Pássaros
22 Capítulo 22
Notas iniciais
Pássaros
.
Escrito por Amanur e Noel Blue
.
Capítulo 22
O frio na barriga, a expectativa transformada em nervosismo, mais aquela bagunça ridícula na sala... De repente, ela quis se dissipar no ar como aquela fumaça do cigarro. Rapidamente, ela correu para dar uma “ajeitada” nas coisas. Havia sapatos, papéis de jornal, xícaras de café, alguns pequenos aparelhos de fisioterapia que levava para a casa do Sasuke... Ela apanhou tudo, deixando sobre a mesa da cozinha, para tornar a sala mais apresentável, enquanto resmungava desculpas para aquilo.
— Eu disse que tinha coisas para fazer em casa, não foi mesmo?
— Não se preocupe comigo... — ele estava mais interessado no ambiente como um todo, do que nos detalhes. Sasuke olhava para os móveis, os poucos quadros, a estante de livros e os títulos nele, e notou que a maioria eram livros técnicos — Eu tive um professor na faculdade que sempre nos fazia ler um romance. Ele dizia que eles nos tornavam mais sensíveis aos problemas do dia-a-dia. Livros técnicos são importantes, sem dúvidas, mas um pouco de ficção faz bem.
— Infelizmente, não tenho muito tempo para eles. — ela respondeu, enquanto chutava uma sandália para baixo do sofá, sem que ele visse — Você aceita beber algo?
— Um café.
Ela pensava em algo mais forte, como um vinho, mas ele realmente parecia meio alheio a suas intenções. Então, sem dizer nada, se meteu na cozinha para preparar duas xícaras de café. Voltou em seguida. Ele já conseguia segurar a xícara, mas precisava de ambas as mãos, que ainda tremiam. Ainda era um esforço grande, mas o fato de conseguir beber algo independentemente já era um grande alivio para ele.
Ouviam apenas o som dos cães latindo na rua. Eles se olhavam, desviavam o olhar, e tornavam a se encarar novamente. Ele queria que ela começasse alguma conversa, pois temia não começar por um bom assunto, mas Sakura esperava o mesmo dele porque estava com o olhar focado naquele rosto, mas com a mente em outro lugar.
— Já trouxe algum homem para cá, antes? — ele resolveu arriscar.
Ela ainda o encarava.
— Não. — não alguém que representasse para ela o que ele representava.
— Quer que eu vá embora?
Mais silêncio. Agora ela parecia estar presente naquele ambiente, com sua própria bebida quente intocada nas mãos. Ela sentia o cheiro forte e revigorante do café, enquanto mergulhava na escuridão dos olhos negros dele.
Sasuke estava sério, ao mesmo tempo interrogativo.
— Me disseram, uma vez, que jamais devemos tomar algo de uma pessoa, ou de um lugar, seja qual ou o que for, sem repor aquele espaço vazio deixado... — ela respondeu.
Sasuke estreitou os olhos, pensando naquilo. Suas mãos ainda estavam levemente trêmulas sobre seu colo, segurando a xícara vazia, mas estava concentrado no olhar dela.
— Esse é, provavelmente, o melhor conselho que alguém poderia dar... E é interessante frisar que não se trata de uma substituição, não é mesmo? — ele ponderou.
— Não, não é. É apenas cobrir um vácuo.
Eles ficaram em silencio por mais alguns instantes. Ela ainda pensava naquilo, mas estava mais calma, mais relaxada, mais habituada a presença dele em sua sala. Já Sasuke estava um pouco impaciente, e balançava o dedão do pé, dentro do seu sapato.
— Posso usar seu banheiro? — ele disparou, de repente.
Ela olhou em direção as escadas.
— Fica lá em cima. — resmungou.
— Oh..
Ela não queria ter que levá-lo até lá, com medo de correr o risco que entrasse em seu quarto. Ela não queria que ele visse a cama que compartilhou com seu marido em momentos íntimos, nem que ainda guardava coisas do falecido — que, apesar de estarem bem guardadas e escondidas, as coisas ainda estavam lá.
Mas Sasuke, de repente, se sentiu impotente, e baixou os olhos para sua xícara, e ela percebeu. Num salto, ela se levantou, tomou a xícara das mãos dele e a pôs ao lado da sua sobre a mesinha de centro, e foi guiando a cadeira dele até os pés das escadas.
— O que está fazendo? — ele questionou.
— Ajudando-o a subir os degraus. — ela trancou as rodas da cadeira, e se posicionou na frente dele, oferecendo suas mãos para erguê-lo.
— Mas eu realmente estou cansado por ter ficado tanto tempo de pé com aquela pirralha. Só de olhar para essas escadas me canso. — o que realmente era verdade.
Mas ela não ia se deixar vencer por isso. Não depois de vê-lo desanimado quase toda a noite. Então, a única solução que encontrou foi improvisar pernas para ele. Ela se agachou de costas na frente do seu paciente, oferecendo as costas.
— Então eu o levo. Ou pretende fazer xixi aí nas calças? — ela tentou provocar algum sorriso nele, mas Sasuke não estava com disposição para piadinhas.
— Na verdade, eu estava pensando em voltar para casa.
Ela suspirou, e sentou no degrau da escada, olhando para ele.
— E eu que achei que era a com problemas de depressão por aqui... Você está parecendo uma criança, Sasuke.
Ele dilatou as narinas e trincou a mandíbula, antes de responder.
— Você quer que eu banque o adulto, então, tudo bem! Por que cargas d’água você saiu com aquele imbecil do Neji, quando sabia das minhas intenções? Por que não é possível que você não tenha percebido quais elas eram, Sakura! Acho que desde o primeiro dia que nos vimos estou tentando conquistá-la, mas você sempre dá um jeito de escorregar entre os meus dedos, e estou começando a achar que é só porque eu não tenho mais capacidade para fechar o punho!
— Mas do que você está falando? Eu estava lá, Sasuke, e vi o modo como você olhava para aquela mini prostituta!
— Não fale assim dela!
— Oh, me desculpe. Te ofendi? — irritada, ela se levantou do degrau e deu a meia volta pela cadeira, e se jogou no sofá.
Ela ainda chutou seus sapatos para longe, sem se importar com mais nada; encolheu as pernas sobre o sofá, abraçando-as como se estivesse se protegendo se uma possível guerra por vir. Enquanto isso, Sasuke conseguiu destravar as rodas e, com os botões, girou a cadeira e foi até ela.
— A Hinata me ajudou em muita coisa, e eu não podia simplesmente dizer não para ela. Eu passei várias tardes brincando com a menina, mas era só isso! Ela tinha quinze anos, pelo amor de Deus!
— Sim, mas ela tem dezoito agora. E, nossa, você a viu? Ela é tão linda, tão jovial, que nem pude acreditar. Eu já estava de queixo caído pela Hinata, mas a Hanabi parece ter literalmente caído do céu.
— Acho que agora é você quem está bancando a infantil, Sakura. Sua baixa auto-estima não tem nada a ver com ela.
— Outch!
— É a verdade.
— A questão é que eu vi você me deixando lá, sozinha. O que mais você acha que eu iria fazer? Ficar lá, sentada, assistindo aquele show que ela dava, se esfregando em você, sem fazer nada?
— E o que você acha que eu deveria ter feito? Empurrado ela para longe, com essa enorme quantidade de músculos fortes, só que não? — ele rebateu, em sarcasmo.
— Você poderia ter dito não, desde o inicio! Você poderia ter dito que queria dançar comigo! Você poderia ter dito que estava cansado, ou sei lá o que?! As possibilidades eram inúmeras.
— Ah, por favor, era o aniversário dela!
— Ah, e o livro dos aniversariantes diz que é proibido negar algo a eles?
— O livro de etiqueta diz!
Ela bufou, revirando os olhos.
— Ah, é verdade, me desculpe. E o mundo explodiria se você cometesse essa gafe, realmente.
— Me desculpe se isso te incomoda, mas eu gosto de ser educado, sempre.
— Sim, sim, claro...
— Há muita coisa sobre mim que você não sabe, não é mesmo?
— Temo que isso possa ser um problema.
— Só se você deixar isso ser um problema. — ele ponderou.
Ela desvirou o olhar, irritada. Mas ela tinha plena consciência de que ele estava certo. No entanto, isso não amenizava em nada sua frustração, apenas a aumentava em proporções ridículas. Agora era ela quem queria explodir o mundo, por que se sentia uma idiota imatura, ciumenta, e até mesmo invejosa.
Mas Sasuke agora sorria para ela, e isso a irritou mais ainda, fazendo-a fechar a cara.
— A gente deveria brigar mais vezes. — ele comentou, mais tranqüilo — Já reparou como é durante as brigas que mais conhecemos as pessoas?
— É, eu me sinto muito bem por revelar a você esse meu lado infantil, estúpido e irracional, realmente fico contente por estarmos brigando... — ela resmungou.
— Bom, acho que isso depende do ponto de vista. O que eu percebi foi que você está caidinha pelo meu charme e não suporta a idéia de me ver com outras.
Agora ela sorriu, mas ainda relutante, sem querer dar o braço a torcer. E Sasuke achou que ela ficava muito bem daquele jeito.
Ela suspirou, para acalmar os nervos. Ficam em silencio durante alguns segundos, até que ela mordeu a ponta do polegar, pensativa. Olhou para ele, meio de canto, meio acanhada, e revirou os olhos quando viu que ele ainda sorria para ela. Então, resolveu arriscar.
— Você ainda quer ir embora?
— Hum... Não... Acho que posso ficar mais um pouco. Se você me deixar, é claro.
— Eu deixo.
— Ótimo... Porque não sei se eu agüentaria segurar o xixi até em casa. — brincou.
Ela revirou os olhos mais uma vez, e se levantou. O guiou até as escadas, e se pôs na mesma posição.
— Te aviso que sou um homem se ossos largos!
— Hehe... Isso não existe.
— Eu sempre disse que o problema do Jiraya era o tamanho da barriga, não dos ossos, mas ele insistia em dizer isso... Bom, mas eu vou pagar pra ver você me carregar por esses degraus.
— O que quer dizer com isso?
— Exatamente o que está pensando, sua fracote.
— Não sou fracote.
— Vamos ver...
Num impulso, ele se levantou, e caiu sobre as costas dela. Depois de acomodá-lo bem, com um passo de cada vez, aos poucos, ela foi carregando-o escada acima. Não eram muitos degraus; eram dez, ao total. Mas como a cadeira ficou embaixo, ela também o carregou até o banheiro. E Sasuke se divertia vendo-a se esforçar em carregar seu peso morto, ao mesmo tempo que sorria por estar sentindo o toque dela, e sua pele quente.
— Ainda há tempo de desistir. — ele resmungava.
— Não vou desistir.
Ao chegarem no destino, com cuidado, o pôs de pé no chão, e o ajudou a pegar o próprio equilíbrio.
— Consegue ficar de pé?
— Consigo. — respondeu, se segurando em tudo ao seu alcance.
— Quer que eu fique? Pense em mim apenas como sua médica, agora.
— Por mais que eu gostaria, não conseguiria, então, dê o fora daqui. Não se preocupe, se eu cair você ouvirá.
Ela já esperava por uma resposta daquelas, mas para não deixá-lo desconfortável, preferiu acatar com o pedido dele. Ela fechou a porta atrás de si, e o aguardou no corredor. Enquanto isso, ela imaginava como seria viver com ele naquele apartamento, como seria poder acordar todas as manhã olhando para aquele rosto... Até que, se deu conta que a porta do seu quarto estava aberta.
Ela o ouviu dar a descarga, e resolveu correr para o quarto. A cama estava bagunçada, e havia roupas por todos os lados. Enquanto ela se apressava em organizar tudo, ou disfarçar a bagunça, ao mesmo tempo matinha os ouvidos atentos.
Mas depois de lavar as mãos, Sasuke resolveu bisbilhotar o armário dela. Havia o estojo de maquiagem, a escova de cabelos, cremes para a pele, e mais um monte de acessórios femininos. Tudo parecia normal, até encontrar uma aliança dourada sobre a pia. Ele estranhou, se perguntando o que aquilo poderia estar fazendo ali, e há quanto tempo estava ali. Se ela ainda o usava quando estava sozinha em casa, ou apenas não queria tocá-la.
Ele a pegou para analisá-la de perto, e percebeu que havia uma data escrita na parte interna da aliança. Pelo ano, ele supôs que se tratava do dia em que se conheceram, ou começaram a namorar... Olhando em volta, começou a imaginá-la com aquele homem misterioso, na relação que tinham... Ele não queria ter chegado a esse ponto, pois sabia bem que jamais poderia competir com um homem morto, mas era inevitável imaginar a mulher que ele queria com seu ex. Era estranho, e a sensação de não poder fazer nada, neste caso, talvez fosse ainda pior.
Ele ainda tentou enfiar a aliança em seu dedo, mas logo viu que aquela realmente era dela, e a colocou de volta no lugar.
Com cuidado, ele abriu a porta. Logo se deu conta de que ela estava dentro do outro cômodo — havia ali, somente o banheiro e seu quarto —, ao ouvir o barulho. Suas pernas ainda estavam bambas, mas como o corredor era estreito, ele conseguia se apoiar bem, com ambas as mãos em cada parede, e arrastar os pés até aquele quarto.
Sakura se assustou ao vê-lo ali, enquanto empurrava tudo para dentro do guarda-roupa, e correu para apoiá-lo.
— Você ainda não está apto para sair caminhando assim, Sasuke.
— Eu discordo. — ele respondeu. Mas estava ofegante, e a testa suava, contradizendo-se
Ela revirou os olhos e o guiou ate sua cama. Ele desabou sobre o colchão, sem a menor cerimônia. Estava com os olhos fechados e os lábios entreabertos, tentando recuperar o fôlego. E ela o observava atentamente. Ele ali, naquela cama, tão à vontade. Ela tentava desviar o olhar para não ver o marido no lugar dele, mas era impossível. Então, deu as costas, para terminar de empurrar sua bagunça para dentro do armário, e não viu quando ele se ergueu para pegar o porta-retratos que estava de costas — como se fosse algo proibido de se ver, atiçando a curiosidade do moreno.
Fale com o autor