Pássaros
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Pássaros
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Escrito por Amanur e Noel Blue
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Capítulo 1
No fundo do corredor de paredes brancas, ela encontrou uma sala escura com a porta aberta. Movida pela sua curiosidade infantil, a menina de nove anos entrou. Era o depósito de produtos de limpeza do hospital infantil da cidade. Aos poucos, a escuridão foi amenizando, e as coisas a sua volta foram tomando formas. Atrás de uma prateleira, ela percebeu que algo se movia e fazia ruídos. Cuidadosamente, nas pontas dos pés, ela, corajosamente, resolveu espiar. Para sua surpresa, havia um menino sentado no chão, de pernas cruzadas, com várias folhas de papel colorido ao seu redor. Ele fazia pássaros em origami, e já havia uma dúzia daqueles animais coloridos prontos.
— O que está fazendo? — ela perguntou.
O menino se assustou, mas logo que se recompôs tratou de explicar a menina, cheio de orgulho.
— Meu pai disse que esses pássaros trazem sorte. Eu quero dar um para cada paciente do hospital.
— Por que papéis trariam sorte? — insistiu a menina, sem entender o raciocínio do rapazinho a sua frente.
— Não é o papel em si, mas o que eles representam. Meu pai disse que pássaros são animais livres, que viajam para onde querem. Então, vou entregar esses papéis para que as pessoas aqui sonhem com o lugar para onde elas gostariam de estar...
Ela sorriu, gostando da idéia, e sentou ao lado dele.
— Posso ajudar?
— Pode.
Então, ele ensinou a ela como fazer o pássaro de papel colorido, e os dois passaram um bom tempo lá, dobrando papéis. Quando concluíram aquele projeto, os dois saíram com as mãos cheias, e foram distribuindo os pássaros de porta em porta, até uma enfermeira parar os dois, e levá-los para seus respectivos quartos.
Eles não trocaram seus nomes, nem nunca mais se viram. Mas cada um guardou o seu pássaro na cabeceira da cama para sonharem com seus futuros.
...
O trânsito estava caótico, como sempre, e na distração, quase bateu numa van; ela julgou que o motorista não sabia fazer a curva direito, mas o cara passou por ela grudando a mão na buzina e lhe mostrando o dedo do meio. Sakura ignorou, aumentando o volume do péssimo aparelho de som que veio no seu carro usado. Estacionou mal na garagem do hospital em que trabalhava, ocupando duas vagas, mas porque não estava prestando muita atenção. Talvez fosse efeito do vinho que tomou na noite passada, mas jamais admitiria isso.
Passando pela recepção, mal cumprimentou a moça atrás do balcão. Pegou seu crachá, e passou na máquina que marcava pontos (horário de chegada e saída de cada funcionário).
Sete horas em ponto.
Em seguida, seguiu direto para sua sala de atendimento no quinto andar. Jogou sua bolsa sobre sua mesa, e sentou na cadeira de couro gasto. Ficou girando para um lado e para outro, enquanto tentava lembrar onde havia colocado sua agenda. Estava ali mesmo, sobre a mesa. Havia doze consultas marcadas, e o resto do dia estaria programado para atender pacientes hospitalizados.
Sua primeira paciente era uma senhora que se queixava com a falta de mobilidade dos dedos dos pés. Ela tinha artrite. A segunda reclamava de dores nos ombros. Ela também tinha artrite. O terceiro paciente era um rapaz que havia fraturado o joelho, e precisava de algumas seções de fisioterapia. Levanta a perna, abaixa a perna. Levanta a perna, abaixa a perna. Estica a perna, estica a perna... O quarto paciente reclamava de dores nas mãos. Ele tinha tendinite...
Já era hora do almoço quando trancou sua sala e encontrou sua colega de trabalho a esperando do lado de fora. Ino era uma das nutricionistas do hospital, e carregava nas mãos uma prancheta cheia de folhas. Ela fazia algumas anotações, quando Sakura apareceu, e se levantou do sofá de espera.
— Sakura, não é por nada não, mas ninguém reclamou do seu cheiro? — indagou a loira, assim que se aproximou da outra.
— O que tem meu cheiro?
— Você está fedendo a álcool.
Sakura deu de ombros, e continuou a caminhar em direção ao elevador. Ela não havia comentado para a amiga o que aconteceu, por que não se julgava digna de pena. Ela detestaria ter que ouvir todos aqueles pedidos de pêsames, e comentário solidários a seu respeito; ou pior ainda, comentários sobre seu marido.
Lá, Ino apertou o botão do terceiro andar, onde ficava o restaurante. Havia um certo desconforto entre as duas, que ela ignorou. Há uma semana Sakura andava de ressaca, sem atender ligações de ninguém, sem se importar com nada. Ino tentava respeitar o espaço da amiga, sem enchê-la com perguntas, mas como as coisas pareciam piorar, já estava pensando em metralhá-la com as questões.
Elas serviram seus pratos em bandejas, e sentaram no ultimo banco, bem ao fundo. Iniciaram a refeição em silêncio até Naruto, um jovem residente prestes a se formar, sentar na cadeira ao lado junto com Tenten. Ele era cardiologista, mulherengo, e vivia dando em cima das colegas de trabalho. Já a morena, era uma das psicólogas do hospital, e por isso já estava a par da situação da rosada.
— Colegas, que tal uma festa Sábado à noite para animar essas carinhas? — ele encheu a boca com a salada, antes de voltar a falar — Aré paece que alrém morreu! — por baixo da mesa, Tenten chutou sua canela, e Ino estreitou os olhos.
Mas Sakura continuou a revirar sua comida com o garfo, sem muito apetite, como se não tivesse ouvido.
— Desculpa, Naruto, mas ando sem ânimo para festas... — resmungou.
— É por isso que estou convidando vocês... — desta vez, ele olhou para a moça com mais cautela, desconfiando dos fatos — Vai ter música alta, gente dançando, bebidas...
— Acho que as bebidas não são relevantes... — Ino o cutucou. Movendo só os lábios, discretamente, ele pediu desculpas a ela, embora ela não tivesse certeza sobre o quê. — Sakura, essa massa está maravilhosa, você deveria comer... — a loira ainda diz, tentando animá-la.
— Uhum...
No fim, Sakura deixou mais da metade da refeição no prato. Foi direto para sua sala, pegar sua bolsa e ir para o oitavo andar, onde ficavam os pacientes internados. Chegando à recepção do andar, largou a bolsa num armário para funcionários. Voltou para a recepcionista e pediu sua lista. Havia sete pacientes a quem dar sua atenção. O primeiro foi rápido. Uma senhora de 47 anos havia feito uma cirurgia na coluna, e estava em fase inicial do tratamento; de modo que só poderia fazer alguns poucos movimentos básicos, como mexer os pés e tentar levantar os joelhos. O segundo era um senhor de 58 anos, que havia operado o cotovelo, mas como havia pegado uma infecção, precisou permanecer em observação por mais tempo. A terceira era uma menina de 14 anos que operou os ombros, uma fratura adquirida pela má instrução em exercícios. Era rara as vezes que conseguia um paciente tão jovem. Em sua maioria são pessoas idosas, ou adultos que sofrem acidentes... O quarto da fila deveria ser um paciente recém chegado. Pelo que constava em sua fixa, era um jovem, de 27 anos, que sofreu um acidente. Ela ainda não o conhecia, e como ele havia saído da sala de cirurgia há pouco tempo, ele ainda dormia. Então, ela passou para o seguinte, outro senhor, este mais velho, em seus 72 anos. Precisou colocar uma prótese no quadril, e estava tentando sentar numa cadeira quando ela entrou na sala. A quinta era outra senhora, 65 anos, que caiu em casa e quebrou um osso da perna porque tinha osteoporose. O sexto era outro senhor que havia quebrado a canela ao meio numa partida de futebol com os vizinhos, mas ele já estava saindo do hospital, e Sakura só precisava dar um parecer sobre suas condições antes de liberá-lo. O último paciente era o rapaz que havia deixado para trás.
Já eram oito e meia da noite, e uma das enfermeiras lhe informou que ele já estava acordado, ainda na sala de recuperação. Quando entrou na sala, o encontrou numa cama, meio à outras tantas. Ele estava com a testa molhada de suor, porque tivera um pesadelo, e agora olhava para o espaço vazio a sua frente, sem piscar os olhos. Havia uma nebulosidade implícita naqueles olhos escuros, que ela jamais tinha visto antes em outro paciente. Temerosa, Sakura olhou novamente para fixa dele.
“Sasuke Uchiha, 27 anos.
Lesão na vértebra ‘C7’.”
Respirou fundo. A lesão aconteceu na altura da última vértebra do pescoço, que recebe esse nome “C7”, por ser a sétima vértebra. Como os sinais do cérebro para o corpo são transmitidos pela coluna, isso significa que o paciente havia perdido os movimentos abaixo dessa altura. Não era a primeira vez que ela atendia um caso desses. Pelo estado inerte em que ele se encontrava, certamente, precisaria chamar a Tenten para atendê-lo também.
— Como se sente? — perguntou ao tocar o ombro do rapaz, embora soubesse que ele não era capaz de sentir seu toque.
Ela olhou para os ferimentos leves no rosto do rapaz. Havia alguns arranhões e cortes, indicando que não havia sido um acidente qualquer. Ele estava com os lábios ressecados, e alguns ferimentos na região, também.
O homem ficou em silêncio durante alguns instantes, sem corresponder de modo algum àquele estimulo. Ele não parecia estar presente na sala, apesar de seu corpo evidenciar que estava. Até que, então, ele piscou os olhos como se acordasse de um transe, ou finalmente se libertasse de algo que o prendia.
— Morto. — resmungou. Mas ele continuou a olhar fixamente para o teto branco, como se algo o fixasse ali.
— Não se preocupe, você vai se recuperar...
— Mortos voltam à vida? — ele indagou, ainda sem olhá-la.
Sakura não soube o que responder, lamentando ter iniciado a conversa daquela forma. Suspirou, e ergueu sua prancheta.
— Preciso saber como está sua sensibilidade. Sente-se anestesiado?
Finalmente ele baixou os olhos para a cama, vendo o volume de suas pernas sob o lençol. Elas estavam ali, mas era como se não estivessem. Ele se sentia quebrado, incompleto, e aquela sensação lhe dava mais medo do que qualquer outra coisa pudesse lhe dar.
Ele não disse nada. Ele parecia um poço de lágrimas não derramadas, completamente vazio, mas cheio de ecos — pensamentos não ditos, mas expressos no olhar.
Então, Sakura resolveu abordar outra tática. Tirou do bolso do jaleco sua caneta de ponta fina, e começou a espetá-lo no ombro por cima do lençol que o cobria até o pescoço. Ele reagiu apenas quando ela espetou seu pescoço, se contorcendo um pouco. Depois, tirou o lençol, jogando-o no chão. Ele estava nu, com apenas uma espécie de camisola aberta atrás, cobrindo o peito e metade das coxas — cortesia do hospital, que evitava infecções hospitalares, utilizando materiais esterilizados.
Ele pareceu não se importar com a falta de privacidade, como se não houvesse motivos para tal. E ela espetou a coxa dele, sem se abalar com as bandagens do curativo em suas pernas machucadas no acidente. Ele não reagia, e também não olhava mais para si. Seus olhos estavam na cama ao lado, onde outro paciente dormia ainda anestesiado. Ela resolveu aplicar mais força com a ponta da caneta, deixando um ponto de tinta azul sobre a pele. Sakura teve a impressão de que ele contraiu o músculo, mas foi um movimento tão sutil, que não conseguiu distinguir bem. Mas ela notou que ele mantinha os dentes cerrados, e o cenho franzido, como se estivesse aborrecido. Ou no pior das hipóteses, resistindo ao tratamento.
— Preciso saber o que aconteceu com você. — ela diz, pegando sua prancheta.
— Acidente num monomotor.
— Você pilota?
— Não, eu vôo com os braços... O que você acha? — ele respondeu mal humorado.
— Acho que você deve respeitar meu trabalho. Vim aqui para atendê-lo, e é o que pretendo fazer, seu Sasuke...
— Eu não pedi sua ajuda.
— Por que você não precisava pedir! — emburrada, ela deu as costas a ele, sem a pretensão de voltar a vê-lo ainda aquela noite.
Sakura bateu a porta com força, se esquecendo que ali havia pacientes que precisavam descansar. E Sasuke ficou olhando-a caminhar porta a fora, sem entender o que ela quis dizer com aquilo.
Notas finais
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As informações sobre a coluna foram retiradas desta fonte: http://www.sgaf.org.br/portalbr4/index.php/fotos/3039-tetraplegico-recupera-movimentos-das-maos-com-cirurgia-pioneira
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