Notas iniciais
Boa leitura.

Pássaros

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Escrito por Amanur e Noel Blue

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Capítulo 12

Sasuke não sabia bem como se sentia ali, no meio daquela multidão. As pessoas passavam por ele, e todas lançavam aquele olhar de pena e compaixão pelo seu estado físico. Ele tentava não olhar para ninguém, mas era difícil manter o foco, principalmente quando eles passavam por alguma vitrine, e via pelo reflexo dos vidros sua imagem, sentado naquela cadeira de rodas, com pessoas atrás de si com aquele maldito olhar.

Sakura resolveu levá-lo para o shopping recém-inaugurado da cidade. Havia meses que ela não saía para fazer compras, e por algum motivo aquele lhe parecia o dia perfeito para voltar a sua vida normal. Pelo menos, para começar aos poucos... E por estar na companhia dele, ela achou que isso seria mais fácil — ela teria a quem se apoiar caso tivesse alguma recaída. Claro que ela não pensava nesse motivo, mas ele estava lá escondido em algum lugar do seu consciente.

No entanto, aquele era um shopping para o público de classe média alta, e a grande maioria das lojas vendiam produtos de marca, a preços exorbitantes. Sakura não esperava isso daquele shopping, por não estar localizado na parte mais nobre da cidade. Ela vivia num bom apartamento, mas o salário que ganhava naquele hospital não era tão bom quanto ganharia se trabalhasse em algum dos hospitais particulares. E era nisso o que estava pensando, quando viu uma moça muito bem vestida passar, olhando para o Sasuke que se distraia com as lojas.

A moça olhava para ela de uma maneira diferente das demais — como se o reconhecesse de algum lugar, mas não lembrava exatamente de onde. No entanto, ela passou por eles sem dizer nada, e Sakura olhou para trás. A moça parecia um painel de propagandas ambulante, com todas aquelas marcas no corpo. Até o esmalte, Sakura suspeitou, parecia caro demais. E ela era linda, com aqueles fios de cabelo levemente azulados, sem um único frizz solto na cabeça. Ela tinha cílios longos, bem curvilíneos, sobre olhos azuis claros; Sakura sempre invejou morenas de olhos azuis. Para completar o quadro, ela tinha o corpo bem esculpido, coluna ereta, e bastantes curvas femininas.

Ela olhou novamente para o seu acompanhante, se perguntando que tipo de mulher ele gostava, pensando que talvez a mulher apenas tivesse gostado dele — afinal, ele era um homem bonito. E então, se deu conta de que, apesar de já ter falado bastante sobre si para ele, ela sabia pouco sobre a vida pessoal de Sasuke.

— Se você achar alguma coisa interessante, que queira olhar, me avise, ok? — ela disse.

— Uhum... — ele resmungou, sem muita convicção — Por que me trouxe aqui?

— Não sei... Achei que mudar de ares fosse lhe fazer bem. Ver outras pessoas, outros lugares...

— Fazer bem a mim, ou a você?

Ela ficou pensativa por alguns instantes enquanto empurrava a cadeira dele, e resolveu jogar com a sinceridade, sabendo que com ele não teria escapatória.

— Aos dois, que tal?

— Uhum...

— Se quiser ir embora, é só dizer.

— Estou com fome... — ele mudou de assunto, se negando a ser o estraga prazeres, por mais que se sentisse sendo um.

E Sakura não respondeu. Automaticamente, virou a cadeira para outro lado, e o encaminhou à praça de alimentação do shopping. Eles passaram em frente alguns restaurantes, e Sasuke indicou o Mac Donald’s, resmungando o quanto estava enjoado daquela comida do hospital, e que precisava desesperadamente por algo mais prazeroso de comer... Então, ela o deixou sozinho guardando lugar numa mesa, enquanto ficava na fila para fazer os pedidos, e Sasuke olhava para as pessoas felizes passarem por sua frente. Eles caminhavam em seus próprios pés, independentes em sua livre vontade.

Ele lutava consigo mesmo, para não sentir pena de si, mas é difícil aceitar o que aconteceu quando ainda se tem pesadelos com o acidente. E assim, Sasuke se distraiu, observando as pessoas a sua volta, e envenenando a própria alma com aqueles pensamentos negativos, quando alguém sentou na cadeira a sua frente.

— Sasuke? — indagou a moça que Sakura tinha visto antes.

Ele estava meio perdido nos próprios pensamentos, e custou a identificar aquele rosto.

— Nossa... Quanto tempo! — ele resmungou, por fim.

— Sim... — ela tentou sorrir, mas a careta não pareceu natural — O que aconteceu com você?

Depois de um suspiro, ele foi explicando, pacientemente, tudo o que aconteceu. Até o seu rompimento de noivado com a Karin.

Enquanto isso, Sakura, que constantemente olhava para trás para ver se seu paciente estava bem sozinho, se surpreendeu quando viu aquela mesma moça com ele. Ambos não pareciam muito animados com a conversa que estavam tendo, e ela se perguntou se deveria interromper. Mas ela era a próxima da fila a ser atendida, e por isso resolveu esperar. Só que a cada expiração, além de tirar o ar do pulmão, sua paciência ia junto. Os atendentes eram mais lentos do que deveriam ser, e ela ainda teve que ir para uma segunda fila, para retirar o pedido.

Quando finalmente se aproximou com a bandeja nas mãos, eles pareciam menos tensos.

—... Ela adorava subir nas suas costas; tenho certeza de que ficaria mais do que feliz com a sua presença. — a moça dizia. Mas assim que a viram se aproximar, ambos se calaram.

— Hinata, quero que conheça minha fisioterapeuta, a doutora Haruno. — ele disse, apresentando as moças — A Hinata foi minha colega na faculdade. — explicou.

— Olá.

— Sua fisioterapeuta? — a morena indagou, deixando bem claro a estranheza pelo fato de estarem juntos num Domingo e num shopping.

Sakura foi totalmente pega de surpresa, porque não havia pensando naquilo até então. Mas Sasuke foi mais rápido, e inventou uma desculpa bem esfarrapada.

— A Sakura foi minha vizinha, então, estamos aqui como amigos, sem responsabilidade de médico e paciente... Sabe? — ele ainda deu de ombros, como se aquilo não fosse nada demais.

Sakura forçou um sorriso para a moça que lhe retribuiu da mesma maneira forçada, mas se perguntando se estaria mesmo bem mentir para os outros daquela forma. Mesmo que para o seu próprio bem, isto é.

— Claro... — resmungou — Bom, preciso ir, mas se você precisar de alguma coisa, ainda tens meu número, certo?

— Sim, claro. Mande lembranças ao Neji.

— Pode deixar. — e então, ela se aproximou dele, beijando seu rosto com mais intimidade do que Sakura gostaria de ter presenciado. Por algum motivo, aquilo não lhe gradou, mas ela ainda estava intimidada demais pela moça para se dar conta do seus dentes trincado e da cara de poucos amigos que fazia para a morena.

E Hinata deu as costas com seus saltos caríssimos e aquele rebolado, sem se importar com as simplórias sandálias rasteiras que a rosada calçava nos pés.

Como quem não quer nada, Sakura tentou puxar assunto com ele, enquanto pegava algumas batatas fritas para dar para ele.

— Ela é bonita... — comentou — Você deveria ligar para ela.

— Hehe... Ela é tão bonita quanto prostituta.

— O quê?

— Ela se prostituía para pagar a faculdade... Mas diz que desde que começou a trabalhar numa empresa no centro, parou com os programas. Só que há quem diga que isso é só da boca pra fora. A empresa em que ela trabalhava não pagava tão bem para custear o modo de vida caro dela.

— Oh...

— Não tenho nada contra... Cada um ganha a vida como quer, mas não quero esse tipo de mulher para mim. Não acho que algum dia seria capaz de confiar nela, numa relação séria. Mas fora isso, ela é uma boa amiga. Foi ela, inclusive, quem me ajudou a escolher o anel de noivado... E que no fim das contas tive que jogar fora. Ela me ajudou muito quando precisava resolver alguma questão com a Karin, por que, aparentemente, eu não entendo absolutamente nada sobre mulheres!

— Hum. Não sei o que dizer...

— Não diga nada, apenes me dê o bendito sanduiche antes que meu estômago engula meu pâncreas.

Sakura havia pedido talheres ao restaurante, achando que seria mais fácil de dar o sanduiche para ele em pedaços. Enquanto ele mastigava, ela notou que ele rebaixava os olhos toda vez que ela levava o talher a boca dele. Ele estava constrangido por depender de alguém até para comer. E, além disso, percebeu que algumas pessoas, inclusive as crianças e adolescentes, encaravam o homem.

— Não ligue para os outros, Sasuke...

—A Hinata quer que eu vá ao aniversário de dezoito anos da irmã dela. — ele diz, de repente, mudando de assunto — Ela me veio com o papo de que a guria era apaixonada por mim, e que não parava de falar de mim quando terminamos a faculdade. Eu a conheci quando ainda era pirralha, e brincava com ela quando ia fazer algum trabalho na casa dela. Mas estou com medo da reação da Hanabi, quando me vir assim...

— Não precisa sentir medo... Veja isso como um desafio a ser superado. Cedo ou tarde você terá de voltar a enfrentar o mundo. Mas lembre-se que, em essência, você continua sendo o mesmo, Sasuke. E você conhecerá as pessoas que realmente o amam...

— É um desafio e tanto...

Ele olhou de canto para ela, tanto surpreso por justamente ela estar lhe dizendo aquilo, quanto também por não se sentir preparado para aquele tipo de teste. Isso era uma das coisas que ele mais temia, principalmente depois do episódio com a sua noiva. Aquela sensação de que todos o abandonariam estava escondida em algum canto do seu consciente, e isso o incomodava.

Sakura o ajudou a terminar sua refeição em silêncio, e depois deram mais uma volta para conhecerem o shopping. Havia lojas de móveis, perfumes, cinemas, brinquedos, calçados, bolsas, presentes, malas, lojas de departamentos... Eles já se encaminhavam ao guichê de pagamento do estacionamento quando passaram por mais uma loja de roupas femininas, e um vestido preto chamou a atenção dele.

— Espere, espere... Vamos entrar nessa loja. — ele disse.

Ela estranhou o pedido, mas fez o que ele pediu. Assim que puseram os pés na loja, foram atendidos por uma moça elegante, com o uniforme do estabelecimento.

— Em que posso ajudá-los?

— Eu gostaria de dar uma olhada naquele vestido da vitrine. — ele respondeu.

Não demorou para a moça voltar com o pedido dele em mãos.

— Este, senhor?

— Exatamente! — e então, olhou para Sakura — Experimente-o.

— Hein?

— Vamos, vamos, experimente-o. Você me trouxe aqui, agora eu vou levá-la a um lugar também. — e sorriu, triunfante — E nem experimente em me dizer não, para ver o escândalo que eu sei fazer! — e sorriu triunfante, meio provocador.

Sakura cerrou os olhos para ele, pondo as mãos na cintura. Desde quando ele estava negociando algo? Mas pensando bem, achou mais do que justo aquela troca depois do fiasco que cometeu dentro do carro. Só não estava segura quanto aquele vestido. Uma rápida olhada pela loja já dava para ter a certeza de que não custaria nem um pouco barato. Então, meio tímida, ela olhou para a atendente, tomando o vestido para si.

— Você poderia me dar licença para conversar com meu acompanhante por um segundo? — indagou. A moça fez que sim e logo deu as costas aos dois. E Sakura se virou para seu paciente. — Não sei o que você está pretendendo, mas não posso pagar por esse vestido, Sasuke.

— E quem disse que você iria pagar por ele? — ele sorriu.

— Bom, com certeza espero que também não seja você a pagar por ele!

— Você está me ajudando mais do que consegue imaginar. Não vejo motivo algum para não lhe retribuir com um simples presente.

— Simples? Nossa, que pena! Temos conceitos muito diferentes sobre simplicidade, então. Me diga qual é o problema de um “obrigado, Sakura”!?

— Não é o suficiente pelo que você está fazendo por mim... Nem mesmo esse vestido é! Além disso, tenho outras intenções com esse vestido... — ele exibiu novamente aquele sorriso torto de canto, cheio de insinuações, exibindo uma covinha no canto da boca.

Mas Sakura estava confusa. Ela não compreendia como ele se sentia com relação ao que estava fazendo. Para ela, não fazia nada além de executar o seu trabalho. Mas claro que Sasuke não concordaria; se não fosse pelas palavras duras dela, por toda aquela insistência, talvez (muito provavelmente) teria se sucumbido ao fundo do poço em sua amargura e se afogaria nela. E não havia quem o salvasse de si mesmo.

Mas lá estivera ela, pronta para lhe dar aquele tapa na cara, e jogar aquela água em seu rosto para acordá-lo daquele delírio doentio em que se metia sem querer. Era mais do que lógico para ele que deveria retribuir aquilo de alguma forma.

Com um suspiro, ela entrou no provador, para sair dele alguns minutos depois. O vestido era lindo. Tinha um enorme decote na frente, mas não deixava a pele completamente descoberta, graças a uma fina cama de tecido translucido em tom dourado, que se estendia até as costas, dando a ilusão de que ele era uma peça de frente única. Na cintura havia uma fita dourada, delicada que fazia com que a saia caísse sobre as pernas em camadas finas de tecido. A única coisa que não estava bem naquela figura, pensou Sasuke, eram os pés naquela sandália rasteira que ela vestia.

Ele pediu a atendente para escolher um sapato que combinasse com aquele vestido, e ela logo voltou com uma sandália de salto, que deixava os pés de Sakura meio nus. Era discreto e sensual, e Sasuke achou que ela não poderia ficar mais perfeita. Ele ficou completamente sem palavras diante dela, e apensa se expressou com um leve sorriso, impressionado com a beleza que ela escondia em seu uniforme de médica.

— Qualquer coisa que eu disser não será suficiente... — ele apenas murmurou.

Já a fisioterapeuta, se sentia estranha com tudo aquilo, e se perguntava que intenções ele poderia ter, já tendo uma breve suspeita do que poderia ser.

— Espero que você não esteja planejando me levar para a festa da sua amiga... — ela resmungou, quando saiu do provador com o vestido e sapato em mãos.

— E se eu estiver? Não ouse me dizer não.

— Então eu não tenho escolha?

— Não. — ele sorriu, triunfante novamente.

— O problema é que eu não sei se me sinto preparada para isso... Sorrir para as pessoas e fingir que está tudo bem... Toda vez que forço um sorriso, tenho a impressão de que alguém vai apontar o dedo para mim, me acusando de falsidade.

—Então, vamos nós dois cometer esse crime! Que sejamos os falsos da festa...

Sakura não disse mais nada. Por ordens dele, ela pegou a carteira que nunca saia do bolso da calça dele. E Sasuke ainda teve que dar a senha de seu cartão para ela, confiando plenamente em sua fisioterapeuta. E Sakura não sabia como se sentia com relação a essa intimidade com seu paciente. Mas ele fez a compra, pagando uma quantia absurda para o seu gosto, e ela definitivamente não estava muito contente com aquilo.

Enfim, voltaram para o carro, e ela foi dirigindo em silencio de volta para o hospital. Já estava anoitecendo, e quando estacionou o carro, ela percebeu que ele estava quieto demais.

— Está tudo bem? — indagou.

— Acho que só estou cansado. É a primeira vez que saio desde o acidente...

Enquanto o tirava do carro para repô-lo na cadeira, ela percebeu que ele estava com as costas encharcadas pelo suor, e isso a deixou bastante tensa, mas não disse nada. Ela foi direto para o quarto dele, e o colocou de volta em sua cama.

— Obrigada pela companhia. — ela sussurrou.

— Obrigada por me mostrar o mundo fora dessas paredes. — ele murmurou, de olhos fechados. De repente, ele se sentia muito sonolento.

Ela ainda acomodou as cobertas sobre o corpo dele, e tirou uma mecha de cabelo que caia no rosto dele. Ela tentava não se apegar a isso, mas Sasuke tinha a fisionomia muito parecida com a do seu falecido marido. O nariz, a testa, o corte de cabelo... Até aqueles lábios, ligeiramente entreabertos, que lhe tentava a beijar. Ela pegou nas mãos frias dele, apertando-a com força, sabendo que ele não sentiria nada, e fechou os olhos.

E, então, puxou a corda para chamar a enfermeira, para que ela verificasse a situação do paciente sem que ele visse, e saiu às pressas do hospital.

Notas finais
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