Notas iniciais
Boa leitura.

Pássaros

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Escrito por Amanur e Noel Blue

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Capítulo 14

O inverno havia chegado, sem previsão de neve a cair nos próximos dias, embora estivesse frio demais para sair por aí sem estar bem agasalhado. Sakura levantou a cabeça e olhou pela janela da cafeteria vendo o tempo cinzento e gelado lá fora. Respirou fundo e tomou mais um gole do seu café puro e quente, aquecendo o corpo e a alma, mesmo que fizesse efeito apenas por alguns minutos. Todos os músculos de seu corpo estavam doloridos, talvez por ter dormido de mau jeito sentada na poltrona dura de sua casa, mas não ligava realmente. Ainda pensava nos acontecimentos do dia anterior, quando soube que Sasuke havia piorado, e que Itachi planejava processá-la caso ele piorasse ainda mais. Teve vontade de chorar, por que ele estava daquele jeito por sua culpa, mas ela havia acordado aquele dia decidida a não chorar mais. Estava cansada de derramar lágrimas, ou toda a sua cota havia se esgotado. Mas para aliviar aquela pressão que sentia contra o peito, discretamente, ela derramou de seu pequeno frasco de prata uma dose de vodca no café.

— Onde estava com a cabeça? Porque sempre faço tudo errado? — indagou para ninguém em particular.

Ela tomou o último gole de seu café e levantou-se. Caminhando lentamente para o caixa, onde uma mulher gordinha de meia idade atendia clientes. Pagou a conta, arrumou o cachecol envolta do pescoço o casaco no corpo e logo saiu dali, indo para o aconchego e abrigo do seu carro.

Foi dirigindo em direção ao hospital, olhando sempre a frente, mas sem realmente estar atenta. Estava com olheiras e, embora a pouca maquiagem disfarçasse, ainda dava para perceber a noite mal dormida. Seu cabelo preso em um coque alto, meio frouxo, ajudava no visual cansado de seu olhar meio perdido, enquanto ela ouvia o ronco do motor.

Parando em uma vaga qualquer do estacionamento, pegou a bolsa, o jaleco e saiu dali. Bateu o ponto e não falou com ninguém enquanto andava até a sua sala. Fechou a porta na chave, largou suas coisas sobre a mesa, foi até a janela, afastou as persianas e a abriu deixando o ar fresco daquela manhã fria soprar seus cabelos.

Ela pôs a cabeça para fora, inalou uma grande quantia de ar para os pulmões, e prendeu a respiração o quanto pôde. Se antes a ausência lhe perturbava, a aceitação de que a presença de seu marido não estaria mais por perto começou a atormentá-la ainda mais. Por que, até então, era inaceitável, para ela, viver sem ele. Mas porque essa idéia não lhe parecia mais absurda era o x da questão. Desde quando parou de sentir sua falta? E o que isso significava? Que não o amava mais? Ou que todo esse tempo ela não passava de uma dependente dequele homem?

Sakura segurou firme o peitoral da janela, como se depositasse toda sua raiva ali. Seu corpo tremia levemente e ela apertou os olhos fechados, mas logo os abriu quando o vento gelado veio e balançou alguns fios de seu cabelo, que haviam se soltado do coque.

Com outro suspiro, se sentindo um pouco mais aliviada, voltou até a porta para girar a chave. Alguns segundos depois, alguém bate. Ela autoriza a entrada, e um homem de meia idade, baixo e um pouco gordinho, surge a sua frente. Ela sorri simpaticamente e ele senta-se, logo confessando seu problema.

— Sinto muitas dores no pescoço e costas, há uma semana.

Ela o examinou e marcou alguns dias de fisioterapia e um remédio para aliviar a dor. O resto de sua manhã foi assim, uma consulta atrás da outra, resumindo o de sempre, embora sua mente estivesse o tempo todo em Sasuke, e não mais em seu marido.

Quando saiu para almoçar, se deu conta de que estava sem apetite algum. Em todo caso, ainda pagou por um copo de vitaminas, que tomou enquanto caminhava pelos corredores do hospital. A cantina, de repente, parecia um local estranho, onde todos olhavam para ela, ou talvez, estivesse apenas ficando paranóica, como ela mesma pensou.

Após o último gole da sua vitamina, ela foi arrastando os pés em direção ao banheiro dos funcionários. Ela ficou parada de frente para o enorme espelho da parede, mas não se viu no reflexo por que estava cansada de ver aquela imagem. Sakura apenas pegou da bolsa seus apetrechos para escovar os dentes. Enquanto a escova deslizava, lentamente, de um lado para o outro, num movimento mecânico e exausto, uma enfermeira afobada aparece a procurando.

— Dra. Haruno, o paciente do quarto 523 acordou, mas está meio delirante, chamando seu nome. O Dr. Kabuto mandou lhe chamar com urgência.

Ela cuspiu tudo na pia, às pressas, e saiu correndo do banheiro com a enfermeira lhe seguindo como uma sombra. Ao entrar no quarto, deu de cara com Itachi andando de um lado para o outro, prestes a abrir uma cratera no chão. O Dr. Kabuto estava do outro lado do quarto, trocando a bolsa de soro do paciente, que tinha o rosto tomado por suor.

Sasuke estava de olhos fechados, mas parecia com dificuldades para respirar, e resmungava coisas incompreensíveis. Ao vê-la se aproximar, o médico deu uma rápida ajustada nos óculos que caiam do seu rosto, e a encarou com veemência, pronto para atacá-la com seus discursos de ética e moral.

— Ele está com quarenta graus de febre e acabei de tomar conhecimento sobre os seus abusos, Dr. Haruno. — ela olhou para o Itachi, que a olhava de canto, hesitante, incerto de ter feito a coisa certa, e depois olhou para a enfermeira que desviou o olhar — Me dê um bom motivo para não ir agora mesmo denunciá-la por maus tratos ao meu paciente!

— Ele é meu paciente também, e tenho tanta autonomia quanto você para aplicar meus métodos de tratamento.

— MÉTODO DE TRATAMENTO? Levá-lo para fora do hospital para passear com ele é um método de tratamento agora? Você só pode estar de brincadeira! — o médico bufou.

— Ele está em depressão por estar confinado dentro deste quarto, rodeado de gente doente, de pessoas que apenas o faz lembrar suas condições! Ele precisa voltar a ver o mundo lá fora, para voltar a ter esperança de que pode volta a fazer parte desse mundo! Já faz mais de dois meses que ele está aqui! Já está mais do que na hora dele... — bruscamente, ele a interrompeu.

— Desde quando a senhora mudou sua habilitação para psicologia? Por que, de acordo com o formulário dele, que tenho em mãos — ele mostrou a prancheta que estava até então embaixo do seu braço —, ele está perfeitamente bem.

— A depressão não é tão fácil de se diagnosticar, e tenho meus motivos para acreditar que nossa colega psicóloga esteja errada quanto a sua conclusão... — ela resmungou.

Kabuto a olhou espantado pela ousadia da fisioterapeuta, enquanto Itachi a olhava com curiosidade. Mas Sakura sabia que estava dando um tiro na base da sorte, mas ela realmente prezava pela saúde de seu paciente, e acreditava piamente estar dizendo a coisa certa.

— Falou a voz da experiência, Dra. Haruno? — havia um tom sarcástico e ameaçador na voz do médico, com aquela indagação que ela não apreciou — À propósito, como vai seu alcoolismo?

Ela cerrou os olhos, preparando-se para as próximas palavras do ortopedista de seu paciente. Kabuto era conhecido por ser um dos melhores e mais caros do país, portanto, o mais arrogante de todos. Ninguém gostava dele, embora sua cartela de clientes fosse a melhor. Pois além de atender no hospital, ele tinha seu próprio consultório, onde atendia políticos e celebridades, particularmente. E no próprio hospital ele desfrutava de alguns privilégios que somente as autoridades do setor administrativo usavam, como uma sala nova, equipamentos novos, e entre outras preferências.

— Com todo o respeito, doutor Kabuto, a minha vida particular não é da sua conta! O senhor não tem outros pacientes para atender? — ela questionou.

Até então, Itachi tinha se mantido fora de cena, apenas observando tudo o que era dito com atenção. Mas cansado de toda aquela ladainha, enquanto Sasuke agonizava na cama, ele saiu da sala para chamar a enfermeira chefe responsável pelos pacientes daquele andar, pronto para dar um fim naquilo tudo.

Sakura viu que algo estava para acontecer, enquanto Kabuto apenas sorriu para ela.

— Se eu fosse você, Dra., voltaria para sua sala, pegaria sua bolsa e não voltaria mais. — e apenas com isso dito, ele deixou a sala.

Restaram apenas os dois, paciente e fisioterapeuta, naquele quarto irritantemente branco, como se tudo ali fosse puro. Ela se apoiou na guarda inferior da cama, para não deixar seu corpo desabar no chão, porque ela não queria sair do hospital. Aquilo tinha sido a única coisa que a mantinha sã.

E ela ainda tinha o Sasuke... E a promessa que fizera a ele.

O homem não respirava mais com dificuldade, embora ainda suasse. Ele ouviu tudo o que foi dito ao seu redor, mas sentia-se debilitado demais para intervir naquela discussão. Mas ao se dar conta de que não havia mais ninguém, fez um esforço para que algumas palavras saíssem de sua boca.

— Deixe-o... Tirar a sua... Licença. — resmungou.

Ela o olhou surpresa, tanto por ele estar consciente, quanto pelo que ouviu dele.

— Não! É o meu trabalho! Isso é a única coisa que sei fazer na vida!

— Deixe-o... Tirar a sua licença. — insistiu.

Ele só podia estar mesmo delirando, e por isso não continuou aquela conversa. Apenas se aproximou do criado mudo ao seu lado, onde havia uma caixa de lenços de papéis, do quais tirou algumas folhas para enxugar sua testa. Ela encostava na sua pele com cuidado, como se sua deficiência fosse cutânea.

Ele tentava manter seus olhos abertos, mas seus globos giravam. Ele se sentia exausto, quente e frio ao mesmo tempo, mas com muito esforço conseguiu encostar o dedo mínimo na mão que ela se apoiava no colchão, e enroscou seu dedo entre os de sua médica.

Sakura ficou por um bom tempo olhando para aquele dedo, sem acreditar no que via. Lhe faltou ar, e precisou lembrar-se que deveria dizer algo.

— Sasuke... Desde quando...? — não conseguiu terminar a frase, tão emocionada ficou.

— Deixe-o... Tirar a sua licença. Eu... Tenho um plano. — e então, ele perdeu a consciência bem no momento em que duas enfermeiras chegaram ao lado do seu irmão, com analgésicos e antitérmicos.

Aquilo não fazia muito sentido, e ela ficou encarando ele por alguns instantes, enquanto observava as enfermeiras injetarem os medicamentos na veia do paciente.

Itachi, no entanto, interpretou aquele seu silencio de outra forma, achando que ela estivesse preocupada com as ameaças do médico. E, sentindo-se mal pela fisioterapeuta, resolveu tentar esclarecer as coisas.

— Espero que você compreenda o que está acontecendo... Eu não a quero como inimiga, mas...

— Mas também não me quer perto do seu irmão. Eu entendi.

E então, ela deu as costas, sem deixá-lo se explicar.

Sakura fez exatamente como haviam lhe sugerido. Ela aproveitou a porta aberta deixada pelas enfermeiras que finalizaram seu trabalho ali, e correu para sua sala. Às pressas, pegou sua bolsa, e deixou o hospital sem olhar para trás.

Mas ao invés de seguir seu caminho até em casa, ela dirigiu até o local do acidente em que seu marido foi encontrado.

O sol já estava em seu percurso ao se pôr, quando ela parou o carro no acostamento. A estrada estava deserta, bem como lhe havia sido descrito pelos policiais. Já não havia mais marcas de sangue nem dos pneus, mas ela se deitou no local em que lembrava bem de tê-los visto. Mas ao invés de ficar se lamentando, Sakura sorriu para aquele céu azul de poucas nuvens enquanto o vento frio soprava seus cabelos. Ela abriu bem os braços e as pernas, e fechou os olhos, se sentindo levemente mais aliviada por não estar mais presa àquele local.

Notas finais
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