Notas iniciais
Boa leitura.

Pássaros

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Escrito por Amanur e Noel Blue

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Capítulo 2


Ela estava no carro, sentada no banco de passageiro. Alguém dirigia, mas ela não conseguia virar o rosto para vê-lo; o automóvel corria pela estrada numa velocidade estupenda, e ela se segurava com todas as suas forças no banco. Nervosa, Sakura apenas conseguia olhar para frente, vendo aquele túnel se aproximar cada vez mais, com aquela boca enorme prestes a engoli-los.


De repente, uma luz ofuscante surge de dentro do túnel. O carro buzina, os pneus cantam no asfalto, e ela grita com todas as forças s seus pulmões.


— AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!


E então, abre os olhos, com a respiração ofegante. O calor dos raios começou a incomodar na pele, e preguiçosamente ela cobriu o rosto com as mãos. Custou a se habituar à luz até enxergar a lâmpada sobre sua cabeça e, então, viu que o teto era o mesmo, as paredes brancas também, assim como as cortinas cor de creme que não tapavam aquele sol.


Nada mudou.

Ela havia adormecido novamente no sofá, sem lembrar bem como. As memórias da noite anterior se misturavam com outras, e ela já não sabia nem dizer em que dia da semana estava.


Lentamente, com algum esforço, Sakura sentou. A dor de cabeça veio de repente, anunciando mais uma ressaca, e ela praguejou para si. A sua frente, aquela tentadora nova garrafa de vinho lhe convidava a mais uma taça. Ela não pensou nem duas vezes, e bebeu no próprio gargalo, e lamentou quando o ultimo gole escorreu pela garganta.


Sua mente ainda não estava processando bem o novo dia, e ficou ali, sentada, olhando para o espaço vazio entre a mesa de centro e a estante da televisão, como se algo a encantasse e entristecesse ao mesmo tempo. Ela queria rir sem motivo algum, e chorar por que o peito doía com a cicatriz daquela ferida mal curada. Mas se viu obrigada a se levantar ao ver seu relógio de pulso marcar nove e vinte da manhã — já estava atrasada, e, nos últimos meses aquilo tem se tornado uma constância em seu dia-a-dia.


Ela cambaleou até seu quarto, arrastando os pés no chão, sem o menor ânimo. Depois de repetir o mesmo ritual pelo qual passara nas ultimas semanas (água no rosto, a troca de roupas e escova nos cabelos), pegou as chaves do carro e foi até sua garagem. O trânsito continuava caótico, como sempre. Aliás, a impressão que tinha era de que a cada dia que se passava mais carros havia pelas ruas.


Novamente, estacionou mal o carro ocupando duas vagas. Um homem que deixava seu carro do outro lado a olhou feio quando passou por ele, mas ela não deu a menor bola. Sakura foi seguindo direto para recepção e, como sempre, passou seu cartão na máquina de pontos. A recepcionista a olhou torto, e Sakura piscou o olho para ela. As duas não se davam muito bem, desde que Sakura reclamou da moça por “dormir em serviço”, mas a moça só estava distraída com sua leitura e não a viu chamá-la para atender uma de suas pacientes que precisava dar baixa no hospital.


— Tsc! Bêbada! — ouviu a outra resmungar baixinho, fingindo que anotava alguma coisa. Sakura não deu ouvidos, e seguiu seu caminho até o elevador.


Ao passar pela sala de espera, encontrou em torno de dez pacientes a esperando. Ela forçou um sorriso, resmungando desculpas pelo atraso, mas, como sempre, alguns não admitiam e a encheram de reclamações.


— Está sempre atrasada! — ouviu uma senhora resmungar para outra.

— Quanta falta de respeito!

— É falta de responsabilidade!

— Não estou pagando para ela fazer o que bem entende!


Ela bem que tentou contornar a situação, os enchendo de desculpas esfarrapadas como o trânsito lento, e mentiu sobre ter tido algum compromisso urgente de última hora no primeiro momento da manhã. Mas claro que alguns não acreditaram, por sentirem aquele rastro de odor alcoólico que ela deixava ao passar.


Fora isso, sua manhã ocorreu tranquilamente. Conseguiu atender todos à tempo (tendo que se apressar com algumas senhoras que gostavam de puxar assunto), e saiu no horário do almoço para comer com seus amigos, dez minutos atrasada.


Desta vez, ela os encontrou já sentados numa mesa, aos fundos do restaurante. Assim que a viram, todos se calaram. Estava mais do que óbvio que falavam sobre ela, mas Sakura estava de saco cheio de se importar com as coisas, e simplesmente desabou na cadeira a frente do Naruto, com sua bandeja já em mãos.


Enquanto revirava alguns tomates no prato, percebeu o olhar analítico da amiga morena sobre si. Sakura bem que tentou não ligar para isso, mas chegou um ponto que aquele olhar começou a incomodá-la e foi preciso manifestar-se.


— O que foi? — perguntou, diretamente à Tenten, que deu de ombros.

— Alguma vez, alguém já lhe disse para que servem os amigos?

— Claro! Roubar batom e pegar sapatos emprestados para não devolvê-los... — ela olhou para Ino, insinuantemente, mas a loira desviou o olhar fingindo que se concentrava na comida de seu prato.


Naruto pigarreou.


— E a festa? Sábado à noite?

— Não. — Sakura respondeu.

— Ela quis dizer que vai. — e Tenten se intrometeu — Nem que tenhamos que arrastá-la pelos cabelos.


Sakura a olhou torto, enquanto Naruto vibrava. Estava claro que o loiro pretendia investir na rosada, e as suas amigas o apoiavam dessa vez, mas Sakura se sentia muito desconfortável com aquela idéia.


Tenten contou quantas vezes Sakura levou o garfo à boca, e definitivamente se preocupou quando a viu se levantar da cadeira depois daquelas três míseras garfadas. Mas, por experiência, sabia que era melhor não comentar nada ainda. Sakura precisava de amigos, não de um psicólogo; pelo menos, por enquanto.


Sakura arrastou os pés de volta para sua sala, onde trocou de jaleco, pegou suas coisas, e foi para o oitavo andar. Na recepção da sala de recuperação, deixou suas coisas e foi ver o paciente mais critico que tinha. Mas chegando lá, a cama do Sasuke estava vazia. Voltou à recepção, e perguntou à enfermeira-chefe onde ele se encontrava.


— Ele foi levando de manhã para um quarto privado. Ele está no 523. — a mulher lhe disse.


Ela pegou a relação dos seus pacientes que haviam sido movidos, mas antes de descer, deu mais uma olhada no senhor de 58 anos, que havia operado o cotovelo e permanecia em observação na sala de recuperação. Praticou alguns exercícios de movimentos básicos, porque ainda estava inchado. E então, foi até o quinto andar.


Ela deu três batidas de leve na porta, anunciando sua entrada, depois de pegar a ficha que os médicos penduravam na porta de cada quarto, com os dados do paciente. Ao abri-la, encontrou um homem sério, de braços cruzados, olhando pela janela. Ele não percebeu sua presença, até se aproximar da cama. Mas Sakura estava surpresa ao ver que Sasuke estava usando uma máscara de oxigênio, e deu uma olhada na ficha. Ali constava que Sasuke tinha tido uma parada respiratória breve, porque sofria de asma, e foi atendido prontamente.


No momento, entretanto, ele estava desacordado.


— O senhor é familiar do paciente? — ela indagou, sem tirar os olhos dos papéis, ao notar que ele a observava.

— Sou irmão dele... A senhora saberia me dizer se ele vai melhorar?

— Trabalharemos para que isso aconteça, mas muita coisa depende do próprio paciente.

— Ele pode usar próteses, não pode?

— Como disse, muita coisa depende do paciente. Mas ainda é muito cedo para falarmos em próteses...

— Ele pode recuperar todos os movimentos?

— A princípio, o caso dele é irreversível, mas temos um médico muito competente, estudando tratamentos que tem dado algum efeito. Será um processo lento, e será preciso paciência e esforço.

— Ele vai enlouquecer... — ele falou para si mesmo, quase em um sussurro.

— Não se preocupe, para casos como esse, o hospital oferece assistência psicológica. — ela comentou, procurando na ficha a assinatura da Tenten, em algum lugar. Mas pelo que constava, Sasuke não havia sido visitado por nenhum dos psicólogos do hospital ainda.

— Ótimo, porque o plano de saúde dele é completo. Eu quero que ele tenha tudo o que tiver direito! E se faltar algo, avisem! — o homem pareceu meio autoritário e, seu comentário, Sakura percebeu, saiu quase como uma reclamação.


Ela sorriu para ele levemente, em simpatia forçada, antes de se aproximar de Sasuke e levantar o lençol, deixando suas coxas à mostra. Ela tirou uma caneta de ponta fina do jaleco e cutucou o meio da coxa para ver se receberia alguma reação do paciente, mas não houve movimento algum. Em seguida, ela tentou o mesmo, mas agora na parte superior do corpo. Espetou a ponta da caneta nos ombros, obtivendo nenhuma resposta. Ela fez mais algumas anotações, sentindo o olhar do outro sobre si.


— A propósito, sou a fisioterapeuta encarregada de cuidar do seu irmão.


Ele se aproximou dela, estendendo a mão para cumprimentá-la.


— Me desculpe os modos, mas ainda estamos muito chocados com o que aconteceu... E ele é o único irmão que tenho...

— Claro, entendo perfeitamente. — ela desviou o olhar dele —... Podes me dizer em detalhes o que aconteceu? Conversei pouco com ele, mas tudo o que consegui foi saber que houve um acidente com um monomotor.

— Ele estava testando um monomotor que ganhamos há um mês, mas só o havia pilotado três, vezes. Ainda estão investigando o que houve, mas os peritos acreditam em falha no motor. Ele explodiu em pleno ar, mas Sasuke conseguiu pular pouco antes disso, com um pára-quedas que não funcionou direito. Se não tivesse saído, teria morrido...

— Como foi o resgate?

— Imediato. Ele ainda estava dentro da área do clube de aviação, e eles sempre têm uma ambulância de plantão, por que bem ao lado tem um clube de jóquei.

— Então, o acidente ocorreu pouco depois da decolagem?

— Exato.


Sakura fez mais algumas anotações, acrescentando aqueles detalhes na ficha do paciente.


— O senhor ficará de acompanhante dele?

— Vou revezar com a noiva dele...

— Ok. Talvez eu volte mais tarde para vê-lo, mas se isso não acontecer, voltarei amanhã, com certeza. Qualquer coisa que precisaram, é só puxar a alavanca ao lado da cama dele, que uma enfermeira virá.

— Obrigado.


Sakura largou a ficha do paciente no local indicado, ao lado da porta no corredor. Ela arrastava as pernas, olhando para os pés, se lembrando do dia do seu noivado. Mas logo se desfez do passado, se focando no presente.


Fez mais algumas paradas em alguns quartos, para atender o restante de seus pacientes. Ela já se sentia exausta, e estava louca para mergulhar em sua cama. Então, sem enrolações, entrou no quarto de uma mulher de meia idade que havia caído e quebrado a perna em três lugares, e tinha pinos implantados nos ossos. Depois foi atender uma garota de 13 anos que sofria de hemiplegia; ela não conseguia relaxar o músculo, e estava sempre a sorrir graças a um derrame cerebral causado por uma epilepsia. Ela atendeu mais alguns idosos com artrite e artrose, até chegar a seu ultimo paciente; um rapaz de 17 anos que teve poliomielite.


Ao terminar suas visitas, já passada nove na noite, se encaminhou diretamente para a sala da Tenten esperando que ela ainda estivesse no hospital, e de preferência sozinha. Parou em frente a porta branca com o nome da morena numa placa simples de metal, e bateu três vezes até ouvir a voz da outra a mandar entrar.


Tenten já se arrumava para ir embora, e organizava alguns papeis sobre a mesa.


— Sakura? Você precisa de algo?— perguntou a morena, desconfiada. Desde que tudo aconteceu, Sakura quase não falava com ninguém, muito menos procurava as pessoas.

— Preciso de sua ajuda com um novo paciente. — disse sem rodeios, ignorando o tom surpreso da colega.

— Oh, claro. Quem seria?

— O paciente do 523, que sofreu um acidente com um monomotor. Ele fraturou a coluna, e está tetraplégico. — disse olhando para a morena, que a olhava atentamente — Falei pouco com ele, mas já deu pra perceber que vai precisar de atendimento psicológico. Falei também com o irmão dele, que deu o mesmo a entender. Não sei por que o hospital já não lhe convocou para isso... Nesses casos, psicólogos são sempre requisitados.

— Bom, você sabe, falhas internas, diretor novo... O setor está uma bagunça. Naruto me pediu para ver um paciente, que teve duas paradas cardíacas também; um senhor de idade, com câncer terminal. Mas vou enviar uma requisição hoje mesmo, antes de ir embora, ao o departamento para ver se consigo atender o seu paciente o mais breve possível.

— Acho que os familiares dele também precisarão de alguma assistência.

— Pode deixar. Mais alguma coisa?

— É só.


Sakura já ia dando as costas e abrindo a porta para sair, quando Tenten a interrompeu.


— Você sabe que estou aqui para você também, certo?


Sakura não respondeu, apenas respirou fundo e deu as costas saindo dali, e indo direto para sua sala pegar suas coisas e sair daquele hospital o mais rápido possível.

Notas finais
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