Notas iniciais
Mais um, boa leitura!

Pássaros

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Escrito por Amanur e Noel Blue

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Capítulo 19


Já era parte da rotina de Sakura se deparar com uma garrafa de bebida ao seu lado ao se levantar, como uma companheira reconfortante que sempre lhe faz companhia. Não era mais por necessidade, ou pelo menos ela dizia a si mesma que não, mas por força do hábito — ela precisava beber para dormir melhor, ela precisava beber para se sentir menos solitária, ela precisava beber para relaxar... As desculpas eram inúmeras. O fato é que os pesadelos com o acidente que não presenciou estavam cada vez mais ausentes em suas noites, o que era bom para a paz em seu espírito atormentado por aquele fantasma. E agora ela tinha Sasuke a sua frente, lhe dando mais perspectiva, um propósito pelo qual seguir. Mesmo que por um tempo indeterminado — aquilo poderia acabar mais cedo do que conseguia prever, como também poderia durar mais tempo do que imaginava. De qualquer forma, ela resolveu não pensar nessa questão. Era melhor fazer como Naruto lhe dizia, e seguir em frente. Já estava mais do que na hora de se erguer, e ela sabia disso. Talvez tudo o que precisasse fosse aquele empurrão.


A ausência do espírito do seu marido estava desaparecendo aos poucos. Sem que percebesse, ela já não sentia mais tanta sua falta. Ela ocupava aquelas lembranças com a expectativa de ver Sasuke novamente, enquanto aquele crescente frio na barriga lhe dava ansiedade.


Ela se olhava em frente ao espelho pela enésima vez, se perguntando se estava realmente bem naquela calça jeans branca e blusa azul, quando alguém apertou sua campainha.


— Pronta? — indagou o velho Jiraya, quando abriu a porta.

— Uhum. — pegou a bolsa do sofá, fechou a porta.


No trajeto, ela permaneceu calada admirando a paisagem campestre, quando o motorista saía da zona urbana da cidade. Ela imaginava que Sasuke morasse num casarão em algum bairro nobre, portanto, ficou surpresa ao entrarem no sítio. Ele não parecia ser o tipo de homem que apreciasse o campo...


O motorista/zelador dos Uchiha a deixou bem em frente ao casarão, lhe indicando a porta de entrada. Com um “sinta-se a vontade”, Sakura se viu sozinha naquela enorme jardim florido, com apenas o campo verde ao redor. Hesitante, ela subiu os degraus, de repente se lembrando de que não tinha nenhum aparelho de fisioterapia consigo. Ela tinha, claro, alguns apetrechos pequenos, que conseguia carregar na bolsa, mas precisaria de aparelhos maiores, como um andador, por exemplo, e uma bicicleta ergométrica — mais futuramente. Mas diante daquela maçaneta prateada, tudo aquilo lhe parecia irrelevante diante do medo de não saber o que dizer para ele, quando aparecesse a sua frente, assim, de repente.


Mas é claro que ele já a aguardava, e era tolice dela pensar o contrário. Quando entrou, Sasuke a esperava em sua cadeira de rodas, olhando distraído pela janela coberta por uma fina e transparente cortina branca.


— Fiquei me perguntando quanto tempo levaria para decidir entrar de uma vez. — ele resmungou, com um sorriso de canto. — Por acaso está nervosa? — e então, olhou para ela, parada na soleira, o encarando.

— Só estava checando meu celular. — ela resmungou de volta. Achou que aquela desculpa fosse mais convincente do que o simples nervosismo sem motivo.


Ele sorriu em resposta, acreditando ou não, pois não lhe faria diferença. Com algum esforço, conseguiu apertar o botão (estrategicamente acoplado no apoio de mão da) da sua cadeira automática, para fazê-la andar até a moça.


— Itachi comprou alguns aparelhos de fisioterapia. Venha, a levarei até lá. — e então, ela foi o seguindo por um longo corredor.


Ele a levou pela sala até uma porta de vidro que dava para o lado de fora da casa. Atravessaram um jardim colorido, que cercava uma enorme piscina, e seguiram até chegar à outra porta de vidro, numa pequena cabaninha nos fundos do casarão. Os aparelhos de fisioterapia já estavam organizados, esperando para serem usados.


Somente quando entraram, ele resolveu quebrar o silêncio.


— Tínhamos esse lugar desocupado, apenas para colocar tralhas, e quando decidi que queria voltar para casa e fazer fisioterapia aqui mesmo, Itachi mandou tirar tudo e fazerem uma pequena reforma.


O lugar tinha espaço suficiente, era arejado por duas janelas enormes que estavam abertas. Tinha também um ar-condicionado, o chão era de madeira lisa e polida, e as paredes pintadas de um tom mais claro de bege. Tinha tudo o que uma sala de fisioterapia precisava, e ela agradeceu mentalmente por ter um trabalho a menos — não se preocupar com sua falta de preparação para aquela tarefa.


— Então você já tem tudo pronto. — ela olhou ao redor e virou-se para ele — Cá entre nós, como você sabia que eu aceitaria?


Ele a olhou profundamente, como se a desafiasse a algo, e ela temeu que ele pensasse errado sobre sua pessoa. Ele não poderia mesmo supor que estivesse ali apenas pelo dinheiro, por mais óbvio que pudesse ser. Mas apesar do constrangimento, ela manteve-se segura de si, e rebateu o olhar da mesma forma desafiadora, como se o estimulasse a dizer o que pensava sobre ela.


No entanto, Sasuke amenizou a expressão séria, e sorriu de lábios colados.


— Eu não sabia, eu só arrisquei. Acho que arrisquei certo. — aquele sorriso de lado a fez suspirar e revirar os olhos. Sasuke deu outra analisada nela; estava com o cabelo preso em um coque apertado, embora ele gostasse mais dele solto, ela ainda estava bonita. Estava com uma roupa simples e não o usual jaleco. Queria perguntar algo para ela, e a olhou interrogativamente. Sakura mirou seus olhos nele e bufou.

— O que foi?

— Você... Você está bem?


A pergunta foi retórica, mas a pegou de surpresa justamente por sê-lo. Sakura olhou bem em seus olhos depois dessa pergunta, que nem mesmo ela sabia responder. Ela estava bem? Era a pergunta que muita gente (até demais) costumava a fazer. E todas as vezes que respondeu “estou bem, obrigada” não era verdade. Ela nunca esteve bem desde a perda, mas agora era diferente, não era?


Ela deu um pequeno sorriso, mas verdadeiro.


— Sim, Sasuke. Eu estou bem. — e dessa vez, talvez, ela não estivesse mentindo.


Sasuke sentiu uma pequena onda de alivio se apoderar de seu coração e se deu conta de um fato: Ele realmente sentiu falta dela, muita falta. E pensando nisso, ele quis que tivessem se conhecido em outras circunstancias, em uma em que ele não estivesse numa situação tão horrível como aquela. Ele queria poder concertar ela e não ao contrario, mas de alguma forma, sabia que se ajudavam mutuamente, ou pelo menos ele tentava, já que ela dificilmente abria brecha.

Nesse instante, a enfermeira peituda entrou no local, para ajudá-la com o que fosse preciso. Eles começaram, então, com a fisioterapia.


— No hospital você mostrou que conseguia mover o dedo... Ainda consegue?


Sasuke mostrou que não apenas movia o dedo mínimo, como os cinco dedos. Os movimentos eram fracos, mas já mostrava que a cirurgia do doutor Kabuto fora um sucesso total. Aos poucos, ele conseguia se libertar cada vez mais daquele seu corpo enrijecido, e a sensação de liberdade era algo que renovava seu espirito. Agora ele só precisava recuperar as forças nos músculos, para soltar suas asas novamente pelo céu.


Sakura, por sua vez, sentiu uma emoção estranha vendo aquele simples movimento que para muitos não significaria tanto como significava para ambos. Como a sensação de dever cumprido, esperança e alivio.


Ela tirou as sapatilhas dos pés e se aproximou de onde ele estava em cima de um dos tatames, onde Tsunade o tinha colocado com o auxílio de uma cadeira de plástico própria para aqueles exercícios. Ajoelhou-se e tocou sua mão onde ele tinha feito os movimentos.

— Isso é muito bom, é incrível. Mas ainda temos muito trabalho pela frente, ok? — comentou dando um sorriso de encorajamento. Sentando-se perto dele, a moça olhou para a Tsunade e pediu-lhe que alcançasse alguns dos equipamentos.


Primeiro ela exercitou os músculos das mãos, deu-lhe uma pequena bola para fazer pressão, apertar ao máximo que podia, e depois o fez tentar fechar as mãos — primeiro sem ajuda e depois com a ajuda dela. Às vezes, quando ambos estavam em silencio, seus olhos se encontravam e eles ficavam naquele entendimento mútuo, e então ela desviava rapidamente, voltando a falar sobre como ele estava indo bem.


Depois de um tempo, ela o deitou com a ajuda de Tsunade e pegou sua perna esquerda e levantou, a elevou na altura do peito e voltou, fez o mesmo movimento algumas vezes mais até notar ele mordendo os lábios e fazendo careta, ela revirou os olhos e parou.


— Você tem que dizer quando não aguentar mais, Sasuke. Não podemos forçar demais.

— Não precisa parar, posso aguentar mais do que isso, continue.


Ela o olhou e balançou a cabeça negativamente e pegou a outra perna, repetindo o mesmo processo da outra. Depois de algumas repetições, agora prestando mais atenção às limitações do paciente, o deixou reto no tatame, com o homem já ofegante e suado.


Discretamente, e por curiosidade, Sakura pegou uma agulha de sua bolsa e sem que ele percebesse, espetou a sola do pé. No mesmo instante, ele deu um pequeno puxão no músculo de sua perna esquerda, fazendo com que um sorriso crescesse no rosto da rosada. Sasuke, no entanto, olhou para ela meio assustado, meio sorridente.


— E-eu não fiz isso. — ele disse olhando dela para Tsunade.

— Não, foi seu cérebro. Sua sensibilidade está voltando. Você não tem controle ainda, por isso quando mais fisioterapia, mais controle vai conseguir obter.


Eles continuaram com os exercícios até o anoitecer. A coisa estava fluindo bem; quando um dos dois cansavam, eles faziam uma pausa. Conversavam mais sobre o que havia sido feito, e que era preciso fazer. Ela na verdade estava entretida, e não viu o tempo passar. Era bom poder ocupar a mente com outra coisa que não fosse o álcool; era bom poder ver um rosto familiar.


A fim de manter aquele acordo estritamente profissional, os dias se passavam tal qual deveriam ser. Ela chegava, trocavam cumprimentos, não muito afetivos, além do necessário, e logo partiam para os exercícios. Tanto ele quanto ela, estavam inteiramente focados na recuperação, e não viam o tempo passar. No final do dia, Jiraya a deixava em casa, e ela aos poucos foi retomando sua rotina, se adaptando às mudanças.


Quando uma semana se passou, e já estavam no Domingo, a data para a festa, no entanto, Sasuke se recusou a fazer a fisioterapia. Pediu para Jiraya que a fosse buscar mais tarde, depois das quatro da tarde e, se possível, sem que ela percebesse, se infiltrasse em seu apartamento e pegasse a caixa com “aquele” vestido e trouxesse discretamente.


Não foi uma tarefa muito fácil para o velho, mas ele conseguiu fazer com que ela o convidasse a entrar, pedindo por um copo de água.


— Está tão quente lá fora, que poderia derreter. — resmungou.

— Imagino... Entre, não repare na bagunça. — ela deu as costas a ele, praguejando por não ter nada limpo, e ter que se por a lavar louça — Estranhei a mensagem do Sasuke, ele está bem? Foi muito vago.

— Ah, sim — ele respondeu, se encaminhando para as escadas, subindo o andar — Ele apenas precisou resolver alguns problemas referente ao trabalho dele. Até então, ele não havia se pronunciado sobre o acidente. Itachi havia apenas enviado um comunicado, mas não informou nada sobre a atual situação dele.

— Ah, entendo.

— Querida, sem querer abusar, se importa se eu usar seu banheiro também? — perguntou, ao perceber que ficava no andar de cima.

— Claro. Já levarei seu copo com água. Fica na primeira porta a esquerda, no andar de cima.


Foi, então, que ele conseguiu vasculhar o quarto dela, em busca do vestido — e não levou muito tempo, pois ela o deixara ainda embrulhado na caixa sobre sua cômoda, junto com os sapatos. Rapidamente, torcendo para que ela não tenha reparado que ele não havia entrado sem nada nas mãos, ele abriu a caixa e o colocou tudo numa sacola que trouxe dobrada no bolso da calça. Em seguida, correu para o corredor, entrou no banheiro, e apertou a descarga do vaso sanitário, para, então, descer.


— Você tem um apartamento muito bom. — ele comentou.

— Ah, obrigado. Só lamento a bagunça... — ela não quis dar mais explicações para aquilo, com medo de que a julgasse na defensiva.


Ela entregou o copo com água para ele.


— Não se preocupe. E obrigado pela recepção. — então, bebeu tudo num rápido gole.


Enquanto o copo esvaziava nas mãos dele, ela percebeu que havia algo nas mãos dele, que parecia esconder atrás de si, mas não disse nada. Ela realmente não tinha certeza de que ele havia trazido algo consigo, mas sabia que ele era de confiança e por isso não pensou muito naquilo.


Quando chegaram no casarão, Sakura encontrou um Sasuke sorridente, completamente contraditório ao que lhe dizia.


— Estou muito cansado, acho que deveríamos fazer uma pausa. — ele comentou, como quem não queria nada, já prevendo que ela havia se esquecido daquele compromisso com o qual se comprometera — Passei o dia todo para lá e para cá... Além disso, vejo que você também está cansada, não é mesmo? Deve estar com dores nas costas pelas posições em que se coloca para os meus exercícios...

— Para ser sincera, estou mesmo. Acho que vou ter que cobrar massagens por isso.

— Isso é um convite, doutora? — ele abriu o sorriso, divertido com a insinuação mal pensada da moça.


Sakura, automaticamente enrubesceu e pigarreou, desviando o olhar.


— Bom, acho que já que não há o que fazer, vou embora... Eu bem que poderia usar esse dia de folga para cuidar do meu apartamento...

— Na verdade, tenho um plano muito melhor do que passar o resto da tarde varrendo o chão e esfregando o banheiro. — ele lançou um olhar insinuante ao velho, que acabara de entrar na sala, após ter estacionado o carro na garagem. Entendendo a mensagem, ele entregou a sacola para ela.


Sakura olhou de um para o outro sem entender.


— Que tal um pouco de diversão? Acho que nós dois precisamos.


Desconfiada, ela olhou para dentro da sacola, e contraiu o cenho ao reconhecer o vestido e o sapato.


— Me desculpe pela intromissão. — Jiraya resmungou.

— Não sei com quem eu deveria ficar brava... — ela respondeu, olhando para o Sasuke.

— Fique brava comigo, eu sou o lobo mau dessa história, não é mesmo?

— Tenho outra escolha?

— Não mesmo.


Ela revirou os olhos, e se foi ao banheiro, já razoavelmente familiarizada com os cômodos da casa. Enquanto se caminhava pelos corredores, no entanto, ela se perguntava sobre como seria o quarto do Sasuke. E olhando para trás, para certificar-se de que ninguém a via, ela se atreveu a ir um pouco mais para o fundo do corredor, onde algumas portas fechadas lhe pareciam convidativas.


A primeira porta que tentou estava fechada, e se perguntou por quê. O que teria de tão importante que devesse ficar bloqueado para os olhos dos próprios empregados da casa? A segunda porta que abriu, lhe mostrava um quarto comum, com uma escrivaninha de madeira e móveis de madeira, num estilo antigo. Quando se preparava para fechar a porta, reparou nos porta retratos sobre uma cômoda, e percebeu que se tratava do quarto do Itachi. Havia fotos dele com uma moça, com o irmão antes do acidente, e com um casal que poderia ser seus pais. E então, ela se deu conta de que durante todo esse tempo em que estivera ali, ajudando o Sasuke na recuperação, ela não tinha visto o cabeludo, e tentou imaginar o que diria quando o visse novamente.


A situação em que ficaram era tao constrangedora, que ela sentiu ali mesmo vergonha de si.

Finalmente fechou a porta, e abriu a terceira, se deparando com uma parede de pássaros de papel coloridos. Ela ficou hipnotizada pelas cores chamativas, que a convidava a se aproximar mais para analisa-los melhor. Eram cores quentes, acolhedoras e reconfortantes. Por mais estranho que parecesse, ela conseguiu visualizar um Sasuke ali, protegido por aqueles pássaros.


Cuidadosamente, ela foi passando o dedo pelos papéis, pelos móveis, imaginando a historia que poderia haver por trás daquilo tudo. Não havia retratos, no entanto, mas ela teve certeza de que aquele era o quarto dele, ao ver seu pássaro, feito com papel de jornal que pegou às pressas alguns dias antes de sair do hospital.


Imediatamente, ela lembrou da criança no hospital, que um dia encontrara, e se perguntou o que ele estaria fazendo lá. Nunca havia se questionado por que aquela criança era uma paciente do hospital...





Notas finais
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