Notas iniciais
Boa leitura.

Pássaros

.

Escrito por Amanur e Noel Blue

.

Capítulo 13

O dia seguinte veio como um banho de água gelada — de repente, sem anúncio, e eletrizante. Sakura saltou da cama banhada por suor depois de um pesadelo estranho com seu ex-marido. Ele a perseguia de carro, enquanto ela corria pelas ruas vazias, desesperada, até ele dar a volta e parar a centímetros dela. Os faróis acesos a cegou momentaneamente, e Sakura caiu no chão, assustada, com medo de morrer. Chegou a machucar as mãos, e o coração acelerado lhe dava a impressão de que estava prestes a parar. Então, ele saiu do carro batendo a porta, pisando forte no chão, e lhe dizendo a coisa mais estranha do mundo.

— Sakura, não faça isso! — quando olhou para o rosto dele, ao invés do seu marido, ela viu o Sasuke.

E a expressão de terror no rosto dele lhe deixou marcas ao abrir os olhos para aquela manhã, junto com uma enorme enxaqueca. Ela não tinha tomado vinho, mas havia bebido cinco garrafas de cerveja. As palavras dele não saiam de sua cabeça, tão vividas e improváveis. Apesar de tudo, ela o conhecia bem o suficiente para saber que ele jamais lhe diria tal coisa, mesmo após a morte.

Afastando o sonho estranho para um canto esquecido da mente, tão logo pôs os pés no chão para dar inicio ao seu dia, sua campainha tocou. Ela achou que poderia ser engano, ou o vizinho irritante do lado querendo alguma coisa, e não foi atender. Desfez suas roupas pelo caminho até o banheiro, e quando abriu a torneira do chuveiro, ouviu a campainha tocar novamente — desta vez, mais furiosa, insistente e incessante.

Rapidamente, Sakura se enrolou na toalha, pegou uma das garrafas vazias sobre seu criado mudo, e desceu as escadas. Cautelosamente, olhou pelo olho mágico da porta, mas não viu ninguém.

— Quem está aí? — perguntou.

— Abra a porta. — diz outra voz.

Sakura congelou.

A voz pareceu idêntica ao do seu marido. Seu corpo estremeceu, as pernas fraquejou, e num piscar de olhos ela abriu a porta.

Mas era Itachi quem estava do outro lado.

Talvez o sonho lhe deixou mais impressionada do que percebera. Mas a decepção foi tão perceptível que foi quase palpável, e o homem percebeu que ela havia empalidecido.

— Você está bem? — ele quis saber.

Os olhos dela encheram de lágrimas, mas ela se manteve firme.

— Pensei que fosse outra pessoa. — ela se apoiou na porta, discretamente, para não cair no chão — Aconteceu alguma coisa? — a voz dela saia num fino sussurro enfraquecido pelo nervosismo, que ele notou. Mas estava preocupado demais com outra coisa para querer saber mais da vida dela. Além disso, ele suspeitava de que ela não fosse lhe dizer nada; não o permitiria entrar em sua vida particular, como da outra vez. Então, ele resolveu ir direto ao assunto.

— Na verdade, sim. Sasuke desapareceu por algumas horas ontem, do hospital, e voltou de repente. Passou mal à noite. Está com infecção, com febre alta e delirante. Um dos pontos se romperam. Havia bastante sangue nas cobertas dele. O coitado não sentiu nada, é claro... E agora, ele não está comendo, e sente náuseas. Mas a questão é que uma das enfermeiras disse que foi você quem o levou. Então, eu vim para lhe avisar que, se ele não melhorar em dois dias, vou processá-la. Vou fazer o possível para que tirem sua licença, e você não possa mais trabalhar nunca mais dentro de um hospital.

Ela o olhou surpresa, e temerosa. Não pela notícia, pois ela já suspeitava de que ele não estava muito bem ao final do dia, mas pelo homem que estava a sua frente. De repente, Itachi, que antes se mostrara gentil, cuidadoso e prestativo, apesar de um pouco misterioso, estava completamente severo e rígido, lhe deixando um tanto intimidada por sua masculinidade. Ele tinha um olhar completamente diferente do lhe acolheu quando ela lhe pediu socorro.

E sem mais a acrescentar, ele deu as costas. Itachi sentia pena dela, e gostaria de poder entender mais o que se passava na cabeça daquela mulher, mas ele acreditava que deveria pôr seu irmão em primeiro lugar, como prioridade máxima. E essa era uma causa pela qual ela lhe dava razão, apesar de tudo. Se realmente fosse a responsável por expor seu paciente a alguma bactéria, deveria arcar com as consequências. E sabia bem que se não fosse pelas mãos do Itachi, seria pelo seu chefe superior que, com certeza, não deixaria aquela negligência passar despercebida.

Por isso, tudo o que fez foi suspirar, fechar a porta e voltar para o seu banho. Quando saiu do chuveiro, encarou aquela sacola bonita, com aquele vestido maravilhoso do qual jamais seria capaz de pagar. Apesar de ter sido muito bom para ela, seu marido jamais lhe comprou presentes. E nem ela se sentia a vontade para pedir que ele lhe comprasse algo. Ele não era do tipo romântico, e não sabia fazer surpresas, e ainda era meio mesquinho com algumas coisas. Ele gastava bem com viagens e comida, mas raramente comprava algo para casa. A falta de romantismo dele era o que mais incomodava nela. Se ao menos ele demonstrasse o que sentia, talvez as traições não teriam doido tanto. Mas, para ele, tudo tinha que ser transparente — com exceção de suas escapadas. Ou, pelo menos, ele gostava de pensar que era, por que ela sempre descobria pelas pistas óbvias que o idiota deixava.

Se algo acontecesse ao Sasuke, ela jamais se perdoaria.

Antes de sair de casa, quando já passava pela sala, ela se lembrou de algo. Algo do passado, que por razão nenhuma, à princípio, lhe veio em mente. Então, ela pegou uma folha de jornal, recortou um quadrado perfeito, e o dobrou aqui e ali, formando uma figura. O guardou na bolsa, e correu até seu carro.

Ao chegar no hospital, deu de cara com Naruto na recepção, que tentava passar cantada na recepcionista, ao mesmo tempo em que pedia para ela assinar alguns papéis. Mas assim que a viu, ele mudou completamente de postura, fazendo com que a moça detestasse ainda mais a presença da fisioterapeuta.

Ela tentou esboçar um sorriso, que logo esmaeceu na desistência. Ele não iria ceder, e talvez jamais voltariam a se falar. Então, apenas marcou o seu ponto de chegada, e foi caminhando em silêncio. Mas contrariando sua crença, ele a parou no meio do caminho, no corredor.

— Você sabe que as noticias correm rápido aqui dentro, não é? — ele resmungou.

— Quem não sabe? — ela deu de ombros.

— Aparentemente, você mesma. O que tinha na cabeça quando resolveu levar aquele seu paciente daqui, Sakura? Por que está se arriscando desse jeito?

— E porque você resolveu falar comigo agora? — ela achou peculiarmente irritante o modo como ele a abordou, querendo, de repente, se meter nos assuntos particulares dela, como se nada tivesse acontecido entre eles.

— Por que do contrário do que você pensa, eu ainda me preocupo com você. — ele hesitou por alguns instantes, olhando diretamente nos olhos dela — Eu não te entendo, Sakura. Você sabe que isso é antiético, e ainda assim corre o risco de ficar sem emprego por um paciente que você mal conhece! Por acaso está apaixonado por esse cara?

— É claro que não! — ela arrancou o pulso da mão dele, e seguiu adiante pelo corredor, até entrar no elevador. Ela estava chocada e irritada pela presunção dele; não compreendia como ele pôde chegar àquela conclusão.

Mas Naruto não desistiu. Determinado, saiu marchando atrás dela.

— Então, por quê? Apenas me diga um motivo para o que você fez! — ele insistiu.

— O que eu faço ou deixo de fazer é problema meu!

— Ah, é verdade. Eu tinha me esquecido que você gostava de bancar a difícil. Pelo menos isso não mudou. Ou será que para o seu paciente você foi mais fácil?

Ela lançou um olhar que poderia matá-lo, se tivesse poder para tal. E ele percebeu que estava indo pelo caminho errado daquela conversa... Mas havia se deixado levar longe demais para voltar agora.

— Oh, você está ofendida agora? Por que essa é novidade para mim. Achei que a única emoção que você sabia exibir era sua depressão patética sem fim. — ele se calou imediatamente, se dando conta de que havia ido longe demais, apesar da satisfação que aquilo lhe trouxe por jogar aquela verdade na cara dela.

E Sakura olhou chocada para ele, completamente sem reação àquilo. Desde quando seus sentimentos eram tão insignificantes assim aos olhos daqueles que considerava amigos?

Sem dizer nada, ela apenas virou o rosto para a pequena tela digital que mostrava os andares. Impaciente, ela batia o pé no chão, e se agarrava com todas as suas forças a sua bolsa de ombro. Ela estava furiosa, louca para socar alguma coisa. E para que Naruto não fosse a vítima, ela preferiu encarar aquele painel elevando os números, enquanto trincava a mandíbula. Ela tinha vontade de chorar, mas desta vez pela raiva que sentia ferver no sangue.

— Sakura, me desculpe... Eu não deveria ter dito isso. — ele tentou se redimir, mas já era tarde demais.

O elevador abriu as portas e ela saiu correndo, para o mais longe possível dele.

Em sua sala, ela se trancou com todas as suas forças. Jogou sua bolsa com força no chão, e chutou o pé da sua mesa, fazendo algumas coisas cair no chão. Ela não queria estar ali, nem ter que atender nenhum paciente, mas aquela era a sua vida, sua obrigação. Ela tinha que pôr de lado seus problemas para solucionar os dos outros, e isso foi uma escolha que ela mesma fizera. Mas também nunca pensou que seria tão difícil conviver com essa duelidade: a vida dos outros e a sua própria.

Depois de uma manhã conturbada por inúmeras consultas a pacientes com os mesmo problemas de sempre, ela se permitiu a uns instantes de sossego, ainda trancada em sua sala. Ela não tinha apetite suficiente para ingerir qualquer coisa, e depois de organizar sua mesa, ela foi direto para o quinto andar. Mas quando ela se encaminhava em direção ao elevador, quando o mesmo se abriu e revelou seu superior mexendo em alguns papéis. Por sorte, ele não a viu e, discretamente, Sakura dobrou no outro corredor, e correu até as escadas para evitá-lo. Seus passos eram tão corridos, que tropeçou nos próprios pés e caiu. Por pouco não desceu todos os degraus, rolando escada abaixo. Pelo menos, teve certeza de que não fora vista por seu chefe ao constar de que não estava sendo seguida por ali. E assim, pôde seguir seu caminho.

Itachi estava na poltrona, de braços cruzados, cochilando. Mas abriu bem os olhos quando a viu fechar a porta atrás de si.

Sasuke estava dormindo tranquilamente, mas tinha a testa molhada pelo suor. Delicadamente, ela tirou uma mecha de cabelo do rosto dele, e ainda roçou as pontas dos dedos na sua barba por fazer. Em seguida, ela tirou o pedaço de jornal que ela havia colocado na bolsa, e agora estava no bolso do seu jaleco. Ela precisou refazer algumas partes daquela dobradura, que havia amassado, e colocou o pássaro de papel ao lado da cabeceira dele.

Itachi se aproximou dela, curioso com pássaro, mas ainda meio carrancudo, e viu que ela tinha os olhos cheios de lágrimas, deixando-se amolecer.

— A febre dele não quer ceder. Baixou alguns graus, mas continua alta. — ele comentou — Pelo menos, voltou a dormir bem, sem alucinações.

— Já detectaram a causa?

— Ainda não. Tiraram sangue dele hoje de manhã, o resultado sai até o final do dia.

— Eu li um artigo que falava sobre a recuperação de pacientes que estão em baixa no hospital. Dentro do ambiente hospitalar, eles tendem a se recuperar mais lentamente. Muitos hospitais de fora já adotaram essa medida, de enviar seus pacientes para casa o quanto antes. Isso quando não permitem estadia de animais de estimação. É comprovado que eles também ajudam consideravelmente na recuperação... E, você já deve ter percebido também como Sasuke vive com o olhar perdido para fora da janela! Achei que fosse lhe fazer bem sair daqui. Mas acho que me precipitei...

— Talvez fosse cedo demais.

— Uhum...

Sakura e Itachi ficaram por um tempo em silêncio, observando a respiração tranquila do paciente. Ela não tirava os olhos do Sasuke, e Itachi percebeu o quanto ela realmente se preocupava com seu irmão. Ela agora mexia delicadamente nos dedos da mão dele, como se buscasse alguma reação dele.

— Pouco antes de ir até a sua casa, hoje cedo, ele resmungou algo, no meio do sono delirante. Ele estava bastante agitado, e dizia o tempo todo para não culpar você. Foi assim que soube que tinha algo a ver com o que estava acontecendo com ele...

— Eu realmente quero ajuda-lo. — ela diz, sem olhar para o mais velho — Sinto-me na obrigação de fazê-lo. Sasuke está virando uma obsessão para mim... O caso dele... Não é todo dia que encontro alguém como ele.

— Alguém como ele? Você está apaixonada por ele, não está?

Só então, ela olhou para o Itachi. Havia dúvida e hesitação no olhar dela, e ele achou que, talvez, sua pergunta não fosse ainda apropriada. Mas como já era tarde para retirar o que disse, ficou aguardando a resposta, que demorou a vir.

— Acho que compaixão pode ser confundida. — a resposta estava incompleta e ambígua, mas ela sabia disso por que nem ela sabia mais como terminá-la. Não deveria ser simples coincidência que duas pessoas fizesse aquela suposição no mesmo dia.

— E você tem certeza de que é apenas isso o que sente com relação a ele?

— Se importa se eu perguntar por que nenhum dos seus pais veio vê-lo? — ela tentou desviar do assunto com outra pergunta, deixando Itachi sem saber o que pensar disso.

Com um suspiro, olhando novamente para o irmão, como se para certificar-se de que dormia, respondeu:

— Nossa mãe vive viajando pelo mundo... A verdade é que ela não dá muita bola para família. Se dá, nunca soube expressar. E nosso pai é brigadeiro... É outro que vive viajando. Eu também costumo viajar muito, mas prefiro pôr meu único irmão como prioridade. E, aparentemente, sou o único a fazer isso.

— Desculpa pela pergunta pessoal... Sasuke me conta bastante coisa, mas com relação a outras ele consegue ser bastante evasivo.

— Já me admiro por saber que ele fala qualquer coisa com você... Ele sempre foi muito calado.

— Sério? Ele me parece um tagarela... Sempre tem algo a dizer.

— Hum... — o mais velho cruzou os braços sobre o peito, olhando mais atentamente para o irmão, que de repente, parecia outra pessoa.

Sakura se despediu em seguida, prometendo voltar mais tarde para ver como ele estava. Ela precisava atender mais alguns outros pacientes, mas antes de sair porta afora, ele a interceptou mais uma vez.

— Obrigada pelo pássaro. Tenho certeza de que ele vai gostar.

— Vocês conhecem a superstição?

— Acho que todo mundo conhece... — ele deu de ombros.

Ela sorriu de canto, sem humor, e pensou no quanto gostava de trabalhar no hospital, atendendo pessoas. Pensou também que, talvez, devesse adotar aquele costume de distribuir pássaros de origami para todos os seus pacientes dali em diante.

O resto da tarde não foi tão pesado quanto ela imaginou que seria, porque sua mente havia ficado no quarto de Sasuke, imaginando o que ele diria a respeito do papel, já pressupondo que não fosse supersticioso... Pelo menos, ele não levava jeito para ser um.

Notas finais
Algum comentário?