Notas iniciais
Boa leitura.

Pássaros

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Escrito por Amanur e Noel Blue

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Capítulo 4

Sentou-se de solavanco, num susto. As lágrimas escorriam pelos olhos e o suor molhava a testa. Ela olhou em volta, ainda meio confusa, sem a certeza de onde estava, mas em seguida reconheceu o guarda roupa e a cômoda com alguns porta-retratos do seu quarto. O pesadelo ainda estava vívido em sua mente, enquanto ela tremia de leve. As luzes pareciam ainda ofuscar seus olhos, e as mãos ainda trêmulas fraquejaram ao jogar o lençol para longe. O quarto estava uma bagunça, ainda fedendo a bebida, e havia sapatos e roupas jogados para todos os lados. Ela desabou novamente na cama, se abraçou em seu travesseiro e finalmente deixou o choro vir. Sakura chorou como uma criança, como um necessitado, como um desesperado, como um mártir não deve fazer. Ela chorou tanto que seu rosto doía, os lábios e olhos incharam, e o coração despedaçava. Ela não sabia dizer quanto tempo se passou naquele desabafo, mas pelo menos ele serviu para aliviar o peso que sentiu durante aquela semana sem fim. Lentamente, como se fosse um enorme esforço, virou a cabeça para o lado para ver que os ponteiros do seu relógio despertador marcavam quinze minutos antes de tocar — o que só poderia significar que acordara muito cedo. Ela esticou o braço e o desativou. Ainda custou a se levantar, e ficou encarando o teto branco, recuperando a respiração. A moleza no corpo a convidava para passar o dia inteiro naquele colchão, mas se forçou a mover-se e quase caiu no chão devido a fraqueza nas pernas. Ela praguejou e decidiu sentar-se na cama, com as pernas para fora, os pés tocando o chão frio, enquanto os ombros tensos caiam para frente. As lagrimas queriam voltar a romper a barreira que conseguira pôr com tanto custo, mas não conseguiu, e cobriu o rosto com as mãos.

— Oh, Deus, eu quero morrer! — disse aos soluços para si. Ela sabia que esse pensamento não deveria estar ali, martelando em sua mente, mas não conseguia se esforçar o suficiente para afastá-lo. Ela sequer sabia se realmente queria afastá-lo.

Sakura chegou a pensar em ligar para a amiga, mas lembrou-se da festa que Naruto convidara, e achou que talvez indo até lá, pudesse lhe fazer mesmo algum bem. Então, resolveu se dar mais essa chance antes de mostrar suas fraquezas para alguém e ferir seu orgulho.

Depois de conseguir se recompor novamente, ela olhou para o porta retrato que estava sobre o criado mudo e franziu os lábios. Com um tapa, derrubou o objeto no chão, que caiu virado para baixo sobre o tapete, e achou que assim seria melhor. Se olhasse para aquele rosto, não seria capaz de sair da cama. Respirou fundo e fez seu caminho até o banheiro, arrastando os pés e cambaleando. Foi tirando a regata e a calcinha pelo caminho, e fez um coque no cabelo. Entrou no chuveiro, deixando a água fria entrar em contato com sua pele a tirando do torpor, e a fez acordar por completo.

Ao sair do banho, após se vestir, ela passou os dedos entre os fios, dando um jeito em seu cabelo, e, como ainda havia resquícios da choradeira, passou aquela mesma maquiagem básica do dia anterior para disfarçar a cara feia. Ela não colocou seus brincos e anéis, nem correntes nem pulseiras porque eles ainda não voltaram a fazer sentido, e deixou seu banheiro sem olhar para sua aliança jogada no balcão. Pegou o jaleco, a bolsa e a chave, e saiu dali. Seu lar, agora, parecia uma prisão, e o seu silêncio a sufocava.

O trânsito estava um caos ainda maior devido a uma passeata que estava acontecendo na avenida principal, já cedo pela manhã. Em dia de semana ela teria praguejado, buzinado, e se estressado, mas como não havia nada para fazer até o meio dia, não se incomodou com aquela lentidão. Ela até parecia combinar com seu estado de espírito — parado, sem emoções. Meia hora depois, conseguiu sair daquele caminho desviando para outro, e parou no mesmo café perto do hospital. Mas ao invés de apenas pegar um café, sentou-se e pediu um cappuccino com um donuts para se manter em pé. Estava com fome naquela manhã, e como tinha tempo de sobra, o que lhe restava fazer para matar o tempo era sentar ali ou ficar dirigindo à toa pela cidade. Comeu devagar, olhando para o vazio. Às vezes, ela via alguém passar por sua mesa, mas não prestava atenção ao seu redor. Ela não pensava em nada especial, apenas ficava com o olhar fixo em algo. Quando seu donuts chegou ao fim, ela pediu mais um café, e comprou o jornal do dia para ler as noticias, mas em seguida o tédio a venceu. Quando esvaziou o segundo café, foi até o caixa, e voltou para o carro. Ainda eram dez e meia da manhã, e ficou dando voltas pela quadra em seu carro, até o meio dia.

Bateu o ponto, e foi até sua sala, só para matar mais um tempo. No entanto, encontrou sobre sua mesa uma notificação da administração, sobre sua negligência, referente ao dia anterior.

“O hospital não tolera esse tipo de atitude por parte dos profissionais da saúde. Isso é um crime contra os pacientes que necessitam de atendimento.” — dizia parte da notificação. Ela amassou o papel e jogou na lata de lixo.

— Como se não tivessem fisioterapeutas suficientes... — resmungou.

Ela deu a meia volta, e trancou a sala. Seu novo destino seria o restaurante. Seus amigos não estavam em mesa alguma, provavelmente porque tiraram o dia de folga. Ela pegou apenas um pouco de salada do buffe, e sentou-se à mesa ao fundo. Mas apenas três garfadas a satisfez.

Pelos corredores, suspirou. Encaminhou-se para seu primeiro paciente do dia, que era seu pequeno amigo de 4 anos, com poliomielite. Ele havia ficado internado e estava em tratamento intensivo, o que poderia ajudar muito, de acordo com o prognóstico. Sakura, com ajuda de enfermeiras, o levou a uma sala especial e começou com a reabilitação. Ajudou ele a caminhar lentamente, com ajuda de aparelhos específicos. Enquanto o ajudava com os exercícios, viu a mãe do menino com um brilho de esperança no olhar e, por um momento, se sentiu orgulhosa de si mesma por estar ajudando — coisa que ela não sentia a algum tempo. Ela ainda brincou com ele com alguns brinquedos que o ajudariam com a coordenação motora e o liberou para o quarto.

O segundo paciente era um homem de 61 anos que havia chegado à madrugada anterior. Ele sofreu um AVC e agora estava com hemiplegia. Depois foi a vez de uma senhora com Parkinson e seguida por alguns outros pacientes do dia anterior, que estavam internados. E se surpreendeu com uma senhora de 78 anos que estava internada; Sakura havia a visitado ontem, e estava respondendo bem ao seu tratamento. Aquela senhora tinha fibromialgia (uma síndrome dolorosa não-inflamatória, caracterizada por dores musculares difusas, fadiga, distúrbios de sono, entre outros sintomas), mas ao visitá-la, Sakura recebeu a noticia de que ela havia morrido na noite passada por uma parada cardíaca.

Ela resolveu tirar uns minutos de folga, porque estava com dores nas costas pelo esforço físico que fazia com seus pacientes, e resolveu passar no refeitório novamente para mais uma xícara de café. No entanto, para sua surpresa, encontrou seus amigos sentados numa mesa bem na frente.

— Ah, Sakura decidiu ir com a gente hoje! — Disse o loiro alegremente, a olhando.

— Que ótima notícia, Sakura. Tenho certeza que você vai gostar. — disse Ino com a mesma animação que o loiro, fazendo Tenten rir e Sakura revirar os olhos.

— Mas não quero voltar muito tarde... — murmurou aborrecida para os colegas, que não deram muita bola para seu comentário.

Sakura suspirou e sentou para beber. Ficou ali mais um pouco, ouvindo os amigos falarem em como a noite seria divertida, como ela se divertiria, como isso faria bem a ela, e todas essas coisas que a aborreciam. Quando não agüentou mais, pigarreou e levantou-se, pedindo licença e dizendo que tinha que fazer mais algumas coisas. Mas ainda ouviu Naruto dizendo que iria ligar para ela, para certificar-se de que ela não faltaria, e Sakura fez um sinal qualquer com a mão.

Ela foi em direção ao quarto 523, de seu não querido paciente. Antes de chegar a porta, viu o irmão do Sasuke saindo, batendo porta. Ele parecia muito bravo, mas ao vê-la, amenizou sua expressão, e chegou até a mostrar um pequeno sorriso, que ela retribuiu arquejando as sobrancelhas apenas.

— Pensei que a noiva dele ainda estaria aqui. — ela disse.

— A Karin me ligou aos prantos, dizendo que não queria ficar com ele. Acabamos brigando porque eu preciso viajar e não poderei ficar. Juro que ficaria, se eu pudesse, só para dar um chute no traseiro daquela inútil! — disse suspirando.

— Sinto muito. Não querendo me meter, mas não é aconselhável ela ficar nesse estado emocional perto dele, porque ele acaba ficando pior.

— Eu sei. Mas ele foi levado para fazer um exame. — ele assegurou — Vou comer algo, você quer alguma coisa Dra. Haruno? — disse olhando seu crachá.

— Não, obrigada, senhor Uchiha. — ela respondeu, estranhando a oferta.

— Me chame de Itachi.

— Ok, Itachi. Então, Sasuke não está no quarto?

— Não, mas já deve estar voltando, porque ficamos brigando durante um tempão.

— Ela está ali dentro?

— Sim.

— Ok. Vou tentar falar com ela.

— Boa sorte.

Ele sorriu e se afastou. Ela entrou no quarto, encontrando a moça se desfazendo em lágrimas, mas assim que notou que havia mais alguém a observando, se levantou da poltrona, limpando os olhos. Sakura suspirou, colocando as mãos nos bolsos do jaleco, e sentou na beirada da cama.

— Não se preocupe comigo... — disse — Posso saber o que está se passando na sua cabeça?

— Eu já falei com aquela psicóloga.

— Ok, agora fale comigo...

Karin hesitou e desviou o olhar, achando que a fisioterapeuta estava sendo intrometida, mas Sakura não ia desistir.

— Quantos anos você tem? — perguntou à moça.

— Vinte e três.

— Temos a mesma idade. É engraçado como temos mentalidade diferente, no entanto.

— Claro... Tivemos experiências de vida diferentes.

— Com certeza. Você estuda ou trabalha?

— Sou arquiteta... — a ruiva respondeu, se perguntando aonde a fisioterapeuta queria chegar. Ela havia ficado sabendo sobre o incidente anterior, em que ela deu um tapa e ainda jogara água no paciente... Mas não queria recriminá-la por sentir vontade de fazer o mesmo com o Sasuke.

— E há quanto tempo que vocês estão noivos? — Sakura insistiu.

— Cinco meses.

— Me conte como ele a conquistou... Talvez, se lembrando das coisas boas que ele tem você renove seu ânimo. Tenho certeza de que você o ama, e não o deixará nesse momento tão crítico! Afinal, ele também não faria isso com você, não é mesmo?

Ela concordou com um gesto de cabeça, baixando os olhos para os pés como se sentisse vergonha de si. Depois de enxugar melhor o rosto, sentou-se novamente na poltrona para contar a historia.

— Eu era amiga do Itachi, que me levou para o clube em que eles eram sócios. Itachi me apresentou a ele, e começamos a conversar. De cara, Sasuke foi jogando seu charme pra cima de mim, e me convidou para almoçar com ele num outro dia. Ele comprou um buquê de flores coloridas. Fui cativada pelo jeito com que ele me olhava e ignorava as outras mulheres que passavam por ele. Sasuke sempre foi cavalheiro, atencioso e muito bem educado. E ele sabia ser engraçado. Depois, ele me levou para andar a cavalo, e num fim de semana me convidou para voar com ele. Foi em pleno ar que ele me beijou pela primeira vez, misturando a adrenalina com a emoção. Jamais vou me esquecer disso. Aqueles foram os melhores dias da minha vida...

Enquanto ouvia o relato, Sakura procurava não pensar em si, ou em como foi seu primeiro encontro com seu marido. Mas não podia deixar de sentir inveja por aquela garota desmiolada que não dava valor para o que tinha ao alcance. Quando a ruiva parou, e ficou aguardando alguma resposta, Sakura se obrigou a expulsar aquela sensação estranha para longe, e se focar em seu trabalho.

— Pois então... Não acha que vale a pena lutar por ele? — indagou.

Mas a ruiva não respondeu, e Sakura começou a se irritar com a moça.

— Ele precisa de você! Como pode ser tão egoísta?

— Eu não tenho culpa do acidente dele! Eu não queria pensar dessa forma, mas toda vez que olho para ele, só vejo os meus sonhos arruinados.

— Sonhos arruinados? Por que seus sonhos estariam arruinados? Que diabos de sonhos são esses, em que não possam ser modificados pela pessoa que você ama?!

— Nós já tínhamos planejado tudo! Ele largaria a aeronáutica para viajarmos pelo mundo só com nossas mochilas nas costas. Mas com ele nesse estado... Seria um esforço que não sei se valeria a pena... — a moça voltou a chorar, escondendo o rosto entre as mãos, se sentindo péssima pelo que dizia, e Sakura teve vontade de cuspir na cara dela.

— Sua covarde. Sua covarde! É isso o que você é! Eu lhe aconselho a pegar suas coisas e dar o fora daqui antes que você piore tudo. Não vou permitir de uma fracote como você arruíne meu trabalho aqui! Estou aqui para salvar a vida dele, e ao invés de ajudá-lo você só vai piorar tudo!

Nesse instante, duas enfermeiras entraram com Sasuke emburrado numa maca. Karin tratou de correr para o banheiro, mas a rosada sequer olhou para ela. Ajudou as enfermeiras a o colocaram de volta no leito, mas olhavam para Sakura com uma expressão estranha, que a médica não conseguiu entender. Pareciam insinuar algo, e alternavam o olhar para o paciente. Ela percebeu que Sasuke estava sério, desviando o olhar e trincando a mandíbula. Sakura respirou fundo e puxou uma cadeira, assim que as enfermeiras saíram do quarto, sentando ao seu lado.

Ficaram em silêncio alguns minutos até ela ter coragem de falar, enquanto sua noiva permanecia trancada no banheiro.

— Sasuke... Eu quero ajudar você, juro que quero, mas eu preciso que você me ajude a te ajudar. — ele não olhou para ela em nenhum momento, então, ela continuou — Também quero pedir desculpa por ontem, eu estava de cabeça quente e você não colaborou. — ele virou a cabeça para ela e a analisou por um momento, antes de voltar a desviar o olhar, desta vez para sua noiva.

Karin estava de volta, mas também não o olhava, fungando o nariz.

Sakura suspirou, revirando os olhos.

— Você tem que entender que não há como mudar sua condição, mas tem como melhorar. — e ela disse isso, olhando para a moça do outro lado da sala.

— Que tipo de médica tem o cabelo rosa? — ele a interrompeu sarcástico, e então ficou furioso. — Tem certeza de que é médica? Está mais para palhaça. Deveria ir para o circo, com esse cabelo cor de rosa ridículo.

Sakura dilatou as narinas e trincou os dentes, cerrando os olhos, como se o fuzilasse. Ficou encarando aquele mal-criado por um bom tempo, deixando aquele silencio constrangedor aumentar, até que resolveu respirar fundo para se acalmar, porque sabia que as condições dele eram delicadas.

— Ok, Sasuke, se me insultar te faz se sentir melhor, me insulte a vontade. — ela se levantou da cadeira — Mas se acha que com isso vai conseguir me fazer desistir de você, saiba que estás RIDICULAMENTE enganado! — ela olhou para a garota e deu as costas, batendo a porta com força. E o rapaz ficou ali, olhando para aquela porta, numa mistura de confusão, frustração, raiva e surpresa.

Notas finais
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