Psycho
2 Só sei que o culpado fui eu
A chuva havia parado, mas ainda estava escuro. O menino chamado Josh estava concentrado nos ferimentos da filha de Afrodite, enquanto esta se preocupava em me encarar. Milhões de coisas navegavam selvagens e agitadas em minha mente, muita dúvida e muitos “acho que isso não está certo”.
– Qual é seu nome? – Josh perguntou, ainda sem olhar para mim, vasculhando em sua mochila, procurando algo.
– Sury Windsor – Falei, tentando fugir do olhar especulativo da menina.
– Ela é descendente de Jasão – Acrescentou a menina, bebendo um pouco de algo que Josh oferecia.
– É mesmo? Isso é bem legal. Bem Sury, eu sou Josh Lief, filho de Hermes. A estressadinha aqui Maeve McCurdy, filha de Afrodite.
Abismada, quando iluminados pela luz da rua, vi os ferimentos de Maeve serem curados como que por mágica. Josh sorriu para mim, e senti que pela primeira vez em muito tempo, tinha encontrado um amigo.
– Isso tudo é bizarro demais. Eu, filha de um deus? Não, não pode ser.
– É bem confuso no começo, mas você se acostuma.
Então ele me contou uma porção de histórias, sobre heróis, deuses, Olimpo e como os olimpianos ainda tinham filhos com mortais. Falaram sobre um acampamento mágico e seguro, assim como minha mãe havia feito em O’Hara, e então, como os monstros perseguem os heróis.
– E aí vem a parte ruim – Maeve falou, mais simpática agora – As coisas ficam bem ruins quando você descobre quem é. Os monstros ficam sabendo também, é como se você acionasse um tipo de alarme, e então eles passam a persegui-lo. Alguns de nós mal podemos sair do acampamento, pois a vida aqui fora é terrível, mas claro que, para outros, como filhos de Dionísio, Deméter ou mesmo os filhos menos poderosos de minha mãe, ficam lá só no verão. Os monstros não parecem ter tanto interesse neles – Sorriu, como se aquilo a divertisse.
– Então, eles vão me perseguir agora?
– Provavelmente, isto é, talvez – Josh falou, afagando meus cabelos – Mas você pode seguir conosco para o acampamento, pequena, lá estará segura. E quem sabe, poderá descobrir quem é seu pai.
– Mas não se anime muito, às vezes, os deuses não determinam os filhos, apesar de tudo – Maeve lançou para mim depressa, Josh a olhou meio irritado.
– Mas com alguma sorte – ele acrescentou – Seu pai irá determinar você logo.
Depois, andamos até quase o amanhecer, querendo estar o mais longe possível do Shopping de Medeia. Entre uma história e outra, fomos atacados duas vezes. Na primeira vez meu susto foi tão grande que eu quase desmaiei. Eu havia percebido que aquele homem não era normal, mas decidi ignorar. Ele tinha talvez trinta anos e estava realmente irritado. Usava um chapéu e óculos de sol mesmo estando escuro, um sobretudo e calças pretas estranhamente justas.
A princípio era apenas um homem que parecia buscar algo e no caminho, mas depois seus olhos ficaram vermelhos quando ele fez uma mulher que passava pegar fogo, entendi que era um monstro que tocava as pessoas e simplesmente as transformava em cinzas. Uma fênix, Josh havia dito. Maeve o desintegrou com uma flecha com ponta de ferro. Lembrei de uma história que vovô havia me contado há muito, uma que se não fosse tão interessante, meu TDAH não teria me deixado prestar atenção.
"Os pássaros todos descendem de seus primeiros, de outros de seu tipo. Mas um sozinho, um pássaro, renova e renasce dele mesmo — a Fênix, que se alimenta não de sementes ou folhas verdes, mas de óleos de bálsamos e gotas de olíbano. Este pássaro, quando os cinco longos séculos de vida já se passaram, cria um ninho em uma palmeira elevada; e estabelecido lá, inflama-se, rodeado de perfumes, termina a extensão de sua vida. Então do corpo de seu pai renasce uma pequena Fênix, como se diz, para viver os mesmos longos anos. Quando o tempo reconstrói sua força ao poder de suportar seu próprio peso, levanta o ninho — o ninho que é berço seu e túmulo de seu pai — como imposição do amor e do dever, dessa palma alta e carrega-o através dos céus até alcançar a grande cidade do Sol, e perante as portas do sagrado templo do Sol, sepulta-o. São palavras do grande Ovídio. Sabe, eu mesmo chego a duvidar disso, porque, ora, pessoalmente nunca vi uma fênix, você viu Sury? Mas dizem que sua plumagem é vermelha com partes douradas, que pode queimar com um toque, por assim dizer e que sustenta peso dezenas de vezes maior que o seu próprio. E tantas outras coisas que esse pássaro faz, consegue imaginar algo como isso?"
Apesar de vovô estar errado sobre a fênix ser um pássaro, eu havia gostado da história. Depois da fênix, foi a vez das mulheres galinha esfomeadas que tentaram comer meu braço. Espetei uma delas com minha faca, como havia feito no sanatório O’Hara e ela se desfez em pó. Josh cortou a cabeça da outra, e ela também se desfez.
Quando estávamos em uma rodovia, Maeve fez algo que me surpreendeu. Ela acenou até um carro parar, e quando isso aconteceu, qualquer coisa que ela tenha dito fez o motorista nos deixar entrar.
– Tem certeza que é seguro? – perguntei a Josh. Ele sorriu, me empurrando para dentro.
– Confio plenamente em Maeve – Disse. A menina de Afrodite enrubesceu, sorrindo tímida.
– Como fez isso, Maeve? – perguntei, sentando ao seu lado no banco de trás.
– Lembra quando eu falei sobre alguns filhos da minha mãe serem mais poderosos? – Sussurrou Maeve, assenti uma vez – Então, é isso. Digamos que eu tenho um dom especial.
– Ela pode influenciar as pessoas – Explicou Josh, também aos sussurros – O dom do charme.
– UAU. Isso deve ser bem legal! – exclamei animada, os dois me pediram silêncio.
Depois de dias dentro do carro apenas com paradas rápidas e noites mal dormidas, nossa carona finalmente nos deixou em Nova York. Josh arrumou, melhor, Josh roubou comida para a gente em algum lugar. Era muito bom, hambúrguer duplo, batatas fritas e Milk shake de morango. Fiquei deslumbrada com Nova York, os dois riram de mim enquanto eu andava olhando para o alto, encantada com os prédios e toda a agitação. Depois, com mais uma ajudinha de Maeve, pegamos um taxi para Long Island. Eles estavam ansiosos, pois estavam voltando de uma missão, trazendo qualquer coisa muito importante dentro da bolsa de Josh.
– Aqui está bom, podemos seguir daqui – Maeve falou, tocando o vidro que nos separava do motorista.
– Mas aqui? Tem certeza? Não há nada aqui crianças, vocês não podem...
– Sim, nós podemos – Da maneira que ela falou, até Josh e eu acabamos por concordar.
Ela dispensou o motorista com um aceno, assim, sem falar muito e sem pagar nada. Seguimos pela estrada, até estar diante de uma colina, a mais verde e bonita de todas. No alto, um enorme pinheiro.
– Aqui, a colina meio sangue – Josh anunciou.
Eles haviam me contado a impressionante história, certamente. Mas não conseguia acreditar que aquela arvore um dia fora uma menina, uma filha de Zeus. Subimos a colina em uma corrida ritmada. Estava ansiosa e de fato, quase conseguimos chegar sãos e salvos até o vale lá embaixo. Quase.
Eu mal pude assimilar o que acontecia, tamanha rapidez tudo se sucedeu. Me via acuada, enquanto duas criaturas saídas de um pesadelo seguravam Maeve e Josh.
– Corre Sury, vá buscar ajuda! – Josh gritou.
Não vai dar tempo, quis responder. Imagens estranhas surgiram em minha mente. Marinheiros bêbados, risos e festa. E um colar, como o meu. Instintivamente, toquei-o, como que para se certificar que ele ainda estava ali. Foi então que senti algo se formar em minha mão, algo frio e consistente. Um arco prateado, com uma serpente de bronze enrolando-se por toda a sua extensão.
– É o arco de... – Maeve começou, mas foi interrompida por um lamento de Josh.
– Atire Sury! – Gritou ele, a cor sumindo por completo de seu rosto.
– Mas eu...
– Basta resetar a linha, a flecha irá surgir – ele garantiu.
Os dois pareciam prestes a morrer a qualquer instante, foi quando Josh atraiu meu olhar e eu entendi seu pedido. Com o pouco tempo que tinha, disparei uma flecha e salvei Maeve, vendo a vida ser levado de Josh.
Lancei minha adaga por puro impulso e ela se alojou na cabeça do monstro, mas era tarde demais, Josh jazia sem vida no chão, acabando por ser coberto pela poeira de monstro. Maeve soltou um grito de dor, que pareceu atravessar por todas as colinas, até o mar. Olhou para mim desconsolada, segurando a mão do garoto, perdendo-se em lágrimas.
– Eu... Eu sinto muito Maeve, mas era isso que ele queria... Salvar você – Falei, tremula, vendo o arco sumir em minhas mãos e o colar reaparecer no pescoço.
Ela certamente não estava mais ouvindo. Abraçava o corpo sem vida do garoto como se a sua própria dependesse disso. Atirou minha adaga em minha direção, murmurando algo em grego antigo, que soava muito como uma maldição.
Não sabia naquele momento, mas filhos de Afrodite tendem a ser bem rancorosos. O brilho nos olhos seria para me cegar, os abraços, para me amaldiçoar.
Fui levada para baixo por uma garota muito simpática. Lynn, de Deméter, ela disse. Ela repetia “tudo vai ficar bem” como se fosse um mantra, afagando meu cabelo vez ou outra. Guiou-me até uma varanda, na enorme casa de quatro andares. Falou a um homem em uma cadeira de rodas o que havia acontecido, mas mesmo assim, ele sorriu para mim, como se não fosse minha culpa o menino de Hermes ter morrido.
– Não foi sua culpa – Assegurou-me, como se lesse pensamentos ou algo do tipo.
– Maeve não concorda – Suspirei, lembrando a expressão de tristeza de Maeve.
– Ela vai superar – Garantiu Lynn.
De dentro da casa, saiu um tipo muito curioso. Era um homem barrigudo, com cabelos encaracolados negros quase roxos e olhos de lunático, vestindo uma camisa com estampa de leopardo. Bebia algo de uma lata, e parecia extremamente entediado.
– Ah, Sury – o da cadeira de rodas falou – Imagino que Maeve e Josh tenham lhe posto a par dos assuntos relacionados aos deuses e tudo mais, estou certo?
– Sim, você deve ser Quíron, o centauro – Disse a ele, imaginando como ele escondia as patas de cavalo.
– Treinador de heróis, sim – ele sorriu – E este é...
– O deus Dionísio – Arrisquei, me encolhendo um pouco sob seu olhar especulativo.
– Bah! Quem esperava? Zeus? Esse certamente tem mais o que fazer, como castigar seu filho jogando-lhe em um acampamento de filhotes de deuses. Entretanto, interessante você ter sobrevivido, Sophia.
– É Sury... senhor.
– Bem, bem, como vocês dizem hoje em dia, tanto faz. De qualquer modo, vá se acomodar no chalé. Imagino que vamos ter que queimar a mortalha do garoto e todo aquele blá, blá, blá mais tarde, e você deve estar cansada, não tem dormido muito ultimamente.
Já estava prestes a perguntar como ele sabia, mas Lynn se intrometeu.
– Devo levá-la ao chalé onze, senhor?
– Onze, huh? Oh, acredito que não. Sophia é minha filha, certamente é.
O deus levou uma das mãos ao rosto, como se estivesse pensando se eu era mesmo sua filha ou não. Senti que fosse desmaiar, imaginava meu rosto pálido como um papel. Primeiro, fiquei meio chocada, depois, o susto deu lugar à raiva.
– Algum problema, menininha? – O deus perguntou – Uma diet coke talvez te faça melhorar.
Ele ergueu a mão no ar e fez uma lata se materializar, aquilo teria me impressionado se não estivesse tão irritada.
– Sabia onde eu estava, o que estava passando, quanto medo tive na rua e não fez nada – Afirmei, minha voz soando mais do que raivosa, magoada e ressentida talvez.
Lynn pediu licença e saiu andando, ou melhor, correndo. Agora deveria ser aquele típico momento onde o pai arrependido pede desculpas e promete nunca mais falhar, era o que eu esperava. Mas, obviamente, isso não aconteceu.
– Sinto muito, Samantha – foi o que o barrigudo disse, da mesma forma displicente como poderia dizer “dane-se você”.
– É Sury, e você não sente nada – Falei entre dentes.
– Sury, talvez... – Quíron começou como um alerta, mas não disse mais nada.
– Minha mãe certamente cuidou bem de você enquanto esteve com seu tio, aquele impossível do Cesaire — Falou entediado.
– Tia Samy é sua mãe?
– Sêmele, sim. E, é claro, influenciei você para que fosse até a missão do pentelho de Hermes e da metidinha, descobriu mais sobre você e ganhou uma carona. O que mais queria que fizesse?
– Eu quase morri lá! – Reclamei.
– Bobagem, bobagem. Você tinha tudo sob controle – E voltou a se concentrar na bebida, como se eu nem estivesse ali.
Quando mais ele falava, mais tinha vontade de socar aquela barriga enorme dele, por mais que ele estivesse dizendo que havia me ajudado.
– Ouça criança – Quíron chamou – Os deuses não podem fazer muito por seus filhos, mesmo quando eles querem.
– O que não parece ser o caso dele – cuspi.
– Ah, essas crianças de hoje, sempre tão ingratas, por isso as detesto – resmungou Dionísio.
Quíron me lançou um olhar de pesar, deixou sua cadeira e me levou em um tour pelo acampamento, que se tornava mais incrível à medida que eu o conhecia. Por fim, chegamos a um conjunto estranho de construções que de certa maneira combinavam entre si. Paramos em frente ao de Dionísio, que segundo Quíron, seria minha nova casa, mas eu senti que não poderia jamais chamá-la de lar. Mas é melhor que um cano de esgoto, pensei desanimada.
Passei talvez uns três anos sozinha no chalé antes que um irmão chegasse. Então, surgido diretamente dos meus pesadelos, Dionísio me surge com Caleb Harper, um sujeitinho metido a artista, mais insuportável que um filho de Afrodite, talvez porque dividíamos a morada e estávamos juntos quase sempre.
– O que há com o espelho? – Me perguntou na primeira noite no chalé, quando me viu cobri-lo com uma toalha.
– O que? Não há nada com o espelho – Resmunguei de volta.
– Então por que este está cobrindo?
– Sempre os cubro a noite, uma antiga história que minha avó me contou, e que a mãe dela contou a ela e assim por diante – Tentei manter o som displicente, mas acho que não convenci muito.
No mais, com o tempo, descobri que até minha bipolaridade era um talento, visto que a TDAH e a dislexia eram reflexos naturais de batalha e a facilidade para o grego antigo, respectivamente. Quíron disse que minha bipolaridade muito provavelmente advinha do fato de Dionísio – depois de tantos anos, ainda tinha um bloqueio em reconhecê-lo como sendo meu pai – ser o deus do teatro, trata-se então de, como ele chamou, facilidade para dissimular, o que poderia me ser útil um dia. Era ainda melhor que isso, quero a dizer, ficava melhor com o tempo. Chame de atuação impecável se quiser, mas de fato eu podia dobrar as pessoas, fazê-las acreditar que minha atuação convincente tratava-se da mais pura verdade, quase como o dom do charme de Afrodite, uma versão menos poderosa dele.
E tinha o controle sobre as plantas selvagens, aquelas da floresta, isso era bem divertido. Vê-las se desdobrando ao meu comando, como se eu fosse uma espécie de lady da natureza ou qualquer coisa assim, outro poder que parecia aflorar mais e mais conforme o tempo. Sátiros e ninfas, que pareciam ser tão ligados a mim, e que dividiam a mesa de Dionísio comigo nas refeições, me contaram que jamais se viu poder semelhante se manifestar em filhos de Dionísio, que eram sempre todos muito... normais, que podiam viver no mundo mortal sem nem mesmo chamar a atenção de muitos monstros e aquilo os impressionava. Então, quando eu estava indo dos treze para quatorze anos algo bem curioso aconteceu. Estava na floresta no meio de um capture a bandeira, jogando em favor da equipe de Atena, quando uma voz fininha e irritada me chamou.
– Está indo para o lado errado – Disse o esquilo.
Sim, disse o esquilo. Pode me chamar de Sury Dolittle se quiser, mas eu podia ouvir a voz dele em minha cabeça, não só com ele, mas como todos os animais, como os sátiros e ninfas faziam. De inicio, fiquei bem assustada, mas depois me acostumei, animais são ótimos para conversa. E ganhamos aquele jogo sem maiores esforços.
Naquele mesmo ano, estava então com quatorze anos e meio, um pouco mais talvez, quando ele chegou. Por sete anos o que eu fiz se resumia a basicamente treinar com meu arco e meus poderes, chegando mais longe que qualquer outro filho do odioso Sr. D. Mas então Paris Doherty resolveu que queria complicar minha vida, apenas porque é isso que os filhos de Afrodite fazem de melhor.
Ele chegou e simplesmente bagunçou tudo em minha vida e então não havia mais espaço para nada. Paris, assim como o seu xará de Tróia, era absurdamente lindo. Tinha o cabelo desalinhado, mas arrumado naquela desordem de alguma forma, dando a ele um ar meio rebelde. Tinha os olhos esverdeados, a pele clara e os lábios avermelhados e convidativos. Mexia comigo de maneira profunda, brincava com minha sanidade. Conquistou-me em um piscar de olhos, sem muito esforço. Tinha aquele brilho nos olhos, e um perfume único.
E eu estava apaixonada. E de repente, me peguei vivendo um dos piores momentos da minha vida até então. Ele me enganara, pisou em mim e riu disso, frente a todos os seus irmãos e irmãs. Lembrei-me então de Maeve na colina tantos anos atrás, sua maldição ecoando em meus ouvidos. Nunca houvera nada de real entre Paris e eu, ele manipulara tudo. Uma iniciação, como qualquer recém chegado de Afrodite, todos haveriam de quebrar um coração ao chegar. Mas comigo foi pior, ele deixou aquilo durar, o sentimento amadurecer e se ele se tornar indispensável para mim.
Jurei que jamais acreditaria em nenhum garoto. Mais que isso, desenvolvi um tipo próprio de escudo, tão perigoso e mortal como a mais afiada das espadas. Como se aquela situação toda desencadeasse em mim um novo dom, por assim dizer. Eu podia, com algum esforço, implantar visões perturbadoras na mente das pessoas. Ilusões, como as que vi no dia em que cheguei à colina. Plantas assassinas, pessoas bêbadas cometendo suicídio ou transformando-se em criaturas animalescas. Qualquer coisa que mexesse com o psicológico, que os fizesse recuar. E aquilo me divertia, a simples idéia de levar alguém a insanidade. Sentia-me poderosa.
Paris foi um dos primeiros a experimentar. Ninguém entendeu o que aconteceu a ele, um dia, depois do treino de arco e flecha, ele simplesmente apareceu no seu chalé completamente fora de si. Durou cerca de uma semana, até aos poucos ele voltar ao normal. Depois, simplesmente me evitava, passava longe, não ficava no mesmo lugar que eu. Eu o amedrontara e isso era ótimo para mim.
Nos próximos meses, voltei a minha antiga rotina de treinos, atividades e brigas quase diárias com Caleb, muito embora agora eu tivesse certa vantagem sobre ele. Tinha completado quinze anos, e até recebera de Dionísio uma caixa de bombons de licor. “Para Sophia: felicidades. Dionísio”, dizia o cartão, eu até consegui rir daquilo. As coisas pareciam realmente estar entrando nos eixos, mas só para variar, eu estava tremendamente errada, pois naquele exato momento, um garoto era atingido por um raio na colina.
– Blake Madison – Ele disse em uma voz cheia de poder quando acordou dois dias depois – Filho de Zeus.
Blake era um tipo admirável. Quero dizer, tinha o porte físico de um atleta, cabelos negros desgrenhados que contrastavam com o tom de pele e os olhos azuis elétricos, como que prontos para disparar uma carga elétrica de um milhão de volts, mais ou menos. Estávamos na varanda da casa grande junto a Quíron e Dionísio, eu; Guinever Herrera, filha de Hermes, uma menina de feições hispânicas, com sotaque carregado e pele bronzeada; Dan Reverbel, um menino loiro com o rosto coberto de sardas, este filho de Deméter e Gus Aberdeen, um deslumbrante moreno de olhos claros, filho de Apolo. Quíron perguntou ao recém chegado se ele sabia o porquê do raio, e ele nos contou uma história bizarra.
- Não sei ao certo quando isso aconteceu. Só sei que o culpado fui eu – Concluiu desanimado.
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