Psychophrenic
4 Capítulo III — Conheço um novo amigo
Notas iniciais
Espero que gostem c:
Não havia mais criatura vestida de branco. Nem sangue. Nem mesmo minha pequena colega se encontrava. Eu estava sozinha, e tudo o que eu podia ouvir era o som da minha respiração.
E também não havia mais sala branca. Agora as paredes ganhavam um tom de laranja vivo e um televisor pequeno estava a minha frente desligado.
Eu podia ver meu reflexo.
Meus cabelos pretos estavam cuidadosamente penteados e postos sobre meu ombro. Meus olhos estavam caídos, e abaixo deles profundas olheiras se instalavam e por fim, minha garganta estava coberta por algo duro e gelado.
Gostei do que vi. Principalmente por que, não havia sangue. Algumas ataduras brancas e macias cobriam toda a vermelhidão.
Agradeci em silencio. Não sei a quem. Mas o fiz.
Olhei para o teto, e o fiquei observando por vários segundos. As luzes dançavam em seu branco gesso, e eu podia ver seus rostos. Das luzes, digo.
Luzes tem faces?
Se nunca tiveram, agora ganhavam. Algumas eram lindas. Poderiam facilmente receber algo com aquilo, porem outras, aberrações.
Gostaria de ser uma luz. Gostaria de, poder ficar alternando entre a extrema perfeição e o horror. Ouvi um clique, e a porta branca ao meu lado se abriu.
Uma mulher passou por ela, com as mãos agarradas umas as outras e um sorriso convincente nos lábios. Convincentes, mas não a ponto de me enganar. Eu a reconheci. Não exatamente, mas seu rosto não me era estranho. Em seguida, um homem veio atrás dela segurando uma prancheta.
Assim como o meu demônio.
— Você... – Tentei dizer algo, mas as palavras simplesmente não saiam.
— Você tem visitas. – Ele disse levantando os olhos, e me analisando. Assim como o meu demônio.
Voltei-me para a senhora de cabelos grisalhos ao meu lado, analisando seus traços derrubados pelo tempo. Ela se aproximou e acariciou minha bochecha.
— Está melhor? – Ela disse, com um sorriso ainda mais largo que um anterior nos lábios.
Eu nem a conhecia. Mas para ela, era diferente.
Não respondi, permiti que o silencio pairasse no ar. Fitei seus olhos escuros por um instante, e então, seu sorriso se desfez, e ela foi embora. Aborrecida.
O homem enfiou-me três agulhas diferentes, e saiu.
Em um instante, eu já não conhecia mais ver nada.
Elas não estavam mais lá quando consegui abrir os olhos. Em seu lugar uma escura sombra me assombrava.
E eu gostava de seu rosto convidativo.
Tentei tocá-la, mas ali estavam novamente meus mantos de dor. E então não existia mais livre-arbítrio. Tudo o que eu poderia fazer pelo resto de minha vida era esperar que minha nova face amiga me levasse com ela. Não importando para onde.
Virei o rosto por um segundo para ver se éramos realmente só nós duas. Não.
Não pude deixar de ficar alegre ao perceber que ela havia se juntado a nós. Sua mão agora estava em minha testa, e seu sorriso era ameaçador. Assim como os outros.
Ela se aproximou de mim, e pude ver suas íris azuis irradiando sobre as minhas. Tão próximas agora.
Com um suspiro deu me um beijo demorado na ponta do nariz, voltando a sua antiga posição.
Fuja.
Foi tudo o que ouvi antes dela evaporar no ambiente. Procurei com os olhos em todos os cantos, mas ela não estava lá.
Fuja. Suas palavras ecoavam em minha mente, em diversos tons.
Tentei libertar-me dos mantos, mas foi em vão. Eu não conseguia. Onde estava a minha garota quando preciso dela?
Me dava ordens, mas nada ajudava.
Gritei. E me senti bem. Como se toda a angustia que estivesse me consumindo agora estivesse em meio ao oxigênio.
Me senti vazia. Olhei para meu pés, e os mexi. Pelo menos eles ainda podiam se sentir livres. E então desejei que minha angustia voltasse. Pois agora, nada mais eu sentia.
E isso a fazia voltar.
Uma mulher loira de olhos castanhos entrou com feição assustada em meu cubículo colorido.
— O que houve? – Ela ofegava. – Por que tantos gritos?
Não consegui responder. Minhas palavras não existiam mais.Haviam sido raptadas.
A mulher checou um painel, que só agora notei ao meu lado direito. E seguiu seu caminho pelo mesmo lugar da onde veio.
Corra.
Ouvi. Mas minha menina não estava a minha vista.
Mas eu a sentia, se contorcendo dentro de mim. E mais uma vez, sua presença me confortou.
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