Notas iniciais
Mais um, boa leitura!

Pássaros

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Escrito por Amanur e Noel Blue

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Capítulo 27

Dois dias se passaram sem que ela notasse. O vento soprava um ar fresco na rua, as pessoas caminhavam mergulhadas em sua rotina. O relógio continuava a girar e os semáforos trocavam de cor. O cachorro cheirava um canteiro, e pássaros sobrevoavam pelos prédios. As nuvens passavam lentamente, enquanto o sol banhava as calçadas e ruas.

Sakura observava aquela maré de gente andar de um lado para o outro. E então, se deu conta de que o tempo passara somente quando se deparou na poltrona do consultório de sua colega Tenten, respondendo perguntas.

— E qual é a sua reação ao vê-la em seu sonho? — a morena indagou.

— Não sei... Acho que fico surpresa por encontrá-la. Não faz sentido eu vê-la ali. Há muito tempo não penso nela... Sequer me lembrava de sua existência. Acho que nunca cheguei a me preocupar com ela, na verdade... Eu me preocupava com a reação do Sasuke com relação a ela, mas não com ela, propriamente. Acho que nem nunca senti ciúmes dela, ou qualquer coisa parecida. Simplesmente não faz sentido.

— Hum... Olha, eu nunca me aprofundei nessa parte da psicanálise, mas pelo pouco que eu sei sobre o assunto, os sonhos trazem elementos que estão no seu subconsciente, e esses objetos ou pessoas que marcam os sonhos aparecem como uma representação de algo... Como frustração, raiva, medo, empatia, preocupação...

— Mas tem que ter algo a ver com ela, não?

— Não necessariamente. Como ela tem ligação com o Sasuke, talvez seja relacionado a ele... Ou a você mesma... Talvez ela represente alguma angustia ou aflição sua... Você disse que ela parece ter medo ao te ver, não é mesmo?

— Sim...

Sakura ficou pensativa por alguns instantes, tentando entender a aparição da ruiva em seus sonhos, mas não obteve sucesso. Sem mais a dizer, ela ia se levantando para ir embora, quando parou na porta, com a mão na maçaneta.

— Ah, e... Mais uma coisa... Obrigada por ter ido ao casamento... Eu sei que vocês não eram a favor disso, mas significou muito vê-los lá.

— Agradeça ao Sasuke por ter se lembrado de nós. Só lamento por você não ter se lembrado antes.

— Não foi bem assim. Eu apenas não conseguia encarar vocês.

— Mais uma razão para ter falado conosco antes...

Sakura não conseguiu responder a isso, e saiu sem dizer mais nada. Ela achava estranho o suficiente estar ali, conversando naturalmente com sua amiga a respeito de seus problemas, apesar de sempre ter em consciência que sua amiga não a julgaria por suas escolhas.

No caminho de volta para casa, ela ia pensando em como voltar a trabalhar, já que Sasuke estava praticamente recuperado, e não precisaria mais continuar com aquele acordo que fizeram. Desde o principio achou aquela proposta de fisioterapia a domicilio meio absurda para ela, mas também não poderia reclamar que lhe trouxe o sustento e a aproximação com ele. Mas de repente ela começou a sentir um intenso frio percorrer por seu corpo, como se de repente, o inverno caísse sobre sua cabeça. Ela olha para fora da janela do seu velho carro, para constar que o sol irradiava com toda sua grandeza, e as pessoas usavam roupas leves.

— Sakura!

A voz passou por seus tímpanos como um fio de energia que eletrocuta o corpo, de tal modo que perdeu a concentração e coordenação. O carro derrapou, chegando a bater contra um poste. O carro que passava atrás dela, passou buzinando. Assustada, ela olha freneticamente para todos os lados, tentando compreender o que havia acabado de acontecer, mas não havia pista alguma. Por sorte, ela não estava longe de casa e pode ligar para alguém guinchar o carro, enquanto caminhava pelas sombras até seu apartamento — houve pouco estrago na lataria, mas sua porta não fechava mais.

Enquanto caminhava, notou que não mais sentia aquele frio estranho, e começou a se preocupar ainda mais com seu próprio estado, com medo de estar enlouquecendo.

Ao entrar, largou suas coisas no sofá. Deu uma espiada de longe para a cozinha, procurando por Sasuke, e subiu as escadas. Como ele também não estava no quarto, achou que tivesse voltado para buscar o restante de suas coisas que ficara em sua casa. Então, resolveu aproveitar aquele momento para procurar pela aliança do seu falecido. Abriu o armário do guarda-roupas e tirou uma caixa de sapato dos fundos. Entre algumas bugigangas velhas (canetas, blocos de papel, um velho tubo de pomada para pele, clipes, uma caixa vazia de perfume, um grampeador, e até prendedores de roupa), ela encontrou o velho porta-retratos do seu falecido, que costumava deixar sobre sua cômoda. A foto não estava mais ali, mas ela lembrou-se que havia a tirado dali. Então, vasculhou um pouco mais aquela caixa, na certeza de que só poderia estar lá. Encontrou algumas fotos que tinha da sua infância e adolescência, até que a encontrou. Ela estava virada, mas sabia que aquela era a fotografia pela inscrição que ela mesma havia escrito quando lhe foi entregue a foto.

“Para sempre”

— Para sempre, até que acabe... — resmungou.

Mas ao virá-la, viu que a foto estava completamente manchada. O tubo de pomada estava aberto e havia manchado toda a parte inferior da caixa. Pelo estado da fotografia, havia tempo que o tubo se abrira, pois as cores estavam borradas, e algumas partes da fotografia completamente irreconhecível. O rosto do seu ex marido estava completamente destruído, e mais um parte do rosto dela.

— O que está procurando? — de repente, ela salta para trás. Sasuke estava deitado na cama, com a cabeça na mão, olhando para ela.

— Onde você estava?

— Na cozinha... Eu estava na mesa, anotando o que tínhamos que comprar. A dispensa está ficando vazia a cada dia que passa, sabe?

Ela achou estranho não ter ouvido-o entrar, mas resolveu culpar sua distração. Colocou os objetos de volta à caixa e a guardou no armário novamente. Ao fechar a porta, sentiu como se algo a mais tivesse se aberto. Mas então, para seu alivio, sentiu os braços do Sasuke a envolvê-la, enfiando seu nariz em seus cabelos, acariciando-a.

— Está tudo bem? — ele pergunta.

— Bati o carro quando vinha.

Rapidamente, ele se afastou, fazendo-a virar-se de frente para ele. Sasuke a examina de cima a baixo, preocupado.

— Por que não disse antes? Você está bem? Não se machucou?

— Amassou a lateral do carro, apenas. Já mandei guinchá-lo até uma mecânica.

— Mas o que aconteceu?

— Apenas me distrai...

Pela expressão grave que ele fez, deu para perceber que ele não engolira aquela desculpa.

— E como foi a consulta com sua amiga? — ele indaga.

— Consulta? Aquilo não foi uma consulta, eu apenas fui vê-la.

— Talvez...

— Talvez nada, Sasuke. — emburrada, ela deu as costas, encaminhando-se para as escadas.

Mas ele a deteve no caminho.

— Ok, me desculpe... Falaremos sobre isso em outra ocasião... — e então ele sorri — Eu tenho uma surpresa pra você.

Gentilmente, ele pegou em sua mão, e foi a conduzindo pelas escadas. Ao chegarem no cômodo do andar abaixo, ela se deparou uma sala de estar completamente cheia de flores espalhadas por todos os cantos. Sasuke sorria numa mistura de ansiedade e curiosidade lhe estendendo os braços para recebê-la do modo mais gentil possível.

— Eu já te disse que te amo hoje? — perguntou, ao tomá-la em seus braços.

— Hummm... Não.

— Eu te amo hoje.

— Ontem não amou?

— Não tanto quanto hoje. E provavelmente não te amo hoje tanto quanto amarei amanhã, e assim por diante. Por que a cada dia que passa, eu te amo mais. — respondeu, a enchendo de beijos, depois de derrubá-la no sofá.

— Eu não te mereço... — resmungou, meio melancólica.

— Se você não me merece, eu não te mereço... Mas em que tragédia nos metemos, hum? — ele mordiscou a ponta do nariz dela, enquanto Sakura colocava atrás da orelha dele uma mecha de cabelo que caia sobre o seu rosto.

— Sim... Mas o que eu quero saber é o que você aprontou para me receber hoje com uma floricultura inteira na minha sala.

— Lembra das minhas loucuras?

— Ai...

— Não faça assim... Eu te amo, e quero que você faça parte disso.

Então, sem mais, ele se levantou, e foi puxando-a para fora do apartamento. Mas antes de partirem, ele arrancou uma rosa vermelha de um dos arranjos espalhados pelos móveis, e a colocou no cabelo de Sakura.

— Aonde vamos?

— Você vai ver...

— Sasuke...

— Por favor, por favor, por favor!

Ela suspirou, torcendo para que ele não tenha pensado no que ela mais temia que ele pudesse fazer.

Chegaram na rua no exato momento em que Jiraya estacionava o carro no acostamento da calçada, depois de receber a chamada do Sasuke.

Como Sasuke já estava praticamente recuperado, ele havia voltado a pilotar. Tudo às escondidas dela, é claro, pois sabia que Sakura o proibiria, bem como seu irmão o fizera. Ele aproveitava o tempo em que ela não estava com ele para ir até o clube, mas apenas para pegar o jeito novamente. Fazia isso como um hobby, para passar o tempo, pois somente poderia voltar a pilotar pelo trabalho depois da fisioterapia estar completamente terminada, para não sobrar riscos. Mas para garantir, sempre que voava ia acompanhado de um co-piloto do clube.

Mas agora, depois de tantos meses, ele finalmente se sentia seguro o suficiente para pilotar sozinho o pequeno avião do irmão. Ele parecia tão radiante depois que saia da aeronave, que Itachi acabou cedendo aos caprichos do irmão mais novo.

— Me dê uma pista de para onde estamos indo! — ela resmungou, ao sentar no carro.

— Não.

— Então como é que eu vou te xingar antes de chegarmos lá?

— Ah, tens razão... Então, que tal ficar quietinha, me abraçando e me amando até chegarmos, hum?

Ela revirou os olhos, e ele passou o braço por trás dela. Ficaram em silêncio até o carro parar no estacionamento do clube de aviação e descerem do carro.

— O que estamos fazendo aqui? — ela indagou, desconfiada — Por acaso vamos assistir a algum evento, Sasuke, querido? — seu esforço para não fazer escândalo se ressaltava nas mãos tremulas da moça. Ela não queria brigar novamente com ele por causa daquele assunto, mas também não podia permitir que ele se arriscasse outra vez àquilo.

— Ahmmm... Claro, um evento.

De mãos dadas (e ela segurava a mão dele com bastante firmeza), se encaminharam até o saguão, onde em seguida ele a deixou sentada num banco para se dirigir à recepção. Depois, ele desapareceu com um senhor que o levou para dentro, e não apareceu mais. O lugar estava vazio demais para ser um dia de apresentação. No hall de entrada só havia ela sentada naquele banco, e alguns funcionários caminhando. Sakura já estava começando a se preocupar, quando uma moça se aproximou dela.

— Senhorita Haruno?

— Sim.

— Por gentileza, me acompanhe.

Sem dizer nada, Sakura seguiu a moça pelos corredores. A cada passo que dava, sentia aquele frio na barriga crescer. Ao chegarem na pista de decolagem, ela teve a impressão de que aquela bola de frio que crescia em sua barriga fosse explodir. Principalmente quando viu Sasuke ao lado de um monomotor, conversando com dois homens — um deles, seu irmão Itachi. Ao vê-la, seu sorriso se estendeu, mas o rapaz manteve a compostura. Sakura o viu apertar as mãos dos homens, e em seguida se virou, e subiu a pequena escada para entrar no avião.

Sakura ficou ali, parada, olhando para aquele pequeno avião, segurando seu impulso de querer correr até ele para impedi-lo de voar. E, então, sentiu a mão do Itachi encostar seu ombro, num leve comprimento. Mas ao invés de falar com ela, o homem simplesmente passou sem dizer nada.

Ela teve que suspirar três vezes. Ela não podia entrar no avião, mas não sabia bem o porquê. Só sabia que não podia pisar nele. De jeito algum. Suas pernas não se moveriam, e sua respiração, de repente, parecia presa no peito. Seu corpo todo estremeceu, e súbita vontade de chorar apertava a garganta. Sua cabeça começou a pesar, como se de repente, o sangue tivesse parado de circular na sua nuca. Ela olhou em sua volta, e uma estranha sensação de já ter visto aquela pista, aqueles arbustos, aqueles postes, lhe revirou o estomago. Ela sentiu-se levemente tonta, prestes a desmaiar. Mas, então...

— Sakura...

De repente, toda essa sensação estranha evapora no ar com aquele sopro de vento. Embora seu coração ainda estivesse acelerado, com medo do que estava prestes a fazer, assim mesmo, no entanto, ela caminhou em direção ao monomotor. Daquela parte da pista, ela via o Sasuke, tão compenetrado, mexendo no painel de controles. O outro homem a ajudou a subir no avião, e fechou a porta. Sasuke já estava sentado no banco do piloto, com fones de ouvido e ligando o motor.

— Sasuke... — sua voz saiu tão fraca que duvidou que ele tivesse lhe ouvido.

— Antes de começar a me dar um sermão, me deixe explicar. — ele tirou os fones e se virou para encará-la.

E olhando em seus olhos, com todo esse sentimento à flor da pele, Sasuke perdeu completamente a linha do seu raciocínio, lhe restando somente ser direto.

— Voe comigo.

— O quê?

— Voe comigo. Deixe-me te mostrar o céu. Deixe-me te mostrar a terra lá do alto. Deixe-me te o quão imenso é o mundo e o quão minúsculo somos! Deixe-me te mostrar a sensação de possuir o mundo. Deixe-me te mostrar o que é a liberdade, adrenalina, a paz... — ele começava a falar com tanta intensidade que começou a atordoá-la.

— Espere aí, você não acha que somos livres?

— Não... Não somos, minha querida. Estamos presos nesse mundinho, nessa terra plana, com tudo já pré-programado, tudo pronto. Somos condicionados a viver dessa ou daquela forma, e por isso eu amo essa vida. Por que sou capaz de fazer o que eu quiser, na hora que eu quiser. Mesmo que se fizer algo diferente, e as pessoas me olhem estranho, mesmo que excluam da sua roda... Eu não sei bem como explicar, mas é como se minha própria família me parece estranha, como se de repente eu não mais os conhecesses... E sabe por quê? Por que nós mesmos estabelecemos essas regras, e não sabemos como sair delas. Vivemos em um frasco de vidro, no qual podemos vislumbrar tudo o que há lá fora, mas não podemos experimentá-la. Mas eu quero! Eu preciso... — ela apenas olhava para ele, que falava aquilo com tanta emoção, e sorriu levemente.

— Tenho medo.

— Não deixaria nada acontecer com você. Voe comigo.

Sakura suspirou e forçou-se a sorrir. Sasuke merecia isso dela, merecia tudo dela. Ela o amava, e só agora a ficha estava realmente caindo. Ela estava loucamente apaixonada por ele, e não queria mais ficar longe, não queria decepcionar ou magoar, queria apenas amar.

Olhando para aquele rosto tão iluminado por sua paixão, por seu amor, Sakura se forçou a desarmar todas suas defesas. E então, se deu conta de que seu coração, até então, parecia uma gigantesca muralha rochosa que havia erguido com tijolos de receio, medo, frustração e mais um monte de incertezas. Estivera tão cega por todos os seus problemas, que não conseguia enxergar com a devida nitidez o amor que tinha a sua frente, de braços aberto, oferecendo-lhe tudo. E tudo o que ela queria era deixar-se viver aquele amor que ele oferecia tão abertamente, tão livre e sem obstáculos.

Mas por que aquele era um amor tão difícil?

— Tudo bem... Eu vôo com você.

Ele sorriu lindamente para ela, um sorriso que ela nunca havia visto. Era felicidade, era realmente felicidade. Realização e paixão. E ela sentiu algo dentro do seu coração voltar a bater. Naquele momento, Sakura soube que podia seguir em frente, sem receios, por que ele estaria ao lado dela, sempre. Ela precisava se livrar daquelas amarras invisíveis que a prendia a todo custo para não perdê-lo.

Ela sentou no colo dele, e sussurrou enquanto passava a mão por seu rosto e cabelo.

— Eu vôo com você, todos os dias, desde que te conheci. Tenho voado como um pássaro numa gaiola esse tempo todo, achando que sabia o que é ser livre, por que tinha medo de por as asas para fora... Mas quando estou com você sinto como se pudesse fazer qualquer coisa, e ainda ser feliz. Você me faz feliz de um modo que ninguém jamais fez ou fará. Quando estou com você, me sinto completa e sei que não preciso de mais nada além disso. Esse sentimento de liberdade do qual você necessita... Eu acho que entendo. É como se o vento realmente batesse em meu rosto, mas ele não ultrapassasse minha silhueta. É como se ele me tocasse e voltasse, por que não há mais para onde o vento correr.

Sasuke a olhava com ternura e compreensão no olhar quando a puxou para selarem os lábios num beijo cúmplice, num beijo que os aprisionavam e ao mesmo tempo os libertavam. Ela ainda o abraçou forte, fazendo questão de sentir bem o seu cheiro, seu calor, sua textura, sua presença.

— Você é a melhor coisa da minha vida, e eu também amo você, mais do que qualquer coisa. — rapidamente, ele se acomodou apropriadamente em seu banco, lhe indicando o banco do co-piloto para ela.

— Eu não preciso mexer em nada, não é? —ela indagou, preocupada.

— Não, deixe tudo comigo. Você só precisa colocar os fones. — ele mexeu no bolso de sua calça, para tirar seu aparelho celular. Mas antes, pausa para uma foto! Tenho que registrar isso.

Ela tentou sorrir, mas não conseguia deixar a aflição de lado. Ela parecia colada a sua sombra. Mas ela se esforçou para ignorá-la, assim mesmo, por que sabia que precisava fazer um esforço para agradá-lo, depois de tudo o que ele fez por ela.

Notas finais
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