Psycho
9 O que os olhos não vêem a mente imagina muito pior
Era um homem calvo, gordo, com lábios roxos e grossos e nariz achatado. Uma visão realmente perturbadora. E mais: ele estava visivelmente bêbado.
– Midas? – Apertou os olhos, tentando concentrar-se na estátua semi-destruída de Galatéia – Qual de vocês dois... OH, REI MIDAS! – Seu grito alucinado parecia um rugido – O que me perguntas? – Ele riu, bebendo mais de sua taça — Qual dentre as coisas é a melhor e a mais preferível para o homem, é isso?
Ele fez sons como o de um porco grunhindo, algo terrível, de qualquer forma.
– Estirpe miserável e efêmera! — Ele gritou, tropeçando nas próprias palavras, apontando um dedo longo na direção da estátua – Filhos do acaso e do tormento! Por que me obrigas a dizer-te o que seria para ti mais salutar não ouvir? O melhor de tudo é para ti inteiramente inatingível, não ter nascido, não ser, nada ser! Depois disso, porém, o melhor para ti é logo morrer, e tenho dito!
– Quem é você? – Gritei, tentando atrair sua atenção, o que de fato eu consegui.
Ele me olhou de cima a baixo e depois me mostrou um sorriso de dentes impossivelmente brancos.
– Ei menininha! O que faz perdida aqui? – Ele piscou os olhos várias vezes e depois me estendeu a mão gorducha – Eu sou...huh? Eu sou Sileno, o grande tutor de Dionísio, o magnífico deus do vinho, eu certamente sou!
– Oh, não, você não pode ser.
– Quem? – Blake murmurou, vindo parar ao meu lado, espada em punho.
– Sileno era um dos seguidores de meu pai, seu professor, na verdade, um companheiro fiel e bem, notório consumidor de vinho, quase sempre bêbado, tendo de ser amparado por sátiros. Diziam que ele era o mais velho, o mais sábio e o mais beberrão dos seguidores de Dionísio, vai entender. E mais, ainda reza a lenda que quando ele estava sob o efeito do álcool, adquiria conhecimentos especiais e o dom da profecia. O rei Midas estava ansioso para aprender com ele, e o aprisionou, vai ver que é por isso que ele alucina com Midas – dei de ombros, apontando para a estátua que com certeza não era de Midas.
– Vocês são heróis? Estão em uma missão? – Balbuciou Sileno – Bah! Grande besteira, eu digo. O tempo dos heróis acabou quando disseram ao mundo que um só Deus os governava. Fizeram então um mundo de mártires, de chorões, de vergonha. Um mundo com muita fé em algo que não se pode provar e sem grandes lutas – Ele nos olhava feroz, como que querendo nos ver ter a coragem de contrariá-lo – Então em algumas épocas são os monstros as criaturas terríveis, em outras os deuses e também em outras a própria maldade humana e agora? Um monte de nada, certamente. Mas você menininha de Dionísio, você tem um algo mais, eu sinto.
O velho me lançou um sorriso formado de dentes tortos, apontando o dedo gordo em minha direção e lançando um tipo estranho de gargalhada sem som.
– Do que está falando? – sussurrei, mas na verdade já sabia de que se tratava.
– Loucura, você sabe, o conjunto de nossas emoções desequilibradas. Mas deixe-me dizer, ela existe, ironicamente, para nos proteger. Ela é o alerta contra os infortúnios, o depósito de nossas lamentações, a jaula de nossa raiva, o lar dos tormentos e o oculto da alma. Porque, na verdade, como qualquer outra coisa, a Loucura busca sua perpétua subsistência, sua inércia. Ela reclama por ação quando permanecemos muito tempo em estado de calmaria, incita quando estamos furiosos, ela determina quando devemos fugir ou simplesmente perder o jogo de cintura; e muito além, como um cão selvagem, ela consome o seu dono quando não é alimentada ou domada.
– Mas como eu...
– Como domá-la? – Ele riu – Você já sabe, só deve ter esquecido. Quando ridicularizamos alguém, quando batemos com fúria na mesa, quando observamos avidamente um acidente, quando rimos de uma dolorosa trapalhada alheia, quando berramos um palavrão, e, mais louvável, quando admiramos um arrepiante trabalho artístico de terror, como este – Ele apontou para a estátua de Galatéia. — Você provavelmente é atraída para as coisas mais insanas, os mistérios que rondam seu pai. Essa atração é inconsciente e puramente instintiva, como música para um filho de Apolo. O reconhecimento disso por você mesma é praticamente nulo, mas os outros acabam por notar, é sempre assim com essas coisas.
– Eu sempre soube que escondia algo – Blake concordou, me fitando sério, apenas para depois parecer completamente envergonhado — Me desculpe, não quis...
– Tudo bem – Falei entre dentes, minhas mãos se fechando em punho.
– Isso tudo é uma grande, grande loucura — O filho de Zeus balançou a cabeça.
Grande Loucura? — O velho gargalhou — Meu jovem, você ainda não viu nada!
O velho olhou em minha direção, seu olhou de lunático prendendo-se ao meu, como quem quer partilhar um segredo. Ouvi um pequeno click, apenas em minha mente e senti como se algo se quebrasse ali. Sileno estendeu as duas mãos para frente, e em senti meu corpo me abandonar e minha mente flutuar, enquanto eu era arrancada da realidade. E de repente, eu estava em um quarto branco, como aqueles de sanatório. As figuras borradas à minha frente começavam a tomar forma, enquanto eu via minha mãe e Dionísio de mãos dadas.
“Eu posso ajudá-la” Dionísio falou meio aflito “Loucura é minha especialidade, Alice, mas...”
O olhar do deus era distante milhares de anos dali. Sua expressão era de puro sofrimento, enquanto em movimentos suaves e circulares, ele afagava o rosto de minha mãe. Era demasiado estranho vê-los juntos. Eles quase pareciam um casal normal. Vivo, real e completamente presente, de uma forma que me fazia sentir confortada, de bem com o mundo pela primeira vez.
“Mas?” Mamãe incentivou.
“A feiticeira libertou o espírito de Loucura para que perturbasse vocês, descendente de Jasão. Isso quer dizer que ela não vai parar, meu amor”
“Dionísio, o que isso quer dizer?”
O silêncio perdurou por alguns instantes, tudo que se ouvia eram respirações aceleradas. Os olhos verdes de Dionísio se prenderam aos de minha mãe, e houve um estranho consentimento ali.
“Eu posso tirá-la de você, mas ela irá achar outra pessoa para importunar”
Os olhos de mamãe abriram-se em choque.
“Sury? Não, ela é a única coisa que me restou, eu não posso condená-la a isso! Jamais Dionísio! Prefiro que as coisas fiquem como estão”
“Mas Alice, isso vai piorar... Muito. Loucura irá levá-la a condições extremas, você não faz idéia”
“Mas isso irá poupá-la, não irá?”
“Irá” disse ele, meio inseguro.
Vi uma lágrima escorrer dos olhos de minha mãe, e com u último suspiro, ela soou decidida.
“Pois que assim seja, então. Loucura irá morrer comigo”
A imagem se desfez, enquanto uma estridente gargalhada se fazia ouvir e eu recobrava os sentidos aos poucos.
“Eu deixei sua mãe sorry, deixei-a par vir procurar você.” Ouvi Loucura gritar em minha mente. “Bem, primeiro porque ela está morta. Segundo, grandes planos estão reservados para você”
– Ah deuses, Sury! Vamos lá. Acorde! Volte aqui velho maldito!
Blake me sacudia levemente pelos ombros, enquanto eu tentava me adaptar novamente ao ambiente e processar o que tinha visto e ouvido. Mas era bizarro de mais, estranho demais.
–Bla..Blake, o que?
Sentia o ácido de vinho preenchendo cada centímetro de meu corpo, minha cabeça pulsava dolorida.
– Blake, onde está? Onde está Sileno? Eu preciso... Preciso saber como...
–Shh... Se acalma garota do vinho, ele se foi, mas você está bem. Eu fiquei tão preocupado.
As feições bonitas de Blake denotavam claro alívio. Tentei ficar em pé, apenas para constatar que isso ainda tratava-se de uma missão impossível.
– Que dupla carismática – Uma voz fria soou.
Completamente consciente da proximidade com Blake, não notei que havia mais alguém na sala.
Fisicamente não era alta nem baixa, nem tinha um rosto exatamente bonito, a aparência desleixada dava a ela um ar de arruaceira, mas era dotada de uma autenticidade que irradiava uma segurança notável, e, bem no fundo, uma aparência que dispensava adornos. Era atemporal, distante. Inumana. Por fim, restava apenas um brilho perverso nos olhos azuis e um chicote nas mãos.
A mulher seguia em frente com passadas longas e fluidas, uma certeza perturbadora no olhar. Os cabelos eram de uma cor estranha, algo próximo a ruivo, caindo em ondas até o meio das costas. Alienígena, pensei. A mulher parecia mais uma espécie de alienígena que vê a paisagem das idéias e experiências humanas de modo diferente. E aqueles olhos perturbadores, ardendo com uma rígida determinação enquanto ela continuava a se mover com precisão enérgica, desviando com agilidade dos obstáculos no caminho. Algo me fazia acreditar que a mente dela funcionava em outro plano, como se ela fosse superior demais, do tipo de pessoa que não percebe a existência de mais ninguém no mundo.
– Nêmesis – Blake tremeu.
Oh-oh. Aquilo definitivamente não era bom.
– Sim Blake você tem problemas – Disse a deusa – Sim, você é a prova viva de que fracasso existe. Os anos se decorreram desde que a humanidade evoluiu e isso aparentemente não afetou você, continua em alguma época primitiva, continua estagnado em um tempo qualquer já esquecido. Por que não me ouviu, Blake? Por insiste em cometer os mesmos erros dos antigos heróis?
A deusa se aproximou, tocando o rosto de Blake com a ponta dos dedos.
– Que belo egoísta você é. Ah, ah se eu pudesse controlar você fisicamente. Sabe o que eu acho? Mesmo que possuindo a melhor espada, ou melhor, ainda que possuísse a melhor arma de todas, não faria nada, pois te falta coragem e lealdade a quem deve a vida. Aí então você pensa: Não vale a pena lutar em uma batalha que não é só minha, é certo que vou perder. Eu digo vá e enfrente a vida, seu egocêntrico maldito! Você sempre foge de tudo, como o covarde que é! A covardia sempre fala mais alto. Ah, quem dera eu pudesse mandar um pouco de coragem para você, talvez isso funcionasse. Eu sei o que sentiu quando descobriu a verdade sobre seu pai, você sentiu raiva dele, frio e vazio como sempre, prefere odiá-lo a tentar entender. E agora você pensa que pode dar voz aos seus pensamentos sombrios e sem sentido que sempre escondeu, isto, é claro, se não fugir dos problemas que estão por vir, se isolar de novo e ficar pensando ‘nossa, todo mundo me odeia, sou infeliz’.
A deusa gargalhou, fazendo uma péssima imitação da voz de Blake. O filho de Zeus cerrou os punhos, olhando raivoso para a deusa. Só tarde demais percebi suas intenções.
– Blake! Não!
O filho de Zeus sacou sua espada, mas a deusa foi mais rápida. Com um leve movimento de suas mãos, ela o empurrou, fazendo-o bater a cabeça em um amontoado de pedras. Meu coração se acelerou. Quando pelas mãos de Nêmesis a maldição for repetida.
– Eu não vim lutar, filho de Zeus. Só vim tomar o que é meu. Lembre-se, meu jovem, todo aquele que se eleva acima de sua condição, tanto no bem quanto no mal, tende a subverter a ordem e a sofrer represália dos deuses e merece ser castigado se pretende que o universo se mantenha como é.
De olhos fechados, Blake murmurava coisas sem sentido, as mãos tremendo. A deusa desaparecendo, olhando friamente para mim antes de brilhar e sumir. Corri até Blake, levantando sua cabeça e apoiando-a na minha perna.
– Blake, você está bem?
Eu temia já saber a resposta, mas no fundo desejava que estivesse errada. Assim que o garoto abriu os olhos, notei que um fraco brilho os encobria, e a expressão em seu rosto se tornou de puro horror.
– Estou cego Sury! Eu não posso ver! Nêmesis levou minha visão como sacrifício!
E com essas palavras, mais ou menos todo o Hades veio à tona.
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