Pássaros
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Boa leitura.
Pássaros
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Escrito por Amanur e Noel Blue
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Capítulo 3
Beep. Beep. Beep...
Lentamente, Sakura abriu seus olhos e esticou o braço para desligar o despertador. Seu corpo estava pesado, como se tivesse feito muito esforço físico — mas sabia que era apenas efeito da ressaca — e custou a aceitar que já estivesse na hora para mais um dia de trabalho.
Se espreguiçou, tentando se livrar daquela sensação de peso, e sentou-se na cama olhando para o relógio. 07h15min da manhã de uma sexta-feira — desta vez, ela conseguiu se situar no tempo. Aquela tinha sido uma longa semana para ela, e aquele seria um dia ainda mais longo. Suspirou e levantou-se, deixando os lençóis de qualquer jeito. Viu a garrafa de tequila quase vazia jogada em seu carpete, sentindo o forte cheiro de álcool no quarto; deveria ter derramado quando provavelmente desmaiou de tão bêbada. Desviou o olhar e foi em direção ao banheiro, se sentindo incomodada pelo silêncio. Ela não poderia mais aparecer no hospital fedendo a bebida; ela poderia estar arrasada, mas seus pacientes já haviam reclamado, resmungado, comentado, insinuado... Enfim, Sakura estava de saco cheio de ouvir falarem sobre suas condições. Então, ligou o chuveiro sem se preocupar em esquentar a água. Ela tremia levemente por causa da temperatura fria, mas preferia aquele desconforto entre os pequenos choques térmicos, só para despertar seu corpo. E ainda se aventurou a lavar o cabelo e se sentiu um pouco melhor, apesar de ainda estar com aquela leve dor de cabeça e seu estômago roncar; não se lembrava de ter comido nada no dia anterior. Desligou o chuveiro e pegou a toalha branca e felpuda enxugando seu corpo, e logo depois alcançou outra toalha para enrolar o cabelo.
Sakura parou em frente ao espelho e se olhou pela primeira vez em tanto tempo. Tinha os olhos vermelhos e leves olheiras também, além de estar um pouco mais magra. Pegou sua escova e creme dental para escovar os dentes, enquanto tentava não pensar em seu estado deplorável refletido no espelho; a sombra do passado que conflitava com a imagem do presente e do futuro lhe perturbava, mas ela repetia a si mesmo que aquilo iria passar.
Ao terminar tudo, voltou para o quarto. Hoje, mesmo que à contra-gosto, resolveu passar uma maquiagem básica para esconder as olheiras e deixar seus olhos menos fundos. Tudo para não ter mais que ouvir falar de sua aparência desleixada. Não colocou seus acessórios (brincos, pulseiras, correntes, e anéis) por que não via mais sentido em usar essas coisas. Para quem as usaria? Mas seu olhar, de repente, parou na grossa aliança dourada em cima daquela mesma penteadeira. Sentiu os olhos umedecerem e mordeu os lábios pálidos. Desviou o olhar para o perfume ao lado, que nem pretendia usar, mas apenas para não olhar para aquela pequena, mas muito significativa argola, deu duas esborrifadas em cada lado do pescoço. E assim que se viu livre daquela tarefa desgastante, foi correndo pegar sua bolsa e jaleco na poltrona.
Quando entrou no carro, depois de descer do prédio, olhou para o céu; o inverno estava chegando e o tempo estava ficando um pouco mais frio.
O transito continuava a mesma porcaria de sempre, com gente apressada e imprudente para todos os lados. Como ainda era cedo, Sakura parou em um pequeno café perto do hospital e comprou um copo grande e bem caprichado de café quente, mas nada para comer, por que, de repente, a vontade de comer passou. Cinco minutos depois, Sakura havia chegado ao hospital. Pegou o seu crachá e bateu o ponto, como todo dia fazia, e seguiu para sua sala.
Encontrou Naruto esperando o elevador, mas ele apenas lhe lançou um leve sorriso em cumprimento; o que foi entranho, já que o loiro estava sempre muito animado.
— Fez plantão? — ela suspeitou.
— Bingo. Peguei um rapaz, vítima de bala perdida no peito num assalto...
— O perdeu?
— Ele chegou com vida. Bem que tentamos, mas acabou falecendo... Acho que nunca vou me acostumar com isso... — as portas se abriram, e eles entraram no elevador.
Ele apertou o oitavo andar, e ela o terceiro. Ficaram em silencio até o elevador abrir novamente. Mas antes que pulasse para fora, Naruto segurou o pulso dela, impedindo-a de escapar a tempo, e Sakura o olhou intrigada.
— Você realmente deveria vir conosco amanhã. Se não gostar, você sabe que pode ir embora a hora que quiser... — ele olhava diretamente nos olhos dela, e Sakura sabia que ele estava falando de si mesmo, e não da festa em si. Acabou suspirando pesadamente, e fez sinal positivo com a cabeça.
— Está bem.
Naruto, respondeu o gesto, soltando o pulso da colega, e Sakura logo lhe deu as costas, deixando o loiro com as esperanças renovadas...
Em sua sala, deixando a bolsa em cima da mesa e vestindo o jaleco, olhou em sua agenda. Tinha sete consultas marcadas pela manhã, e alguém deixara uma requisição assinada pela diretoria. Tenten iria fazer consulta ao seu paciente do quarto 523. Ela dobrou o papel, e o colocou no bolso do jaleco, para logo dar inicio à sua rotina.
O primeiro paciente foi um homem de 38 anos, que havia sofrido um trauma no joelho. Depois, outro homem, esse de 58 anos, que havia quebrado o tornozelo e ainda sentia muita dor. Depois veio uma mulher de 21 anos, que havia perdido o movimento das pernas depois de saltar de uma altura significante para pular na água, e acabou fraturando a coluna. Depois uma mulher com sua filha, a menina tinha 16 anos, seu ombro havia saído do lugar e ela não conseguia movimentá-lo direito, mesmo depois de tê-lo colocado no lugar. Atendeu mais alguns idosos, com os mesmos problemas de sempre, e o ultimo foi um garotinho de 4 anos que tinha poliomielite, e que talvez fosse começar a ser seu paciente frequente.
Na hora do almoço, não se juntou a Ino e os outros, porque queria ficar sozinha, mas Sakura pôde vê-los olhando para si. Ignorou os olhares furtivos, e tomou seu suco de laranja, depois de ter comido pelo menos umas cinco colheradas de seu almoço. Ela mastigava muito lentamente, deixando seu olhar se perder em qualquer espaço, e ficava naquele estado durante alguns minutos, revirando lentamente sua comida. Quando se cansou, levantou-se da mesa e se retirou antes que algum deles fossem falar consigo.
Seu relógio de pulso marcava 12h30min. Como ainda tinha um tempo sobrando, correu para fazer sua higienização bucal antes de voltar a atender pacientes. Em frente ao espelho, novamente, ela desviava o olhar daquele reflexo, que parecia zombar de sua fraqueza — por que estava pensando em comprar mais uma garrafa de tequila, ou qualquer coisa alcoólica que encontrasse pela frente. Mas seus pensamentos foram desviados quando outra funcionária entrou no banheiro e a cumprimentando com um sorriso forçado, que Sakura não respondeu. E então, fez seu caminho direto para o quarto 523.
Ao chegar em frente a porta, viu que a fixa do paciente não estava no local, o que só poderia significar que havia algum médico dentro do quarto. Abrindo a porta, se deparou com a própria morena o interrogando.
—... E como você tem passado as noites aqui? — ela perguntou. A morena tinha deixado a prancheta sobre a mesa ao lado da cama, e estava plantada ao lado dele com as mãos nos bolsos do jaleco, olhando para o homem que olhava fixo para a parede à frente de sua cama.
Ele não usava mais a mascara de oxigênio, mas a aparelhagem continuava ali, ao lado do leito. Além da psicóloga, havia mais uma moça ruiva sentada numa poltrona, e todos se viraram para vê-la entrar. Sakura os cumprimentou com um aceno de cabeça, e caminhou até o lado da colega.
— Se importam se eu ficar? — perguntou.
Tenten olhou para Sasuke, que revirou os olhos, demonstrando sua antipatia pela fisioterapeuta.
—... Eu tenho pesadelos com o acidente. — ele resmungou.
— Que tipo de pesadelos? — Tenten tentava manter uma postura relaxada, e por isso não fazia nenhuma anotação, para não tirar a concentração do paciente enquanto falavam. As anotações poderiam deixá-los nervosos, e isso poderia atrapalhar suas respostas.
— Com o acidente. Estou caindo, mas nunca chego ao chão. E então, o avião passa por mim e explode novamente. Isso se repete várias vezes.
— E como você acorda?
Sasuke ficou mudo, com o olhar divagando pelo espaço. A moça sentada na poltrona, desta vez, resolveu falar por ele, ao ver que Sasuke não respondia a pergunta por que se perdia em pensamentos, pela quarta vez desde que a psicóloga entrou.
— Esta noite ele acordou três vezes de solavanco, com um urro. Estava muito suado e respirava fundo em todas as vezes. E custava muito a cair no sono de novo; nem mesmo a medicação que lhe deram funcionou. E da ultima vez, ele acabou urinando em si, e não quis que o trocassem. Ele fez um escândalo, acordando o paciente do quarto ao lado... As enfermeiras tiravam que injetar um calmante, porque estava muito agitado, e reclamava de dores também.
Ambas, Sakura e Tenten, notaram que a moça não parava de mexer as mãos e balançava a perna esquerda, em nervosismo. Ela tinha olheiras profundas, e aparentava muito cansaço.
— Achei que o irmão dele fosse passar a noite com ele. — Sakura comentou.
— Ele veio aqui, mas me ligou no meio da noite, por que tinha que resolver algum problema no serviço... — a moça respondeu.
— E como ele tem se alimentado? — a morena interveio.
— Parece que estão alternando entre o soro e comidas leves, como sopas e caldos. Mas quando a comida veio no prato, ele custou muito a me obedecer. Não queria abrir a boca para comer. E depois, ele vomitou tudo!
— A comida desse hospital é uma merda. — ele resmungou — O atendimento é uma merda, as enfermeiras são umas merdas...
— Não fale assim, Sasuke. — a moça reclamou, envergonhada. As médicas perceberam que as mãos da ruiva estavam trêmulas, quando ela as levou ao rosto para esconder os olhos.
— Bom... — Tenten pegou a fixa, e ia se dirigindo até a porta — Vou receitar alguns medicamentos para esse moço resmungão. Acredito que hoje mesmo ele receba a primeira dose. E amanhã nos veremos de novo, ok, Sasuke?
Ele não respondeu, e a morena fez sinal para que a colega a seguisse até o corredor. Do lado de fora do quarto, com a porta fechada, Tenten anotou suas observações.
— Vou ter que dar a ele Bupropiona, e para a moça um Diazepam. Quando cheguei, a encontrei aqui, no corredor, chorando por que ele brigava o tempo todo com ela, e ela não sabia como responder. Tentei conversar com ela, explicando que na situação dele a reação que ele está tendo é comum e normal, devido as circunstâncias, mas... Não sei... Ela me parece o tipo de garota frágil, que se magoa com facilidade.
— O que você quer dizer com isso?
— Não sei... Não quero me precipitar com julgamentos. Eu disse a ela que não era bom mostrar a ele essa fragilidade, e que não demonstrasse tristeza porque ele precisa de alguém forte ao lado dele... Mas ela não me pareceu muito compreensiva. Ela negava tudo com a cabeça. Acho que ela não quer aceitar as condições dele. Mas vamos dar mais um tempo aos dois, para que assimilem bem o que aconteceu.
— Sim...
— Vai atendê-lo agora?
— Tenho outra escolha? Vou tentar dar uma olhada no curativo dele hoje. O Kabuto não veio?
— Parece que ele fez a cirurgia no Sasuke e saiu correndo para um congresso. Talvez volte em uma semana. Mas ele deixou as instruções na enfermagem, né?
— Sim. Uma semana, não é? Não tem problema... Ele precisa cicatrizar a coluna mesmo...
— Ok. Boa sorte. Tentei tocar nele, mas ele começou a me xingar. Achei melhor não forçar a barra ainda... Ele está em negação.
— Não se preocupe.
— Uhum... Te vejo amanhã! — Sakura revirou os olhos — Não estrague a pouca felicidade do rapaz! Naruto estava super contente. Você precisa dar uma chance a si mesma também. Além disso, uma médica doente não deve tratar pacientes.
— Não estou doente.
— Eu não diria isso...
Sakura entrou do quarto, tomando a ficha das mãos dela, antes que Tenten continuasse o que dizia, e fechou a porta na cara da colega. Do lado de dentro, a noiva dele bebida água no próprio gargalo da garrafa, retirada do frigobar do quarto, ao lado da janela.
Sem dizer nada, Sakura tirou o lençol que cobria até o pescoço dele.
— Ainda não está tão frio assim. — ela disse.
— Coloque de volta esse lençol. — ele reclamou.
— Não, preciso ver seu curativo.
— NÃO MEXA NESSA MERDA! — ele levantou o tom da voz, desta vez mais furioso.
— Essa merda é você, Sasuke. — ela respondeu calmamente.
Ele começou a balançar a cabeça de uma lado para o outro, querendo se debater e atrapalhar o serviço da fisioterapeuta, mas o pescoço era tudo o que ele conseguia mexer. A noiva do rapaz começou a chorar, sem saber o que fazer, enquanto Sakura tentava contê-lo. Mas apesar de tudo, ele tinha forças, e deu uma cabeçada no rosto dela. Não a feriu, mas foi o suficiente para afastá-la da cama. A noiva saiu dor quarto, para chamar uma enfermeira, enquanto Sakura cruzou os braços e ficou observando-o, olhando-o em repreensão. Cansado, ele acabou desistindo, mas ficou encarando a médica, como se fosse seu pior inimigo.
Sem dizer nada, ela se aproximou novamente dele, e outra vez ele começou a se debater. E então, Sakura deu um tapa na cara dele, o surpreendendo.
— Pare com essa infantilidade, Sasuke, você não é mais uma criança!
— É assim que você trata seus pacientes? — ele indagou, entre os dentes.
— Não, apenas as pessoas estúpidas que não aceitam a realidade.
— É mesmo? Engraçado você dizer isso, por que ouvi conversas a seu respeito, doutora... — ele estreitou os olhos para ler o crachá dela — Sakura Haruno.
Ela fechou a cara para ele, praguejando pelas enfermeiras fofoqueiras.
— Minha vida privada não lhe diz respeito. Eu vim para fazer o meu trabalho, e é isso o que pretendo fazer. — ela fez menção em tocá-lo novamente, mas ele se esquivou, jogando a cabeça para a lado, como se quisesse se derrubar da cama. Mas o segurou a tempo.
— Sasuke, você não percebe o mal que está fazendo não só a si mesmo, mas aos seus familiares? Seu irmão também está nervoso, em preocupações... Sua noiva está fragilizada, e você deveria pensar nela também.
— Ah, eu penso neles, sim. Em o quanto m melhores se eu tivesse simplesmente morrido naquela droga de acidente...
Ela pegou a garrafa que a noiva dele havia largado sem tampa em cima da mesa, e jogou na cara dele.
— Você está sendo egoísta, se acha que ela ficaria melhor sem a pessoa que ama... — e sem dizer mais nada, ela pegou a ficha dele, e bateu a porta com força.
Irritada, ela largou a prancheta mal encaixada no suporte, e saiu pisando forte pelo corredor, enquanto a noiva dele corria aos prantos com duas enfermeiras indo em direção ao quarto. Sakura nem olhou para elas, apenas seguiu em direção ao elevador para ir embora.
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