Psychophrenic
2 Capítulo I — A criatura de branco
Notas iniciais
Não estão mais me olhando, refiro-me aos olhos rubros que antes me analisavam, mas suas tristezas ainda me envolvem, me apertam. Me sufocam. Agarro-me ao único ser que ainda tenho certeza de estar sendo comum. Não teria tanta certeza disso. Sua voz é clara, aguda, se parece com um esquadrão de unhas marcando um quadro negro. Olho em volta, procurando-a, e ali está ela. Sentada no canto oposto ao meu. Imitando meu gesto desesperado. Fios encarnados escorrem por entre seus dedos que estão pressionados contra sua pele alva. Coloco minhas temporas sobre o chão ao meu lado, continuando olhando-a.
Ela repete meu gesto, pela segunda vez.
Nossos olhos se encontram e eu entro em transe.
Está quente, o céu azul paira sobre minha cabeça, borboletas voam sobre as flores ao meu lado. Um homem pousa seus belos olhos negros nos meus azuis, sorrindo, e então ele abre os braços convidando-me a entrar entre eles. Corro em sua direção, e sinto o calor do seu corpo emanando em minha carne. E por um segundo sinto-me confortável. Fecho os olhos para poder sentir mais a sensação. E quando os abro chamas me envolvem, e seus braços não estão mais lá. Demônios, assim como os que me arrastaram para este balde. Eles estão me abraçando, mas nenhum calor emana de suas peles escamosas. Tudo o que sinto é medo.
Gritei.
E então, ela ainda estava lá. Agora ajoelhada ao lado de meu ombro amarrado, correndo os dedos finos por entre meus cabelos escuros.
Estamos todos juntos, rodando, rodando, rodando, rodando...
Ela cantava, sua voz oscilava entre um agudo horripilante e um doce canto calmo. E seus olhos faziam o mesmo, entre um suave púrpura, e um atiçado escarlate.
Mas seus dedos sempre passavam delicados em meio aos fios quebradiços.
Rodando, rodando, rodando, rodando...
Nossas vozes cantavam em coro, enquanto eu me agarrava agora a sua mão, acariciando-a com o polegar. Quero acalmá-la. Quero fazê-la perceber que não sou só uma simples serva.
Seus dedos descem pela minha bochecha, riscando-a com a navalha que ela tem na ponta dos dedos. Sinto algo quente escorrer pelo meu pescoço, mas não há dor. Ela os continua descendo até atingir minha garganta. E então seus dedos se tornam pesados, e o que antes era uma simples risca superficial tornou-se um fundo abismo. Quero berrar, mas não posso. Ela continua fincando suas laminas de cálcio no abismo, formando nele um rio de sangue que passa. Ninguém se atreveria a atravessa-lo.
— Precisa de uma ponte... – Sussuro, tentando soltar-me de meus tecidos, tentando agarrar sua mão e fazê-la parar.
Mas ela continua traçando suas mortais estradas sobre meu rosto, ao chegar ao limite, o inicio de seu muro. Ela o arranca como uma tesoura corta um papel e continua seu cruel caminho sobre meu peito.
Uma parte de meu cubículo se abre, formando uma saída. Ou talvez uma entrada.
Por ela passa um homem, mas seu rosto parece indeciso entre ser um bom ser, ou um demônio como os outros.
— Siga-me, Srta. Alleaume. – Ele levanta os olhos de sua prancheta e me analisa por completo. Ele segue os olhos pelo rio de sangue em minha garganta. E sai.
Tento sentar na mesma posição que estava antes, mas tudo o que consigo arrancar de mim mesma são gemidos de dor.
A criatura retorna de sua passagem carregando uma caixa branca. Ele se ajoelha ao meu lado, no mesmo lugar da garota.
— Não...ela... – Não consigo nem ao menos respirar mais. Quanto mais completar uma sentença.
Ele cobre meu abismo com uma bandagem branca, e limpa os restos transbordados do meu rio em volta das margens... Uma ponte, sussuro.
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