Psycho
8 Relatos de um semideus de bom coração
Eu tinha apenas quinze anos e achava que já sabia demais, que podia ir para o mundo e enfrentar tudo. É fácil pensar assim quando esta apenas se observando de longe, mas as coisas ficam um pouco diferentes quando é você quem está vivendo.
Blake e eu ficamos abraçados por muito tempo, o único som era nossa respiração. Até que eu, infelizmente, estraguei tudo com a pergunta errada.
– Jurei que não ia falar de mim. Não a você – Ele disse, totalmente sério, quase sombrio.
Colocou-se em pé de pronto, a mão movendo-se instantaneamente para o cabo da espada presa na bainha, como que pronto para atacar se necessário. Percebi meus olhos semicerrando como que em desafio, como que o incentivando a me atacar apenas por ter perguntado sobre sua vida.
– Eu só achei que você tinha muitas histórias para contar – Falei, impossivelmente calma apesar da postura rígida.
– E o que te faz pensar que você sabe mais de mim do que eu? – Gritou ele, seu corpo cintilando em um milhão de volts, a espada apontada em direção a minha garganta – Existe tanta coisa que eu vivi e você não faz idéia! Sozinho, não escondido e seguro em um acampamento!
Minha adaga estava em minha mão em segundos, não que aquilo fosse bastar caso ele quisesse mesmo me atacar.
– Mas o que? – Ele gritou de repente, os olhos saltados e a pele brilhando pálida – O que estamos fazendo Sury? Esse lugar está nos enlouquecendo! Precisamos sair daqui, com ou sem chama!
– Não podemos.
Fui tudo o que eu respondi e aquilo era nada mais que a verdade. Não sairíamos, não haveria modo. Sentamos novamente, recostados à parede, a uma distância segura um do outro, ambos ainda comas armas em mãos.
– Tudo que eu tinha era um quarto e o dinheiro da minha mãe – Blake falou de repente, depois de muito tempo em silêncio – Tinha alguns amigos que cabiam em uma mão, mas aquilo era tão vazio e sem sentido. Eu tinha um irmão menor, um dia nós estávamos... Ele... Ele morreu Sury, os deuses... Eu não pude fazer nada! Minha mãe me culpou, disse que aquilo tudo foi minha culpa, que Danny não teria morrido se eu não fosse tão negligente com a responsabilidade que ela havia me confiado, se eu não fosse tão... Tão como meu pai. Ela disse isso com nojo, com repulsa. Então sabe, depois disso fiz da rua a minha casa, mas não dava para chamar aquilo de lar. Eles... Eles perguntavam para mim, de onde havia vindo, para onde ia. Não sabia o que dizer, apenas buscava ajuda, sem encontrar nada.
Ele parecia quase transtornado, mas eu sabia do que ele estava falando, aquela ajuda que nunca chegava e a sensação de abandono.
– Jurei vingança, contra tudo, contra todos, contra meu pai principalmente. Eu clamei por sua ajuda tantas e tantas vezes, quando eu estava sozinho, e quando Danny estava sendo dilacerado pelos ecos e sombras que sempre nos perseguiam. Aí então depois de algum tempo imerso no mais profundo desespero, sozinho na rua por mais de dois anos, com fome, com frio, cansado de quase ser morto diariamente, aquela mulher apareceu.
Blake engoliu em seco, como se relembrasse um momento verdadeiramente ruim de sua vida. Parecia que ia se desmanchar em lagrimas a qualquer momento, suas mãos estavam tremulas e ele parecia frágil como jamais vi.
– Tinha os olhos avermelhados que pareciam ver todo o mundo, cabelos cor de fogo e um chicote nas mãos. Era uma deusa, sem dúvida alguma. Ela me ofereceu uma chance, algo que me pareceu maravilhoso naquele momento. Pensei dane-se o futuro, eu tenho mais o que aproveitar. Nêmesis me deu minha tão esperada chance de vingança, com uma chance de entrar o Olimpo. Sabia que aquilo era como suicídio, mas pensei que não poderia mesmo sobreviver muito mais na rua. Eu aceitei a oferta, e a deusa disse que cobraria um sacrifício depois, mas não me importei com aquilo no momento, estava eufórico com a idéia da vingança.
– E ela cobrou? – Sabia muito bem o que Nêmesis deve ter pedido a ele em troca da ajuda.
– Não, não até o momento. Talvez ela ache que a confusão que causei seja suficiente. Devo me preocupar?
Ele me olhou com um meio sorriso, os olhos brilhantes e esperançosos, como que esperando que eu entendesse porque ele fez tudo aquilo. Não disse nada, apenas continuei encarando-o até ele desviar o olhar, o rosto adquirindo um tom fraco de vermelho.
– Eu não sei bem como fiz aquilo, a chama e tudo. E falo sério quando digo que não sei quando foi, nem como, realmente a única coisa que tenho em mente é que o culpado fui eu, essa é a única coisa clara para mim, como se houvesse sido gravada no fundo de minha mente.
Ele parou por um momento, vindo para o meu lado tomando uma de minhas mãos. Voltou a encarar-me avidamente, mantendo aquele sorrisinho tímido no canto da boca.
– Desculpe Sury, fiz algo ruim e você acabou envolvida nisso tudo, mesmo sem querer ou dever. Eu... Eu não quis fazer sofrer, nem a mim nem a você – Sua expressão mudara, agora ele mostrava um semblante de angustia, misturada com uma pontada de desespero – O que eu quero dizer com isso é que... – Respirou fundo uma vez, apertando minha mão na dele – Eu não preciso dizer isso, você não consegue ver? Basta abrir os olhos e você vai perceber do que estou falando, o que venho tentando dizer desde que saímos em missão.
Aquele olhar... eu sabia. “Sim, sorry. Paixão!” Gargalhou Loucura. Eu não sabia o que fazer, desejava que um buraco se abrisse e me engolisse. “Ei, estúpida, cuidado com o que deseja. Uma vez uma garota desesperada como você pediu para ser transformada em uma árvore para poder fugir, e veja, seu pedido foi atendido. Quer mesmo ser engolida por um buraco?” Senti os olhos pesarem com as lágrimas, enquanto no fundo de minha mente Loucura cantarolava alegremente.
– De que adianta abrir os olhos, se sei que o brilho é para me cegar? Se os abraços serão para me amaldiçoar? Como... Como sempre – Gritei em meio a lágrimas, sentindo-me irritada e amedrontada, pulando para longe dele.
– Não, — A expressão de Blake era de pânico – Não vou... Você não entende Sury...
Ele pegou a minha mão novamente, fazendo uma onda de choque percorrer meu corpo. Aquilo ao mesmo tempo em que parecia me acalmar, enchia Loucura de vida, fazendo-a pulsar animada, dançar alegre em minha mente. Aquilo me enfurecia.
– Eu sei que você tem algo que esconde, mas...
– E desde quando você acha que sabe mais de mim do que eu? – Repeti suas venenosas palavras, gritando-as para ele, empurrando-o para longe – Também vivi coisas que você não faz idéia – Levantei uma das mãos tremulas e apontei para o meu rosto, forçando um sorriso a aparecer – Vê esse sorriso? É de mentira. Agora diga, quem é que nunca acreditou? Sou boa nisso.
Olhei para o garoto que me lançava um olhar indignado, quase magoado.
– Não me venha com sentimentalismo, eu posso ter enganado você, meu bem. Posso ter feito isso só pra ver o quanto você confiava em mim, posso ter te manipulado! E é de mentira tudo isso também, os toques, abraços, preocupação e qualquer coisa que se queira!
– Não, não é! Não pode ser. Foi a deusa, não você... Você não sabe como é isso, nunca viveu isso! Agora eu sei – Ele gritou, colocando uma mão sobre o peito, como que querendo arrancar dali algum incomodo – Não tem como saber! Como eu fico assim?
– Você sente que sua mente vai entrar em colapso, mas na verdade não há nada nela. Isso é loucura, menino do raio, é o meu dom – Falei cheia de uma certeza perturbadora.
– Loucura? Não Sury. Isso é ainda pior – Ele me olhou triste, como que derrotado – Isso é paixão.
Montamos acampamento ali mesmo, ficando tão distante um do outro quanto foi possível. Insisti para ficar com o primeiro turno de vigia, ele não fez objeção. Recostou-se a uma parede e fechou os olhos, mas pude notar que ele demorou a dormir, seu rosto fazendo sucessivas caretas, como se algo doesse.
– Bem, bem, imagino que vocês devam rasgar um ao outro, ou qualquer coisa assim? – Falou uma voz doce, enquanto Blake mergulhava na inconsciência.
Chocada, percebi que havia um anjo em pé ao meu lado, um anjo vestido com jaqueta de couro e tênis, uma visão um tanto contrastante.
– Eros – Ele disse, vendo que eu não falaria nada – Prazer em conhecê-la, Sury, certo?
Assenti uma vez, o deus suspirou.
– Sei o que está pensando, mas tudo tem um motivo – O olhar do deus vagou, como se ele estivesse perdido em séculos atrás, milênios talvez – Você não acha engraçado como às vezes uma pessoa que outrora era seu grande amor, hoje é apenas um conhecido? – Aquilo parecia um tipo de lamento, como se aquilo o deixasse angustiado – Como tudo muda rápido? Em um dia, estão planejando o futuro, sonhando com os dias juntos e decidindo os nomes dos filhos que terão, no outro, estão conversando coisas tolas, com medo de tocar naquele assunto que tanto machuca.
Ele me lançou um olhar de dar pena, como se isso o machucasse tanto. Eu queria consolá-lo, tocar seu rosto perfeito e prometer que tudo ficaria bem, mas me contive, o que foi realmente bom.
– Aí então os dois encontram-se falando coisas triviais, às vezes, até sem sentido. E um deles está sofrendo por estar fazendo isso. A cada palavra que é dita, fica comparando com conversas antigas que tiveram. Ontem era minha vida, hoje é nada mais que uma resposta qualquer. E um deles fica se perguntando o que fez de errado, afinal, deve haver um motivo. Um deles perde seu tempo querendo entender o motivo do fim e querendo acabar de uma vez por todas com aquela pequena esperança que insiste em existir, mesmo que cada uma daquelas palavras banais, ditas apenas para impedir uma briga, machuquem muito. E então a vida vai seguindo, sempre em frente, não dando chance ao passado de se repetir, os obrigando a aceitar que nada que ficou lá atrás pode voltar.
Fiquei quieta, olhando o deus nos olhos, sentindo coisas estranhas. Não entedia porque ele estava me dizendo aquilo, mas parecia muito importante para ele. Simplesmente não podia deixar de sentir que ele estava, acima de tudo, tentando me dizer algo.
– A paixão. É isso, essa coisa vaga que às vezes, com alguma sorte, torna-se amor, senão é apenas isso que eu acabei de contar, uma coisa boa que acaba de forma ruim. É tão terrível, não acha?
Apenas assenti, o deus suspirou.
– Não fui eu querida, foi minha mãe, Afrodite. Ela sabia que a paixão faria Blake estar com você até o final, independente de qualquer coisa. Não o culpe, era necessário.
– Ela o fez me amar? – Perguntei confusa, ainda tentando compreender onde nos levaria tal conversa.
– Paixão, não amor. Não confunda, amor é mais profundo e menos insano. De qualquer forma, agora ele tem a paixão, você a loucura – Ele me olhou preocupado. Então ele sabia – E quanto a isso, só deixe-me dizer algo querida, em curto prazo Loucura parece apenas um leve incomodo algo que você quase se acostuma e deixa passar, mas em longo prazo, ah, as coisas ficam um pouco mais complicadas, se me permite dizer. De qualquer forma, aprenda a controlá-la antes que ela controle você.
Ficamos em silêncio, enquanto eu deixava suas palavras acharem seu lugar em minha mente. Era doloroso saber que Blake, um garoto tão amável, não gostava de mim apenas por gostar, mas porque foi induzido a isso, era quase cruel, como se além do fato de pensarem que e jamais poderia ser uma heroína também pensassem que sou tão miseravelmente sem encantos que não sou capaz de atrair ninguém do sexo posto, que dirá então um todo poderoso filho de Zeus.
– Veio apenas para me dizer que o garoto só gosta de mim porque foi influenciado ou há algo mais? – Falei mal humorada, vendo Eros sorrir.
– Não pense assim, ninguém gosta de ninguém por mero acaso, achei que soubesse disso. E não, não é só isso que vim dizer. Vim para lembrar-lhe uma coisa, visto que você parece um tanto preocupada por ter perdido seu meio de locomover-se no labirinto, vim lembrar-lhe uma história, na verdade.
– Uma história?
– A de Ariadne e Teseu, certamente. Querida, preste atenção, você está deixando algo importante passar.
Outra vez não entendia o que ele queria dizer, e aquilo me deixava meio irritada, mas a presença de Eros simplesmente irradiava sentimentos bons, então isso, de certa forma, parecia fazer com que fosse impossível levantar a voz para ele, ou mesmo dizer-lhe coisas feias ou rudes.
– Não entendo o que quer dizer, senhor.
– Foi a paixão dela que o guiou, acho que muito em breve você irá descobrir que isso ainda pode acontecer, que os mortais podem ter seus talentos também. Agora, se me der licença, devo voltar lá para cima para aquecer corações com minhas flechas – Ele riu, um riso suave e musical como o de Afrodite – Então, se me der licença.
Não acordei Blake, me fazia bem vê-lo dormir. Fiquei pensando nas palavras do deus enquanto loucura berrava insultos em minha mente, fazendo-me perder a concentração muitas vezes. Eros havia dito que Blake e eu deveríamos dilacerar um ao outro. Não, dilacerar me parece eufemismo, ele disse rasgar, algo que parece bem mais selvagem e cruel.
Sentia lágrimas escorrendo por meu rosto, enquanto eu mexia em pedrinhas, restos das estátuas de Galatéia. Arrumava-as em ordem, mas segundos depois, para meu completo desespero, tudo estava bagunçado. Como a nossa missão, não importava o quanto eu tentasse arrumar, tudo voltava a desordem muito rápido.
“Uma coisa é certa” Riu Loucura “O caos só aumenta quando a ordem é imposta”
– Sinto cheiro de... Insânia! – Gargalhou uma voz alta e impossível, enquanto um homem erguia uma taça no ar e Blake acordava – Você é absolutamente filha do seu pai, eu digo!
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