Psycho
3 Mente em colapso
– Guilhermina – Dionísio cutucou Guinever, depois de um incomodo instante de silêncio – Leve o jovem Morrison para o chalé dele antes que seja morto por qualquer deus extremamente irritado, sim?
Ginn revirou os olhos. Ela era uma boa amiga, do tipo que providencia o alivio cômico nas horas mais difíceis, e realmente sabia apoiar, estava sempre ali, com seu sorriso élfico que parecia dizer: ei, cuidado, não deixe essa criança perto de fósforos e objetos cortantes. Já completava o seu quarto ano como campista, mas Dionísio achava interessante fingir que não sabia seu nome.
– Pode deixar senhor – Ginn olhou para Blake com um quê sonhador no rosto, soltou um leve suspiro e sorriu – Venha Blake, vou te mostrar o acampamento o seu chalé.
Blake tentou sorrir, mas não foi muito convincente nisso. Seguiu-a arrastando uma perna, tremores percorrendo seu corpo – suponho que reflexos de quando se é atingido por um raio e sobrevive para contar a história. Quíron nos mandou voltar para nossas atividades e assim fizemos. Depois do jantar e da cantoria na fogueira, segui com Caleb para o chalé, desejando mais do que nunca uma boa noite de sono. Depois de um banho rápido, larguei-me na cama, esperando o sono chegar. Não muito depois de adormecer, algo meio estranho aconteceu.
“Toc, toc, toc? Alguém em casa?”
Abri os olhos, alarmada, sentando-me na cama e acendendo as luzes. Caleb nem se mexeu em sua cama. Esperei, mas nada aconteceu, devia ter imaginado aquilo. Voltei a fechar os olhos, querendo retornar ao sono.
“Francamente, eu esperava mais de você.” Acendi as luzes outra vez, mas não havia nada. A voz riu, e percebi que aquilo estava em minha mente. “Sabe, por um minuto achei que tinha encontrado a pessoa errada, mas espere, se tivesse feito isso, sua mente entraria em colapso, e você sairia se jogando pelas paredes, tentando se matar e coisas desse tipo. Era você mesmo quem eu procurava. Liberdade, liberdade!”.
A voz parecia pertencer a uma garotinha animada demais. Eu não podia senti-la, ou mesmo vê-la, só a ouvia, dentro de minha mente. “Deve voltar a dormir” falou ela, meio contrariada. Dei tapas na cabeça como se fosse uma doida (o que acreditava ser verdade, a essa altura), fazendo a menina rir ainda mais. “Não estamos sendo muito receptivas” Soou falso seu tom de ameaça “Admita menina, você adora isso, não adora?” Respondi que não em voz alta. “Como não? Ei! Esse é seu dom, eu estou aqui por isso. E mais, queira ou não queira, foi a paixão que despertou isso em você. É sempre assim, esse dom e a paixão andam juntos”.
– Quem é você? – perguntei, me sentindo uma idiota por estar falando com alguém que parecia nem mesmo existir de fato.
“Ah, mas que falta de educação a minha. Desculpe meu bem, vou lhe mostrar quem sou”.
– Mostrar?
A menina riu em minha mente, e fui tomada para uma visão, a mais estranha de todas. Eu estava em pé, frente a duas crianças que brincavam.
“Eros, o menino-cupido, ainda era criança e Zeus havia acabado de ter uma filha com uma excêntrica mortal, e a filha dessa união adultera era tão inquieta, tão agitada e fora do normal, que deram a ela o nome de Loucura. Os deuses ficaram preocupados, aumentaram toda a segurança dos portões do Olimpo, para que Loucura jamais entrasse. Mas é claro que ela conseguiu driblar a segurança e entrar no Olimpo” A dona da voz que narrava riu com vontade, sua voz indicando que era obvio que Loucura poderia entrar. Enquanto ela ria, as duas crianças em minha frente davam as mãos. “Eros estava brincando nos jardins, sob o olhar pouco atento de sua mãe, e logo ele acabou por encontrar a menina e os dois acabaram ficando amigos”.
A menina da visão tinha um brilho estranho no olhar. Travesso demais, quase maldoso e com certeza, repleto de um poder quase desconhecido. A voz então continuou “Afrodite proibiu que o filho brincasse com a estranha garota, afirmando que ela seria a causa de todos os infortúnios no Olimpo e na Terra, mas como qualquer criança, os dois apenas a ignoraram. Eros e Loucura continuavam a brincar e até a brigar às vezes, como se fossem simples crianças normais”. A visão então mudou, não estávamos mais nos jardins, estávamos no alto de uma escada cercada por pedras e riachos. O brilho no olhar da menina Loucura parecia aumentar mais e mais.
“Numa das já tradicionais brigas dos dois, Loucura empurrou Eros que bateu com a cabeça em uma rocha e ficou desmaiado. Afrodite foi chamada ao local e vendo o filho ensangüentado, desmaiado sobre a rocha, segurou-o nos braços e, enlouquecida pela dor, procurou Asclépio, deus da Medicina. Após os exames de praxe, Asclépio disse algo como ‘Eros não morrerá, mas o ferimento é grave, provocou uma concussão no cérebro’”. A voz narradora imitou uma voz grossa, meio falando, meio rindo. “Então ele olhou para Afrodite com certa piedade e falou ‘Ficará cego por tempo indeterminado, talvez jamais veja a luz do sol novamente’. Afrodite ficou inconsolável, e fez muito drama, claro, imagino quão boa deusa do teatro ela seria. De qualquer forma, ela exigiu que o conselho dos deuses fosse reunido para julgar Loucura e esse foi um julgamento bem estranho, se quer saber. Hermes, como o bom deus do comercio e dos ladrões, propôs que Loucura compensasse os danos que provocou com um pagamento em ouro. Ares, maldoso como sempre, recitou a lei de Talião. Olho por olho, dente por dente.
Estremeci com o último trecho narrada, acho a lei de Talião algo tão errado. Eu via o rosto dos deuses aparecendo, apontando um dedo acusador na direção da menina Loucura, mas nem isso parecia diminuir o brilho, arrancar o ar travesso de seu rosto, como se ela nem ligasse para eles. “Terrivelmente cruel, não? ‘Furem os olhos da criminosa’, gritava o deus da guerra, acho que ele sentiu-se ofendido, uma vez que Eros é seu filho também. Mas Hera não aceitou a proposta de Ares ‘Jamais permitirei algo tão terrível como a Lei de Talião’” ela fez uma voz fina e insuportável, rindo ao acabar “‘Proponho que Loucura seja deixada em uma masmorra e que jamais veja a luz do sol, assim como Eros’. Assim, um a um todos os olimpianos foram dando sua opinião. Entretanto, Zeus discordou de todo mundo. ‘Nada do que disseram devolverá a visão a Eros. Como ele não pode caminhar sozinho porque está cego, ordeno que Loucura seja condenada a guiar o menino Eros, por todos os lugares, por toda a eternidade se for preciso’. Bacana, não?”
– Aonde quer chegar? – Perguntei, olhando para os lados – Quem é você?
“Pensei que fosse mais esperta”. Meu coração errou uma batida, pois dessa vez quem falou foi a menina Loucura, olhando para mim com os brilhantes olhos cor púrpura. Era ela, a voz era a mesma. “Bingo!” Ela riu, antes que eu falasse qualquer coisa, como que notando o entendimento através de meu rosto. “Loucura, muito prazer. E me perguntou onde eu queria chegar, bem, bem, o ponto é: a paixão e a loucura andam juntas”.
– M-Mas Eros não é cego! – Foi a única coisa que consegui pensar.
“Oh, não mais, certamente. Depois da apoteose sua visão foi restaurada, mas cá entre nós, ele tem uma visão horrível e enxerga muito mal, acho que é por isso que os mortais dizem que o amor é cego. Mas passamos muito, muito tempo juntos. E mesmo sendo uma mera lembrança agora, pode-se dizer que eu, bem... O contagiei, por assim dizer. Divertido, não? Acho que eu poderia dizer assim, Loucura faz parte do que Eros é”
Então a menininha explodiu em gargalhadas outra vez, como uma completa demente. Eu queria fugir dali, mas não havia como. Loucura agora rolava pelo chão, batendo as mãos e os pés, como em um ataque de histeria.
“Deuses, não acha isso muito divertido? Bem, bem, de qualquer forma, foi assim que cheguei até você, Sury. Sury, credo, seu nome soa como um pedido de desculpas, ‘Sãry’, é como sorry, entende?” Ela riu disso por um longo tempo, até aparentemente se cansar. “Que seja. Do que falávamos? Ah, sim. Cheguei até você junto com a paixão, por mais que ahn, isso tenha sido meio que uma desventura para você”
Ela cobriu a boca, mas nem isso foi suficiente para esconder o fato de que ele estava rindo de mim. Aqueles olhos malditos a entregavam completamente.
– E o que, exatamente, você quer de mim?
“Ora, vamos sorry, quero dizer, Sophia, ou melhor, Sury, eu quero me divertir junto com você. Mas acho que vou deixar você dormir agora, terá um longo dia amanhã. Ah, antes que eu esqueça, há apenas uma pessoa capaz de me conter, então não perca seu tempo em tentar me evitar, acredite, você jamais vai querer pedir algo a ela, muito menos ajuda”.
– O que quer dizer? – Exigi, coisas horríveis me passando pela cabeça.
“Quero dizer que vou estar sempre com você, quer goste, quer não, sorry. Entendeu o duplo sentido de sorry?” E lá estava ela, jogando-se no chão de rir outra vez, enquanto eu recobrava a consciência e voltava para o plano real. Aquele deveria ter sido um sonho bizarro, não poderia ser verdade. Alguém tinha mesmo invadido minha mente e se recusava a sair? Não, não poderia ser. Deitei a cabeça no travesseiro e tratei de tentar dormir, decidindo acreditar que aquilo não havia passado de um sonho. Então, quando lentamente mergulhava nos braços de Morfeus, ouvi um leve riso.
“Boa noite, sorry”
Na manhã seguinte as coisas pareciam um pouco estranhas. Acordei com uma terrível dor de cabeça, tomei um longo banho frio e segui com Caleb para o refeitório. Havia certa agitação em todo a acampamento, devido a chegada de Blake, pois filhos dos três grandes eram novidades e quase sempre significavam problemas. Na mesa de Afrodite a conversa era animada entre as meninas, todas trocando informações sobre o recém chegado.
– Ouvi dizer que ele tem quinze anos, e veio de algum lugar de Washington. Seattle, ou qualquer coisa assim – Falou uma quando eu passei.
– Quinze? Como ele sobreviveu tanto tempo lá fora? Mas nossa, ele é tão bonito. Deve ser de um lugar com pouco sol, pois é meio pálido. Com um bom bronzeado ele ficaria dos deuses! – Falou outra, e uma meia dúzia delas soltou gritinhos animados.
Eu tive que revirar os olhos. Não era só pelo meu desprezo por filhos de Afrodite, aquelas criaturinhas com cabeças ocas mereciam todo o mal do mundo simplesmente por serem o que são. Da mesa de Apolo, Gus acenou quando eu passei. Retribui o aceno sem muita vontade, o que fez com que ele me lançasse aquele olhar, aquele que queria dizer “tem algo errado e vou querer saber”. Guinever discutia com seus irmãos qual dos super-heróis era o melhor, e quando passei, ela lançou um preocupado “Que se pasa, mi mama?”. Ela me chamava de mãe porque implicava muito com ela por eu estar a mais tempo no acampamento e tudo mais, então ela me disse que eu parecia uma mãe, daquelas bem chatas, e passou a me chamar de mama, como ela chamava sua mãe, que havia deixado há quatro anos em algum lugar do México.
– Não á nada – Garanti, mas quem disse que era tão fácil assim enganá-la?
Engoli o café meio sem vontade. Estava preocupada com o que havia (ou não havia) acontecido na noite anterior, mas por sorte, não havia ouvido mais aquela voz. Senti um olhar em mim, e ao virar, surpresa notei Dionísio me encarando com as sobrancelhas arqueadas em dúvida, como se ponderasse algo que eu desconhecia. Ao me notar devolvendo o olhar, ele lançou um sorriso e gritou “Como vai, Samy?”, acenando como um político fanfarrão. Assenti com a cabeça uma vez, e ele voltou ao seu café.
Meu olhar então foi atraído para mesa de Zeus, onde um café da manhã jazia intocado em frente ao único garoto sentado à mesa.
– Ah, não. Você também? – Caleb suspirou ao meu lado, seguindo o meu olhar.
– O que quer dizer com você também, garoto?
Às vezes eu conseguia soar tão ou mais rabugenta que Dionísio, o que de fato era bem preocupante, mas Caleb já estava acostumado. Ele pôs uma mão no coração, e como quem declama uma poesia, mandou:
– Apaixonada, pelo menino de Zeus, como todas as garotas parecem estar.
Olhei-o com o que julguei ser uma expressão de incredulidade no rosto.
– Por favor, maninho, não exagere as coisas. Eu só estou preocupada com uma coisa que ele disse ontem, na casa grande. Ei, você sendo assim, tão sensível e dono dessa... Alma tão artística e profunda – Falei em tom de deboche, ele apertou os olhos – Não sente nada ruim chegando?
– Bem, eu não – Admitiu por fim, depois de muito pensar se aquilo que eu havia falado era um comentário irônico ou não – Mas deveria?
– Ainda não sei, mas espero que não.
Blake se levantou, sendo seguido por muitos olhares curiosos, e deixou o refeitório.
– Vamos andando, temos equitação com Deméter.
Seguimos sem muita vontade para os estábulos, aquilo não era realmente legal, não para nós, quero dizer, já que a maioria dos outros campistas parecia gostar especialmente de tal treinamento, mas depois de alguns anos ficava meio sem sentido ter aula. Acenei para a conselheira do chalé 04.
– Hey, Sury-Ann! – Gritou a menina, ela insistia que Sury deveria ser um erro gráfico ou algo assim, que na verdade eu deveria me chamar Mary, dizia que eu até tinha cara de Mary Ann, então, vez ou outra ela dava uma de Dionísio e misturava as coisas – Mais animada para voar hoje?
– Não exatamente, Pan.
Pandora Grimm era um tipo bem amável, como a maioria dos filhos e filhas de Deméter, com os quais eu me dava realmente bem. Gus costumava dizer que isso se dava por conta do romance que há eras houvera entre Deméter e meu antepassado herói, Jasão. Achava aquilo besteira, os filhos da deusa da agricultura eram simplesmente fáceis de conviver. Diferente dos arrebentadores de cabeça do chalé de Ares, os dos impossíveis do chalé de Afrodite. No mais, eu podia me dar bem com qualquer um que não me irritasse muito.
No almoço, eu fui encurralada por Gus e Ginn no refeitório, exigindo explicações. Disse-lhes que havia tido pesadelos, e Gus achou que era pelo que Blake havia dito, que eu havia ficado impressionada ou coisa assim. Ginn não pareceu muito convencida, acho que me conhecia bem demais para saber que eu não estava dizendo a verdade, mas mesmo assim não disse nada. No mais o dia passou rapidamente, e assim como todo o resto da semana. Eu não ouvira mais a voz, e estava mais do que convicta de que fora um sonho deveras ruim.
Apenas em uma das noites acabei tendo outro sonho bem estranho. Tinha espelhos, muitos espelhos, um labirinto deles e de repente estava em um lugar parcialmente escuro e úmido, vendo um garoto se debater, agitando as mãos como que em um ataque. Parecia estar batendo através de um vidro. Quando seus olhos focaram em mim, notei que ele estava completamente fora de si. Por algum motivo, quis ajudá-lo. Ele estava perdido, eu sabia, e também estava sofrendo, estava sozinho, com medo, e por trás da insanidade havia apenas um garoto que desejava fugir. Tentei correr em sua direção, mas no mesmo instante fui arrebatada para outro sonho. Neste um garotinho parecia estar sendo levado pelo vento, literalmente, como se uma mão invisível o levasse para longe. Uma mulher gritava, mas não podia ver quem era.
“A menina, a encontraram! Ela está bem, não foi machucada” Disse outra voz, eufórica.
“Mas como se mata um menino tão pequeno?” A mulher gritava a plenos pulmões, sua voz embargada pelo choro, aparentemente não ligando para a tal menina que fora encontrada. “Ele só tinha dois anos, e uma vida para viver!”
“Acalme-se querida, ele não está morto, não ainda” Disse a segunda voz, enquanto eu ainda olhava o menino ser levado cada vez mais para longe.
A mulher soltou um lamento de dor, saiu correndo e antes que eu pudesse ver seu rosto ela estava de costas para mim, esticando as mãos para o céu, tentando alcançar o garotinho.
“Mas terá um destino pior que a morte se não for encontrado um dia” Lamentou aquela segunda voz.
Aquilo me deixou um pouco assustada, mas então mais ou menos ao meio dia de sexta, tive uma surpresa, que fez o sonho parecer o menor dos problemas, com toda certeza. Estávamos na arena, eu, Gus, Pan, Blake – que havia feito amizade, bom, não exatamente amizade, mas estava bem próximo de Gus –, e Lexy, ah, Lexy, uma detestável filha de Ares, que tinha prazer em me derrotar na esgrima e rir muito disso, talvez porque eu não fosse exatamente boa com espadas, e preferisse um arco. Era uma das poucas pessoas que eu realmente odiava. De qualquer forma, havíamos acabado uma sessão de uma hora de treino com espada, no qual Blake se provara realmente bom, portando a sua lâmina longa de bronze celestial com um fio central de cor azulada que disparava faíscas. Então aquele homem pareceu meio que saído do nada.
– Fico aqui pensando, quando você vai, realmente, tentar consertar o que fez – Falou o homem, apontando um dedo na direção de Blake.
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