Pássaros
11 Capítulo 11
Notas iniciais
Pássaros
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Escrito por Amanur e Noel Blue
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Capítulo 11
Ela acordou com os raios de sol brigando com seus olhos para ver quem tinha mais resistência: o calor ou o sono. Ela bem que tentou se mostrar mais forte, rolando de um lado para o outro, mas o dia estava atipicamente quente para aquela estação, então, ela teve que ceder e se levantar para fechar as cortinas que havia esquecido abertas.
Com os pés sempre arrastados pelo chão, depois de fazer sua higiene e tomar café, sentou-se no sofá para encarar a tela da sua tv desligada. Ponderou por longos minutos se ligaria a televisão ou não, até decidir que nada a entreteria naquele domingo de tédio.
Havia algo diferente naquele dia. Naquela manhã, ela se sentia vazia e oca; como uma solitária na penumbra, sem móveis, sem luz, sem vida. Não havia absolutamente nada em sua mente e espírito.
Num impulso, se levantou, e correu para lavar toda aquela pilha de louça suja que se acumulava novamente na cozinha. Quando não restara nenhuma bolha de sabão sobre a pia, se sentiu satisfeita, embora a preocupação com o que fazer a seguir ainda lhe atormentasse.
Resolveu voltar para o quarto para arrumar as roupas jogadas no chão, e colocar tudo na máquina de lavar. Ela costumava pegar rapidamente suas roupas e não as colocava de volta para não ter que enfrentar o fantasma do marido que se mantinha dentro do armário, embora não gostasse de admitir aquilo. Sakura preferia mentir para si mesma, dando a desculpa de que apenas estava cansada demais para arrumar tudo. Mas ali, enquanto separava as roupas por cores, e procurava por mais coisas dentro do armário, de repente, se incomodou com aquelas peças de roupas do lado esquerdo do seu guarda-roupa.
Rapidamente, para não deixar aquele pingo de coragem fugir do espírito, a moça puxou a poltrona do outro lado do quarto até o armário e pegou do topo dele duas malas. Sem pensar duas vezes, para não desistir no meio do caminho, ela socou todas as roupas do marido ali. E num piscar de olhos, ela fechou as malas e as chutou para baixo da cama.
Suspirou, exausta. Seu coração batia acelerado e a respiração estava meio ofegante. Para não se permitir chorar, ela voltou a suas tarefas em seguida. Carregou pilhas de roupas até a lavanderia, e as deixou de molho.
Eram treze horas da tarde, quando se viu sem mais o que fazer, e entendeu que não conseguiria aplacar aquela inquietação irritante, e crescente, ficando dentro do seu apartamento, aquela pequena jaula.
Pegou sua bolsa, as chaves do carro, e saiu pelas ruas dirigindo sem saber ao certo aonde ia. Andou por várias ruas desconhecidas e dobrou muitas esquinas enquanto tamborilava o volante com os polegares, impacientemente, até parar o carro em frente a um casarão de dois andares. Suspirou fundo, antes de decidir descer do carro e tocar aquela campinha. Mas sua amiga não estava em casa para poder ouvir toda aquela angustia que estava finalmente querendo sair do seu corpo, como um pus de uma infecção. Ela pensou em pegar o celular e ligar para Tenten, mas lembrou-se que ela provavelmente estaria fazendo plantão no hospital.
Então, com todas as emoções transbordando pelos poros, ela voltou a dirigir sem rumo certo. O tempo parecia se arrastar ali, como as árvores pelas quais ela passava. E quando se deu conta, Sakura já estava estacionando o carro no estacionamento do hospital e praguejou. Perguntou-se por que sua distração a levara até ali, quando o hospital deveria se o único lugar para onde não deveria querer voltar. Mas lá estava ela, atravessando o estacionamento.
Desta vez, a rosada resolveu fazer tudo certinho, e entrou com o crachá de visitante. Naturalmente, como se seus passos fossem quem comandassem seu corpo, ela se encaminhou até o quinto andar.
Parou de repente em frente o quarto 523, sem saber realmente se queria entrar ali. Sakura respirou fundo e tentou acalmar seus batimentos cardíacos; ela não sabia o motivo por seu coração estar tão descontrolado. Não fazia sentindo. E, hesitante, levantou o braço para dar três pequenas batidas na porta. Escutou um “pode entrar” abafado e resmungado, e ao escutar aquela voz deu um pequeno sorriso, mesmo sem perceber.
Sasuke tinha o olhar perdido na janela, com a tv ligada em um volume baixo. Ele acabara de ver um avião passar, e se perguntava por que aquilo tinha de ter acontecido justo com ele; que daria qualquer coisa para poder voltar a ter aquela vista do alto algum dia.
Sakura percebeu que ele estava sozinho no quarto e parecia meio perdido em pensamentos longínquos. Sem chamar a atenção do rapaz, se aproximou, e ficou de pé ao lado da cama dele, para logo atrair sua atenção. O moreno lhe deu um pequeno sorriso, mas suas sobrancelhas estavam franzidas em confusão.
— O que você está fazendo aqui em pleno domingo? Pensei que fosse sua folga. — indagou, olhando em seus olhos verdes. Sasuke também notou que havia algo diferente nela, um brilho diferente, uma urgência estranha. Ela parecia inquieta e nervosa. — Aconteceu alguma coisa?
— Eu não faço à mínima idéia do porque eu estar aqui, na verdade. Eu só estava entediada e precisava sair... Aparentemente eu vim direto para o hospital. — ela deu de ombros, meio sem graça — Entãaaaao... Como você está?
— E como você pode ver, eu não estou muito diferente de ontem; continuo mofando aqui. — ele sorriu divertido.
— Onde está o seu irmão?
— Eu acho que ele saiu para um encontro. Saiu daqui todo arrumado e perfumado, e pediu para a nossa empregada de casa comprar um buque de flores. — ele ainda tinha o tom divertido na voz, embora parecesse meio duvidoso do que dizia.
— Oh...
Ele a olhou com mais cautela, dos pés a cabeça, notando a expressão de surpresa dela.
— Decepcionada, doutora?
— Hum? Não! Por Deus, que não! É só que, tive a impressão de que ele... — agora foi ela quem olhou para ele com cautela — Ah, esquece. Quer dar uma volta no pátio? Esse ambiente me sufoca, e imagino que vocês, pacientes, sintam o mesmo.
— Bingo. Mas você se importa de esperar um pouco? Eu gostaria de poder usar minhas roupas, e não essas coisas que o hospital me dá. Só para... Não me esquecer de como eu era. Às vezes, tenho a impressão de que estou há anos aqui.
Ela chamou uma enfermeira para ajudá-lo a trocar de roupa, enquanto ela o aguardava do lado de fora do quarto. Quando ele ficou pronto, a própria enfermeira o levou na cadeira de rodas até o corredor.
— Doutora, — disse a enfermeira, reconhecendo a fisioterapeuta — O médico que o operou não recomenda que ele saia do quarto enquanto estiver com pontos.
— Eu me responsabilizo, não se preocupe. — ela sorriu internamente, pela ingenuidade da enfermeira. Além de já tê-lo levado para fora, já havia se passado um pouco mais de um mês desde sua cirurgia.
— Eu preciso que a senhora assine um termo de comprometimento, então.
— Claro. Eu aguardo aqui.
Mas assim que a enfermeira deu as costas e desapareceu na sala de enfermagem, Sakura levou a cadeira até o elevador que estava com a porta aberta. Outra enfermeira carregava um paciente numa maca, levando-o para algum quarto daquele andar.
Com as portas fechadas, ela notou o olhar inquisitivo dele.
— Você é mais ousada do que aparenta.
— Eles que são um bando de gente chata.
E ela ainda o surpreendeu ainda mais, quando saíram do elevador. Ao invés de terem subido de andar, Sakura desceu ao térreo e o carregou de fininho até a porta dos fundos, onde as ambulâncias paravam num corredor. Ali, havia menos segurança, e os poucos que caminhavam não se importaram com eles.
Sasuke não disse nada, apenas ficou observando as peripécias da fisioterapeuta, curioso em para onde seria levado. E Sakura foi com ele até o estacionamento. Abriu a porta de trás do seu carro, e carregando ele no colo, o pôs no banco de acompanhante. Depois, dobrou a cadeira e a guardou no porta-malas.
Somente quando as mãos dela estavam no volante, no meio de uma avenida, ele resolveu abrir a boca.
— Você está me seqüestrando, ou o quê?
— Isso é um teste, na verdade.
— Hein?
— Quero testar minha capacidade para esquecer por um dia quem eu sou, o que aconteceu, o que acontecerá... Eu quero deixar tudo trancado numa caixa, no fundo do meu consciente. Eu quero ser outra pessoa por um dia!
Ele ficou a encarando, e Sakura percebeu, mas não se deixou abalar com aquele olhar sério. Engoliu a seco, no entanto, sabendo que estava sendo julgada, e tentou manter o foco nas ruas.
— Eu não gosto dessa idéia, por mais que eu compreenda. — ele disse.
— Hum.
— Quando a pessoa quer ser outra, significa que não gosta de si.
— Hum.
— E você não tem motivo algum para isso.
— Cale a boca.
— A morte faz parte da vida de todo mundo, doutora. Você deveria saber disso.
— Eu não quero ouvir isso.
— E fora isso, você é perfeita! Tem um bom emprego, tem pés e mãos, é inteligente, saudável e... Diabos!, é linda para caralho!
Sakura bufou, revirando os olhos.
— Tsc! Não se deixe enganar pelas aparências, Sasuke. A questão é que não gosto dessa pessoa que me tornei; sempre amargurada, lamentando por tudo. Eu daria meus pés e mãos para ser outra pessoa. — ela resmungou, impensadamente, é claro.
E então foi a vez dele bufar. Mas a sua bufada era puramente de fúria e frustração.
— Mas que merda! Se eu pudesse lhe daria um belo tapa nessa sua cara de pau por me dizer isso! Você não faz idéia alguma do que é não poder pegar a própria roupa para se trocar! Não faz sequer idéia do que é não poder pegar um pedaço de papel higiênico para limpar o próprio rabo! Não sabe o quanto essa merda é humilhante! E quando eu tiver um filho, como vou pegá-lo nos braço, ou jogar bola com ele? Como vou pegar nas mãos dele? Mesmo que tivesse um braço mecânico, como vou sentir o calor da pele dele? Ou como é que vou transar com a minha mulher, sem poder sentir ou tocar a pele dela? Você não sabe o que é ter alguém na sua frente e querer tocá-la, e não poder sentir a textura do rosto dela, como eu queria fazer com você alguns segundos atrás. Mas agora tudo o que eu quero é poder sair dessa merda de carro, mas não posso por que DEPENDO de você para isso!
Sakura, bruscamente, virou o carro, entrando numa rua residencial estreita. Por não ter dado sinal ao motorista que vinha atrás, ela teve que ouvir alguns insultos, mas não se importou com isso. Ela parou o carro num acostamento, puxou o freio de mão em frente a um condomínio, e se virou para ele.
Mas Sasuke estava tão fulo que não olhava mais para ela. Sakura se sentia a pessoa mais burra da face da Terra, naquele momento. Queria desaparecer, ou entrar em combustão. Ela estava chocada consigo mesma, e não compreendia como foi capaz de dizer uma coisa daquelas, justo para ele.
Ela tentou esboçar alguma coisa para dizer, mas tudo parecia inútil e insignificante. Então, ficou durante um bom tempo em silêncio dentro do carro. Ela sempre se julgou uma pessoa inteligente, e estava atordoada com sua própria capacidade de raciocínio.
— Eu sempre me perguntei qual seria a coisa mais estúpida que eu poderia ser capaz de dizer, e acho que acabei de descobrir. — ela resmungou, finalmente, meio sem jeito.
— É mesmo? — ele indagou, sarcasticamente.
Sakura suspirou, pesarosamente. Agora ela se sentia constrangida, e com raiva de si mesma pela própria estupidez. Ela continuou a pensar em algo para compensá-lo, mas nada parecia bom o suficiente. Sasuke estava realmente ressentido, e se sentia ainda mais inseguro em relação a si mesmo. De fato ele tentava não pensar muito em sua própria condição, por que sabia que se fizesse isso por muito tempo acabaria enlouquecendo, então sempre tentava acobertar tudo com seu sarcasmo e bom humor fingido — e ela via isso agora.
— Eu juro que farei com que sua vida volte ao que era antes, Sasuke. Nem que para isso eu tenha que dar o meu sangue.
— Pare de fingir que se importa...
— Mas eu importo sim!
— Por quê? Não sou nada para você!
— Bom, talvez você pense diferente de mim, mas já o considero um amigo, Sasuke. Você é o único a quem eu tenho falado sobre tudo o que me acontece, ultimamente. Me corrija se eu estiver errada, mas creio que o sentimento é recíproco! Eu... Não quero perder isso por uma estupidez impensada que eu disse.
Sasuke continuou com o rosto virado contra ela, pensando no que acabou de ouvir. Já estava impossível negar o que sentia toda vez que chegava perto dela, mas as aquelas palavras realmente o ofenderam; ela atingiu covardemente seu mais novo ponto fraco, cuja ferida ele ainda lutava para esquecer. E agora ele estava ali, se sentindo traído pela única pessoa que ele achava que seria capaz de entendê-lo.
— Continue dirigindo para onde você estava indo... — ele resmungou.
— Talvez seja melhor voltarmos. — depois daquela bola para fora, toda sua empolgação voou para bem longe, e estava com medo de arruinar ainda mais o dia.
Felizmente, Sasuke não era o tipo de cara que guardava rancores (ou se esforçava para não sê-lo), e sabia reconhecer quando alguém realmente se arrependia de algo. Bastou olhar nos olhos claros da sua fisioterapeuta — olhos que lutavam para não deixar seu arrependimento transbordar em lágrimas, por que ele já sabia que ela não choraria na sua frente.
— Vamos, doutora, deixe de bancar a durona e me surpreenda de novo. Estou curioso com sua ousadia.
— Tem certeza?
— Qualquer coisa é melhor do que ficar encarando aquelas paredes brancas, e ver o sol pela janela. E é muito melhor estar aqui com o seu perfume doce, do que estar inalando aqueles produtos de limpeza que passam no meu quarto.
Ela ficou encarando ele por mais um tempo, aquela fisionomia masculina cansada, falsamente bem humorada. Pelo menos, agora, ela já sabia.
Hesitante, ela ligou novamente o carro, e foi dirigindo pelas ruas. O trajeto desta vez foi mais calmo e silencioso, ainda naquele clima meio constrangedor. Sasuke tentava não pensar em nada, apenas observando as ruas. Havia quase dois meses que não olhava para o mundo e a sensação era estranha. Era como se tudo tivesse diferente, embora não conseguisse identificar exatamente o que havia mudado. Mas na medida em que as rodas iam girando pelo asfalto, ele foi compreendendo o “x” daquela questão.
Ele é quem havia mudado.
E, então, de repente, Sakura entra no subsolo de um prédio alto e bonito, do qual ele não reconheceu.
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