Psychophrenic
3 Capítulo II — Eu não gosto de estrelas
Notas iniciais
O ser corre os olhos pelo meu corpo. Observando cada ruela feita nele, cada risca rastejante que as atravessa.
— Como você conseguiu se soltar, garota? – Ele pergunta, livrando-me do sufocamento, e torcendo-o, fazendo uma poça rubra se formar.
— J'ai fait absolument rien, monsieur… — Ele me observou, parecendo não entender o que dizia. Me peguei sem saber se havia dito algo ou só pensado. — J'ai fait absolument rien, monsieur! – Agora tinha certeza de que as palavras haviam saído, pois o som ecoou pelas paredes. Mas ele ainda não havia entendido.
Ou estava tentando ignorar o que eu dizia. Ninguém acreditará em você, ninguém...
Era ela, eu sabia. Estava dentro de mim agora. E isso me confortara.
Por que ela havia se tornado a única parte minha que me traz orgulho.
O demônio humano pediu que eu me sentasse, e eu o fiz, por medo que ele pudesse fazer algo a mim mesma.
Seus olhos eram de um negro intenso. Me lembravam o espaço sideral. Eu sempre via as estrelas brilhantes com meu pai, e nunca havia realmente gostado delas em si. Sempre achei que o breu que as mantinham era muito mais...misterioso e interessante.
Mas isso não é mais do que um simples fato. Inútil.
Fitei o pescoço do homem, e logo abaixo sua camisa verde dava o ar da graça, eu podia ver a sua garganta se movimentar com a pulsação.
Não é belo? Ela se manifestou. E era realmente muito belo. E em um instante eu estava ouvindo seus batimentos. Tum. Tum. Tum.
Sorri ao perceber que minha pequena amiga agora estava ao lado dele, apertando o lado esquerdo de seu peito. Acabando com a pulsação. E agora a camisa verde estava tingida de um vermelho intenso.
Ela me devolveu um sorriso amarelado e continuou seu trabalho sujo. Toquei o vermelho com os dedos, e experimentei. O sabor era ótimo. E ainda era belo. Talvez mais belo que antes. Com o restante do liquido do meu dedo, desenhei um triangulo sobre seu coração. Agora parado. Dei-lhe um beijo no nariz, e cruzei seus braços sobre o peito.
A garota suspirou e beijou minha bochecha.
Bom trabalho. Pude ouvir.
Encostei a cabeça no morto, e fechei os olhos.
Esperava encontrar a negritude, mas não. A lua iluminava boa parte da Campina, eu estava sentada em meio a grama. Me sentia feliz. Mas o que realmente era felicidade para mim mesmo? Tudo o que tenho é uma rasa lembrança desse sentimento.
Um homem estava deitado ao meu lado, seu rosto não permanecia sempre com os mesmos traços. Todas as vezes que eu piscava ele alternava do sorridente que vejo em meus sonhos, à criatura de branco. Ele apontava para o céu, e me contava sobre cada ponto brilhante.
E então a chuva veio, e ele se foi. Me deixando sozinha na grama, agora molhada.
Deitei-me no travesseiro verde abaixo de mim. E apontei para o céu, repetindo os ensinamentos para as gotas que caíam.
Elas se cessaram. E eu não podia mais ver.
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