Pássaros
26 Capítulo 26
Notas iniciais
Pássaros
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Escrito por Amanur e Noel Blue
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Capítulo 26
No meio de uma estrada, Sakura se encontra perdida. O asfalto era o mesmo de sempre, os arbustos à sua volta também, mas algo parecia diferente. A via era mais larga, muito mais espaçosa. E, ao longe, se ouvia um ruído forte, estrondoso, que não conseguiu identificá-lo. Era um som diferente do motor de um carro, embora fosse parecido, era mais potente. Mas para onde quer que ela olhasse, não encontrava a fonte daquele som.
A luz da lua a acompanhou enquanto caminhava pela pista, e aos poucos revelava mais daquele caminho. Quanto mais ela caminhava, mais o vento balançava seus cabelos e a ansiedade a contaminava. Seus passos eram hesitantes, temia encontrar o automóvel novamente, mas o som tornava sua audição entorpecente, incapaz de distinguir de onde ele viria.
E então, de repente, tudo se silencia. Ela ouve o som dos grilos, o farfalhar dos arbustos e a brisa mais calma sussurrando em seu ouvido. E um choro. Alguém parecia chorar em algum lugar.
Sakura tenta caminhar em direção àquele som, até encontrar mais ao longe, escondida na escuridão, uma silhueta. Alguém estava sentado no chão, de pernas encolhidas e cabeça baixa. Ela corre em direção àquela pessoa, mas quando se aproxima o suficiente para identificá-la, a velocidade dos seus passos vão diminuindo. Os belos vermelhos voavam ao vento e, lentamente, ela ergue o rosto encharcado pelas lagrimas.
— Karin? — ela indaga, sem compreender.
A moça não lhe responde. Ela se levanta, com espanto nos olhos, e se afasta como se tivesse com medo. Sakura fica sem entender, e na curiosidade corre atrás da ruiva. Ela chama pela moça, mas em vão. A perseguição continua por um bom tempo, até que Sakura torce o pé e cai no asfalto. E nesse instante, ela ouve uma explosão que vibra em todo o chão e seu corpo.
E ela acorda com a testa molhada, a respiração ofegante e os olhos dilatados... Ela olha para seu teto, tentando entender por que a ruiva apareceu em seu sonho, e por que fugia dela, mas não obteve resposta.
Sasuke dormia ao seu lado. O homem que a fazia sorrir; agora seu novo marido. Ele tinha a mão que carregava a aliança de casamento sobre seu peito, sobre o coração.
Ela ficou olhando para aquela aliança no dedo dele, como se estivesse enfeitiçada pelo pequeno brilho dourado que ela emitia. Ela não sabia ao certo o que pensar sobre aquele casamento repentino. Havia poucos meses que estavam juntos, quase um ano, e de repente ele a arrasta para aquele casamento. Mas ao mesmo tempo em que aquilo lhe soava como uma loucura, aquilo também parecia o certo a se fazer, por que sentia como se o conhecesse há anos, como se o primeiro dia em que o viu no hospital tivesse sido há séculos.
Inquieta, ela se levanta e arrasta os pés até a cozinha. Depois da comemoração do casamento, eles voltaram para o seu apartamento, mas ficara tão bêbada que não se lembra do trajeto, nem quando foi parar na cama.
Ela havia conseguido passar meses sem beber, e a dor de cabeça parecia insuportável junto com aquele mal estar e a costumeira náusea. Lentamente, ela abriu as portas dos armários aéreos para verificar o que havia para comer, e resolveu beber uma xícara de café.
O dia estava começando a amanhecer, quando se sentou na poltrona, olhando para sua aliança. Havia algo nela que a deixava inquieta, insegura, na incerteza de que estava tudo bem. Mas não sabia dizer o que era, por que tinha certeza de que estava feliz com o casamento. Tinha certeza de que Sasuke era a pessoa certa, o único capaz de tirá-la daquela escuridão em mergulhou. O único com o poder da palavra, capaz de fazê-la abrir os olhos para o que lhe acontecia. Mas então, por que essa sensação? Já não mais preocupava com seu falecido marido, não com aquelas questões que a atormentava antes. Ela não pensava mais no homem, sequer conseguia lembrar bem do rosto dele, na verdade. Mas por que a sensação de estar sendo vigiada lhe perseguia? Por que razão aquela voz meio distorcia lhe chamava? Será que estava mesmo ficando louca?
Depois de esvaziar sua xícara, ela correu para seu banheiro e vasculhou a gaveta onde havia deixado a aliança do seu falecido. Mas tudo o que encontrou foram pedaços de algodão, uma caixa de Cotonetes, pasta de dentes, esmaltes e absorventes.
Sasuke ainda dormia tranquilamente, e para não acordá-lo resolveu não procurar mais. Olhou para o relógio na parede do quarto e viu que ainda eram 05h40min da manhã. Assim sendo, resolveu trocar de roupa, escovar os dentes e voltar para a cozinha, pois sabia que Sasuke iria acordar logo quando percebesse que ela não estava mais ao seu lado, e queria demonstrar de alguma forma seu agradecimento por ele escolhe-la como esposa. Desceu as escadas para preparar o melhor o café da manhã.
Enquanto ela tentava afastar seus pensamentos confusos, Sasuke começava a despertar. Virou-se de lado e esticou o braço, mas logo sentiu a cama vazia e fria. Suspirou, já suspeitando que ela tivera outro pesadelo, e abriu os olhos constatando que Sakura não estava mesmo lá. Preguiçosamente, sentou-se na cama e a procurou pelo quarto, olhou para o banheiro e constatou que ela também não estava naquele cômodo. Passou a mão pelo cabelo e levantou-se. Foi ao banheiro, jogou água no rosto e viu de relance o dourado em seu dedo.
Ele estava tão feliz que poderia sair pela casa dando pulos e cambalhotas, mesmo que suas pernas não o permitisse. O dia anterior havia sido de longe o mais feliz de sua vida, e com um sorriso orgulhoso foi procurar sua rosada.
Sakura estava terminando de lavar a louça, com uma canção em mente. Ela não sabia dizer de onde tirou aquela música, que de repente parecia grudada em sua cabeça como uma goma de mascar. Era uma melodia meio melancólica, que a fazia lembrar do sonho, da ruiva sentada no meio da estrada, sozinha, chorando. E então, ela viu aqueles olhos, que pareciam lhe acusar de algo, mas o medo que fluía em seu corpo a fazia se afastar.
— Sakura...
Ela se assustou ao sentir alguém abraçá-la por trás, e sorriu quando sentiu aquele perfume que tanto amava. Enxugou as mãos e virou-se, dando um selinho o abraçando.
— Argh! — ele resmungou — Quando vou ter o privilégio de acordar primeiro para ver o seu rosto adormecido, hein?
— Bom dia.
— Bom dia. Teve outro pesadelo?
— Não... Eu só acordei e não consegui mais dormir... Acho que estava ansiosa com essa coisa toda do casamento. Não consigo acreditar que nos casamos! — sorriu. O que em parte era verdade. Sakura resolveu não contar a verdade, pois os pesadelos pareciam cada vez mais frequentes, e ele sempre acordava com ela. Não queria mais importuná-lo com essa besteira, nem preocupá-lo.
Ele assentiu meio desconfiado e olhou ao redor, deixando seu olhar na mesa, onde estavam algumas panquecas.
— Você fez? — perguntou já indo se sentar.
— Sim, e espero que goste. Se não gostar, coma do mesmo jeito.
Ele a olhou de canto, com aquele sorriso torto.
— Mal nos casamos, e já está querendo bancar a patroa, é? Não se preocupe que eu comeria mesmo se estivesse tostado. Por você, qualquer coisa. — e lançou um beijo no ar, a fazendo revirar os olhos.
Em seguida, ela sorriu com aquele jeito meio bobo dele, sentando-se ao lado do seu marido, e serviu o café na xícara dele, contente por ter alguém ao seu lado para isso.
— No que mais você pensou para nós? — ela indagou, enquanto colocava mel sobre as panquecas.
— Três filhos. Quero desesperadamente ter filhos com você... Quero ver sua barriga crescer, ver você vomitar nos meus sapatos quando sentir enjôos, e quero sair de madrugada para comprar potes de sorvete quando sentir desejos... Quero segurar o recém nascido nos meus braços, e constar que ele tem os seus olhos e o meu queixo. Quero...
— Espere aí, você não está pensando em filhos agora, Sasuke! Isso são planos para daqui a alguns anos, certo? Refiro-me a algo mais imediato, como, por exemplo, onde vamos morar? Aqui mesmo?
— Não... Mas não no rancho, com o Itachi zanzando para lá e para cá... Vou comprar uma casa com um pátio grande para as crianças e uns quinze cachorros... — ele fez uma pausa para tomar o café, e enquanto engolia a bebida, olhou bem para o rosto dela — Mas há somente uma coisa que quero saber agora.
— Hum?
— Está feliz?
Ela tomou um gole da sua xícara também, e olhou para o liquido do seu café com leite. Seus olhos refletiam na bebida, enquanto via a fumaça do calor evaporar no ar. Ela ficou um tempo olhando para sua bebida, sem dizer nada, com uma expressão tão séria que o preocupou. Mas, então, de repente, ela o olha de canto e sorri.
— Mais feliz do nunca. — então largou a xícara e pulou no colo dele para enchê-lo de beijos. — Essa foi a melhor insanidade que já cometi, e a cometeria mil vezes, se necessário!
— Você quase me matou do coração! — ele resmungou, entre os beijos dela.
— Eu sei que não demonstro muito isso, e agora sou eu quem pede desculpa por isso... Mas eu te amo. Te amo, como se fosse capaz de arrancar o coração do meu peito para fazê-lo parar de sentir essa dor que sinto em pensar que tenho tudo isso a perder, Sasuke....
Ele segurou a cabeça dela, encostando sua testa na dela. Olhos nos olhos, ambos sentindo a respiração do outro.
— Você não vai me perder. Serei sempre seu...
Com um suspiro, ela o soltou e voltou a sua cadeira. Tomou mais um gole de seu café, e o olhou meio desconfiada.
— Mas fiquei sabendo que você estava pilotando escondido... — ele, que estava dando uma mordida na panqueca, a olhou rapidamente com os olhos meio arregalados, com aquela expressão de culpado. Pensou que ela havia esquecido daquilo. Mal mastigou e engoliu, ainda olhando para ela.
— Olha, eu posso explicar... — ela levantou as sobrancelhas incitando ele a continuar — É que... Sabe o que é?... É que... Err... Eu amo voar! — e arreganhou os dentes, num sorriso sapeca.
Sakura revirou os olhos. De repente, a raiva tomou conta de suas veias, e não conseguiu controlar sua língua.
— Sasuke, você arriscou a sua vida por um impulso estúpido e imbecil! Você poderia ter morrido por pura irracionalidade! Isso é inadimissível.
— Não chame minha paixão por pilotar de estúpida e imbecil.
— Eu não disse isso. Eu disso que seu impulso foi estúpido e imbecil.
— Um impulso pela minha vontade de tirar os pés do chão. Um impulso por querer viver a minha vida, por que essa é a minha vida!
— Não mais.
— Hehe. Como é que é?
— Eu proíbo você de subir num avião novamente, Sasuke.
Ele apenas riu, em sarcasmo. Mas aquela risada apenas a irritou ainda mais.
— Não estou brincando, Sasuke. Não quero saber de você pilotar qualquer porcaria de avião. Nunca mais! Enquanto estiver comigo, você não subirá mais num avião, entendeu? — de repente, ela começou a tremer em nervosismo, e um sopro de vento gelado parecia percorrer por todo seu corpo.
Ele ficou surpreso, olhando nos olhos dela sem acreditar que ela seria capaz de lhe dizer aquelas palavras, sabendo de toda a sua paixão por vôos.
Então, ele fechou os olhos e suspirou, tentando se acalmar.
— Ok, tudo bem, eu entendo que você esteja preocupada, ou com medo de me perder também... Mas, querida, entenda também que eu não posso evitar isso. Pilotar é a única coisa que eu sei fazer bem. Pilotar é a minha vida. Eu dependo disso pra sobreviver, para respirar, para continuar são. Se eu parar de pilotar, eu vou enlouquecer novamente, como aconteceu naquela merda de hospital.
— Não. — ela estava determinada a impedi-lo, a todo custo, e ele conseguia ver nos olhos dela que não havia a menor chance de convencê-la do contrário.
Aborrecido, ele não terminou seu café da manhã. Levantou-se para deixá-la sozinha na mesa.
Ela praguejou, irritada com nem sabe o quê. Ela entedia muito bem a necessidade dele, sabia que ela mesma estava sendo irracional, mas seu medo era muito maior. Não iria se perdoar por perder seu marido novamente. E perder o Sasuke? Era pior do que qualquer coisa. Se o perdesse tinha certeza de que jamais seria capaz de se recuperar novamente. Só de pensar nessa possibilidade, seu corpo estremecia e os olhos inundavam numa vontade louca de gritar, de quebrar aquele silêncio que havia colocado em sua garganta.
— Sakura...
De repente, ela ouve o som da porta da frente bater. Num salto, ela corre até a sala, para constar que Sasuke saia.
— Onde está indo, Sasuke?
— Quando nos casamos, não me lembro de ter assinado algum acordo dizendo que lhe devo satisfações para cada passo que eu der, Sakura. — respondeu, rispidamente.
O pavor lhe bateu num soco no estomago e, sem pensar duas vezes, ela largou tudo para ir atrás dele, com aquele mau pressentimento em suas costas.
Mas ele parou no meio das escadas, ao perceber que ela tinha intenções de segui-lo.
— Relaxa, Sakura, só vou buscar minhas coisas em casa. — e então, sem dizer mais nada, ele se afastou. Desceu os últimos degraus da escada sem dizer mais nada.
Ela se apoiou na sacada do prédio com vista para a rua e o esperou. Esperou por vários minutos, mas ele não apareceu como se tivesse evaporado. Preocupada, ela correu pelos últimos lances de escadas até a rua, mas não o encontrou. Estranhou, por que não havia outra saída, mas acabou se convencendo de que apenas o perdera de vista.
De volta ao seu apartamento, começou andar de um lado para o outro, preocupada. Aquela sensação ruim estava presente novamente, como um espectro sobrevoando sua cabeça. E por algum motivo, ela se lembrou da primeira vez que ele se encontraram, quando pequenos. Ela havia se surpreendido com o pequeno garoto sentado no chão, de pernas cruzadas, com várias folhas de papel colorido ao seu redor, fazendo pássaros em origami.
A lembrança daquele dia a emocionou, e precisou sentar-se no sofá. Ficou olhando para um ponto especifico no chão, como se precisasse se lembrar de algo mais. Mas tudo o que lhe veio em mente foi a luz do carro e o som dos pneus cantando no asfalto. E então, o choro da Karin, e seu olhar de pavor, fugindo.
De repente, ela teve vontade de correr para a banheira e se afogar. Subiu as escadas até o banheiro, ligou a torneira e entrou nela sem tirar suas roupas. Enquanto esperava a banheira encher, tentava compreender por que não seria capaz de se sentir em paz. Por que havia sido condenada a sofrer daquela forma, mesmo depois de encontrar a pessoa certa.
— Será que esse tempo todo a culpa havia sido minha? Será que eu sou o problema? — choramingou para si mesma.
A banheira estava cheia, e ela mergulhou de olhos abertos, prendendo a respiração. Prendia ao máximo que conseguia, ultrapassando os seus limites junto com aquela angustia que apertava o peito e engasgava na garganta.
— Sakura...
Um vulto passou em sua frente, como uma assombração. Uma sombra escura, não definida.
E, então, as mãos do Sasuke a puxaram para cima.
— Mas que porra você está fazendo? — apesar do tom irritado, ele a abraçou — Sakura, não importa o que aconteça, no sol ou numa tormenta, no céu ou na terra, num sonhou ou na realidade, que minhas palavras te alcance! Você não vai me perder, e eu não vou perder você, não importa onde for, está me ouvindo?!
Ela jogou seus braços em volta dele, e começou a chorar como uma criança desesperada e confusa, por não saber onde está o seu machucado, onde doía mais. Ela, mais do que qualquer um nesse mundo, queria que seu casamento desse certo, mas não importa o quanto se esforçasse, era como se as forças na natureza fossem contra.
— Eu não quero te perder, não quero te perder!
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