Psychophrenic
5 Capítulo IV — Ama? O que é ama?
Notas iniciais
Era bom senti-la ali, tão próxima de mim. Mas daquela vez, não era como das outras. Antes eram só simples diálogos que nós mantínhamos internamente. Agora, me sentia controlada.
Isso é bom. Sozinha nunca conseguiria ser tão boa quanto ela. E gosto do fato de que, agora, eu mantinha uma força extra que, certamente, vinha da pequena.
- O que... – Gemi de dor enquanto ela me fazia levantar – O que você está fazendo?
Quando percebi, já estava de pé em frente a porta.
Abra. Pude ouvir.
Ela tinha meu controle, por que simplesmente não abria?
Abra!
Sua voz irritada fez meus pelos dos braços irisarem. Girei a maçaneta sem hesitar mais, ela poderia mastigar minhas entranhas assim que quisesse. Se bem que, conhecer a morte não seria algo ao todo ruim. Tenho tantos assuntos para falar, que até me perderia em um inicio.
O corredor estava vazio. Nenhuma alma viva perambulava por ali. Só eu.
Fui guiada em direção à uma porta, exatamente como a minha. Branca, com alguns detalhes entalhados na madeira, na maçaneta, havia esculpido um símbolo. Não pude reconhecer qual, pois minha visão estava embaçada.
Ouvi o clique da porta se abrindo, e a feição assustada de uma mulher ao ver a minha.
Minhas mãos gélidas e pálidas estava em volta de seu pescoço frágil.
Um segundo clique, mas agora, era o som de seu osso se quebrando, e fazendo com que sua alma se fosse.
Continuei andando, não pensei em nada por um só segundo. O cadáver descansando ao pé da porta, com os olhos esbugalhados e a pele branca como a neve me fez desejar estar morta. Aquilo era tão bonito.
Uma garotinha, perfeita devo dizer. Cabelos loiros bem penteados na altura das costas, nariz arrebitado... Suas mãos estavam uma sobre a outra em cima de seu peito, e tubos ligavam seu nariz a varias maquinas.
Acariciei s sua bochecha. Ela era uma da crianças mais lindas que eu já havia visto. Mas aqueles tubos...
Eles atrapalhavam tanto minha visão de seus traços perfeitos. Tirei-os cuidadosamente de seu nariz, e os coloquei sobre uma mesa. Ela ainda dormia tranquilamente.
Ouvi um chiado irritante vindo do aparelho, virei para ele. E uma linha imóvel o cortava. E o som enchia meus ouvidos, irritando-me.
Um alarme soou. E antes que eu pudesse perceber qualquer coisa, homens de branco, centenas deles. Quem sabe milhares. Eles me olhavam com horror, e agora, eu estava sozinha.
Por dentro.
Sorri para as criaturas, e suspirei um adeus para a alma da garota. Que agora, estava extremamente mais bela que antes.
Agora eles me arrastavam pelos corredores, até o mesmo lugar onde eu estivera antes. O quarto branco.
Mas meu sofrimento ali não durou muito.
Estava deitada no chão, fitando o teto claro quando mais deles entraram pela porta, e me colocaram sobre uma cama móvel. Uma maca, acho que chamam assim. Eu estava confusa, não entendia nada do que se passava. Por que me mantinham sempre presa?
A mesma mulher de antes agora me esperava, seu rosto inchado e vermelho. Eu não à conhecia ainda. Quem era ela.
E onde estava o seu doce olhar de antes?
- Coloquem-na no carro, por favor... – Ela disse entre um suspiro e outro. – Tomem cuidado com ela, tudo bem?
Ela se importava comigo. Mas eu quero seu doce olhar de volta!
Me colocaram, não tão delicadamente, sobre o banco traseiro deitada. Presa.
Sentei-me, não iria suportar ficar daquele jeito. Ouvi um obrigada, e então a senhora sentou-se no banco da frente.
- Vamos para casa, querida. – Ela se virou para mim, e passou o polegar em meu rosto.
- Casa? – Sussurrei, olhando-a. Não me lembro de casa alguma. Eu não tinha lar. Não existia isso em minha vida.
Ela só me respondeu o olhar com tristeza, e deu partida. Pude ver vários lares da janelinha que havia ao meu lado. Eu estava indo para algum deles, eu sabia.
- Lá existem criaturas de branco? – Não consegui conter a curiosidade. – Não quero vê-los novamente, eles... eles me mantém presa, você sabia?
Seus olhos me olhavam pelo retrovisor, e ela aprecia surpresa.
- Não, minha querida. Não existem criaturas de branco lá. – Lágrimas desciam pelas suas bochechas avermelhadas.
Não sei por que ela estava chorando. Mas queria que parasse por que... Ela me fazia sentir algo que eu não conhecia.
Uma sensação de conforto, de desejo, de gostar de estar com ela.
- Você me ama, querida? – Ela acabou com o silencio que pairava.
Sempre que estou com ela a única coisa que paira no ambiente é esse silencio.
- Ama? O que é ama?
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