ela ainda teve que engolir aquilo calada. Era um homem de 56 anos, que estava com fortes dores nos joelhos, e seu ortopedista o mandou direto para ela. Depois, foi a vez do homem de 41 anos que havia tirado os pinos da perna esquerda, mas agora precisava de fisioterapia. A terceira era uma senhora de 74 anos que após um erro médico sentia fortes dores no quadril. Ela era uma senhora muito gentil, e ficava dizendo como Sakura precisava deixar o brilho voltar. Apesar de não ter entendido muito bem o que ela queria lhe dizer, e também não perguntou, Sakura apenas forçou um sorriso torto, mal feito, para ela. Depois entrou um rapaz de 16 anos acompanhado pelo pai, que havia machucado o tornozelo em um jogo de futebol e precisava de fisioterapia. E depois uma mulher de 32 anos que estava paralisada da cintura para baixo, e conseguiu voltar com os movimentos, mas precisava de reabilitação. E seu último paciente da manhã foi um homem de 29 anos, jogador de vôlei, que sofreu uma cirurgia no joelho.
Era mais de uma da tarde quando ele saiu de sua sala, e ela pôde suspirar. Cansada e com dor nas costas, se espreguiçou pensando no que comer, embora a fome não estivesse ali. Arrastou os pés lentamente pelo corredor até chegar a seu destino. Viu as garotas ainda pegando seu almoço e se aproximou, preparando o seu. Elas sorriram para ela, meio tensas.
— Estamos esperando você na mesa, ok? — Ino disse a ela.
— Ok.
Ela se demorou ao máximo que pôde, fingindo que escolhia a dedo o que comer. Vagarosamente, ia preenchendo seu prato, e deixava pessoas passar a sua frente. Quando sentou-se na mesa, percebeu, para sua satisfação, que elas já estava terminando de comer enquanto conversavam sobre um assunto qualquer.
—... Não, ele é do tipo grudento. É emotivo. Logo percebi isso, porque ele deitou a cabeça no meu ombro pra dançar. — Ino dizia, de boca cheia, revirando a comida no prato.
— Talvez não seja emotivo, mas romântico. — Tenten tentou argumentar.
— Tsc! O cara que deita a cabeça no ombro da mulher e passa a noite toda, numa danceteria, resmungando sobre o dia no trabalho, mesmo que bêbado, é emo com letra maiúscula!
— De quem vocês estão falando? — Sakura interrompeu, fingindo algum interesse, enquanto empurrava uns pepinos para fora do prato.
— Do cara que ela deu uns pegas no sábado... — Tenten responde — A propósito... O que você fez com o Naruto?
— Nada.
— Nada? Você está vendo ele aqui? — Ino resmunga — E ele mal nos cumprimentou hoje!
— Ele está me evitando, porque o deixei sozinho depois de me dar um beijo.
— Ele te beijou? — as duas repetem uníssono, surpresas.
Sakura revirou os olhos, pensando que não deveria ter aberto a boca para dizer aquilo. Ela detestava como às vezes tendia a ser impulsiva. Mas como já era tarde demais para voltar atrás, e engolir de volta aquelas palavras, só lhe restou revirar os olhos.
— Foi um erro. Preciso me desculpar com ele.
Tenten e Ino se olharam, e Sakura percebeu que havia algo entre as duas que ela não sabia.
— O que foi?
— Nada... É só que Naruto estava realmente apaixonado por você, e você o jogou no lixo como se não fosse nada. — Ino parecia mais aborrecida do que ela achava que deveria estar.
— Eu não joguei ninguém no lixo.
— Tenho certeza de que para ele não faria diferença...
Ela revirou os olhos mais uma vez, e arredou a cadeira para sair dali, porque não estava com humor para discussões passionais. Nem deu ouvidos aos pedidos das amigas para voltar. Ela preferiu deixar seu prato intocado e morrer de fome para ir ver seu paciente do 523.
Chegando lá, ela se depara com o irmão do Sasuke o ajudando a comer o que lhe veio de almoço. A porta já estava aberta, provavelmente porque a enfermeira que trouxe a bandeja a esqueceu, de modo que não precisou bater para entrar. Depois de pegar a prancheta, ela ficou encostada na soleira com os braços cruzados observando os dois. Ela percebeu que Sasuke parecia melhor, mais corado e mais bem disposto, enquanto mastigava sua comida.
— Até quando vai ficar plantada aí, doutora? — de repente, ele resmunga de boca cheia sem olhá-la, mas já com o leve sorriso torto.
Itachi, que até então não havia notado a presença de outra pessoa no quarto, se virou para ver com quem ele falava. E ao vê-la, sorriu abertamente, mostrando suas covas.
— Eu não queria interrompê-lo. Fico contente em vê-lo se alimentando bem. — ela diz, tocando no ombro do mais velho, num cumprimento sutil.
— E ele está comendo como um animal, mesmo. — Itachi disse, orgulhoso pelo irmão.
— Isso significa que a comida está melhor, Sasuke? — ela indaga, sarcasticamente, mas num tom zombeteiro. E ele ergueu as sobrancelhas no lugar dos ombros.
— Acho que mudaram de cozinheira. — respondeu, sorrindo torto pela própria teimosia.
— Uhum... — Sakura resmungou, examinando a ficha do paciente — Vejamos... Segundo dia sem febre e sem dar problemas. Isso é ótimo. Se continuar nesse ritmo, logo-logo poderemos dar início a sua reabilitação.
— Por mim, poderíamos começar agora. — de repente, ele fechou a cara, se tornando mais sério, porque não agüentava mais ver os dias passar naquele quarto. A janela aberta, mostrando o dia maravilhoso que se fazia do lado de fora daquelas paredes, o fazia querer voar para fora como um pássaro engaiolado. E não via a hora disso acontecer.
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